terça-feira, 19 de novembro de 2013

O atelier de Florival Santos


(Para os arquivos de Eduardo Cabral, que terá muito a acrescentar a esta breve crônica)

O atelier de Florival Santos

Florival Santos era seletivo quanto às visitas ao seu atelier instalado no sótão da sua casa na Rua Duque de Caxias, com jardim lateral e fachada em art’decor. Para galgar a velha escada de madeira que o levaria à oficina do pintor, o visitante haveria primeiro que tomar algumas xícaras de café com bolachinhas de goma ou mesmo um vigoroso suco de mangaba, preparados por D Concita e servidos com discreta elegância por Marlene, sua filha. Somente depois de muita conversa o interessado, mesmo que trouxesse o benefício de uma encomenda, poderia ser convidado para apreciar, no sótão, o árduo e meticuloso trabalho do mestre, ora descobrindo nos retratos magistralmente executados o tom ocre que concedia aos retrados uma dignidade heráldica, ora inventando novas texturas que favorecessem a luz e o agoniado movimento de velas ao vento em suas marinhas, trabalhadas com a espátula. Era um perfeccionista. Raramente presenciei Florival anunciar que alguma daquelas preciosidades estivesse pronta. Quando as vi expostas na Sociedade Semear, por ocasião das comemorações pelos seus 100 anos, matutei com meus botões: “Ah! Se Florival estivesse vivo, seria muito difícil tirá-las do atelier”.

Não sei por que cargas d’água eu e Eduardo Cabral tínhamos acesso livre ao sacrossanto altar das suas pinturas. Meninotes ainda, íamos frequentemente visitar o Mestre e sempre fomos bem recebidos. Ouvíamos muito mais do que falávamos e concordávamos sempre, sempre cuidadosos em não provocar o gênio colérico de Florival, temido até entre os seus colegas pintores. J. Ignácio, por exemplo, não gozava da sua simpatia, embora recebesse dele velados elogios. “É um ótimo pintor, mas não tem juízo” dizia ele do desbocado Ignacio, de que se conta que certa vez, ao passar por Florival na Rua João Pessoa gritara, escondido entre pilastras: “Moldureiro!”... uma desconsideração com o cuidadoso pintor que entregava os seus retratos em primorosas molduras.

Quando em 1966 o prefeito Godofredo Diniz, ao inaugurar a Galeria “Álvaro Santos”, por sugestão de Alencar Filho convidou Florival Santos para dirigi-la, ele só aceitou com a condição de eu fosse nomeado seu secretário geral, sob a alegação de que a nova galeria deveria servir muito mais aos artistas mais novos do que aos já consagrados.

Devo a ele o meu primeiro cargo público.

Amaral Cavalcante.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 24 de novembro de 2012.

3 comentários:

  1. Olá Amaral, venho parabenizar pelo lindo texto dedicado em memória do meu tio-avô, Florival Dozzia Dos Santos (Florival Santos). Sou a neta de uma irmã dele, meu pai era sobrinho dele; quando eu era pequena, a minha mãe juntamente com o meu pai (que teria hoje 80 anos), ia lá na casa do tio Florival, localizado na rua Duque de Caxias (bairro São José), para conversar com o mesmo. Eu era tão pequena que não me recordo dele presencialmente, porém o meu irmão mais velho também chegara quando pequeno, a visitá-lo conosco, e ele se recorda do Florival, da Dona Concita Ferraz e do Lorival. Hoje visitamos a prima do meu pai, a Marlene Alvarez Santos, no apartamento dela próximo ao Conservatório. A minha avó paterna (mãe de meu pai) também encontra-se enterrada no cemitério Santa Isabel, junto com o meu tio-avô Florival Santos. Eternas lembranças!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, Soraia! Somente agora li o seu recado que muito me enterneceu. Quando estiver com Marlene abrace-a por mim.

      Excluir
  2. Olá Amaral, venho parabenizar pelo lindo texto dedicado em memória do meu tio-avô, Florival Dozzia Dos Santos (Florival Santos). Sou a neta de uma irmã dele, meu pai era sobrinho dele; quando eu era pequena, a minha mãe juntamente com o meu pai (que teria hoje 80 anos), ia lá na casa do tio Florival, localizado na rua Duque de Caxias (bairro São José), para conversar com o mesmo. Eu era tão pequena que não me recordo dele presencialmente, porém o meu irmão mais velho também chegara quando pequeno, a visitá-lo conosco, e ele se recorda do Florival, da Dona Concita Ferraz e do Lorival. Hoje visitamos a prima do meu pai, a Marlene Alvarez Santos, no apartamento dela próximo ao Conservatório. A minha avó paterna (mãe de meu pai) também encontra-se enterrada no cemitério Santa Isabel, junto com o meu tio-avô Florival Santos. Eternas lembranças!

    ResponderExcluir