quinta-feira, 12 de março de 2015

No Scoobydoo

Paulo Parron do bar e lanchonete Scooby Doo.
Foto reproduzida do blog magnopapagaio.blogspot.com.br


(Memórias de bar, com adendo de Marcelo Déda) #‎DedaPresente

No Scoobydoo

O bar de Paulo Parron, o Scoobydoo, era um exíguo balcão entre quatro paredes, banhado por uma caudalosa sarjeta ao rés da calçada, na esquina de Arauá com a Senador Rollemberg. Ele foi, ao final dos anos setenta, uma espécie de casamata da cidadania. Muitos de nós, anda meio zonzos graças ao eflúvios da revolução hippie, pouco nos importávamos com o engajamento partidário. Éramos guerreiros cochilando sobre o botim da última batalha, curtindo a vida numa naice: um cantinho e um violão, uma casa no campo, um tapa na coisa e a pelada aos domingos.

Mas as veias da cidade tratavam de intumescer. Algo havia que nos despertar! A meninada indócil começava espalhar novas palavras de ordem nas mesas malcuidadas do Scubydoo. A tomada de consciência político-partidária dessa nova geração “engajada” custou, à maluquice da minha, certa desilusão: bateu-nos a preguiçosa letargia de quem encarou o barato como militância, nos anos sessenta.
E porque não? Éramos a geração lisérgica, veteranos de grandes embates por posições milimétricas: uma camisa florida, o cabelão desgrenhado, a paz carburada num fininho decente, o amor livre como militância e, principalmente, o direito de encarar a história dos novos tempos com tesão visionária.

O Scuby era um lugar baratinho no centro de Aracaju para onde convergia a resistência intelectual da cidade, a inquietação da moçada “cabeça”. O Scooby atraia a rebeldia gregária da juventude com sandubas irresistíveis, muita zoada e um clima esfumaçado onde se misturavam o cheiro gorduroso do hambúrguer e a fragrância viciosa do Patchouli.

Arrastando alpercatas de couro cru - as desconfortáveis galinh’ovos - estávamos religiosamente lá. De cascão no pé, mas floridos e felizes e empanturrados de literatura. Jean Paul Sartre - o olho vesgo do existencialismo - nos justificava. Thiago de Melo, João Cabral, Ferreira Gulart, Torquato, Leminski, eram os poetas da vez. Os beats Kerroach, Gisnberg, Burroughs e ainda um certo Maiakosvki andavam por lá. Íamos de Bertrand Russell ao gemido underground de Jean Genet, meu ídolo de então: um poeta homossexual egresso dos esgotos parisienses a quem Sartre e a Academia Francesa homenagearam com um jantar chique e tiveram, pelo bardo e seus amantes, a prataria roubada.

Víamos Gauber Rocha suando para inventar um cinema nosso, Jean Luc Godart em closes enfadonhos discursando ideologias, os engraçados/desesperados Fellini, os complicados filmes de Buñuel, os parangolés de Oiticica, as esculturas de Lígia Clark, a desesperada luz vangouguiana de Ignácio Ventura, aqui mesmo na Rua de Laranjeiras, explodindo em esculhambação e arte.

O Scoobydoo ficava numa esquina complicada! Até a aventura acrobática de transar num Fusca, ou mesmo no supra-sumo conforto do Simca Chambord estacionado no escurinho da rua era contida pela austeridade respeitável do visinho em frente, a veneranda família Oliva, católica praticante e ainda mais, engajada nas benfazejas teorias da igreja progressista.
João Oliva, o respeitável patriarca, de vez em quando assomava à varanda perscrutando o ambiente em frente, a ver se os seus rebentos, alguns deles já engajados na secular permissividade do bar, mantinham-se comportados como requeria a moral cristã.
Era de se respeitar... mas só até determinada hora. Meia noite e tanto o bar fremia em rugidos esquisitos, alguém gritava aos berros “Faz Escuro mais eu Canto” enquanto, nos estofados dos carros, compartilhávamos o amor periclitante das conquistas casuais.
Era assim, e era bom demais.

Gosto de lembrar ali, no Scoobydoo, o enclave onde se encontraram os malandros do Parque Teófilo Dantas, os desvalidos dos cabarés e os mofinos, os revolucionários, tudo... e mais o front político dos heróicos PCB’s, o movimento estudantil, tudo num caldeirão fumegante (e bote fumaça nisso!) onde fremia uma geração capaz de alimentar o futuro.
Era o bar das escolhas, das contradições políticas e da permissividade. Cada quem com suas possibilidades ideológicas, cada um comprometido com o sonho de mudança.

Tive saudades do Sccuby outro dia, bebendo com antigos companheiros na assepsia do Bar Ferreiro, no Shopping, onde reinauguramos a fluência dos papos cooptando referencias literárias e (in) coerências políticas, identidades de vida, papos imorredouros. Sempre, com a saudade de quem reencontra a memória e descobre, nos eflúvios de dez chopes bem tirados, que nada foi em vão.

Ainda bebemos bem.

Amaral Cavalcante.

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Foto reproduzida do Facebook/Amaral Cavalcante.

Amaral,

Talvez o mais belo dos discursos messiânicos registrados nos evangelhos seja o das bem-aventuranças. Desde menino, coroinha na Igreja Matriz de Santana, na nossa Simão Dias, o Sermão da Montanha ecoa nos meus ouvidos e clareia minha alma - síntese da ética cristã autêntica, dita pelos lábios de um homem jovem de 33 anos disposto a opor a paz e o amor às armas do império e ao conservadorismo do templo. Se me coubesse incluir um item naquelas bem aventuranças eu escreveria: Bem aventurados os que são tolerantes, pois, para estes, a amizade abandonará o conforto do vernáculo e habitará os alpendres da vida!

O nosso reencontro foi plural. Plural pelas experiências distintas, pelos gostos conflitantes, pelos times rivais, pela raivas guardadas, pelas alegrias vividas, pelas divergências guerreadas e por tanta coisa mais...Mas, não há dúvida que também foi singular: redescobrimos a nossa estrada comum, revisitamos as esquinas antigas onde sonhávamos juntos e nos ensinávamos mutuamente - diferentes gerações compartilhando a vida com uma urgência desatinada e uma generosidade que não conhecia limites.

Seguimos a receita do velho Horácio (o poeta latino, não o bom e velho artilheiro do Itabaiana), nos aconselhando que quanto menos certeza tivéssemos sobre o dia de amanhã, mas firme fosse a nossa decisão de viver integralmente o dia de hoje. - "Carpe diem", dizia ele em sua famosa ode.

Protegidos pelo porto das recordações comuns, chorando nossos mortos, mas rindo da vida que eles ajudaram a fazer mais bela, decidimos abrir as páginas da velha "Folha da Praia" como velas e singrar um oceano de conversa boa, provocações marotas, ousadias filosóficas, discussões sobre estética, opiniões sobre a arte, discordâncias da política. Sem tempestades, até porque o nosso Netuno de Itabaiana tinha guardado o tridente, que brandido sobre a terra, desata terremotos e libera a violência dos mares (naquela noite ele mostrou o que a sua sovinice emocional tantas vezes nos priva: o seu capital de simpatia. Ainda que , no final, para não perder o costume... mas, isso já é outra história.)

Com as luzes do Ferreiro radicalizando o brilho de algumas cabeleiras brancas, ignoramos a sofisticação do ambiente, o bom gosto da decoração e nos transportamos para o Scubydoo, do velho Paulo Parrom. Ali, felizes e impunes, por pelo menos duas horas, celebramos a vida como arte do encontro, embora, como dizia o poetinha, "haja tantos desencontros pela vida". Além de tudo, como você registra no seu belo texto que me provocou essa resposta, bebemos bem!

Um grande abraço do amigo, admirador e conterrâneo,

Marcelo Déda.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 11 de março de 2015.

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