sexta-feira, 6 de março de 2015

As compoteiras


(Senta que lá vem crônica)

As compoteiras

Decido espanar o pó da memória nos armários da cozinha.
Rever o sorriso apatetado do biscuit,
polir a esbelta compoteira até que surja,
translúcida,
a lembrança dos doces guardados.

Cheio de trecos inúteis, o armário da cozinha era o tesouro da família. Uma peça delicada com pés de pantera e detalhes floridos, toda envidraçada. Nas portas, uma lâmina de cristal levemente bordada e ao fundo um espelho já carcomido, onde a umidade desenhava impinges.
Lá, a salvo da danação das crianças, estava em louça e quinquilharias a genealogia matriarcal da casa: uma xícara de Macau (sem asa), cumbucas de louça inglesa com algumas rachaduras, bonequinhos de alabastro namorando no jardim, um incompreensível jarro de galalite, saleiros de cristal e prata, talheres de fino lavor e belas, maravilhosas compoteiras.

A majestade delas se erguia altaneira em meio à nostalgia e a decadência da prateleira.
Sobressaiam-se, como incorruptíveis damas de honra do passado, empertigadas cortesãs de um reino carcomido.
Eram as nobres guardiãs dos doces caseiros,
eram, no final das contas,
a elegância que nos sobrava incólume.

Se houver glória em minhas “Cruzadas” infantis, que seja a de buscar naquelas compoteiras o Santo Graal das delícias.
A chave do armário, guardada numa perfumada caixa de pó compacto, fora a primeira honraria conquistada. Ficava na primeira gaveta da cômoda, no quarto matriarcal, entre antigos (e secos) frascos de perfume, num porta-jóias de bronze, tão patinado quanto fedorento.

Com a chave em mãos, aos portões da cidadela!

Honrado cavalheiro em nome do Deus das travessuras e grão-senhor do butim, eu pilhava guloso - e como!
Rodelas púrpuras de banana em calda, groselhas carmins, doces torrões de leite, bolotas de amendoim, jaca dura boiando em calda e, Deus meu, o supremo prazer do araçá batido.

Decido olhar em volta.

É uma cozinha enorme no casarão da Praça “Barão de Santa Rosa”, em Simão Dias. No centro, majestoso, um velho fogão a lenha de ferro inglês com seis bocas, encimado por uma chaminé simãodiense, um arremedo de lareira que não souberam fazer, onde se penduravam as tripas e o toucinho para defumar.
Mas fora ele um nobre e aristocrático fogão, até perder o quarto pé numa faxina desastrada. Manco, sobre plebeus tijolos, ele soube cumprir com dignidade estóica a sua danação republicana.
Don Fogão em sertanejos cuidados: da carne frita aos lombos, dos sarapatéis de carneiro ao miolo de boi e no domingo, sempre, aos camponeses cuidados com o frango de quintal dourando na panela.

Decido acendê-lo, num sábado.

Graveto e querosene, pavio velho, casca de laranja seca e abano. Chegam da feira as partes de alcatra, as mantas de porco, as quartas de carneiro. Mamãe e auxiliares cortam que as cortam em lombos, bifes, carne frita, torresmo. Cuidam de temperá-los que o vinhad’alho era a conserva de tudo, pois não havia – e nem nos faltava – geladeira lá em casa.

Era em torno do velho fogão que se cozinhava aquele amor de família e é a memória dele, movido a achas de lenha, que ainda me cozinha as delicias da alma.

Decido eternizá-lo.

Amaral Cavalcante/maio - 2007

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 2 de março de 2015.

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