quinta-feira, 16 de julho de 2015

Federico Gentile: uma lenda viva na construção em Sergipe



Publicado originalmente no JC 2011/Osmário/Memórias de Sergipe.

Federico Gentile: uma lenda viva na construção em Sergipe
Italiano que veio ao Brasil em busca de trabalho viveu no Rio de Janeiro, Salvador e se fixou em Aracaju em 1918.

Por Osmário Santos/JC (22.08/2011).

Num trabalho elaborado pela família através de Marly Gentil, com depoimentos de vários de seus integrantes e que foi possível a sua publicação para a memória de Sergipe graças ao neto, Augusto Gentil, publicamos a vida de um dos grandes nomes da vida da construção civil em nosso Estado.

Antonio Federico Gentile (conhecido como Federico Gentil) nasceu em Città di Paola, província di Consenza, região da Calábria/Itália, em 11 de fevereiro de 1888, era filho de Isodoro Miceli e Francesca Gentile.

Quando pequeno, trabalhava com o pai e os irmãos, primeiro moendo farinha no moinho da família, depois vendendo vinhos Gentile e, finalmente, construindo casas de família de até quatro andares nos arredores de San Lúcido, cidade que é vizinha de Paola.

Aos 17 anos, depois de um período difícil na Itália em que a família perdeu quase tudo nas mãos de agiotas, viajou para o Brasil no navio Rei Humberto, aportando no Rio de Janeiro em abril de 1905 em busca de trabalho.

No navio conheceu aquela que em 26 setembro de 1907 seria a sua esposa – Maria Santa Franzesi, conterrânea de San Lúcido, que viajava com as irmãs Concetta e Antonieta, também com destino ao Rio de Janeiro.

Ainda no Rio de Janeiro nasceram duas filhas: Francesca e Edite, que em 1910 acompanharam o casal de volta à Itália. Segundo Maridélia Gentile, em 1910 seus avós necessitaram voltar à Itália em virtude da mãe de Federico estar com problemas de saúde, chegando a falecer.

A tristeza do casal nessa volta à Itália não ficou por aí, pois faleceram também suas duas filhas mais velhas, tendo como causa uma epidemia que estava alastrada na Europa. Federico não estava conformado
em não vir para o Brasil.

O casal fica em San Lúcido até 1914, quando retorna ao Brasil. Nesse período, teve mais dois filhos: Emílio (1911) e Orlando (1913), que vieram em sua companhia. Estabeleceram-se em Salvador/Bahia e aí Federico e sua família permaneceram por quase cinco anos. Nasceram mais três filhos nesse intervalo de tempo: Ledina Horlinda Sílvia (10 de maio de 1916), Cícero Osvaldo Atílio (20 de dezembro de 1917) e Fredolina (em 16 de dezembro de 1918).

Finalmente, atraído por empresas estaduais e municipais, Federico Gentile chega em Aracaju, em 10 de outubro 1918, onde reside até sua morte, aos 82 anos, em 22 de julho de 1970.

Marbene Gentil fala do avô: “Vovô começou então a trabalhar como construtor licenciado pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura da 3ª Região/Bahia”.

Com coragem, honestidade e inteligência, logo se torna um nome de destaque na cidade de Aracaju, sendo convidado para construir obras importantes como praças, residências particulares, colégios, monumentos e outras.

Transformava seus clientes em amigos e os seus amigos em clientes, já que engenheiros prestigiados da cidade assinavam suas obras, como Leandro Maciel, José Steremberg e Carlos Carvalho. Eles pediam sua opinião em algumas dificuldades confiando na sua sabedoria e experiência.

Com Federico trabalhavam outros italianos importantes, amantes das artes, fazendo parceria em vários trabalhos: seu grande amigo, conhecido construtor, escultor e desenhista Alfano Rafaelle e o elegante e habilidoso pintor Gatti Oresti, que subia nos andaimes de terno branco, pintando tetos e painéis, acabando seus trabalhos sem que uma gota de tinta sequer lhe caísse nas vestes, sendo esse fato conhecido no meio artístico de Aracaju.

Em Aracaju, a família foi enriquecida com mais dois filhos: Herculino Sílvio (4 de janeiro de 1920) e Alfredo (6 de junho de 1921). Foi consolidando aos poucos como uma das famílias mais conceituadas da cidade.

Artista de berço e tradição, Federico Gentile trabalhou na profissão de construtor embelezando com seu gosto arquitetônico apurado as ruas de Aracaju, levantando aqui e acolá obras importantes na capital e no interior do Estado, superando com o trabalho árduo a tristeza e a saudade da sua terra natal, dos amigos e familiares que lá deixara.

Marly Gentile lembra: “A casa do meu avô era ponto de reunião de políticos, engenheiros, militares e patrícios, que não dispensavam aos domingos saborearem as iguarias italianas como as pastas caseiras, conservas, licores e doces feitos por Dona Santa. Nessas reuniões, dois dos que seriam governadores de Sergipe costumavam estar presentes: Dr. Leandro Maciel e o militar Augusto Maynard, além do amigo imigrante Alfano Rafaelle, Dr. Carlos de Carvalho, o comerciante Camilo Calazans e outros”.

Federico Gentil morou durante muito tempo em uma casa na praça Fausto Cardoso e o neto Augusto Gentil tem boas lembranças: “Essa casa da praça ainda vive nas recordações de todos os netos, pois era um verdadeiro paraíso para as nossas fantasias infantis. Era uma casa farta, com doces secando ao sol, licores sendo filtrados, açúcar sendo refinado no quintal, massa de macarrão secando sobre um lençol alvíssimo, potes de geleia de goiaba que vovó escondia para vovô. Polentas suculentas, presuntos defumados pendurados na dispensa, pickles (conservas) em vidros enormes, um fogão a lenha no quintal que só vivia acesso. Tinha ainda um gato preto, um papagaio, galinhas chocando e ninhada de pintinhos. Um jardim de flores, principalmente cravos, saudades e sorrisos que vovô cultivava. Havia também uma figueira cujos frutos só podiam ser colhidos por vovô e uma goiabeira de goiabas vermelhas deliciosas, fácil de ser escalada, onde os netos aprontavam muitas travessuras”.

“Nessa casa lembramos bem de vovô trabalhando no seu barracão (depósito), já naquela época reciclando material de construção, quando com paciência desentortava pregos, passava-os em óleo e guardava para serem outra vez utilizados. E o porão? Quem esqueceu o medo e ao mesmo tempo a excitação de lá entrar e se deparar com animais peçonhentos ou outros piores, frutos da imaginação infantil? Aquele lugar era a prova de coragem pela qual tinham que passar todos os netos Gentile”.
Seus primeiros trabalhos em Aracaju foram as restaurações das estátuas do Palácio Olímpio Campos e da residência do Sr. Adolfo Rollemberg, um grande amigo que muito o apoiava na sua profissão. O referido prédio, atualmente tombado pelo Patrimônio Histórico, é uma marca importante na arquitetura de Aracaju, que recebeu grande influência da arte italiana com a sua contribuição como construtor, a contribuição de Rafaelle Alfano como escultor e desenhista e de Oresti Gatti como pintor.

Trabalhador incansável, Federico Gentile era figura destacada e participava da sociedade sergipana, membro respeitado da loja Maçônica Capitular Cotinguiba, iniciado em 27 de julho de 1929. Várias publicações da época citavam-no, a exemplo da “História Política de Sergipe”, de Ariosvaldo Figueiredo, “O Tenentismo em Sergipe”, de José Ibarê Costa, e outras. Federico recebeu da Câmara Municipal de Aracaju o título de Cidadão Aracajuano.

Em 1988, 18 anos após sua morte, ainda recebeu uma homenagem póstuma da Diretoria Estadual da Liga de Amadores Brasileiros Rádio e Emissão (Labre), com uma placa de bronze fixada à frente da instituição pelos relevantes serviços ali prestados.

Na Revolta dos Tenentes do 28º Batalhão de Caçadores, em 1924, liderada em Sergipe pelo tenente Augusto Maynard Gomes, de quem era amigo, construiu a ponte do Banho Morno em São Cristóvão, local estratégico para a passagem das tropas. Com a vitória dos legalistas do governo, os participantes da Junta Governista foram presos e com eles todos os simpatizantes do movimento.

Federico Gentile, acusado injustamente de ter minado o aterro do Banho Morno, esteve preso junto a diversas personalidades da época, como o Dr. Zaqueu de Freitas Brandão, brilhante advogado, o general reformado José Calazans, os capitães-tenentes Soledade e Albuquerque, respectivamente da Capitania dos Portos de Sergipe e da Escola de Aprendizes de Marinheiro, Hormindo Menezes, proprietário da Farmácia Universal, o diretor proprietário do jornal Correio de Aracaju, o advogado Edson Ribeiro, Tomás Muti, chefe das oficinas da Estrada de Ferro, o oficial do Batalhão Policial, ten-cel Caetano José da Silva, o tenente Stanley Silveira e muitos outros.

Muitos reveses passaram naquele ano, com séria repercussão na saúde de sua esposa, e foi necessário enviá-la ao Rio de Janeiro para sua recuperação. Mas à custa dos bons amigos e com muito trabalho e suor, foi mais um capítulo vencido, demonstrando competência, decência, honestidade e fibra.

Diversas construções foram executadas sob a sua orientação e destacamos algumas: em Aracaju temos a restauração da residência de Adolfo Rollemberg, na Av. Ivo do Prado – tombada pelo Patrimônio Histórico, o palacete de Nicola Mandarino, atualmente sede da Arquidiocese de Aracaju, a residência do Sr. Paulo Vieira, que posteriormente abrigou o Samu e hoje é a Escola Professor Valnir Chagas, o Jardim de Infância Augusto Maynard Gomes, construído em 1931, o palacete do Dr. Pereira Lobo, governador do Estado na época, e a reforma da Penitenciária do Estado no governo do Dr. Eronildes de Carvalho, projeto inspirado nas linhas arquitetônicas do castelo de S. Giorgio, situado na região napolitana de Salermo, onde nasceu Rafaelle Alfano, que participou da obra. Também os coretos da praça Fausto Cardoso, em frente ao palácio do governo, construídos com óleo de baleia, gesso e piaçava, o palacete do Dr. Francisco Fonseca, no primeiro trecho da rua Estância, o Palácio de Veraneio, do governo, na Atalaia, o Banco do Brasil na Av. Rio Branco (demolido), a residência do Dr. Carlos Firpo, na rua de Campos, um pavilhão no Instituto de Química, um pavilhão no Orfanato Dom Bosco, reforma da Catedral Metropolitana, calçamento da praça Camerino até a Av. Barão de Maruim com os respectivos aterros, passeios e trottoir, construção do anexo do palácio do governo, estátuas e balaustradas confeccionadas na fábrica de ladrilhos e colocadas em muitas obras da cidade e o calçamento da colina de Santo Antônio.

No interior de Sergipe, destacamos o Cristo Redentor na cidade de São Cristóvão, um dos cartões de visita da primeira capital do Estado, a ponte do Banho Morno e o grupo escolar, diversas obras nas cidade de Boquim, Lagarto, Estância, Rosário do Catete, Propriá, Simão Dias, Riachuelo, Capela e Campo do Brito.

Durante a II Guerra Mundial, após o torpedeamento de alguns navios brasileiros nas costas de Sergipe por submarinos alemães, alguns italianos não naturalizados foram detidos, já que a Itália era aliada da Alemanha e acreditavam-se que os italianos daqui haviam passado informações via radioamador para os alemães.

Com Federico Gentile, foi detido outro italiano, seu amigo, Nicola Mandarino, que era radioamador. Esse amigo teve sua casa depredada, saqueada por turbas enfurecidas, sendo até o piano da família jogado da sacada. Um outro italiano radicado em Aracaju no ramo de hotelaria, Augusto Marozzi, proprietário do Hotel Marozzi, na rua João Pessoa, só não teve sua casa também saqueada porque estava com a bandeira nacional hasteada.

Revela Maridéia Gentile: “Nosso avô, por precaução, juntamente com sua esposa, foi retirado pelos filhos para a casa de sua filha Ledina Gentil Guedes e fatos importantes aconteceram nesse dia. Os filhos, com receio de que as pessoas achassem que nosso avô era inimigo, esconderam a bandeira da Itália e o retrato do Rei Victorio Emanuel e desmancharam as bananas de dinamite que Federico guardava no porão de sua casa para uso em construção. Após essa tarde tão agitada para os Gentile, Federico recebeu, à noite, ordem de prisão, já em casa de sua filha e passou 17 dias detido, solto após inquérito quando disse que já se sentia também brasileiro com seus filhos e jamais iria atentar contra a pátria que tão calorosamente o acolheu.

Em 9 de setembro de 1957, o casal Federico e Maria Santa teve a felicidade de completar 50 anos de casados e ofereceu uma grande festa, onde foram prestigiados pelo então governador do Estado e uma parcela representativa da alta sociedade sergipana.

Em 14 de setembro, depois de 53 anos de casados, Antonio Federico Gentile perdeu sua amiga e companheira de todas as horas, que muito o ajudou na educação da sua prole. Mulher forte e trabalhadora, Dona Santa Gentile, como era conhecida, trazia no sangue a fibra, a lealdade e a honradez da verdadeira mulher italiana, sempre auxiliando os necessitados que batiam a sua porta.

Em 18 de abril de 1964, aos 76 anos, contraiu núpcias pela segunda vez com Jair Dantas de Brito, uma brasileira de 60 anos.

O Estado de Sergipe muito deve a Federico Gentile, especialmente a cidade de Aracaju. O seu passado de beleza quando a cidade era considerada a “Sultana das Águas, teve seus primórdios no governo de Pereira Lobo, que trouxe para Aracaju a Missão Italiana com Federico Gentile, Oreste Gatti, Belando Belandi, Nicola Mandarino, Rafaele Alfano, Augusto Marozzi , Mário Noxentte, Tomás Mutti e muitos outros.

Hoje o clã dos Gentile iniciado no Brasil com Antonio Federico e Maria Santa Franzesi Gentile está espalhado em vários pontos do país e até no exterior. Atualmente são 215 membros, muitos deles com o gosto apurado para o belo como ele, se destacando não só na área da construção. Mas como doutores na ciência, nas leis, na tecnologia e na vida.

Texto e imagem reproduzidos do site: jornaldacidade.net

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 13 de julho de 2015.

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