sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Moura: o professor de Matemática

Foto: Arquivo Pessoal

Jornal da Cidade.Net, 28/10/2013, Memória de Sergipe.

Moura: o professor de Matemática.
Por Osmário Santos.

Um menino de tamanco, carregador de feira, aprendiz de alfaiate que chega aos 82 anos como professor formado pela Universidade Federal de Sergipe e como oficial do Exército Brasileiro.

Francisco Moura nasceu em 25 de março de 1923, na cidade de Aracaju. Seus pais: Maria Patrocínio de Jesus e Francisco Moura, como pai adotivo. “Confesso que não conheci meu legítimo pai e que só mais tarde soube chamar-se Francelino”.

Seu pai adotivo era padeiro, trabalhou nas padarias Central e União e tinha a face direita enrugada, por queimadura. Por isso era conhecido pelo apelido de “Pedro Queimado”. Também foi dono de um grupo de reisado, que levou seu nome. Dele, Francisco Moura herdou a lealdade, sinceridade e o caráter. “Um homem pobre, analfabeto, mas sempre teve por mim um amor muito grande, uma dedicação, uma estima toda especial, mas culturalmente nada me passou”.

Sua mãe era lavadeira e dedicou ao filho muito carinho e amor, mas sempre esteve atenta ao comportamento do filho, castigando-o quando merecia.

Enquanto seus pais viveram, devotaram muito carinho ao filho. “Jamais pensaram um dia entregar-me a uma família rica como se fosse objeto descartável para livrar-se do pesado ônus da responsabilidade de carregarem sobre seus ombros aquela criança sem horizontes e sem futuro, a exemplo de tantos quantos, covardemente, entregam seus filhos a famílias estranhas para servi-lhes como empregados, sem liberdade e sem personalidade, em troca de um pedaço de pão”.

Dos oito aos 17 anos, Francisco fez de tudo: foi carregador de feira, aprendiz de alfaiate, pintor de paredes e outras profissões correlatas. Brigava na rua, apanhava e batia. Morava em um casebre de palha com paredes de taipa. O piso era de tijolo cru e um baú servia de guarda-roupas. Uma moringa de barro era a geladeira da casa.

Conta que na sua infância mexia com as pessoas exóticas que passavam pelas ruas. Lembra-se de Labatau, Arraia Mijona, Três C... Ingá e outras. “Eu e os meus amiguinhos ficávamos aguardando a passagem da primeira vítima. Lá vem Arraia Mijona, avisa um de nós. Com a sua aproximação todos gritavam em coro: Arraia Mijona! A resposta era imediata: É a sua mãe, fio da puta, corno, viado, marico. Desprotegida de peças íntimas, ela levantava a saia e batendo na “coisa” com a palma da mão ela acrescentava escandalosamente: Arraia tá qui, seu saca, fio de uma égua. As respeitáveis senhoras fechavam suas portas em sinal de repúdio a essa cena imoral que acabavam de ver. Todavia, ficavam gretando pela janela semiaberta o desenrolar do pecaminoso espetáculo, para cochicharem depois quando estivessem sentadas à porta logo após o jantar”.

Francisco diz que seu pai possuía dois cavalos: Brinquinho e Brinquedo e aos sábados e domingos os dois levantavam cedo e iam pegar carrego na feira. “Eu montava Brinquinho e ele Brinquedo. Tínhamos fregueses certos. Ao final da feira o velho contava o apurado e dizia alegre: agora vamos comprar o nosso alimento da semana. Com os níqueis que sobravam, ele me recompensava com a quantia de 10 tostões, o equivalente a um real nos dias atuais. Eu pagava a mensalidade de cinco tostões ao time em que jogava, os 11 Perigos, e com os outros cinco comprava rolete de cana”.

“Como os pais não podiam pagar mensalidade de uma escola particular e muito menos comprar fardamento, sempre estavam a rezar pelo filho e nos seus pedidos a Deus o principal era o da educação do menino”.

Certo dia disseram aos seus pais que havia uma escolinha na Rua Lagarto cuja proprietária era professora e ensinava em sua própria casa e por ser uma pessoa bondosa e caridosa não cobrava nada aos que não podiam pagar mensalidade. Seu nome: Esmeralda Carvalho. “Meu pai não perdeu tempo e foi correndo matricular-me. Dia seguinte, lá estava eu, com os pés enfiados em tamancos e começando a aprender as primeiras letras do alfabeto aos sete anos de idade para concluir o curso primário quatro anos depois”.

No final do ano de 1941 se inscreve para ingressar na Marinha de Guerra como aprendiz. Exigência: um ditado de 20 linhas e as quatro operações. Submetido às provas é aprovado, mandado para Recife e incorporado à Escola de Aprendizes Marinheiro.

O desejo de ingressar na Marinha vem desde os primeiros momentos da juventude, quando participou da famosa Chegança de Zé do Pão. “Pedi ao meu pai que falasse com Zé do Pão a fim de ingressar na Chegança. Fui aceito. Iniciava-se assim o meu pendor para a vida militar”.

Com três meses de aulas de natação, remo, educação física, salvamento, matemática, português, história, geografia e outras disciplinas que completavam a sua felicidade, sem falar do fardamento, que era o seu grande sonho, foi chamado ao gabinete do comandante e este em duras palavras disse-lhe que ele não iria ficar, pois no ato da inscrição na Capitania dos Portos em Aracaju já tinha mais de 18 anos e a lei exige 18 anos incompletos. “Retornei à casa paterna, triste e chorando”.

Como o governo brasileiro se viu obrigado a declarar guerra à Alemanha, no dia 22 de agosto de 1942, diante o afundamento dos navios brasileiros, dentre eles o Baependi, Aníbal Benévolo, Araquara, Itagiba e Araxá, todos na costa marítima, entre Bahia e Sergipe, no dia 12 de novembro de 1942 é incorporado ao Exército, que abriu suas portas para receber voluntários para embarcar para a Itália para lutar contra as tropas alemãs, junto com as tropas aliadas na 2ª Guerra Mundial.

Aos 19 anos de idade foi incorporado no 7º Grupo de Artilharia de Dorso (7º Gado), atual CAC, Regimento Olinda, sediado em Olinda (PE). Com o número 315, passou a pertencer à 2ª Bateria. “Com o primeiro ordenado comprei sabão em pedra, sabonete, pasta de dentes e outras coisas. O que sobrou mandei para os meus pais, eles precisavam mais que eu. Agora tinha casa, comida e roupa. Comida farta. Podia repetir o prato que quisesse”.

O local era destinado ao preparo militar para a luta nos campos de batalha da Itália, Engenho Aldeia, que era infestado de cobras, aranhas, mosquitos, bicho-de-pé, escorpiões e enorme quantidade de moscas que formam nuvens na hora do almoço. “Após exaustiva marcha a pé de 20 quilômetros, cansados e famintos, não havia outra opção senão comermos pedaços de carne grudados de moscas que caíam pela panela durante o cozimento. Afastando o inseto com a colher, a xepa descia redondo”.

Promoção

Em 1943, quando o Brasil estava em plena guerra, como Francisco Moura possuía o curso de sargento, logo foi promovido e transferido para o II/4o Regimento de Artilharia Montas (RAM), com sede principal em Itu (SP), e destacado para Alagoas, a fim de guarnecer o litoral daquele Estado contra o inimigo alemão, que desejava montar bases militares no Norte e Nordeste brasileiro, como conta Francisco Moura. “Nessa unidade fui promovido à graduação de 3º sargento. Com o término da guerra, no dia 8 de maio de 1945, recebemos ordens para retornar à sede do Regimento de Artilharia, em Itu”.

Permaneceu no Exército depois da guerra e fez todos os cursos para continuar na caserna, onde aprendeu a conviver e a respeitar a individualidade das pessoas. “Obtive todas as promoções com méritos, estudo e dedicação ao trabalho. Nunca fui punido e sempre tive comportamento excepcional e exemplar. Nos meus assentamentos constam mais de 120 elogios militares. Obtive conceito excepcional para alçar ao posto de 2º tenente. Sempre soube cultivar as boas amizades, que ainda conservo”.

Saiu do Exército quando estava como 2º tenente, no ano de 1968, indo para a reserva como 1º tenente.

Com mais de 30 anos, quando estava servindo no Rio de Janeiro, faz exame para o artigo 91, hoje supletivo, e aprovado ingressa no Colégio Pedro II, onde conclui o 2º grau. Não deixa os estudos de lado, faz vestibular e conquista aprovação no curso de Matemática da Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

Ao ser promovido ao posto de 2º tenente, quando servia no Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro, que na época era a capital do Brasil, foi transferido para 19º Circunscrição do Serviço Militar (CSM) em Aracaju.

No Exército serviu no Recife, Maceió, Itu (quatro anos), Rio de Janeiro (16 anos, onde serviu em várias unidades) e Aracaju.

Como foi classificado para Aracaju, solicita o cancelamento de matrícula por tempo indeterminado do curso que fazia na Faculdade de Niterói e como só faltava um ano para a sua conclusão, mais tarde cola grau em Matemática pela Universidade Federal de Sergipe, no ano de 1970. “O curso de Matemática estava fechado, mas como fui falar com Dom Luciano Duarte, ele reabriu o curso com dois alunos: eu e Geovani Carvalho. Somente nós dois”.

Ao passar para a reserva foi contratado para lecionar Matemática no Atheneu Sergipense, o mais destacado colégio do Estado na época. “Sem experiência alguma, a diretora, professora Rosália, entregou-me a turma do 3º científico, que sem motivo algum havia rejeitado três outros professores que, segundo eles, diziam que não sabiam ensinar. Se fosse no Exército, o problema seria de fácil solução. Mas agora a coisa é bem diferente, pensei. Ao apresentar-me à turma, senti um sorriso zombeteiro, com olhar de mofa. Ninguém abria o livro, ninguém fazia anotações, todos ficavam de braços cruzados e cochichando. Se lhes perguntavam se estavam entendendo, a reposta era dada em coro: Sim, senhor professor, todos entendemos, pode prosseguir. O senhor tem didática e sabe ensinar muito bem. Marquei o 1º teste para a semana seguinte. Aproveitamentos: numa turma de 50 alunos, só obtiveram nota acima da média cinco, apenas quatro. O restante dançou. Isso me faz lembrar o que aprendi na caserna: se numa turma de alunos todos responderem que entenderam, duas coisas estão acontecendo: o professor foi ótimo e muito eficiente e foi capaz de fazer com que todos, sem nenhuma restrição, entendessem o assunto que lhes foi transmitido. Excelente mestre. A segunda hipótese é a de que nada sabem e fingem que sabem para não demonstrar falta de conhecimento perante seus colegas. A segunda me parece mais verdadeira e foi exatamente isso que aconteceu. A partir daí, as feras ficaram mansas e dominadas. Todos pediam para amaciar mais um pouco no 2º teste. Prometi que sim, visto que as regras foram invertidas. Lembrei-me uma vez mais da minha professora D. Esmeralda, pois ela era rigorosa, porém humana”.

Em 1970, depois de aprovado em concurso público que prestou para o magistério estadual, foi nomeado professor do ensino médio. No ano seguinte, assume a direção do Colégio Estadual Atheneu Sergipense, atendendo convite do governador Paulo Barreto. “Peguei o Atheneu com 5.000 alunos, 150 professores, 100 funcionários e demais auxiliares. Permaneci na direção durante três anos, quando pedi demissão em caráter irrevogável, vez que a minha saúde já apresentava sinais de cansaço, cujas consequências eram imprevisíveis, eu temia”.

Revela que sua vida de professor e passagem pela diretoria do Atheneu marcou muito a sua vida. “Me relacionei muito com os meus alunos e professores e até hoje eu conservo essas boas amizades. No Atheneu me realizei como professor e a grande prova que hoje as pessoas não me conhecem como militar. É professor, professor”.

Além do Atheneu, Francisco Moura atuou como professor e diretor dos colégios Senador Leite Neto, 15 de Outubro e Presidente Costa e Silva. Também foi professor do Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora e lecionou física e desenho linear no curso da formação de oficiais da Polícia Militar. Exerceu o cargo de vice-diretor da Febem/SE e também o de secretário geral da Associação dos Ex- Combatentes de Sergipe, além do cargo em confiança de diretor de Recursos Humanos da Secretaria de Educação durante cinco anos, quando pediu aposentadoria proporcional, na década de 1990.

Após passar à reserva, em excursão esteve nos Estados Unidos (Miami) e depois na Europa: Espanha, Itália, onde visitou o Cemitério de Pistóia. Também visitou Áustria, Inglaterra e França. Está com viagem marcada para o Chile e Argentina para 18 de setembro.

Casou em segunda núpcias em 26 de fevereiro de 1960 na igreja Nossa Senhora Auxiliadora, com Iracy Rodrigues Figueiredo, formada pelo curso Pedagógico e mais tarde em Ciências Contábeis pela Escola de Comércio de Aracaju, falecida em 16 de janeiro de 1993. É pai do médico Alvimar Rodrigues Moura. E tem dois netos: Renato e Camila. “A minha querida nora chama-se Maria Inês D´Ávila Moura, pessoa muito boa com quem eu me relaciono muito bem e que é enfermeira e canta muito bem”.

No ano de 2002 publicou o livro “Minha Origem, Minha Vida”, um excelente relato de sua existência, uma epopeia de muita fé, amor, trabalho e foça de vontade, como disse o jornalista Bemvindo Salles de Campos Neto, em crônica publicada na Gazeta de Sergipe em 21 de agosto de 2002.

O professor Francisco Moura faleceu em 11 de outubro de 2013.

Imagem e texto reproduzidos do site: jornaldacidade.net/osmario

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 31 de outubro de 2013.

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