segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A história do pioneiro da confecção em Sergipe


Publicado originalmente no site Osmário Santos, em 03/06/2013.

Antônio Florivaldo Machado
Por Osmário Santos

A história do pioneiro da confecção em Sergipe, mostrando um desbravador e toda uma vida repleta de sacrifícios. Do momento em que iniciou no campo de trabalho como balconista, de sua passagem pelo mercado de Aracaju como proprietário de loja de tecidos, dos momentos de glória e de tristezas na confecção durante da felicidade de ser pai de 11 filhos.

Antônio Florivaldo Machado nasceu no povoado Pedras da cidade de Capela, Sergipe, em 1926, sendo filho de Francisco Ferreira Machado e Maria Rosa Machado.

O pai, um modesto agricultor, ensinou ao filho colocar a honestidade em primeiro plano na vida, além de passar exemplos de dedicação e trabalho a família.

De sua mãe, Maria Rosa, Antônio guarda recordações de uma mulher repleta de exemplos, que dedicou uma vida aos 11 filhos. Mulher muito religiosa, em casa era responsável pela economia doméstica e acompanhamento da vida escolar dos filhos.

Uma infância vivida no povoado de Pedras, com tempo para muitas brincadeiras, principalmente a de fazer boi com espiga de milho. “A gente amarrava o que sobrava da espiga com a retirada do milho, encangava e fazia um carrinho”.

Com sete anos de idade, entrou numa escola pública para aprender as primeiras letras, prosseguindo com os estudos na cidade de Capela, com a professora Aurelina, considerada a melhor professora da cidade.

Para chegar até a escola enfrentava sol e chuva, numa caminhada que consumia algumas horas. “Era um sacrifício muito grande. Os livros eu amarrava numa toalhinha e colocava nas costas”.

CURSO PRIMÁRIO

Não chegou a terminar o curso primário, deixando os estudos quando estava no terceiro ano, pela necessidade de enfrentar o trabalho desde cedo.

Trocando Capela por Aracaju, logo ao chegar conseguiu um emprego na firma Aguiar Irmãos, considerada uma das grandes lojas do comércio de Aracaju, que trabalhava com venda de tecidos. Era da família Aguiar de Riachuelo. Tinha o pai do ex-governador de Sergipe, Paulo Barreto, Sr. Simeão Aguiar e o irmão Manoel Aguiar. Eles vendiam tecido no atacado.

Antes de vim para a capital, já tinha passado por um curto período de aprendizado na loja de Agenor de Souza Barbosa, em Capela, quando aprendeu a trabalhar como balconista. A experiência como balconista, que muito lhe valeu na investida que fez no comércio de Aracaju. “Foi o meu professor onde aprendi tudo”.

Sendo bom de metro, sabendo manipular a tesoura na hora do corte, além de ter uma boa conversa de vendedor, logo mostrou que tinha competência.

Surgindo a oportunidade, aceitou o desafio de trabalhar no caixa da empresa, aprendendo nessa função a contabilidade prática, “Aprendi muito e a diferença foi grande de Capela para Aracaju”.

CANTINHO

Morando com o cunhado, Oséas Vieira Machado, um dos comerciantes que faz parte da história do mercado de Aracaju, pelo trabalho que desenvolveu ao longo de uma existência, no ramo de secos e molhados, conseguiu com ele um pequeno espaço para montar seu próprio negócio. “Era um cantinho que ele tinha lá e fazia depósito. Eu comprei uns caixões e fiz as prateleiras. Aí comecei a vender tecidos e confecções. A firma Aguiar me deu um grande crédito. Seus diretores viram minha disposição, minha capacidade e confiaram em mim. Meu capital para iniciar era de quatrocentos cruzeiros”.

O Predileto foi o nome fantasia que escolheu para identificar o estabelecimento comercial, dizendo que assim colocou ao sentir que o povo pouco ligava para o espaço físico, ganhando com seu cantinho muitas vendas de muitas lojas bem montadas dentro do mercado. Era mesmo o preferido.

Revela que o segredo prendeu-se a maneira como tratava todos os clientes, sem discriminação, mostrando com toda satisfação do mundo todos seus produtos, sem ter a preocupação se ia ou não ia efetuar a venda. Na época vendia bastante brim e tricoline, tecidos da moda.

Após um ano, sentindo que o espaço já não era suficiente para atender a demanda das vendas que estava realizando, resolveu partir a procura de outro local para sua loja. Em vista do surgimento do mercado novo, foi a procura de Plácido Almeida para adquirir uma das lojas de 4 x 5 metros. “Como ele era de Capela, a coisa ficou mais fácil para mim. Entrei com a cara e a coragem”.

Para o pagamento do ponto, o resultado de uma economia já guardada para essa finalidade. O restante foi facilitado em parcelas sem juros, por assim permitir a economia da época.

CASA MACHADO

Com a transformação, deixou O Predileto de lado, colocando o nome de Casa Machado. “Já era uma casa mesmo” (Risos).

Ano de 46, quando Antônio Machado deu um dos passos importantes da sua vida. Pela amplitude das vendas, passou a ser empregador. A transformação de vida aconteceu de imediato, permitindo trazer os pais do interior, ficando morando com eles. “Eles me ajudavam na loja. Minha mãe, dia de feira, ficava fazendo pacote e recebendo dinheiro”.

No mercado Sr. Antônio fez história por mais de 15 anos. Lembranças que até hoje povoam sua mente, de momentos em que viva de bem com a felicidade.

Vendendo muitas calças jeans, percebeu que existia um bom mercado em Sergipe, com boas perspectivas para confecção. Tendo um parente alfaiate, de nome Mário Carvalho, com a máquina de costura da mãe, iniciou no ramo de confecção, aproveitando a mão de obra do Mário para o corte das calças e o trabalho de uma costureira para complementação final do produto.

DURANT

A calça feita na casa do Sr. Antônio, pela qualidade do corte e a da costureira, chamou atenção de um representante comercial, que pediu algumas peças para apresentar a alguns comerciantes do interior do Estado de Sergipe. Um resultado que provocou uma mudança brusca em sua vida. Passou a casa comercial para a irmã e foi cuidar da indústria que foi iniciada na Avenida Coelho Campos, com seis operários, na casa de sua mãe. O nome dado foi de Confecção Durant. “Afinal, calça era tão boa, que durava muito” (risos).

Surgindo um ponto na Rua de João Pessoa, na Galeria Passarela um amplo salão, pela conquista de um mercado, não teve receio do investimento, completado com a compra de inúmeras máquinas industriais.

Assim surgiu a primeira confecção de calças em Aracaju, afirmando Antônio Machado, que foi ele o pioneiro em confecção em Sergipe. “Por aqui só tinha a Alfaiataria Irmãos Figueiredo, que só fazia ternos de forma artesanal”.

Uma das mágoas do Sr. Antônio refere-se à falta de incentivo que teve com sua indústria. “Lutei muito para conseguir alguma isenção de impostos e outros benefícios e nada. Foi uma luta muito grande para manutenção da indústria”.

Seus produtos eram vendidos além de Sergipe, para Alagoas, Pernambuco e Bahia.

Devido as grandes confecções que foram implantadas no Nordeste, com o passar dos anos, a queda de vendas dos produtos do Sr. Antônio foi acentuada, por ficar de mãos presas sem poder disputar o mercado com os grandes, principalmente por não receber nenhum benefício por parte do governo, quer seja federal, estadual ou municipal.

MUDANÇAS

Com o golpe de 64, diz que passou um período, onde não se vendia, nem recebia, o que afetou bastante as finanças da empresa. Sem suporte para resistir à época de crise e enfrentar o novo mercado de confecção, foi forçado a vender aos poucos suas máquinas tentando resistir ao máximo a sobrevivência da indústria.

Como na época das vacas gordas já tinha montado na cidade de Maruim uma unidade da indústria, no prédio onde funcionou A Fonseca, fechou a de Aracaju, passando a morar naquela cidade.

Percebendo que tinha chegado a hora de tomar uma posição, esgotadas todas as tentativas, com muita raça e fé em Deus, vende as últimas máquinas e monta uma churrascaria. “Ocupava o grande salão com mesas. Churrascaria estava na moda. Eu consegui um convênio com a Petrobrás e tudo deu certo. Nessa etapa da vida profissional, foram 12 anos”.

EMOÇÃO

Com o depoimento sendo interrompido pela emoção, com lágrima nos olhos, Sr. Antônio disse que recuperou tudo que perdeu. “Tinha que sobreviver, porque a família era grande”.

Chegando o tempo de aposentar, deixou o trabalho de lado e vive agora dedicando maior tempo a família, curtindo os netos.

Conta que o tempo em que viveu em plena felicidade, foi o que por onze anos sentia o que era pegar um filho pequeno nos braços. “Todos os anos nascia um filho. Isso durou onze anos”. (lágrimas).

Com uma experiência de vida, ainda emocionado, faz questão de dizer que, sem o princípio cristão, o homem não é nada. “Nessa época eu frequentava a Ação Católica. Que servia como freio das tentações da vida. A vida me ensinou a ter paciência e a me sustentar em Deus. Tive muitas dores de cabeça, insônia. Dormindo a base de remédios. Isso tudo valeu a pena, pois ressurgi das cinzas com a graça de Deus” (lágrimas).

Casou com Josefina Belém Machado, após um ano de namoro de muitos bilhetinhos. Casamento realizado em maio de 51. É pai de 11 filhos e diz que não foi moleza criar todos eles. Pelo estado emocional não consegue lembrar os nomes de todos eles. Pede ajuda a mulher, que depois de muito esforço, também pelo clima emotivo do depoimento, conseguiu dizer os nomes de todos eles. “Excelsa Maria Machado, Rosa Maria Machado, Maria Angélica Machado, Antônio Florivaldo Machado Filho, Miriam Belém Machado, Anselmo Belém Machado, Maria Hortência Belém Machado, Ana Lúcia Belém Machado, Margarida Belém Machado, Maria de Lourdes e Francisca Belém Machado. Hoje, 18 netos”.

Publicado em 17 de abril de 1994. Faleceu em 19 abril de 2013.

Texto e imagem reproduzidos do site: osmario.com.br

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 28 de julho de 2015.

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