segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Para Lilian, imaginação é a palavra de ordem



Publicado em empautaufs, em 25/11/2009.

Para Lilian, imaginação é a palavra de ordem.
Por Morgana Brota/EmpautaUFS

Seus livros e roteiros atraem jovens e adultos, mas são especialmente as crianças que mais se encantam com os seus trabalhos. São roupas que falam, pratos da mesa que conversam e tempos verbais que ganham vida. Dessa forma, Lilian como professora, roteirista e escritora consegue transmitir para os seus leitores e telespectadores sua paixão pela Língua Portuguesa.

Natural de Aracaju-SE, Lilian Rocha é pedagoga, radialista e autora de vários projetos educativos, peças teatrais, roteiros para a TV e a quarta dos seis filhos de Maria Noemi Gomes e do escritor Petrônio Gomes, de quem herdou a paixão por escrever.

Teve sua estréia na literatura em 2004 com o livro infanto-juvenil “Deu a louca no meu Guarda-roupa”, obra que lhe rendeu o prêmio Banese de Literatura e que em 2007 tomou vida nos palcos, sendo adaptada ao teatro. Desde então ela não parou mais, em 2006 publicou “O bilhete”, livro que conta suas experiências em sala de aula, em 2007 publicou “O chá das oito”, seu segundo livro infanto-juvenil que em 2007 também ganhou uma versão para teatro e em 2008 lançou o seu primeiro livro da coleção Língua Solta, o “Rasgando o Verbo”.

Mãe de cinco filhos, Lilian Rocha, 51 anos, esbanja simpatia e bom humor. Trabalha numa sala decorada com incontáveis lembranças dadas por pessoas que já foram seus alunos ou que simplesmente admiram seus trabalhos.

EmpautaUFS: Você sempre quis escrever um livro?

Lilian Rocha: Eu sempre gostei de escrever, mas nunca pensei em escrever um livro.

EmpautaUFS: E como surgiu a paixão por escrever?

Lilian Rocha: Na minha adolescência eu fui passar umas férias em Salvador. Eu tenho uma prima que mora lá e ela era cheia de amigos. Então ela me apresentou uma grande quantidade de gente. Eu passei um mês e meio lá e foi uma maravilha, mudou minha cabeça completamente. Eu já escrevia muito pra ela, cartas de vinte, trinta, quarenta páginas. Mas eram cartas, uma coisa muito intima, era como se fosse um diário. Naquele tempo não tinha e-mail, o telefone era caro então pra conversar tinha que ser por carta mesmo. Quando eu voltei de Salvador eu comecei a escrever pra todo mundo, porque todo mundo via a nossa correspondência e queria se corresponder também. Daí eu tinha que responder a essa montanha de gente e praticamente todo dia eu estava escrevendo carta. Eu tinha uma estante com tudo catalogado com os nomes dos meus correspondentes. Manter essas correspondências me exigia muito tempo porque as cartas eram grandes e eu não sei escrever pouco. Hoje, olhando pra trás eu vejo que foi maravilhosa essa experiência, talvez tudo que eu sei de português eu pratiquei escrevendo. Toda a minha vontade de escrever nasceu das cartas.

EmpautaUFS: Então o gosto por escrever sempre existiu?

Lilian Rocha: Sempre. Até pra terminar com namorado tinha que ser por carta. Pra mim era mais fácil, eu conseguia me expressar melhor escrevendo.

EmpautaUFS: Você gosta de ler? Quais são os seus autores favoritos?

Lilian Rocha: Eu gosto de ler tanto quanto escrever. Se você entrevistar vários escritores vai ver que cada um tem seu estilo de escrever e esse estilo de escrever foi normalmente fruto de alguma coisa que leu. O meu estilo, por exemplo, de achar que as coisas têm vida são frutos da minha imaginação e de coisas que eu li. Minha cabeça sempre foi muito fantasiosa e eu sempre alimentei muito isso. Além dos contos de fada que me estimularam muito quando criança, autores como Monteiro Lobato também me estimularam muito. Eu adoro Monteiro Lobato, eu acho que ele é o rei da imaginação. Também gosto muito de Maurício de Souza, apesar de ele não fazer livros, só revistinhas. Eu acho que ele é o grande continuador de Monteiro Lobato. E os clássicos: Amo, amo, amo de paixão Machado de Assis, eu sempre disse isso em sala de aula. A partir de um livro que eu li, Dom Casmurro, me apaixonei tremendamente por ele. Pena que ele morreu sem eu ter conhecido, eu ia ficar batendo na porta dele pra conseguir um autografo. (risos). Não são as histórias deles que são diferentes, são histórias comuns, mas ele tem uma maneira incomum de contar. Ele tem um estilo completamente diferente e um português que eu bebo. O português dele é o máximo. Gosto muito de Rubem Braga como educador. Gosto de Luís Fernando Veríssimo em termos de humor e de Fernando Sabino em termos de crônica. Eu não tenho um estilo favorito, eu adoro livro de guerra.

EmpautaUFS: Você pretende se dedicar exclusivamente ao publico infantil?

Lilian Rocha: Não, porque na verdade, eu não tenho um estilo definido de literatura. O primeiro livro nasceu infantil por circunstância, por causa do prêmio Banese. Havia 3 categorias: contos, poemas e literatura infanto-juvenil. Por falta de contos e por não saber escrever poemas, resolvi me inscrever nessa última categoria. Por sorte minha, as crianças gostaram da minha história e eu resolvi fazer mais um nessa linha, ‘O Chá das Oito’. Mas já escrevi outras coisas que não são infantis, como ‘O Bilhete’ e o mais recente, ‘Antes da Escuridão’. Portanto, não tenho um estilo definido, simplesmente gosto de escrever e acredito que meus livros podem ser lidos por qualquer pessoa.

EmpautaUFS: Como surgiu a idéia de escrever o livro “Antes da escuridão”?

Lilian Rocha: Esse livro não nasceu da ideia de escrevê-lo. Tinha voltado do oftalmologista, com notícias nada animadoras e estava muito, muito triste. Quando estou assim, tenho que escrever pra ‘gastar’ minha tristeza. Fui colocando pra fora o que estava sentindo e percebi que, no final, eu já estava bem mais calma. Eu tinha conseguido até fazer graça com minhas desgraças! Isso me animou e eu resolvi fazer uma retrospectiva, em forma de diário, pra contar a ’trajetória de luta’ do meu olho esquerdo, o grande personagem dessa história e a quem eu dedico esse livro.

EmpautaUFS: Como você divulga seu trabalho? Há dificuldades? Quais são os incentivos?

Lilian Rocha: Essa talvez seja a maior dificuldade de um escritor. Como não tenho uma editora, fica comigo também essa parte de divulgação e distribuição. Coloco meus livros debaixo do braço e vou pessoalmente visitando as escolas. Isso requer tempo, mas vale a pena, pois a receptividade que encontro nas escolas é muito grande.

Nos últimos tempos, também tenho contado com a ajuda valiosa de amigos jornalistas que têm divulgado bastante o meu trabalho. A eles, serei sempre grata.

EmpautaUFS: Quando começa a escrever você sabe mais ou menos qual vai ser o começo, meio e fim ou tudo vai surgindo ao longo da escrita?

Lilian Rocha: Quando escrevo, só tenho um comecinho da história e mais nada. Mas à medida que vou escrevendo, a história vai fluindo naturalmente, como se estivesse pronta e acabada dentro de mim. Muitas vezes, enquanto estou escrevendo, fico rindo sozinha dos meus próprios personagens, como se eles tivessem vida própria, é muito interessante. Por isso que o ato de escrever é um ato solitário. Precisamos estar sozinhos, para ouvir-lhes a voz, ouvir o que eles têm pra nos dizer. Por isso, jamais me sinto só, pois há vários personagens morando dentro de mim.

EmpautaUFS: Quando costuma escrever?

Lilian Rocha: Quando ligo o computador. Como isso acontece todos os dias, então eu escrevo todos os dias. Escrevo quando estou feliz, triste, preocupada, ansiosa, confusa… Escrever, pra mim, é a minha terapia, o meu trabalho e o meu lazer. Tenho necessidade de escrever, tanto quanto tenho de comer ou de dormir. Por isso, sempre encontro uma brechinha dentro da minha falta de tempo.

EmpautaUFS: Já existe um novo projeto?

Lilian Rocha: Sim, estou sempre cheia de projetos. Já estou com outro livro pronto, “A conquista da Oração”, que vai ser lançado no comecinho de dezembro. É o segundo volume da minha coleção paradidática de português, chamada ‘Língua Solta’, mais um projeto contemplado pelo BNB de Cultura.
Já tenho pronto também o terceiro volume dessa coleção que pretendo lançar no próximo ano, mais dois infantis começados e até os primeiros esboços de um futuro romance, quem sabe?

EmpautaUFS: Dos livros que escreveu qual é o favorito?

Lilian Rocha: Eu não saberia dizer. Livros são como filhos, não há um predileto. Cada um ocupa um espaço próprio, representa um momento especial de nossa vida.
Há livros que foram mais trabalhosos, como esses paradidáticos. Muito mais que livros de ficção, eles ensinam português. E pra isso, os diálogos são mais pensados, mais elaborados. Gosto muito deles, da forma divertida que criei pra ensinar português. Mas isso não quer dizer que sejam eles os meus preferidos. Cada um deles tem um pouco de mim.

EmpautaUFS: De onde vem a inspiração para os seus livros?

Lilian Rocha: Do meu dia-a-dia. Normalmente as minhas histórias têm como pano de fundo uma família grande, cheia de irmãos e parentes. Deve ser a influência de minha própria família. Meus pais tiveram 6 filhos, meu marido vem de uma família de 6 filhos, eu e meu irmão mais velho tivemos 5 filhos, enfim, sou cercada por uma família enorme, muito unida, que me enche de orgulho. E numa família grande, tudo acontece, é muito divertido.

EmpautaUFS: Fale um pouco sobre seu programa de TV.

Lilian Rocha: Como tudo na minha vida, também nasceu por acaso. Fui convidada por Marlene Calumby, pra fazer um programa educativo, envolvendo uma repórter, um ator e eu, uma professora. Dessa estranha mistura, nasceu o ‘Palavrear’, que nada mais era do que uma nova versão de um programa que eu fazia na rádio, em 92. Eu escolhia um tema qualquer e contava a história dele, desde a sua origem até os dias de hoje. Na TV, enquanto eu contava a história, o grande e saudoso ator César Macieira, ia representando os personagens, o que tornava o programa muito mais leve e divertido, sem perder, contudo, a característica de cultural.

EmpautaUFS: Como você define a experiência que teve em sala de aula?

Lilian Rocha: Sala de aula foi um laboratório. Eu comecei com escolas primárias e quando eu me formei, fiz o concurso do estado e passei. Como eu não tinha o curso pedagógico eu fui trabalhar na Escola Normal, ou seja, minha formação como pedagoga só me permitia ensinar as futuras professoras. Então eu pulei do primário para o que hoje seria o Ensino Médio. Apesar de eu gostar de crianças a experiência na escola normal foi ótima. Depois disso eu fui pro Atheneu trabalhar com o Ensino Fundamental II. Quando eu estava na Escola Normal eu criei amizade com Marlene, alguém que me incentivou muito e quando ela foi convidada a ser diretora do Atheneu me convidou para dar aulas de português. Minha paixão era dar aulas de português, mas eu não tinha formação em português. Eu sou formada em pedagogia. Então eu estudava para dar aula e fui criando uma intimidade muito grande com Análise Sintática.

EmpautaUFS: Conte um pouco sobre a sua experiência na rádio Aperipê.

Lilian Rocha: Marlene foi convidada para ser superintendente da Aperipê e me convidou para trabalhar lá também. Era um trabalho totalmente diferente, lá eu passei 4 anos e eu também comecei sem saber nada de rádio. Ela me entregou o setor de produção educativa. Então transformamos a rádio Aperipê numa rádio educativa, como deveria ser. Eu comecei a inventar um bocado de programas. Já existiam programas na rádio, mas eram só de músicas. Os locutores ficavam falando, mandando abraço… (risos) Então eu comecei a colocar informação, cultura, dicas de saúde e um monte de coisa. Depois criei meu próprio programa. O tempo que eu passei lá foi profissionalmente excelente, desenvolveu muito minha criatividade. O rádio assim como a sala de aula também foi pra mim um grande laboratório. Mas na sala de aula acontece uma coisa interessante, na rádio a gente faz o programa, mas nunca pode medir a quantidade de pessoas que estão ouvindo, na sala de aula o público é presente. O resultado é imediato então tudo que você ensina percebe na hora se eles aprendem, a sintonia é imediata. Na rádio você acha que as pessoas estão ouvindo, mas não tem certeza de nada. Mesmo o IBOPE não tem como medir, o que ele oferece é uma amostragem o real não consegue.

Fotos: Morgana Brota.


Texto e imagens reproduzidos do blog: empautaufs.wordpress.com

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, em 23 de agosto de 2013.

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