quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A Telefonia Fixa em Sergipe



Memorial de Sergipe/UNIT, 19 de abril de 2013.

A Telefonia Fixa em Sergipe.
Por Francisco Víctor Santos de Araujo*

No início do século XX Aracaju já era a capital política, depois da construção de estradas de rodagem e o seu asfaltamento é que a mesma passou a ser o centro econômico do Estado.

Havia em Laranjeiras ricos negociantes de açúcar e algodão, destacando-se entre eles a figura do senhor Magalhães que representava firmas importadoras do Rio de Janeiro, e em suas viagens conheceu o telefone e o seu uso, adquirindo mais tarde uma pequena Estação Telefônica que se instalou na cidade de Laranjeiras, ligando casas comerciais com os trapiches de açúcar e de algodão, beneficiando também as residências.

Durante o Governo do General Siqueira de Menezes é dada a concessão ao senhor Zacarias de Souza Silveira para instalar uma rede telefônica ligando Laranjeiras com Aracaju e cidades vizinhas, se estendendo para o meio rural. Souza Silveira criou a Companhia telefônica e instalou primeiro dentro da Usina Bismarck, de propriedade de Otto Junklauss, imigrante alemão, depois para os engenhos Pinheiro, Gentirana, Palmeira, Ribeira, Usina Central e muitos outros, nos municípios de Laranjeiras e Riachuelo, estendendo-se depois para Aracaju.

A concessão é dada a Deoclides Paes Azevedo, que em 1919 cria a Empresa Telefônica Sergipana, instalando um Posto Telefônico Público em Laranjeiras e estendendo as linhas para as cidades de Propriá e Estância. No mesmo ano é inaugurada com a assistência do Presidente da Província, Pereira Lobo e com a benção do Bispo Dom José Thomaz a Empresa Elétrica em Laranjeiras, do empresário Dr. Alberto Munck.

Instalar um telefone no início do século XX até a década de 1930, não era difícil. A moeda brasileira era forte. O açúcar e o algodão eram vendidos caros. Os proprietários rurais colocavam os postes nos lugares cabendo a Empresa Telefônica, estender os fios e ligar os telefones.

Podemos observar que apesar de Aracaju, ser a capital de Sergipe com a elevação do povoado Santo Antonio de Aracaju a cidade e capital em 17 de março de 1855, a capital sergipana é o principal centro político do Estado, mas percebemos que ela ainda não era o principal centro econômico, uma vez que a maior parte da riqueza do Estado estava na região do Vale do Cotinguiba, onde havia a concentração de grandes propriedades produtoras de açúcar e algodão. Prova disso, que influenciado por estas riquezas, o telefone chegou a Sergipe na cidade Laranjeiras nas primeiras décadas do século XX, antes mesmo da luz elétrica.

Até o início da década de 1970, a telefonia em Sergipe era explorada pela empresa particular Rede Telefônica Sergipana, que logo passou a ser estatizada e a se chamar Telecomunicações de Sergipe S/A (Telergipe), tendo como presidente José Agnaldo Santos, sendo a primeira subsidiaria do Sistema Telebrás Telecomunicações Brasileiras S/A, criada em 29 de dezembro de 1972. A Telergipe em Aracaju tinha 1.575 telefones, sendo 150 particulares e 75 públicos, que tinham sido vendidos também a particulares, além dos 250 telefones de Propriá, servida por uma linha telefônica que funcionava precariamente através de um canal em SSB (rádio), por posto telefônico instalado na Rua da Frente, em Aracaju. A cidade Lagarto possuía 50 telefones, que só funcionavam dentro da cidade. Estância era servida por uma mesa PABX que não funcionava bem, tinha em torno de 50 telefones.

Com o objetivo de melhorar seus serviços, a Telergipe realizou em 1973 na Escola Técnica Federal de Sergipe, um curso para formação de uma turma de técnicos em telecomunicações, com duração de 14 meses, sendo nove em Aracaju e cinco em estágio na Embratel. Técnicos esses que viriam suprir a mão de obra da Petrobrás, Embratel e Telergipe que preencheria mais de 20 vagas aproveitando os aprovados.

A telefonia brasileira entre 1972 e 1998, foi exclusivamente estatal sob o domínio da Telebrás. Em 1997 foi aprovado a Lei Geral de Telecomunicações (LGT), permitindo o Governo Federal criar a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL). Com essa ação foi possível perceber que as estatais apresentavam sérios problemas, tanto financeiros, como também na oferta de serviços e o não acompanhamento das transformações nas telecomunicações decorrentes da falta de investimentos no setor, deu origem as privatizações dos serviços, que aconteceram de forma polêmica. Por não restringir a participação estrangeira nem determinou um limite de ações por comprador individual, o que era um monopólio estatal tinha se transformado em privado.

Ainda em 1998 o Ministério das Comunicações dividiu a Telebrás em doze companhias, sendo a maior delas a Tele Norte Leste S.A., em 1999 denominada de Telemar. A atuação desta nova companhia se deu no litoral sudeste, norte e nordeste do Brasil, assumindo o controle em 16 Estados de sua área inicial: a TELERJ, a TELEMIG, a TELEST, a TELASA, a TELPE, a TELPA, a TELERN, a TELECEARÁ, a TELEPISA, a TELAMAZON, a TELAIMA, a TELMA, a TELEAMAPÁ, a TELEPARÁ, a TELEBAHIA e a TELERGIPE. Em 2001 essas 16 empresas foram integradas, dando origem a uma única empresa. Em 2002 é criada a Oi uma empresa do grupo no ramo da telefonia móvel e em 2007 a Oi se torna uma única marca aglomerando todos os serviços.

Em Sergipe, com a chegada da Telemar em 1999, houve mudanças em toda a estrutura da já antiga Telergipe. O telefone teve seu poder de aquisição facilitado para muitos, já que quando estatal o valor pago por uma linha telefônica poderia chegar a R$ 3.000,00, os serviços foram ampliados, a quantidade de telefones públicos (orelhões) e residenciais aumentaram consideravelmente, chegando a todos os municípios sergipanos.

Atualmente o Estado de Sergipe é servido por várias companhias telefônicas como a Oi, a Tim, a Claro, a Vivo e a Gvt, uma forma que o Governo Federal encontrou para que exista uma leal concorrência e consequentemente, uma melhor oferta e melhoria nos serviços prestados a população.

As privatizações inovaram o setor das telecomunicações, facilitando a todos o acesso a telefonia, e o crescimento da economia no país. O que não seria possível sem elas. Não podemos esquecer que com elas vieram um grande número de demissões de funcionários públicos que tinham seus empregos estáveis e salários valorizados, como também, devido ao grande numero de usuários que só tende a aumentar, as companhias não conseguem atender a demanda e lideram as reclamações juntos aos órgãos de defesa do consumidor.

*Francisco Víctor Santos de Araujo é graduado em História Licenciatura Plena pela Universidade Tiradentes.

Referências: 
MENDONÇA, Jouberto Uchôa de; SILVA, Maria Lucia Marques Cruz e. Sergipe Panorâmico: Geográfico, Político, Histórico, Econômico, Cultural, Turístico e Social. 2 ed. Aracaju: Unit, 2009. 640 p.:II. pp. 279.

FRANCO, Emmanuel. Os primeiros telefones em Sergipe.

MENDONÇA, Paula./O Brasil após a privatização das telecomunicações./Guiando Telecom. Artigos. 06 de janeiro de 2010. Disponível em:
<http:/www.guiandotelecom.com.br/artigos/o-brasil-apos-a-privatizacao
dastelecomunicacoes/>. Acesso em: 04 de março de 2013.

SANTOS, Osmário./Ademar de Aragão: O Mestre das Telecomunicações em Sergipe./ Osmário Santos: Prefeitura de Aracaju. 23 de abril de 2005. Disponível em:
<http://www.usarioweb.infonet.com.br/~osmario/igc_conteudo.asp?codigo=10872&catalogo=5&inicio=24>. Acesso em: 05 de março de 2013.
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Texto reproduzido do site: ww3.unit.br/memorialdesergipe

Fotos ilustrativas: reproduzidas do Google.

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Museu de Arqueologia de Xingó (MAX).


Relatórios de História de Sergipe I. (10/04/2011).
Por Marcos Bastos.

Museu de Arqueologia de Xingó (MAX).

A aula foi uma visita virtual ao MAX (Museu de Arqueologia de Xingó), apresentado pela Coordenadora de Exposição Railda Nascimento, que nos levou a conhecer a estrutura física do museu e suas alas. Já por essa primeira apresentação podemos ver que o Museu é extremamente didático, moderno e de fácil acessibilidade ao público portador de deficiência física.

O Museu existe há sete anos, mas sua história se iniciou com a construção da Barragem de Xingó em 1988, onde se iniciou o salvamento arqueológico e depois comprovou-se como sendo verdadeiros de até 9000 anos antes do presente. A sua construção estimulou o turismo na região do baixo São Francisco. O Museu tem por objetivo mostrar que já existiam índios nessa região muito antes da chegada dos portugueses.

Diversos setores apresentam didaticamente como esses índios da pré-história viviam na região de Xingó.

O primeiro setor apresentado é o setor das escavações, ele mostra que as escavações são feitas em camadas e que em cada camada há uma distinção dos artefatos encontrados, pois quanto mais profundas as escavações mais antigos são os artefatos, além de mostrar as ferramentas usadas por arqueólogos nas escavações.
Já o segundo setor tem por objetivo mostrar as rotas de chegada à América, para isso faz utilização de um mapa eletrônico que detalha as migrações que aconteceram tanto pelo litoral quanto pelo interior da região. O mapa também aponta onde estão localizados os sítios arqueológicos mais antigos da América dando destaque ao sítio Justino que é o principal da região de Xingó. O sítio Justino é considerado um sítio de terraço, já que se localiza na beira do rio, já nos platôs e nas montanhas são encontrados os sítios de registros gráficos onde até hoje são descobertas novas pinturas e gravuras rupestres.

Depois fomos apresentados ao setor de pinturas e gravuras rupestres. Uma característica deste setor, presente no Museu, é a interação da pré-história com o meio externo, mostrando a atual região de Xingó. O mineral usado para pintura é o Óxido de ferro, chamado também de Ocre, que é de cor avermelhada. O Museu mostra a ilustração de um índio pintando uma rocha e também mostra os materiais que ele utilizava. É importante observar que os desenhos tentam representar o seu cotidiano, mas nem todas as gravuras conseguem ser compreendidas. Também foram apresentados exemplares de fragmentos de um sítio de registro gráfico. Eles tiveram que ser retirados, pois esse sítio foi o único inundado. O método usado para gravar nas pedras, era o copicotiamento, ou seja, eles utilizavam uma pedra menor para gravar numa pedra maior. As gravuras podem ser consideradas uma forma de linguagem da pré-história.

Agora vemos ferramentas líticas que são objetos de pedra confeccionados por índios pré-históricos, o granito era uma das pedras mais utilizadas para construção desses artefatos.

Nesse outro setor apresenta artefatos cerâmicos, muito diversificados quanto à forma e tamanho. Percebemos a capacidade de esses índios criarem instrumentos para o seu cotidiano, como por exemplo as vasilhas de barro diversas, cachimbos artesanais, onde mostra que esses índios já cultivavam vegetais usados para o fumo. Um detalhe curioso do Museu é de que os vasos datam 5000 anos, podendo ser as cerâmicas mais antigas do Nordeste. Provavelmente a cerâmica que os índios utilizavam estava associada à atividade agrícola inicial, possibilitando uma melhor qualidade de viva, já que eles cozinhavam os alimentos e consequentemente diminuíam o desgaste dos dentes e uma série de outros fatores em benefício deles. Uma curiosidade é de que eles decoravam esses recipientes.

O próximo setor, que nos mostra o princípio de habitação humana e variação de alimentos. É ilustrado de maneira clara e objetiva por uma maquete, mostrando a vida desses índios, que viviam as margens do Rio São Francisco. A base da alimentação dos índios era peixe, mas quando o rio sofria de grandes cheias ou secas eles eram obrigados a irem aos platôs e as montanhas para caçar, e deixavam espalhadas suas pinturas e gravuras. Caçavam animais de porte médio, do tamanho aproximado de capivaras ou veados, mas se alimentavam de pequenos animais também.

No setor da morte conhecemos que os índios pré-históricos possuíam rituais de enterro, que faziam parte de sua cultura. Era uma prática comum entre eles serem enterrados com seus objetos pessoais. Esses objetos podiam ser no caso das mulheres, colares, prendedores de cabelos e no caso dos homens, objetos de caça e cerâmica. Também há indícios de que eles possuíam organização social e preocupação com a vida após a morte. Isto mostra que o homem de 5000 A.P. não era inteiramente bruto.

Há ainda o setor de exposição especial, com a intenção de criar uma relação entre o presente e o passado. A exposição que está atualmente em cartaz trata da hidroferrovia de Piranhas e sua importância para o baixo e médio São Francisco. Piranhas hoje é tombada pelo IPHAN, sendo muito importante para o auto-reconhecimento sócio-cultural dessa região. Os visitantes têm a oportunidade de ver uma maquete mostrando como era Piranhas do inicio do século XX. A cidade foi visitada por D. Pedro II e ao visitar a região, como não conseguiu chegar de barco devido às corredeiras de Paulo Afonso ele então baixa um decreto criado a ferrovia Paulo Afonso, que ligava as cidades de Piranhas ao médio sertão pernambucano. A ferrovia foi desativada nos anos 60 do século XX, ainda assim ficou sua importância sócio-cultural para a região de Xingó.

Podemos concluir a importância do Museu no conhecimento sobre a vida pré-histórica de Sergipe, mostrando a ligação do passado com o presente. Um grande facilitador nesse processo é a forma didática como são apresentados os diversos temas, que acaba facilitando em muito a absorção do conhecimento.

Texto e foto reproduzidos do blog: marcosbastoshist.blogspot

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 13 de novembro de 2013.

Fernando Sávio Brandão de Oliveira

Fernando Sávio na redação do jornal "Folha da Praia", em Aracaju.
Foto: arquivo Amaral Cavalcante.

Fernando Sávio Brandão de Oliveira

Gostava de ser chamado com todos os efes e erres, um nome de quatro costados como exigia sua imponente figura de brancuras europeias e olhar ultramarino. Quando o conheci, na década de 1970, caía-lhe sobre os ombros uma viçosa cabeleira de fios negros e sedosos, largados ao desalinho para acentuar a rebeldia que imperava nele todo. Grandão, malandro de conversa fácil e boa praça, o jornalista Fernando Sávio trazia no peito uma marca inquietante: a enorme cicatriz que lhe deixara uma cirurgia coronária, riscando-lhe o tórax de cima a baixo, e que ele gozava prazer em mostrar abrindo sempre a camisa até o terceiro botão, o que o tornava mais notável entre nós.

Ficamos amigos. Quando lançamos em 1981 o alternativo Folha da Praia, Fernando era o nosso principal articulista, a novidade literária que orientou nossa empreitada por uma nova linguagem jornalística em nosso meio. O seu texto era terno, preciso, literariamente culto e perfeitamente acumpliciado com as grandes questões políticas daqueles tempos, inaugurando, naqueles idos, uma conversa exitosa com os leitores, tão sequiosos disto.

Mas a sua mais inesquecível qualidade é a elegante malandragem, a entrega absoluta aos prazeres da vida, essas coisas que nos fazem eternamente amados e saudosos porque nos mantém na lembrança das ruas, elas que, verdadeiramente, detém o poder de nos acenar com certa imortalidade. Fernando, talvez porque nunca se importasse com as consequências revolucionárias do que fazia, firma-se agora com um grande revolucionário no seu tempo.

Fernando Sávio Brandão de Oliveira era, sobretudo, um boêmio consciente da sua genialidade, um homem emocionado com a sua própria capacidade de alumbramento, um escritor completo de bem humoradas convicções, um letrado de bem com a sua escrita e um amigo bom pra caralho.

Voltarei ao assunto.

Amaral Cavalcante - novembro/2013.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 12 de novembro de 2013.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Um novo Arquivo Público no Distrito Administrativo


Um novo Arquivo Público no Distrito Administrativo

No Distrito Administrativo de Aracaju o poder público tem construído palácios nababescos com luxuosos pisos de mármore da melhor lavra, se bem que destituídos de qualquer criatividade arquitetônica e até soturnos por fora, mas perdulários por dentro. Ali se erguem monumentos às corporações, cada uma mais vaidosa do seu templo e do poder que exerceu para conseguir recursos, advindos, principalmente, do tesouro federal. Tudo bem, o poder público está certo em reunir num mesmo sítio urbano os seus equipamentos institucionais, pelo bem de uma disposição concentrada dos serviços públicos que beneficie a acessibilidade.

A ”Corporação da Cultura”, digamos assim para melhor entendimento, batalha pela construção de um novo Arquivo Público Estadual faz tempo, mas o minguado orçamento do MINC não nos permite nem falar em tal investimento. E o governo de Sergipe, a ver a atenção que vem dando, desde várias gestões, ao velho e abandonado Arquivo Público caindo pelas tabelas na Praça Fausto Cardoso, não nos anima a pretender que o minguado orçamento da Secult possa nos socorrer.

E então? Existirão organismos internacionais que abraçem a nossa causa? Como fazer com que o poder público entenda que construir um novo Arquivo Público dotado de modernas tecnologias é importante para enaltecer o nosso status civilizatório? Como fazê-lo entender a perenidade histórica dessa obra?
Resposta: unindo vozes, reivindicando, fazendo-nos ouvir por quem de direito. Os historiadores, pesquisadores, estudantes de “Humanas”, departamentos afins nas Universidades e cidadãos interessados na preservação da nossa memória, estarão cumprindo o seu papel de reivindicar?

Entra governo, sai governo, e o nosso prédio do Arquivi Público não sai! Ele seria uma convergência institucional no Distrito Administrativo de Aracaju , uma demonstração de cuidado com a memória sergipana e de civilidade para avaliação das gerações futuras.

Amaral Cavalcante.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 6 de novembro de 2013.

Homenagem de Clara Angélica Porto a J. Inácio

Foto: José Carlos Cruz.
Reproduzida do álbum do Facebook de José Carlos Cruz

Matéria que escrevi sobre o querido J. Inácio, publicada pela Revista Lícia:

As pessoas do Santo Antônio, na colina onde
a cidade de Aracaju nasceu, contavam muitas
histórias sobre as atividades artísticas
do bairro. Tinha de tudo, corais, teatro, gente fazendo
arte de todo jeito. A igreja era o centro e em
volta dela, as pessoas chupavam rolete de cana
e comiam o cachorro quente sem igual da nega
Lourdes. Uma história que eu adorava ouvir era
sobre o drama da paixão de Cristo, onde tinha um
ator que se destacava de todos pelo talento e graça.
Ele sempre fazia o papel de Judas, todos os anos e
contavam que a estrela era sempre o Judas, e não
o Cristo. No final, depois das lágrimas com o sofrimento
de Jesus crucificado, todo mundo corria
para ver Judas de perto, falar com ele, prorrogar
mais um pouco aquela presença diferente. Era o
jovem Inácio, irmão de Padre Pedro, um sacerdote
humilde, piedoso e muito louco, que vivia ajudando
os pobres. Inácio, o Judas apaixonante, veio a se
tornar J. Inácio, grande pintor de Aracaju, famoso
pelas lindas bananeiras, Cristos, casas de farinha e
brancas garças.

Quando conheci Inácio ele já era um velho pequeno
e narigudo, com uma farta cabeleira branca,
olhos miúdos e velozes. Era um mito na cidade e
sabia disto, aproximava ou afastava pessoas como
queria. Viveu 96 anos, simplesmente sendo do
jeito que era. Se alguém perguntava sobre sua
pintura, dizia que era um pintor neo-acadêmico e
se alguém perguntasse quantos quadros já havia
pintado, ele respondia que bastante para fazer um
tapete de Aracaju até Salvador. Sergipano que se
preze conhece o trabalho de Inácio e se preza um
pouquinho mais, um quadro na parede, de preferência,
uma bananeira.

São muitas as histórias de J. Inácio, e todas
verdadeiras, com prova provada. Em 2005, a Academia
Brasileira de Letras ofereceu a Inácio um
prêmio de “Gênio da Pintura”. Lá se foi Inacinho
ao Rio de Janeiro, com a filha Rutinha tomando
conta. Ao chegar no auditório, Inácio, com 92
anos, começou logo reclamando que todo mundo
‘era muito velho’. ‘Pai, se comporte, pelo amor de
Deus’, pedia a filha, toda cheia de dedos, no meio de
tanta gente desconhecida. Inácio pediu para ir ao
banheiro e ela o acompanhou, aproveitando para ir
rapidinho ao banheiro também. Ao sair, cadê Inácio?
Chamou, procurou, perguntou ao segurança,
e o homem, sorrindo, apontou para o palco e disse
‘Você está procurando por aquele velhinho’? Inácio
tinha fugido e subido no palco, onde estava declamando
poemas e tirando gargalhadas gerais da
platéia sizuda, fazendo todo mundo ficar criança.
Experiência de declamador, ele tinha. Na juventude,
foi declamador oficial do Teatro Municipal
do Rio de Janeiro e, aos 25 anos, foi convocado para
declamar para o então presidente Getúlio Vargas.
Entregaram poema nobre de grande poeta brasileiro
e, ao entrar no palco solene, Inácio começou a
declamar um poema que havia escrito para Getúlio
Vargas, onde chamava o presidente de coruja negra.
Imaginem o escândalo, o zum zum zum que ficou
no teatro. A polícia de Vargas foi logo no encalço,
para prender o baixinho insolente que havia insultado
o grande Getúlio. Inácio fugiu rápido como
uma lebre, embrenhando-se nos matos para polícia
nenhuma achar. Caminhou léguas sem olhar para
trás, direto do Rio de Janeiro até Sergipe, pegando
carona em lombo de burro, carroça, caminhão velho,
o que achasse pelo caminho. A fuga durou 6 meses,
mas chegou em Aracaju são e salvo.

Tinha por ele um carinho enorme e toda vez
que volto a Aracaju, pelo menos uma vez por ano,
sinto saudade dele, dos momentos singelos, engraçados
e lindos que tive com ele. Comer cuscuz lá
em casa e ouvir, ouvir e ouvir, aprendendo e sempre
encantada por aquela criaturinha que chegava
com as calças amarradas por um cordão. Eu dizia:
“Inácio, vou lhe dar um cinto”. E ele: “Pra que cinto?
Eu gosto mesmo é do cordão. E gosto que incomoda
as pessoas”.

Um sábado ele chegou de tarde, mais cedo do
que de costume para o cuscuz, e me contou que
tinha uma bananeira no Mosqueiro, povoado de
pescador vizinho de Aracaju, que era linda, tão
linda, que ele precisava pintar, mas tinha que ser
aquela; nenhuma outra servia. Sabendo o que me
cabia, chamei os meninos e fomos levar Inácio
para desenhar a bananeira. Fiquei brincando com
as crianças na beira do rio, enquanto Inácio desapareceu
pelo matagal, atrás da única bananeira
no mundo que existia naquele momento para ele.
Como quando a gente se apaixona.
Já de tardinha, o rio naquela calma de espelho,
verde profundo que guarda um resto de calor,
lá vem Inácio, feliz da vida, trazendo a bananeira
em papel branco debaixo do braço. Notei que estava
apreensivo quando disse: “Vamos rápido para
o carro, vamos, meninos, vamos, oh meu Deus não
vai dar tempo”. Dizia isso quase correndo e a gente
correndo atrás. Fui ficando preocupada e, chegando
no carro, perguntei se havia acontecido alguma
coisa. Ele olhou fixamente o horizonte e disse: “Me
ajude, que não vai dar tempo”. Aninhou-se como
uma criança nos meus braços, escondendo o rosto
nos meus ombros e pediu que cantássemos para
ele. Sem fazer perguntas, eu e meus filhos começamos
a cantar “Nessa rua mora um anjo”. O cenário
era lindo, o sol se pondo rapidamente, do jeito que
sempre faz abaixo da linha do Equador. Ficamos
ali, assim. De repente, ele levantou a cabeça, olhou
o horizonte e disse: “Graças a Deus, acabou”. E aí
contou que não aguentava o por do sol, que sentia
uma tristeza tão grande, tão avassaladora, que tinha
que se esconder até acabar.

Em 2004, em Aracaju, com patrocínio da Petrobrás,
houve uma exposição em homenagem a J.
Inácio, com quadros de vários artistas que fizeram
uma releitura inspirada em sua obra. Todas as autoridades
já estavam presentes, quando chegou o
homenageado. Ele entrou vestindo um paletó preto
manchado de tinta e uma bermuda xadrez com
a braguilha semi-aberta. No pescoço, uma echarpe
colorida, que era, na verdade, uma manta de rede –
Inácio estava elegantíssimo, lindo, e os fotógrafos
não o deixaram em paz.

Que Saudade de Inácio!

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 7 de novembro de 2013.

"(...) Araripe Coutinho me mandou este questionário..."


(O querido poeta Araripe Coutinho me mandou este questionário tipo Ping Pong, logo logo que eu entrei na Academia. Não respondi porque naquela circunstância não me atrevi. Respondo agora, tá legal?).

- A poesia é...

Tão desgraçadamente mentirosa quanto a felicidade.
Gozar por segundos dentro de um corpo amado é um laivo poético, suster num ápice de eternidade a concisão das palavras e fazê-las durar até que o tempo as consuma, é o destino dos poetas. Perenidade e poesia não se batem.

- Escrevo para parecer humano

Que humano não serei, se não provar que sou. Quando acordo bicho minha poesia é melhor: posso cheirar a presa acuada, posso me permitir estraçalhar tudo à minha volta e morder com institivo prazer a preza que me cabe.

- Não desisto nunca

De amar, no sentido mesmo de estar curtindo alguém que me tome inteiro e redefina os meus prazeres. E disto não tenho queixas

- Academia de Letras

Estou nela porque me convidaro digno dela. Não cocedi a ela o direito de me adequar , mas o reconhecimento me faz feliz

- Escritores que eu ajoelho

Au a coisa pega, por impossível de relatar. Comecei lendo gibi e até hoje leio sem preconceitos. Considero-me um ávido consumidor de textos que agreguem forma e maravilhamento à minha própria oficina. Marcel Proust e Mallarmé muito me influenciaram, mas Adelaide Carraro, Eça de Queiroz, Lovecraft, Ionesco, Ginsberg, Hunald Alencar, José Sampaio, Manoel Bandeira, também me influenciaram. Hoje, leio os blogs da meninada.

- Aos 60 eu já não quero

Provar nada. Basta-me o carinho dos amigos.

- Penso o mundo e olho

Com muita atenção aos humores sociais e políticos que nos prega a modernidade. Olho pra frente, sempre. Sou produto da inquietação nos anos 60, que nos levou a conquistar novos parâmetros de relacionamentos sociais e políticos: tento me comportar sempre em defesa das bandeiras que assumimos na grande revolução “Paz e Amor”que ainda considero essenciais ao estabelecimento da paz social e da equidade. Ainda não me covenci de que os slogans da minha geração estejam superados. Gosto muito

- Inquietação

A conquista da paz interior tem muito a ver com o nosso próprio cabedal de realizações. Neste sentido, dou-me sempre em curso, grato por continuar inquieto, meiamente irrealizado, capaz ainda de assestrar músculos e graça à conquista de novas cidadelas

- Aracaju é

A cidade que me entendeu.

- Arrependo-me

De ter deixado de fumar maconha aos 40 anos. A vida ficou meio cinza.

- Não faria

Nada, faria tudo de novo, mas não teria deitado tanto com gente que não me amava.

- Livro que você gostaria de ter escrito

KKK. O Ulisses de James Joyce. Ainda gosto muito da esculhambação.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 7 de novembro de 2013.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Álvaro de Azevedo Santana (1917 - 1995)


Dr. Álvaro de Azevedo Santana * 

Nasceu em 19 de fevereiro de 1917, na cidade de Capela, Sergipe, sendo seus pais Luiz de Santana e Otília Azevedo Santana.

Realizou os primeiros estudos em Aracaju. 

Em seguida, ingressou no Colégio Atheneu e ali continuou até a conclusão dos preparatórios.
Oriundo de família humilde e influenciado pelo seu padrinho de batismo, o médico Juliano Simões, fez imenso sacrifício para continuar seus estudos na capital da Bahia.

Para mantê-lo na Faculdade, seus pais “resolveram enfrentar o desafio, colocando uma condição: a de só visitar Aracaju uma vez ao ano” (1). E mais: “Restrições importantes de vestiário, dentre outras, tiveram também necessidade de serem realizadas” (Ibidem).

Certa vez foi surpreendido com sapatos furados...

Apesar dos obstáculos, colou o grau em medicina na Faculdade de Medicina da Bahia, em 13 de dezembro de 1941.

Dentre seus colegas de turma, três médicos ilustres de Sergipe: Augusto Prado Franco, Lourival Batista e Benjamin Leite.

Terminado o tirocínio acadêmico, especializou-se em oftalmo e otorrinolaringologia, no Rio de Janeiro.
Retornando a Aracaju, trabalhou muitos anos como oftalmologista nos hospitais São José, Cirurgia e Santa Izabel, bem como em sua clínica particular.

Sócio Jubilado da Associação Médica Brasileira, sócio benemérito da Sociedade Médica de Sergipe e membro fundador da Academia Sergipana de Medicina, mereceu do confrade Jeferson Sampaio d´Avila o seguinte juízo: “Dr. Álvaro Santana era conhecido dentre seus pares pelo grande espírito humanístico que permeou sua vida. Atendia a todos que o procuravam, independentemente de qualquer condição e com o maior respeito” (fonte citada).

Segundo o mesmo A., Álvaro Santana era um homem de família, excelente amigo, grande colega e médico extraordinário, tão extraordinário que foi comparado a Path Adams, o estudante de medicina que questionava o tratamento dispensado aos pacientes os quais, dizia ele, “eram dígnos de mais dignidade e respeito”.

Faleceu em 12 de abril de 1995.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
Sampaio, Jeferson d´Avila . Discurso de posse na Cadeira n° 7, da Academia Sergipana de Medicina. Aracaju, 2007.
Santana, Antônio de Samarone, & Cols. Dicionário biográfico de médicos de Sergipe. Aracaju, 2009.

*Foto e texto reproduzidos do blog: medicosilustresdesergipe.blogspot

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 19 de novembro de 2013.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Museu Capunga, Pov. Lagoa do Capunga, município Moita Bonita

Museu Capunga, organização de Vicente e família.
Fica no Povoado Lagoa do Capunga, município de Moita Bonita/SE.
Foto reproduzida do site: portaljovem.net.br

Parabéns ao Senhor Vicente, organizador do Museu Capunga,
Povoado Capunga, município de Moita Bonita/SE.
Foto reproduzida do Youtube/TV Atalaia.

Museu Capunga - Resgate da história de nossa terra.
Aberto a visita aos sábados e domingos das 8 às 16 horas.
Povoado Lagoa do Capunga, em Moita Bonita - Sergipe.



Projeto História do Capunga
Foto: vicentecapunga.
Imagem reproduzida do site: flickr.com/photos


Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 4 de novembro de 2013.

domingo, 3 de novembro de 2013

Precisamos guardar a nossa História


Precisamos guardar a nossa História.
Por Amaral Cavalcante.

Talvez sejamos a última geração a registrar os seus feitos, costumes, aparência, circunstâncias ambientais e políticas, no papel. Os Arquivos institucionais existentes em Sergipe guardam uma preciosa documentação empacotada em prateleiras e caixotes, predominantemente reunida mediante técnicas de preservação já suplantadas pelas novas tecnologias. Alfarrábios preciosos e inestimáveis guardados assim estão praticamente condenados à curiosidade dos insetos, como uma fortuna em contos de réis guardada num colchão. De que valerão no futuro?

Estamos perdendo para as traças a nossa história administrativa e privada porque, embora vivamos a era das novas tecnologias, relegamos a guarda da nossa história a métodos ultrapassados. Precisamos construir um novo Arquivo Público dotado de condições que abriguem as modernas exigências da Arquivologia, para que a nossa atualidade não sofra o mesmo descaso que estamos imprimindo ao passado.

Falo de um equipamento multimídia -como o são os Museus da Imagem e do Som- dotado de tecnologia que nos permita, inclusive, a digitalização do acervo iconográfico disperso em arquivos oficiais e coleções particulares e que, desde o uso da fotografia até o aparecimento das mídias digitais, registram a vida sergipana.
São os acervos fonográficos ainda existentes em nossas rádios como a Liberdade, a Cultura e a Aperipê (antiga Difusora) e os vídeos porventura preservados nas emissoras de TV. Há também os acervos institucionais nas Secons do governo e da prefeitura, apenas citando os arquivos institucionais.

No âmbito privado, para exemplificar, no Facebook o grupo “Minha Terra é Sergipe" criado por Armando Maynard, é um espaço virtual onde se postam documentos e depoimentos sobre a sergipanidade. Ele vem se tornando depositário da mais rica iconografia sergipana, com fotografias e vídeos resgatadas dos mais recônditos baús da nossa sociedade, uma rica estante virtual de documentos históricos da nossa vida privada. Ali são postadas fotos de casamentos, batizados, desfiles cívicos, eventos políticos, paisagens e arquitetura urbana de ontem e de hoje, perfis de figuras ilustres, figuras populares e, principalmente, registros da vida sociocultural e administrativa do Sergipe atual, na ótica da cidadania.

A criação de um moderno Arquivo Público Estadual é providência urgentíssima e necessária, até porque, precisamos deslocar a ótica da arquivologia - geralmente exclusiva em atenção ao passado - para a modernidade. Se quisermos preservar para o futuro a história do nosso tempo teremos que entender e utilizar os meios que a tecnologia digital nos oferece.

A apreensão de fatos relevantes, paisagens e costumes, encontram-se ao alcance de qualquer celular. Vamos continuar ignorando isto?

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 01 de novembro de 2013.

sábado, 2 de novembro de 2013

Cemitério Santa Isabel, em Aracaju

Foto: José de Oliveira B. Filho.

Placa na entrada do Cemitério Santa Isabel.
Foto: José de Oliveira B. Filho.
Imagem reproduzida do blog: aracajuantigga.blogspot

Cemitério Santa Isabel
Imagem reproduzida do blog: aracajuantigga.blogspot


Cemitério Santa Isabel

O primeiro cemitério da recém criada Aracaju foi construído em 1856 e denominava-se "Cemitério do Alto da Santa Cruz". Estava localizado no final da Rua São Cristóvão no trecho compreendido entre as Ruas Capela e Lagarto. Segundo Luiz Antônio Barreto, era um cemitério cercado de varas e foi visitado pelo Imperador D. Pedro II em 1860. Consta que o Imperador perguntou ao Vigário por que era tão pouco respeitado o jazigo dos mortos e este respondeu que era porque o povo ia à noite furtar a cerca do cemitério para fazer lenha.

Diante de tal situação, tempos mais tarde, o Imperador D. Pedro II enviou recursos para a construção de um novo cemitério, que contou com a ajuda da "Sociedade de São José dos Artistas", que ofereceu 20 oficiais pedreiros com os respectivos serventes, que trabalharam gratuitamente.

O Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, atual Cemitério Santa Isabel, iniciou as suas atividades no dia 25/02/1862. As rendas do Cemitério foram entregues ao Hospital de Caridade Nossa Senhora da Conceição, atual Hospital Santa Isabel.

A Associação Aracajuana de Beneficência é a mantenedora dos Cemitérios Santa Isabel e Cruz Vermelha.

Imagens e texto reproduzidos do blog: aracajuantigga.blogspot

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 2 de novembro de 2013.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Moura: o professor de Matemática

Foto: Arquivo Pessoal

Jornal da Cidade.Net, 28/10/2013, Memória de Sergipe.

Moura: o professor de Matemática.
Por Osmário Santos.

Um menino de tamanco, carregador de feira, aprendiz de alfaiate que chega aos 82 anos como professor formado pela Universidade Federal de Sergipe e como oficial do Exército Brasileiro.

Francisco Moura nasceu em 25 de março de 1923, na cidade de Aracaju. Seus pais: Maria Patrocínio de Jesus e Francisco Moura, como pai adotivo. “Confesso que não conheci meu legítimo pai e que só mais tarde soube chamar-se Francelino”.

Seu pai adotivo era padeiro, trabalhou nas padarias Central e União e tinha a face direita enrugada, por queimadura. Por isso era conhecido pelo apelido de “Pedro Queimado”. Também foi dono de um grupo de reisado, que levou seu nome. Dele, Francisco Moura herdou a lealdade, sinceridade e o caráter. “Um homem pobre, analfabeto, mas sempre teve por mim um amor muito grande, uma dedicação, uma estima toda especial, mas culturalmente nada me passou”.

Sua mãe era lavadeira e dedicou ao filho muito carinho e amor, mas sempre esteve atenta ao comportamento do filho, castigando-o quando merecia.

Enquanto seus pais viveram, devotaram muito carinho ao filho. “Jamais pensaram um dia entregar-me a uma família rica como se fosse objeto descartável para livrar-se do pesado ônus da responsabilidade de carregarem sobre seus ombros aquela criança sem horizontes e sem futuro, a exemplo de tantos quantos, covardemente, entregam seus filhos a famílias estranhas para servi-lhes como empregados, sem liberdade e sem personalidade, em troca de um pedaço de pão”.

Dos oito aos 17 anos, Francisco fez de tudo: foi carregador de feira, aprendiz de alfaiate, pintor de paredes e outras profissões correlatas. Brigava na rua, apanhava e batia. Morava em um casebre de palha com paredes de taipa. O piso era de tijolo cru e um baú servia de guarda-roupas. Uma moringa de barro era a geladeira da casa.

Conta que na sua infância mexia com as pessoas exóticas que passavam pelas ruas. Lembra-se de Labatau, Arraia Mijona, Três C... Ingá e outras. “Eu e os meus amiguinhos ficávamos aguardando a passagem da primeira vítima. Lá vem Arraia Mijona, avisa um de nós. Com a sua aproximação todos gritavam em coro: Arraia Mijona! A resposta era imediata: É a sua mãe, fio da puta, corno, viado, marico. Desprotegida de peças íntimas, ela levantava a saia e batendo na “coisa” com a palma da mão ela acrescentava escandalosamente: Arraia tá qui, seu saca, fio de uma égua. As respeitáveis senhoras fechavam suas portas em sinal de repúdio a essa cena imoral que acabavam de ver. Todavia, ficavam gretando pela janela semiaberta o desenrolar do pecaminoso espetáculo, para cochicharem depois quando estivessem sentadas à porta logo após o jantar”.

Francisco diz que seu pai possuía dois cavalos: Brinquinho e Brinquedo e aos sábados e domingos os dois levantavam cedo e iam pegar carrego na feira. “Eu montava Brinquinho e ele Brinquedo. Tínhamos fregueses certos. Ao final da feira o velho contava o apurado e dizia alegre: agora vamos comprar o nosso alimento da semana. Com os níqueis que sobravam, ele me recompensava com a quantia de 10 tostões, o equivalente a um real nos dias atuais. Eu pagava a mensalidade de cinco tostões ao time em que jogava, os 11 Perigos, e com os outros cinco comprava rolete de cana”.

“Como os pais não podiam pagar mensalidade de uma escola particular e muito menos comprar fardamento, sempre estavam a rezar pelo filho e nos seus pedidos a Deus o principal era o da educação do menino”.

Certo dia disseram aos seus pais que havia uma escolinha na Rua Lagarto cuja proprietária era professora e ensinava em sua própria casa e por ser uma pessoa bondosa e caridosa não cobrava nada aos que não podiam pagar mensalidade. Seu nome: Esmeralda Carvalho. “Meu pai não perdeu tempo e foi correndo matricular-me. Dia seguinte, lá estava eu, com os pés enfiados em tamancos e começando a aprender as primeiras letras do alfabeto aos sete anos de idade para concluir o curso primário quatro anos depois”.

No final do ano de 1941 se inscreve para ingressar na Marinha de Guerra como aprendiz. Exigência: um ditado de 20 linhas e as quatro operações. Submetido às provas é aprovado, mandado para Recife e incorporado à Escola de Aprendizes Marinheiro.

O desejo de ingressar na Marinha vem desde os primeiros momentos da juventude, quando participou da famosa Chegança de Zé do Pão. “Pedi ao meu pai que falasse com Zé do Pão a fim de ingressar na Chegança. Fui aceito. Iniciava-se assim o meu pendor para a vida militar”.

Com três meses de aulas de natação, remo, educação física, salvamento, matemática, português, história, geografia e outras disciplinas que completavam a sua felicidade, sem falar do fardamento, que era o seu grande sonho, foi chamado ao gabinete do comandante e este em duras palavras disse-lhe que ele não iria ficar, pois no ato da inscrição na Capitania dos Portos em Aracaju já tinha mais de 18 anos e a lei exige 18 anos incompletos. “Retornei à casa paterna, triste e chorando”.

Como o governo brasileiro se viu obrigado a declarar guerra à Alemanha, no dia 22 de agosto de 1942, diante o afundamento dos navios brasileiros, dentre eles o Baependi, Aníbal Benévolo, Araquara, Itagiba e Araxá, todos na costa marítima, entre Bahia e Sergipe, no dia 12 de novembro de 1942 é incorporado ao Exército, que abriu suas portas para receber voluntários para embarcar para a Itália para lutar contra as tropas alemãs, junto com as tropas aliadas na 2ª Guerra Mundial.

Aos 19 anos de idade foi incorporado no 7º Grupo de Artilharia de Dorso (7º Gado), atual CAC, Regimento Olinda, sediado em Olinda (PE). Com o número 315, passou a pertencer à 2ª Bateria. “Com o primeiro ordenado comprei sabão em pedra, sabonete, pasta de dentes e outras coisas. O que sobrou mandei para os meus pais, eles precisavam mais que eu. Agora tinha casa, comida e roupa. Comida farta. Podia repetir o prato que quisesse”.

O local era destinado ao preparo militar para a luta nos campos de batalha da Itália, Engenho Aldeia, que era infestado de cobras, aranhas, mosquitos, bicho-de-pé, escorpiões e enorme quantidade de moscas que formam nuvens na hora do almoço. “Após exaustiva marcha a pé de 20 quilômetros, cansados e famintos, não havia outra opção senão comermos pedaços de carne grudados de moscas que caíam pela panela durante o cozimento. Afastando o inseto com a colher, a xepa descia redondo”.

Promoção

Em 1943, quando o Brasil estava em plena guerra, como Francisco Moura possuía o curso de sargento, logo foi promovido e transferido para o II/4o Regimento de Artilharia Montas (RAM), com sede principal em Itu (SP), e destacado para Alagoas, a fim de guarnecer o litoral daquele Estado contra o inimigo alemão, que desejava montar bases militares no Norte e Nordeste brasileiro, como conta Francisco Moura. “Nessa unidade fui promovido à graduação de 3º sargento. Com o término da guerra, no dia 8 de maio de 1945, recebemos ordens para retornar à sede do Regimento de Artilharia, em Itu”.

Permaneceu no Exército depois da guerra e fez todos os cursos para continuar na caserna, onde aprendeu a conviver e a respeitar a individualidade das pessoas. “Obtive todas as promoções com méritos, estudo e dedicação ao trabalho. Nunca fui punido e sempre tive comportamento excepcional e exemplar. Nos meus assentamentos constam mais de 120 elogios militares. Obtive conceito excepcional para alçar ao posto de 2º tenente. Sempre soube cultivar as boas amizades, que ainda conservo”.

Saiu do Exército quando estava como 2º tenente, no ano de 1968, indo para a reserva como 1º tenente.

Com mais de 30 anos, quando estava servindo no Rio de Janeiro, faz exame para o artigo 91, hoje supletivo, e aprovado ingressa no Colégio Pedro II, onde conclui o 2º grau. Não deixa os estudos de lado, faz vestibular e conquista aprovação no curso de Matemática da Universidade Federal Fluminense, em Niterói.

Ao ser promovido ao posto de 2º tenente, quando servia no Ministério da Guerra, no Rio de Janeiro, que na época era a capital do Brasil, foi transferido para 19º Circunscrição do Serviço Militar (CSM) em Aracaju.

No Exército serviu no Recife, Maceió, Itu (quatro anos), Rio de Janeiro (16 anos, onde serviu em várias unidades) e Aracaju.

Como foi classificado para Aracaju, solicita o cancelamento de matrícula por tempo indeterminado do curso que fazia na Faculdade de Niterói e como só faltava um ano para a sua conclusão, mais tarde cola grau em Matemática pela Universidade Federal de Sergipe, no ano de 1970. “O curso de Matemática estava fechado, mas como fui falar com Dom Luciano Duarte, ele reabriu o curso com dois alunos: eu e Geovani Carvalho. Somente nós dois”.

Ao passar para a reserva foi contratado para lecionar Matemática no Atheneu Sergipense, o mais destacado colégio do Estado na época. “Sem experiência alguma, a diretora, professora Rosália, entregou-me a turma do 3º científico, que sem motivo algum havia rejeitado três outros professores que, segundo eles, diziam que não sabiam ensinar. Se fosse no Exército, o problema seria de fácil solução. Mas agora a coisa é bem diferente, pensei. Ao apresentar-me à turma, senti um sorriso zombeteiro, com olhar de mofa. Ninguém abria o livro, ninguém fazia anotações, todos ficavam de braços cruzados e cochichando. Se lhes perguntavam se estavam entendendo, a reposta era dada em coro: Sim, senhor professor, todos entendemos, pode prosseguir. O senhor tem didática e sabe ensinar muito bem. Marquei o 1º teste para a semana seguinte. Aproveitamentos: numa turma de 50 alunos, só obtiveram nota acima da média cinco, apenas quatro. O restante dançou. Isso me faz lembrar o que aprendi na caserna: se numa turma de alunos todos responderem que entenderam, duas coisas estão acontecendo: o professor foi ótimo e muito eficiente e foi capaz de fazer com que todos, sem nenhuma restrição, entendessem o assunto que lhes foi transmitido. Excelente mestre. A segunda hipótese é a de que nada sabem e fingem que sabem para não demonstrar falta de conhecimento perante seus colegas. A segunda me parece mais verdadeira e foi exatamente isso que aconteceu. A partir daí, as feras ficaram mansas e dominadas. Todos pediam para amaciar mais um pouco no 2º teste. Prometi que sim, visto que as regras foram invertidas. Lembrei-me uma vez mais da minha professora D. Esmeralda, pois ela era rigorosa, porém humana”.

Em 1970, depois de aprovado em concurso público que prestou para o magistério estadual, foi nomeado professor do ensino médio. No ano seguinte, assume a direção do Colégio Estadual Atheneu Sergipense, atendendo convite do governador Paulo Barreto. “Peguei o Atheneu com 5.000 alunos, 150 professores, 100 funcionários e demais auxiliares. Permaneci na direção durante três anos, quando pedi demissão em caráter irrevogável, vez que a minha saúde já apresentava sinais de cansaço, cujas consequências eram imprevisíveis, eu temia”.

Revela que sua vida de professor e passagem pela diretoria do Atheneu marcou muito a sua vida. “Me relacionei muito com os meus alunos e professores e até hoje eu conservo essas boas amizades. No Atheneu me realizei como professor e a grande prova que hoje as pessoas não me conhecem como militar. É professor, professor”.

Além do Atheneu, Francisco Moura atuou como professor e diretor dos colégios Senador Leite Neto, 15 de Outubro e Presidente Costa e Silva. Também foi professor do Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora e lecionou física e desenho linear no curso da formação de oficiais da Polícia Militar. Exerceu o cargo de vice-diretor da Febem/SE e também o de secretário geral da Associação dos Ex- Combatentes de Sergipe, além do cargo em confiança de diretor de Recursos Humanos da Secretaria de Educação durante cinco anos, quando pediu aposentadoria proporcional, na década de 1990.

Após passar à reserva, em excursão esteve nos Estados Unidos (Miami) e depois na Europa: Espanha, Itália, onde visitou o Cemitério de Pistóia. Também visitou Áustria, Inglaterra e França. Está com viagem marcada para o Chile e Argentina para 18 de setembro.

Casou em segunda núpcias em 26 de fevereiro de 1960 na igreja Nossa Senhora Auxiliadora, com Iracy Rodrigues Figueiredo, formada pelo curso Pedagógico e mais tarde em Ciências Contábeis pela Escola de Comércio de Aracaju, falecida em 16 de janeiro de 1993. É pai do médico Alvimar Rodrigues Moura. E tem dois netos: Renato e Camila. “A minha querida nora chama-se Maria Inês D´Ávila Moura, pessoa muito boa com quem eu me relaciono muito bem e que é enfermeira e canta muito bem”.

No ano de 2002 publicou o livro “Minha Origem, Minha Vida”, um excelente relato de sua existência, uma epopeia de muita fé, amor, trabalho e foça de vontade, como disse o jornalista Bemvindo Salles de Campos Neto, em crônica publicada na Gazeta de Sergipe em 21 de agosto de 2002.

O professor Francisco Moura faleceu em 11 de outubro de 2013.

Imagem e texto reproduzidos do site: jornaldacidade.net/osmario

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 31 de outubro de 2013.