segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Lições de um sedutor.


Infonet, Blog Marcos Cardoso, em 08/12/2013.

Lições de um sedutor.
Por Marcos Cardoso.

Marcelo Déda era um sedutor. A verve irrequieta, a simpatia encarnada no jeito familiar de se relacionar com os iguais e os diferentes, o raciocínio ligeiro, a capacidade de perscrutar a memória prodigiosa e colocar as palavras certas nos lugares adequados faziam dele um homem fascinante. Claro que o fato de ser bonito contribuiu para torná-lo mais atraente. E vaidoso.

A jornalista Mônica Gugliano, que cobria a Câmara Federal quando Déda lá chegou em 1995, aos 34 anos, fez um depoimento para O Globo lembrando que, inteligente, habilidoso político e bom frasista, ele logo virou uma referência para os jornalistas que cobriam as atividades da Casa.

"Mas estaríamos faltando com a verdade ou omitindo uma partezinha dela se ignorássemos que o deputado de risada franca e aberta, gentil no trato com a imprensa, conquistava corações", ressalta ela, acrescentando: "Déda era um colírio para os olhos da mulherada. Ao ser eleito líder da bancada petista, as jornalistas, informalmente, passaram a referir-se a ele como líder e gato".

Quando se despediu da liderança, ainda segundo Mônica, teria dito: "Finalmente não sou mais líder. Agora, sou só gato".

Mas por trás daquela persona que irradiava beleza, gentileza e alegria escondia-se um aristotélico animal político. Puro sangue. Intelectual sabedor de sua função social, Déda se destacou pela paixão como procurou compreender desde sempre a política, essa arte complexa que rege a relação entre cidadãos e sociedades. Era possuidor de sensibilidade aguçada para apreender o sentido do interlocutor e ao mesmo tempo perceber os anseios coletivos.

Exigente e às vezes até rude com quem trabalhava com ele, mas sin perder la ternura jamás, tinha a humildade de buscar aprender com os adversários e a capacidade de perdoar. Tornou-se amigo e aliado de primeira hora de Edvaldo Nogueira, o ex-estudante de medicina comunista que derrotou o seu grupo na disputa pelo DCE da Universidade Federal de Sergipe. Edvaldo sucedeu a Déda na presidência do diretório estudantil no começo dos anos 80, num embate fundamental na formação da sua práxis política.

E em 1987, ao chegar à Assembleia Legislativa com púberes 26 anos, após marcar posição em eleições anteriores para deputado estadual e para prefeito de Aracaju, quando apareceu como estrela em ascensão, Déda se aproximou daquele que mais conhecia sobre a engrenagem e as vicissitudes parlamentares, o deputado e ex-vice-governador Djenal Tavares de Queiroz. O general do Exército, que poderia ter sido o adversário mais duro, deixou-se seduzir pelos sentimentos honestos daquele barbudinho com ideal socialista.

"Seu avô era assim como você. Ele dava a palavra e cumpria", contou o próprio Déda ao jornalista Osmário Santos (Memórias de Políticos de Sergipe no Século XX, 2002), citando comparação do velho deputado-general com o seu avô, jornalista, rábula e também deputado constituinte, de 1947, José de Carvalho Déda. Marcelo inspirou-se na intelectualidade do avô, mas teve contato com a política e com a história da esquerda sergipana na barbearia de seu Edgar Ribeiro, comunista histórico que trabalhava numa esquina da rua Socorro, onde morava o estudante do Atheneu que veio de Simão Dias para concluir o primeiro grau em Aracaju.

O jovem Déda foi um deputado constituinte atuante, que deu coloração importante à Carta Estadual promulgada em 1989. O menino que chamou a atenção na paupérrima estreia eleitoral do PT, em 1982, e se sobressaiu ao só perder para o fenômeno Jackson Barreto na primeira eleição nas capitais pós ditadura, tornou-se ali reconhecido como político de verdade. "Esse garoto daria um excelente deputado federal", vaticinou o jornalista paulista Ivan Rodrigues, então diretor de jornalismo da TV Sergipe, impressionado com a capacidade de articulação e com o discurso da revelação petista.

Não se reelegeu porque ousou votar a favor da cassação do prefeito acusado de superfaturar obras e serviços, o que pareceu alinhamento com o único governador do PFL, Antonio Carlos Valadares. Pode ter avaliado mal, mas foi por imaturidade e convicção. E o povo sergipano soube reconhecer que ali havia mais do que um suposto algoz do popular e corajoso político emedebista e concedeu-lhe a eleição para deputado federal em 1994.

Voltas que o mundo dá: Valadares e Jackson tornaram-se correligionários e amigos. “Só quem não conhecia o Governador Marcelo Déda poderia duvidar da facilidade com que os adversários se dispunham a lhe estender a mão, tal o respeito que ele lhes dedicava e tamanho o espírito conciliador de que era dotado. Déda fazia da política uma atividade maior, em que o benefício da sociedade era sempre o seu objetivo primeiro. Na sua prática política não havia lugar para mesquinharia, apenas para o diálogo e para gestos de grandeza”, desabafou no Senado o político do PSB que sofreu dura oposição de Déda enquanto governador, no final dos anos 80. Estavam juntos desde a campanha de 2002, quando ele se reelegeu senador e José Eduardo Dutra, candidato ao governo, foi derrotado no segundo turno por João Alves Filho.

"O que iremos guardar de Marcelo Déda é a sua jovialidade e a sua capacidade de aglutinar tantas forças para elaborar um projeto que trouxe muitas mudanças para Sergipe. Ele foi um guerreiro e sua grande obra foi a honradez, a dignidade e a ética que sempre nortearam seu caminho e sua vida pública", disse o agora governador de fato e de direito Jackson Barreto.

Déda se apaixonou de vez pela política na dura e surpreendente — para os militares — eleição de 1974, quando assistiu na TV a Jackson Barreto e Jonas Amaral, dois resistentes da ditadura que se elegeriam deputados estaduais. Foi a eleição em que Gilvan Rocha, também do MDB, elegeu-se senador, derrotando nada menos que o mito Leandro Maciel. E José Carlos Teixeira elegeu-se deputado federal. Esses são os precursores do que Déda viria a se tornar depois. Só que Déda foi maior do que todos eles.

Ninguém por acaso vence seis eleições consecutivas, duas vezes para deputado federal, sendo o mais votado em 1998, e ganhando quatro disputas para cargo executivo no primeiro turno, duas vezes para prefeito de Aracaju (2000 e 2004) e duas vezes para o governo de Sergipe (2006 e 2010), derrotando o experiente e respeitado João Alves nos dois embates, inclusive quando o negão era o governador do Estado, em 2006.

Nos sonhos de Lula, Déda estaria no Senado em 2015. “Eu acho que estão faltando tribunos com envergadura no Senado e o Déda poderia ser um senador extraordinário. Ele poderia ser o tribuno que está faltando no nosso país”, disse o compadre durante o velório no Palácio Museu Olímpio Campos, acariciando a cabeça daquele com quem guardava uma relação quase de pai para filho. “Além do PT perder um quadro extraordinário como Marcelo Déda, a gente perde uma das grandes realidades políticas desse estado”, concluiu o ex-presidente, uma referência indiscutível.

Como referência também o foi Ibarê Dantas, professor de Ciência Política na UFS, “um homem que foi fundamental em minha formação”, nas palavras do próprio Déda. “Eu lia nos manuais clássicos do Marxismo, ele me trouxe Gramsci, que foi fundamental para que eu mudasse a minha imagem de mundo”.

Ensinamentos que fizeram dele não um esquerdista sectário, um socialista frustrado, mas um homem ciente da grandiosidade de sua função e consciente de que não foi inventado do nada, porque outros vieram antes dele, como sinalizou no discurso de posse no governo em 1º de janeiro de 2007:

"Sou filho de uma geração e, como representante dessa geração, eu sei o que devemos às outras que nos antecederam. Um filho cuja história, com paciência e tempo, tece a sua multifacetada tapeçaria que nos liga a outras eras e a muita gente. Nos liga, por exemplo, a tradição oligárquica de Fausto Cardoso, o grande herói urbano de Aracaju, o tribuno eterno de Sergipe que sacrificou a vida no altar das suas ideias e fez-se símbolo e exemplo para todos os que buscaram a modernização política, a justiça social, a democracia e o fim dos conluios oligárquicos. Não deixa, pois, de me emocionar que justo em 2006, quando a revolta de Fausto Cardoso completou cem anos, um centro-esquerda com forte apelo antioligárquico e indiscutível perfil mudancista conseguisse levantar Sergipe numa revolução pelo voto, produzindo a vitória que hoje me traz aqui à presença de Vossas Excelências para em nome do povo sergipano assumir o governo do Estado trazendo no coração o compromisso democrático e popular e nas mãos as bandeiras das mudanças".

O que pode ser arrematado com o que disse em maio deste ano, já alquebrado pela doença, ao sancionar o projeto do Proinveste: "Não sou capaz de decifrar os enigmas de Deus. Deus é insondável. O que ele está querendo com isso, não sei e nunca saberei. Mas me compete, na história, que é no terreno onde sempre operei, buscar fazer aquilo que me fez Marcelo Déda". E assim fez.

Texto reproduzido do site: infonet.com.br//marcoscardoso
Foto reproduzida do site: bobcharles.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 9 de dezembro de 2013.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Dona Helena do Educandário Brasília, em Aracaju

 Dona Helena Barreto.

Dona Helena e Roberto Garcez.

"Helena Barreto, D. Helena, uma das Diretoras do Educandário Brasília, professora do terceiro ano. Aos 97 anos em plena lucidez. Muito querida por todos, principalmente para quem teve a honra de ser seu aluno". (Roberto Garcez).

Foto/Legenda reproduzidas do Facebook/Linha do Tempo/Roberto Garcez.

Postagem reproduzida da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 8 de dezembro de 2013.

Marcelo Déda


Marcelo Déda.

Do Livro ‘Memórias de Políticos em Sergipe no Século XX: Marcelo Déda’
Texto: Osmário Santos/Foto: Divulgação.

Marcelo Déda Chagas nasceu a 11 de março de 1960, em Simão Dias, Sergipe. Seus pais: Manoel Celestino Chagas e Dona Zilda Déda Chagas.

O sr. Chagas era funcionário do Fisco Estadual na época em que os postos fiscais da receita estadual consistiam numa pequena casa na beira da rodovia e uma corrente em sua frente para liberar ou não o tráfego de veículos. Ele tinha, como responsabilidade profissional, o posto localizado entre a cidade de Simão Dias e Paripiranga, fronteira com a Bahia.

O processo da liberação da referida corrente era simples: para os carros de passeio, trânsito livre. Já para os caminhões, sem dispensar os que conduziam feirantes, o responsável do posto, ao avistá-lo, trancava a porteira fiscal. Desse antigo processo adotado pela fiscalização estadual, Marcelo Déda tem bucólicas lembranças, pois, em momentos de sua infância, vez e outra, lá estava perto do pai, acompanhando-o no abrir e fechar a tal corrente. Guarda, com carinho, até hoje, uma foto em que menino estava brincando com a corrente do posto.

O sr. Chagas é de origem camponesa. O avô de Déda tinha uma propriedade rural, um sítio na cidade de Paripiranga, perto de Simão Dias. Dessa proximidade com a cidade baiana é que o sr. Manoel Celestino Chagas conheceu D. Zilda. Contava com 17 anos de idade, e a jovem Zilda, com 16. O namoro não recebeu o apoio do pai dela, mas não foi motivo de impedimento para que o casamento fosse concretizado.

Marcelo Déda é o filho mais novo dos cinco filhos do casal. Todos eles foram criados envolvidos em clima de muito amor e preocupação permanente com os estudos. Seus irmãos são: Cláudio, conhecido na família como Cacau, hoje é juiz de Direito em Aracaju; Maria Aparecida é casada com o primo Aldo Déda; Selma e Maria do Carmo, esposa do advogado Edson Ulisses.

Homem simples, o sr. Chagas não teve acesso à educação superior, embora tivesse concluído o primário. Sua caligrafia fascinava os filhos. Era ele que, ao final da tarde, passava a limpo todos os pontos dos filhos, passados pelos professores em sala de aula. O filho Marcelo que acompanhou esse procedimento desde pequeno também foi beneficiado pela caligrafia do pai. Meu pai teve uma noção muito perfeita do significado da educação na vida de uma pessoa.

Houve um envolvente relacionamento entre pai e filho, que até hoje persiste. Seu pai continua gozando de vida e saúde e Marcelo conta um episódio interessante:

Até hoje, eu, já com quarenta anos de idade, não sei guiar. Meu pai não tinha carro e ele dizia sempre: ‘não pegue carro de amigo, porque se você provocar um acidente, vai ser difícil, vai complicar a nossa vida aqui’. Até hoje terminei não aprendendo. Casei-me com a minha primeira esposa, Márcia, e ela sabia dirigir. Depois me elegi deputado estadual, e a Assembleia Legislativa tinha motorista. Terminei me esquecendo. Mas eu vou aprender. Eu tenho dois desafios para o ano 2000: um é o de ganhar a prefeitura, e o outro, é aprender a dirigir.

Déda sente muito orgulho do pai que sempre dizia aos filho. Eu posso ir a qualquer estabelecimento comercial porque eu tenho crédito. Eu não apenas compro à prestação, como sempre faço questão de quitá-las antes de seu vencimento.

Os pais viveram até o ano de 1969 na cidade de Simão Dias. Com a aposentadoria, sr. Manoel trouxe a família para a Aracaju, graças ao direito de comprar a casa financiada outorgado aos servidores públicos estaduais através de sorteio no governo de Lourival Baptista. Nessa época, as irmãs de Déda já estavam casadas. Os outros três filhos vieram para Aracaju. Mas isso não aconteceu, porque Déda resolveu ficar em Simão Dias, morando com a sua tia Eunice, uma pessoa de grande importância na sua formação. Só deixou a cidade em que nasceu no início de 1973.

Da tia Eunice, agradece o lado da sua formação religiosa. Foi por suas mãos que foi conduzido à Igreja Católica Apostólica Romana. Eu ajudava missa, eu fui coroinha, subia na imensa torre da igreja de Simão Dias. Eu ia bater o sino lá em cima, às 5h30 a fim de chamar os fiéis para a primeira missa da manhã que acontecia às 6h. Era uma aventura! A torre era cheia de morcegos, a escada era antiga e rugia. Minha tia dizia que, de vez em quando, aparecia a alma do Padre Madeira, um padre antigo de Simão Dias.

Déda confessa que não sentiu vocação para padre e diz que, no momento atual, embora não seja católico praticante, dentro de si, tem impregnado uma fé inabalável, graças a esse período de convivência com a tia. A formação católica tem uma força muito grande em minha vida, porque, desde pequeno, ela me fazia ler os evangelhos, fazia-me ler livros religiosos.

Sua primeira ideia de combate à injustiça, em defesa da igualdade das pessoas, não foi uma ideia que adquiriu da política em sua militância no PT, mas da formação cristã que teve na casa da sua tia Didi, como carinhosamente chamava a tia Eunice.

A minha ideia é que o cristianismo é incompatível com a miséria, é incompatível com a desigualdade, incompatível com a arrogância e com a opressão. É uma marca de liberdade, de uma libertação muito forte.

D. Zilda era uma autêntica matriarca, mulher de personalidade muito forte, muito bonita, muito inteligente e defensora ao extremo dos filhos. Compara esse espírito de defesa dos filhos, como uma águia defendendo seu ninho. É filha de José de Carvalho Déda que, para o neto, foi o homem mais inteligente que conheceu em sua vida. Um advogado provisionado, um rábula de reconhecimento além Sergipe. Na prática da advocacia, mesmo sem ter ido a nenhuma escola, como era comum naquele tempo, ao lado de Dudu da Capela, eram os dois maiores advogados criminalistas de Sergipe.

O convívio com o avô, Carvalho Déda, é mais outro ponto de sua formação, principalmente, pelo acesso que teve a sua imensa biblioteca. Meus primeiros livros foram lá na biblioteca de Carvalho Déda no período em que estudei o ginásio. Eu o chamava de Papai Zeca.

Além do trabalho de rábula, seu avô tinha o jornal “A Semana”, rodado em máquinas manuais do início do século passado.

Trabalhar com a impressora manual era serviço pesado, e, com isso, meu pai dizia para os filhos: “quem não estudar vai para a tipografia”. Isto significava rodar a imensa antiga impressora, que tinha uma roda onde era colocada a tinta, de aproximadamente dois metros de diâmetro.

Um fato interessante sobre o jornal editado pelo avô é que ele fazia o comentário do cotidiano através da charge que ele mesmo preparava em processo de xilogravura. Enquanto estava à espera dos clientes de suas causas jurídicas, ficava a manipular o canivete na madeira, graças a sua habilidade com as mãos. Também fazia brinquedos em madeira, para os filhos e para os netos. Déda não esquece da alegria quando recebeu um Mané Gostoso, um boneco sustentado em duas varetas e que faz piruetas, quando é manipulado com uma das mãos.

Outro lado forte do avô era o seu trabalho como folclorista. Ele é o autor de um dos clássicos do folclore sergipano: “Brefaias e Burundangas”. Também foi político, intendente de Simão Dias, cargo que hoje corresponde a prefeito, além de deputado estadual por duas legislaturas. Da passagem de seu avô pela política, Déda diz existir uma singularidade envolvendo a ambos e as duas Constituições democráticas de Sergipe.

A primeira, elaborada em 1947, contou com a participação de meu avô Zeca. A segunda, escrita em 1989, contou com minha presença. Teve um Déda assinando em 1947 e um Déda assinando em 1989. O meu avô Zeca exerceu grande influência em minha vida política, pelo peso intelectual que ele teve, pela exigência e por seu comportamento na política de homem de palavra. Muitas vezes, em minha passagem pela Assembléia Legislativa, o velho deputado Djenal Tavares de Queiroz me dizia: “seu avô era assim como você. Ele dava a palavra e cumpria”.

De sua mãe, Déda herdou o lado da liderança e o de ter orgulho do que se consegue ser e não abrir mão dos seus direitos.

Quando eu perdi a eleição em 1990, ela me disse: “meu filho, no momento mais difícil, no momento em que estiver mais oprimido, não dê o braço a torcer. Abra o seu guarda roupa, escolha a melhor roupa que você tiver e saia. Mas lembre-se: não abaixe a cabeça”. E essa idéia de não desistir de minha mãe foi vital para mim. Mais ainda, foi a lição de que você não deve baixar a cabeça quando estiver certo. Ela completava esse sábio conselho dizendo: “um dia as pessoas irão reconhecer que você hoje está certo”. E essa coisa de fato tem sido, na minha vida, de muita importância.

A infância de Déda foi a de um menino do interior, com brincadeiras da maior simplicidade, algumas delas já não mais conhecidas pelas crianças de hoje. Jogou furão, bola de gude e não desprezou o futebol.

Estudou o primário no Grupo Municipal Fausto Cardoso. Cecília foi a sua primeira professora. Passou um tempo nas Escolas Reunidas de Simão Dias, onde teve uma grande frustração. A primeira vez em que fez uma prova, a professora advertiu-lhe que iria ganhar cem se saísse bem na avaliação. O menino Marcelo delirou, pensando que iria ganhar uma cédula de cem mil réis.

Pensou que daria para comprar muitas balas. Fez a prova e, ao recebê-la, cobrou pela nota. Quando a professora disse-lhe que a nota já estava na prova, tamanha descoberta foi motivo de frustração. Muitas vezes a coisa tem dois significados. Não é aquilo que você pensa.

Ainda em Simão Dias, conheceu toda emoção de um amor platônico. Marta fez o coração de Marcelo bater mais forte, mas só de desejo. Ela era a filha do gerente do Banco do Nordeste e tinha de doze a treze anos de idade. Ele se apaixonou perdidamente. A paixão terminou em versos mal escritos, em sofrimento sempre distanciado.

O programa do sábado do tempo vivido em Simão Dias era comprar boi de barro na feira para brincar de fazenda. Também ia se divertir com os primos na tipografia do avô Zeca ou na tenda do tio João Déda, uma espécie de celeiro que, conforme a tradição da família da mãe, vendia couro. Também não esquece das boas brincadeiras de correr na Praça São João e a de brincar com tanajuras.

Simão Dias era o seu mundo. Naquele tempo, a coisa interessante que marcava a cidade era o fato de que a cadeia pública, o hospital e o cemitério eram todos vizinhos.

Como a cidade era marcada pela pecuária, a coisa mais bela do mundo para Déda era ver, ao final de uma tarde de inverno, a boiada passar pelas ruas da cidade, puxada por vaqueiros com suas roupas tradicionais de couro e ouvir seus cânticos típicos do abôio. A imagem do sertanejo forte, habilidoso no cavalo, conduzindo a boiada, correndo atrás da rês. Foi uma infância que me deu uma grande força psicológica. Tive uma infância muito feliz.

Já tendo feito a quinta série no Colégio Carvalho Neto, decidiu vir para morar com os pais em Aracaju, precisamente, na rua Socorro.

Matriculou-se no Atheneu na sexta série. Foi se adaptando à cidade e ao colégio, até quando sentiu o mundo cair sobre suas costas. Por falta de seriedade nos estudos e porque brincou demais, foi reprovado na oitava série. O fato transformou-se em uma das maiores frustrações de sua vida, ao perceber que os colegas se adiantaram e ele ficara na oitava série.

Na época, existiam alguns colégios particulares que facilitavam o crédito. Ao fazer o pedido de transferência de matrícula, ouviu de seu pai uma grande lição que não esquecerá jamais. “Não! Você perdeu, vai ter que pagar pelo seu erro. Você vai repetir o ano, porque não vai adiantar você ir para qualquer escola, pois não irá compreender o significado da reprovação”.

Déda chorou muito, sentiu muita dor dentro de si e, a partir daí, resolveu enfrentar os estudos de uma outra forma.

A dor na minha vida serviu para me ensinar. Nunca foi um sofrimento desperdiçado. Sempre tinha uma grande lição, e, dessa lição, eu tirei força para dar passos significativos depois.

Como não havia vagas no Atheneu para alunos repetentes, foi estudar em curso noturno, no Colégio 8 de julho, também da rede estadual de ensino, que funcionava na Rua Vila Cristina, onde hoje é a Secretaria de Administração.

Estudar aos dezeseis anos de idade, junto de pessoas mais velhas do que ele, alunos de vinte, trinta, quarenta anos que iam sentar num banco escola pela noite após uma longa jornada de trabalho, provocou-lhe um grande choque. No íntimo, estava sempre a refletir: meu pai me dá condições de eu viver sem trabalhar, e eu perco um ano. É muita irresponsabilidade.

Esse período de estudos no 8 de julho foi o seu primeiro contato com a classe trabalhadora de uma forma mais direta.

Fiz belas amizades. Assisti a uma tragédia. Era colega meu um funcionário da Energipe, cujo nome não me lembro. Numa bela noite, nós chegamos à sala de aula e vimos que sua carteira estava vazia. Ele era um homem casado, tinha uns vinte e sete anos. Tinha sido eletrocutado ao fazer uma manutenção de uma linha viva. Isso foi muito marcante para mim, pois mostrou que, se alguns faziam todos os esforços e ainda tinham tempo para estudar, eu tinha era mesmo que mudar minha maneira de encarar os estudos.

Na esquina da rua Socorro, bem na proximidade de sua casa, havia a barbearia do sr. Edgar Ribeiro, um comunista histórico. Um barbeiro que cortava o cabelo em plena época da ditadura, ouvindo, à noite, a Rádio BBC de Londres. Uma figura que, segundo Déda, pelo seu lado belo, se confundiu com a esquerda de Sergipe. Sempre de bem com o rádio, nele acompanhava as seções da Assembléia Legislativa, transmitidas, na época, por uma das emissoras de Aracaju.

Exatamente na barbearia do sr. Edgar, Déda teve contato com a política e com a história da esquerda em nossa terra, bem contada pelo amigo barbeiro.

As histórias de prisões dele, a história da organização do Partido Comunista em Sergipe nos anos 1940, a história de grande líderes e intelectuais: de Careca, de Agonaldo Pacheco, de Wellington Mangueira, do médico Renato Mazze Lucas, que esteve preso com ele na penitenciária na década de 1950. Contava como se pichava um muro pela noite. Foi o primeiro comunista que eu conheci. Olha que ele era um comunista tipicamente brasileiro: livros de Marx escondidos, uma guia no pescoço, um quadro de Iemanjá na parede da barbearia e, ainda mais, era espírita kardecista. Era essa coisa bonita que é pluralidade da alma brasileira. Mesmo aqueles que militam na esquerda, que estudaram os princípios do Maxismo, não perderam sua ligação com a fé, com as crendices populares, com as religiões populares e com as marcas da vida brasileira.

Estudando à noite, tinha todo o tempo para ouvir histórias do sr. Edgar. A partir daí, Déda começou a ler livros de Jorge Amado, textos de esquerda e acompanhou a eleição de 1974 quando viu pela televisão Jackson Barreto e Jonas Amaral. Foi o início da sua paixão por política. Quando tinha no bolso o resto da mesada, eu comprava o Pasquim, o Movimento e Opinião, jornais alternativos da época.

Quando chegou em Aracaju, o bairro São José era de transição. Chegou logo após da inauguração do Batistão. Encontrou um bairro que ainda tinha área de mangue. Não era um bairro como é hoje, de classe média, que abriga muitas clínicas. Seu lado popular ainda prevalecia.

Outro aspecto de importância na vida de Déda, foi o da felicidade de ter, como vizinho da residência de seus pais na rua Socorro, a família Paixão, liderada por sr. Manoel. Uma família de negros extremamente positivos, a ponto de ter muito lhe influenciado. Trabalhando no comércio, mesmo com todas as dificuldades que tinha para manter a família, era fonte permanente de otimismo.

Não me esqueço nunca de um conselho que ele me dava quando saía para pescar siri no Colodiano, onde hoje é o Shopping Riomar. Ali tinha uma barraquinha e o pessoal ia pescar siri na frente da Sementeira. O sr. Manoel, um dia, depois que eu lhe dei bom dia e perguntei se tudo estava bem, respondeu-me: ‘Déda, nunca esqueça: quem corre pelos campos não aprecia a beleza das flores’. Essa era a sua filosofia de vida. A cada momento da vida, a pessoa tem que compreender que não precisa se apressar demais, pois precisa de tempo para ver a beleza da vida.

Junto com os meninos do bairro São José, sem faltar Luís, um vizinho parecido com Pelé, Tonho, Evandro, Mestre e outros, o jovem Marcelo saía de casa aos sábados para o lazer.
Nós íamos jogar bola, onde é o bairro Jardins hoje, local que tinha o campo do Alambique. Às vezes, íamos jogar na Praia 13 de Julho ou, simplesmente, pegávamos carona nos caminhões para irmos jogar na Atalaia. Minha adolescência foi com essa turma.

Só saiu do bairro São José para casar. Em sua mente, ainda hoje, só existem boas lembranças.
O Bariri, por exemplo, era o campo de futebol onde hoje é o Supermercado G. Barbosa. Por isso, quando o prefeito Gama dizia que eu não conhecia Aracaju, só posso dizer que eu tenho vinte e sete anos nessa cidade. Eu vivi essa cidade, malhando para entrar no Iate, porque não era sócio, malhando para entrar na Atlética, no carnaval, pulando muro para entrar no Cotinguiba, pedindo carona para Atalaia, indo pescar siri na 13 de Julho, indo participar dos jogos de bairros contra bairros, jogando como lateral esquerdo pela turma do São José, assistindo a sessões de Cinema no Plaza, no Vera Cruz, ou no bairro Siqueira Campos. Ia ao cinema de tamanco e voltava pela Baixa Fria, pegando a Rio de Janeiro, batendo tamanco no asfalto. Eu assisti filmes no Cine Vitória e no cinema na colina do Santo Antônio.

Também conta que, aos sábados, chegava na Padaria Santo Antônio, perto de sua casa, para saber se tinha alguma festa. Confessa que foram muitas as que foi como “penetra”. Nunca foi violento, nem de brigar, mas não escapou das tradicionais brigas de turmas. Eu já tomei carreira de sair correndo da Atlética até o bairro São José. Fui salvo por Tarciso da Tasvídeo.

Concluída a oitava série, voltou ao Atheneu e encontrou o colégio sob a direção da professora Maria da Glória. Assistia à aula de farda de gala. Estava com dezessete anos de idade. Desse tempo do Atheneu, diz que não existia escola particular para rivalizar em Aracaju. Talvez, no seu ponto de vista, só as tradicionais escolas de São Paulo, Rio de Janeiro, a exemplo de Dom Pedro II. Os laboratórios eram impecáveis e o corpo de professores era de fazer inveja. Turmas organizadas, consultórios médicos e material de ensino. Juntava-se a isso tudo, o que mais gostava: a parte de educação artística.

Nós tínhamos cinema com Djaldino Mota Moreno, César Macieira; teatro com Bosco Scaf, Bosco Seabra, Jorge Lins e Luís Eduardo Oliva. Antônio Maia ensinava artes plásticas, tudo com material à disposição. Também tinha dança com a professora Nelma Fontes. O Atheneu era o centro da organização cultural no final da década de 1970.

Nesse envolvimento cultural, teve sua primeira experiência como integrante de uma agremiação. Junto com os professores de cinema e alunos adeptos da sétima arte, tornou-se fundador do Clube de Cinema do Atheneu. Eu fiz documentário sobre os festejos da rua São João em 1977. Nesse tempo eu já estava nas ruas de Aracaju, filmando o São João.

Na sua segunda fase no Atheneu, já voltou bom aluno. Sabia como ninguém se organizar nos estudos. Logo às 7h já saía de casa para estudar com os colegas Evandro e Aronaldo, que o pegavam de carro, para juntos irem à Biblioteca Pública Epihânio Dória. Tinha salas de estudos e ficávamos lá até às 11h30.

Para enfrentar o vestibular, fez, durante um mês, o curso “intensivão” de um curso pré-vestibular chamado Visão, somente duas matérias: matemática e física. Déda sempre gostou de boêmia e de serenatas. Era freqüentador do bar Cancela que ficava nas proximidades do Atheneu. Teve tempo para fazer teatro, cinema e artes plásticas dentro do movimento cultural implantado por Maria da Glória no Atheneu. Disse que foi autor de muitos quadros a óleo.

Foi por isso que, quando eu cheguei em 1985 à televisão, as pessoas viram uma revelação na eleição a prefeito. Nada cai do céu, nada nasce pronto. Eu devo isso a essa experiência que eu tive em minha vida, graças a Deus, a do bairro São José e a experiência do Atheneu, principalmente, na área de teatro e cinema. Isso me ensinou postura, noção de tempo, compreensão da importância da dicção. Tudo isso eu devo a quem? Ao povo de Sergipe, que pagou a minha escola.

Foi aprovado em segundo lugar no vestibular de Direito da UFS.

Embora seu pai, desde a infância, tivesse preparado o filho para ser médico, e se entusiasmasse com as notas dez em Biologia no primeiro ano científico e média nove no ano seguinte, Déda tomou a decisão de não optar por Medicina diante de um episódio da morte de um menino por afogamento.

Eu fui ver, com a turma do bairro, o corpo do menino no IML. Confesso que depois que vi o cadáver na mesa de necropsia, traumatizei-me e eu percebi que não dava para Medicina. Daí comecei a pensar em fazer Psicologia, Sociologia ou Jornalismo. Nenhum desses três cursos existiam em Aracaju nessa época. Já estava com dezessete anos e já estava me aproximando do movimentos políticos.

Já conhecia Chico Buchuinho, já estava próximo do DCE. Também já conhecia Clímaco. Queria alguma coisa na área de Ciências Sociais. Não tinha por aqui. Os mais próximos eram Direito ou História. Não me arrependo de ter feito a escolha para Direito. Deus foi muito bom comigo. Na época que tomei a definição, tomei a definição certa. Eu não me imagino em outra atividade profissional, que não advocacia.

Entrou na Faculdade de Direito no primeiro semestre de1980 e saiu no segundo semestre de 1984.

Fui aluno do ministro Luís Carlos Fontes de Alencar, do desembargador Antônio Góes, que foi o meu paraninfo; de Luís Bispo; do meu tio Artur de Oliveira Déda, em Prática Forense. Também fui aluno da professora Eugênia em Criminologia; de Moacyr Motta em Direito do Trabalho; de Itamar, Direito Administrativo; do professor Monteirinho em Direito Previdenciário.

Em Ciência Política, como matéria optativa, tive o professor Ibarê Dantas, um homem que foi fundamental em minha formação. Ele trouxe autores da Ciência Política que eu nunca tinha lido. Eu lia muito mais nos manuais clássicos do Marxismo. Ele me trouxe Gramsci, que foi fundamental para que eu mudasse a minha imagem de mundo, aprender melhor como é a disputa política no Ocidente. Ibarê é um homem conhecido plenamente na vida pública sergipana.

É autor de um clássico “Tenentismo em Sergipe”, uma obra citada por Francisco Weffort, citada por todos os estudiosos do tenentismo. Eu tive a oportunidade de não tê-lo apenas como professor, mas como um grande amigo meu. Divergi de 60 a 70% das vezes que a gente discutiu, mas Ibarê com sua conduta de intelectual, de acadêmico, de cidadão engajado, contribuiu para a minha formação. Até hoje eu peço a ele conselhos.

Homenagem a Marcelo Déda pelo seu novo mandato à frente do Governo de Sergipe. Este material mostrando a sua vida política, foi publicado há 10 anos. Hoje, Marcelo Déda já tem muito a contar para a memória de Sergipe.

Texto e foto reproduzidos do site: usuarioweb.infonet.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 8 de dezembro de 2013.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Cadastro de Sergipe 1949


Fotos do Cadastro de Sergipe 1949).

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, feita por
 Paulo Roberto Dantas Brandão, em 3 de dezembro de 2013.


Cyro Franklin de Azevedo

Marcelo Déda, de quem muito lamento a morte, não foi o primeiro governador de Sergipe a morrer no cargo. Há pelo menos um precedente. Em 1926, Cyro Franklin de Azevedo assumiu o cargo em novembro, e morreu no dia 05 de dezembro.

Foto da galeria do Palácio Museu Olímpio Campos

Postagem originária da página do Facebook/MTé SERGIPE, feita por 
Paulo Roberto Dantas Brandão, em 3 de dezembro de 2013.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Fala emocionada da viúva de Marcelo Déda, a Eliane Aquino


Do Sergipe 247, em 3 de dezembro de 2013.

Déda: "Por que tanto amor pra tão pouca vida?".

O último poema de Marcelo Déda, que, além de político, era também escritor, foi lembrado pela primeira-dama de Sergipe, Eliane Aquino, em discurso emocionado e singelo; ela agradeceu pelas orações e disse que ele continuará vivo como uma estrela no céu e no olhar de cada um dos cinco filhos dele: "O último poema que ele fez, que ele falou para mim, foi que ele ‘não sabia por que tanto amor pra tão pouca vida’. E esse amor vai regar até o último dia da minha vida, te amando, te carregando no meu coração e dizendo para todo mundo quem foi Marcelo Déda. Vai com Deus, meu amor. Te amo, te amo, te amo”

Valter Lima, do Sergipe 247 – A esposa do governador Marcelo Déda, a primeira-dama Eliane Aquino, pessoa que esteve diretamente envolvida com todo o processo de tratamento contra o câncer no estômago que se encerrou na madrugada desta segunda-feira (2), em São Paulo, quando ele faleceu, fez o discurso mais marcante do velório, já em Aracaju, na noite desta mesma segunda. Revelou, em pouco mais de cinco minutos, os sentimentos e as convicções que deram tônus a luta pela vida – tanto dele quanto dela – e as dificuldades na resistência à doença.

Ao iniciar sua fala, Eliane não escondeu o cansaço – “as pernas estão fracas e o coração, dolorido” –, mas logo partiu para o agradecimento especial “à população sergipana que nunca vacilou” nos momentos em que eles mais precisaram. “Quando pedíamos oração, sempre se formava uma corrente linda e era isso que segurava”, disse.

“Nós passamos um ano lutando, ali, em São Paulo, lutando contra o câncer, tendo muita esperança, muito esperança mesmo, de que a gente voltaria pra cá, ele vivo, curado. Muitas vezes eu questionei a Deus. Muitas vezes, eu falava assim: ‘Porque, me u Deus, com tanta gente ruim na face da terra, o senhor quer tirar Marcelo Déda, que além de ser brilhante como político, é brilhante como pai, marido, e que vivia muito intensamente tudo?’”, relatou.

Para Eliane, Déda era um “meteoro”. “Nada na vida dele foi mediano. Tudo foi muito intenso. Até o sofrimento foi muito intenso”, afirmou. Segundo ela, “nos últimos dias, ele estava bem calado”, o que a levou a questionar: “o que está passando aí nessa cabeça?”.

E ele respondeu: “o meu funeral. Eu quero que o meu povo me veja”. E ele começou a chorar, segundo o relato da primeira-dama.

“E hoje, na hora que a gente veio, eu só falava pra ele: 'meu amor, aí está o seu povo, aí está o seu povo que você tanto ama, fazendo uma baita de uma homenagem para você'. E eu tenho certeza que ele viu cada momento”, disse Eliane, sendo muito aplaudida, tanto dentro do Palácio-Museu Olímpio Campo, onde ocorria a missa para familiares e amigos, quanto na praça Fausto Cardoso, onde centenas de pessoas ouviam a cerimônia.

“A minha frase não só para os sergipanos, mas para o Lula, que foi um companheirão, para a Dilma e para o Zé Eduardo, para toda a família, que o tempo inteiro nós estivemos juntos, é de muito obrigada. E eu falo para vocês o seguinte: ‘eu daria qualquer coisa para estar trazendo ele hoje para vocês. Curado. Mas ele é uma estrela. E as estrelas brilham em várias partes. E eu falei para o meu filho que quando ele olhasse para o céu e visse a estrela que mais estivesse brilhando, ele vai saber que é o pai dele. E eu vou saber que ele está perto, como ele me disse, quando eu olhar nos olhos de cada filho dele, quando eu olhar nos olhos dos cinco filhos, eu vou saber que ele está ali, eu vou sentir o cheiro dele, eu vou sentir a presença dele, eu vou sentir o amor dele”, afirmou.

E Eliane encerrou, citando uma poesia que Déda fez em sua homenagem: “O último poema que ele fez, que ele falou para mim, foi que ele ‘não sabia por que tanto amor pra tão pouca vida’. E esse amor vai regar até o último dia da minha vida, te amando, te carregando no meu coração e dizendo para todo mundo quem foi Marcelo Déda. Vai com Deus, meu amor. Te amo, te amo, te amo”.

O corpo do governador Marcelo Déda chegou a Sergipe por volta das 16h30 (horário local) e foi levado em carro aberto pelo Corpo de Bombeiros, do aeroporto até o Palácio-Museu, no Centro da capital. Desde a saída, centenas de pessoas se reuniram nas calçadas por onde o veículo passou para homenageá-lo. “Olê, olê, olê, olá, Déda, Déda” foi o som mais ouvido enquanto ele passava, assim como aplausos. Muitos aplausos.

Na chegada à Praça Fausto Cardoso, onde está localizado o museu, revitalizado no primeiro governo dele, pétalas de flores foram lançadas de um helicóptero. Centenas de pessoas já o aguardavam no local (leia mais aqui). A presidente Dilma Rousseff (PT), o ex-presidente Lula (PT), o governador Jacques Wagner (PT/BA) e o prefeito Fernando Haddad (PT/SP) participaram da missa.

O velório foi aberto para visitação pública às 21h30. O horário de visita se estenderá até o meio dia desta terça-feira (3). O corpo de Marcelo Déda será levado à capital baiana, Salvador, onde será cremado.

Texto e foto reproduzidos do site: brasil247.com/pt/247/sergipe247

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 3 de dezembro de 2013.

Déda Representou a Renovação da Política Sergipana


G1 Sergipe, 02/12/2013.

Déda representou a renovação da política sergipana, diz cientista político
Hélder Teixeira diz que ‘Sergipe perde o seu grande líder do século XXI’.

Fredson Navarro
Do G1 SE.

O cientista político Helder Teixeira recordou a trajetória do governador de Sergipe Marcelo Déda de 53 anos, morreu às 4h45 desta segunda-feira (2) no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde estava internado para tratar de problemas decorrentes de câncer no estômago e no pâncreas. Ele lutava contra a doença havia quatro anos. A informação foi confirmada pelo hospital.

Déda foi deputado estadual, deputado federal, prefeito de Aracaju durante seis anos e governador de Sergipe por sete anos. Foram 13 anos enquanto chefe do executivo. “No Brasil quando se fala em Sergipe é dele que é lembrado”, afirma Helder.

Para Teixeira, Déda foi eleito prefeito de Aracaju de forma espontânea onde a militância, ideologia e a crença venceram. “Ele começou atrás das pesquisas, mas acabou ganhando. Quando ele é reeleito em 2004 aí já temos o princípio da mudança que começou a gerar críticas e romper com algumas lideranças no partido”, analisa.
Ainda de acordo com o cientista, mesmo com algumas mudanças a partir desse momento, Marcelo Déda passa para a história enquanto governador mais próximo da sociedade sergipana com características pessoais que mesclava ética e gerenciamento.

De acordo com Helder, Déda representou a proposta de renovação que se fez concreta do século XX para o século XXI em Sergipe por ter pertencido a geração que nasceu, cresceu e amadureceu durante a ditadura e por não ter vivido parte da sua juventude na plenitude democrática, ele lutou por isso que sempre foi a proposta dele enquanto homem público desde quando iniciou a sua trajetória política no início da década de 80 com a proposta de renovar e oxigenar a politica sergipana.

“A renovação foi confirmada em 2006 quando Déda derrotou João Alves Filho (DEM), o então governador do estado. Na época, muitos não acreditavam na sua vitória que foi a última legitimada dele. Em 2010 ele enfrentou dificuldades para ser reeleito. O PT não esperava perder a eleição na capital. O câncer se manifestou e comprometeu a sua gestão. A saúde dele foi comprometida e atrapalhou a sua capacidade de reflexão e estratégia”, recorda.

O cientista político disse ainda que Déda passou a ser mais contestado pelos aliados e militantes do PT mas conseguiu reverter alguns quadros. Na sua reeleição, ele ganhou a apatia do eleitorado quando se aliou aos irmãos Amorim. A aliança comprometeu a reeleição e ele quase foi para o segundo turno.

Em 2012, a derrota começou quando o grupo liderado por Déda não conseguiu lançar a candidatura de Rogério Carvalho (PT) à Prefeitura de Aracaju. No momento, o grupo apoiou a candidatura de Valadares Filho (PSB) que fazia parte dos partidos aliados. Mesmo com o apoio de Déda, Valadares foi derrotado no primeiro turno por João Alves Filho. “Ele reconheceu a derrota na capital, fato que ocorreu pela primeira vez em 2010 quando Dilma também perdeu. Foi a reposta da sociedade sergipana. A forma de governar não estava mais agradando e a entrada do grupo Amorim comprometeu. Este foi o momento mais difícil da sua vida política. Ele ainda tentou recuperar com o rompimento e enfrentou dificuldades para a aprovação do Proinveste”, lembra Helder.

Para o cientista, Jackson Barreto (PMDB) mantém a proposta de governo de Déda.
A última derrota que Déda sofreu foi dentro do próprio partido neste ano quando apoiou a candidatura de Marcio Macedo para a presidência estadual do PT. Na ocasião, ele foi para o segundo turno com Rogério Carvalho. Ana Lúcia também foi candidata. Sem apoio, Marcio acabou retirando a candidatura e Carvalho foi eleito.
Helder Teixeira acredita que Déda não deixou um herdeiro político. “Ele seria o nome do grupo para disputar a vaga no Senado em 2014. Não ficou um nome óbvio para disputar a cadeira. Rogério Carvalho, Marcio Macêdo, Silvio Santos e Edvaldo Nogueira sempre tiveram o apoio de Déda, mas nenhum ficou como o seu herdeiro. O PT deve se mobilizar”, acredita.

O cientista disse ainda que a Déda não deixa uma grande obra física. “Suas ideias e forma de governar que vão ficar. Ele teve comprometimento de um governante ético com o seu povo e deixa esse legado”, reconhece.

“Mas os sergipanos conseguiram separar o homem público e o ser humano, nesta fase da doença todos se uniram para torcer pela vitória dele”, garante.

Foto: Reprodução GloboNews.
Imagem e texto reproduzidos do site: g1.globo.com/se

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 3 de dezembro de 2013.

Homenagem de Clara Angélica Porto a Marcelo Déda

Foto: Divulgação.
Reproduzida do site jornaldehoje.com.br

Vai-se Deda, o Marcelo dos votos beijados. Foi assim que o apresentei a pessoas em Nova York, quando aqui esteve, há alguns anos, para um evento da Embratur, líder de uma comitiva que incluía João Augusto Gama, durante a primeira administração como governador. Diante da surpresa das pessoas com a minha introdução, sentia um orgulho enorme contando a história da primeira eleição de Deda, quando perdeu centenas de votos, anulados pelos beijos de baton vermelho nas cédulas eleitorais. Mesmo assim, teve votos suficientes para levar de roldão o outro Marcelo, o Ribeiro, tão brilhante quanto, tão poeta quanto, mas muito menos popular politicamente.

A Veja apressou-se a fazer matéria com o deputado estadual mais votado proporcionalmente do país. Além de tudo, Marcelo Deda era também, de longe, o mais bonito. Era lindo. Tinha olhos de luz, de um tom castanho claro e muitas vezes umedecidos na emoção das palavras. Como gostava das palavras e como sabia usá-las. Na poesia, na imagem, no discurso fácil e no improviso, na vida. No evento de Nova York, seu discurso impressionou muito mais do que o de Aécio Neves e as pessoas se perguntavam ‘quem é esse que fala tão melhor do que Aécio’? E eu, sergipana, doendo de orgulho dele. Consegui levar uma TV a cabo para entrevistá-lo em português, para um programa de brasileiros, fiz uma pergunta qualquer, mas a isca serviu o objetivo: repórteres de outras TVs e rádios, ao verem as câmeras em Deda, correram e todos tinham perguntas. E ele comportou-se diante das câmeras como sempre soube fazer, com maestria, com charme e propriedade. Quem o conhecia, sabia: nasceu para brilhar.

Antes de Deda, um outro político sergipano chegou às páginas da Veja como campeão proporcional de votos no país, Jackson Barreto. Era a época áurea do É Já, É Jackson!, e Jackson, com aquela cara de bom menino da vizinhança, era o político mais querido de Aracaju, idolatrado nos bairros da periferia, Jackson era mesmo o 'namoradinho' da cidade. O tempo passou, Marcelo Deda seguiu seu irreversível caminho político, por ele traçado desde o início, com a bênção do compadre Lula: deputado, prefeito e governador. No segundo mandato de governador, levou junto a importância política e a pessoa de outro campeão, Jackson Barreto, como vice-governador. Jackson, a partir de hoje, torna-se oficialmente Governador do pequeno estado de Sergipe, cargo para o qual será muito provável e merecidamente reeleito. Mas isso é só um processo que há de vir.

Hoje, o que existe é essa realidade, de que Marcelo Deda, o poeta, o menino lindo, o politico inquieto, o homem, o pai, se foi, tão prematuramente, que apesar de já estar na batalha contra a vida e a morte há vários meses, a notícia ainda assim surpreende, maltrata e dói. É triste saber que Marcelo Deda não mais existe. Este foi um ano difícil em Sergipe, perdemos algumas pessoas muito queridas repentinamente, perdemos Siomara, Sérgio Botto, Emanuel, e agora, perdemos Marcelo Deda. Todas, mortes prematuras. Foi um ano de muitas dores e perdas. Eu sinto muito, eu sinto tanto, que já nem sinto… é como se estivesse anestesiada. Está muito frio lá fora e aqui dentro está tudo muito, muito dolorido.

Texto reproduzido de postagem de Clara Angélica Porto, na página do 
Facebook/Minha Terra é SERGIPE, de 2 de dezembro de 2013.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Marcelo Déda Chagas (1960 - 2013)


Marcelo Déda Chagas (1960 - 2013).

Sua raiz política.

Marcelo Déda Chagas nasceu em 11 de março de 1960, na Rua Cônego Andrade, 182, na cidade de Simão Dias, situada a 110 km de Aracaju. É o mais novo de uma família de cinco irmãos, cujos pais são o senhor Manoel Celestino Chagas e dona Zilda Déda Chagas.

A infância de Marcelo Déda em Simão Dias foi marcada pelas brincadeiras de rua, cuja relação com a natureza era muito forte. Os brinquedos eram comprados dos artesãos ou fabricados pelas próprias crianças. A principal característica dessa época era a vida ao ar livre, em um período que a violência não era algo ameaçador.

Durante os anos de ensino fundamental, Déda freqüentou uma das instituições mais tradicionais do interior de Sergipe - o Grupo Escolar Fausto Cardoso - na Praça Barão de Santa Rosa em Simão Dias. Em 1969, seus pais foram morar em Aracaju e o caçula continuou no interior com sua tia Eunice Oliveira. Mulher muito religiosa, foi responsável pela formação católica do sobrinho que chegou a ser coroinha ao lado do Monsenhor João Barbosa, na Matriz de Nossa Senhora Sant'Anna.

Déda ajudava nas missas e nos ritos. Ele relembra com carinho histórias que marcaram essa fase. "Meus amigos sempre diziam que o espírito do Padre Madeira, que havia sido enterrado na própria igreja, aparecia para as pessoas que estivessem lá. Por isso, eu tinha muito medo de fechar as portas do templo, quando todos já tinham ido embora, e de ser o primeiro a chegar, às 5h30 da manhã, para bater o sino".

Em 1973, aos 13 anos, ele deixou a cidade para estudar em Aracaju, no Atheneu Sergipense, tradicional escola pública. Sua família se instalou no bairro São José, onde seus pais moram até hoje. A paixão pela literatura veio mais tarde, aos 15 anos de idade, quanto teve contato com a biblioteca do avô José de Carvalho Déda, um autodidata conhecido como Zeca. Apesar de ter convivido muito pouco com o avô, pois ele morreu quando Marcelo Déda tinha apenas oito anos, as influências foram decisivas na sua formação.

Escritor e jornalista, Zeca Déda havia sido eleito três vezes deputado estadual. Nos anos 50, no entanto, encerrou sua participação política. O menino Déda ainda nem havia nascido. Apesar de não ter convivido com o avô nesta época, o seu senso de justiça foi transferido para o neto, que começou a coletar depoimentos sobre o avô e a ler seus livros discursos registrados em diários e jornais. "Mesmo ausente meu avô teve uma grande influência no meu caráter. Ele me deixou um grande legado", conta orgulhoso o governador.

Déda estudou no Colégio Atheneu até a conclusão do 2º Grau. Nessa fase, conheceu Edgar Barbeiro, um comunista que, para ele, se confundia com a esquerda de Sergipe. Começou a ler os livros de Jorge Amado, textos de esquerda e acompanhar a eleição de 1974. Foi o início da sua paixão pela política, alimentada pela leitura de jornais alternativos da época como "Pasquim", "Movimento" e "Opinião".

O primeiro movimento reivindicatório que Marcelo Déda participou e a primeira greve aconteceram no Colégio Atheneu em 1979, quando ele mobilizou os colegas do terceiro ano contra a compra da farda de gala no final do antigo 2º grau, período em que os alunos já estavam deixando a escola, por considerar um desperdício tal investimento só para o desfile de sete de setembro. A união entre sua turma e a turma da manhã culminou numa suspensão e todos foram obrigados a desfilar no dia comemorativo, mas com a farda comum.

Ainda no Atheneu, Déda engajou-se nos movimentos culturais. Em 1977, foi presidente do cineclube do Colégio Atheneu Sergipense. Foi cineasta amador na Bitola Super/8mm, e em 1979 chegou a ser condecorado com o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema Amador de Sergipe. Na área cinematográfica, fundou com amigos o Cine Clube do Diretório Central dos Estudantes (DCE) já na Universidade Federal de Sergipe (UFS), onde cursou Direito entre os anos de 1980 e 1984.

Sua militância política teve início no Movimento Secundarista. Apesar de aprovado em segundo lugar no vestibular de Direito da UFS, antes de escolher este curso, Déda pensou em estudar Jornalismo e Psicologia, que não existiam na época, e também História. Seu contato com o DCE da UFS foi feito na época de existência do grupo político estudantil de esquerda chamado Atuação. Em 1978, Déda já freqüentava os seminários, as conferências e os congressos que o DCE promovia.

Ainda no Atheneu concorreu ao Centro Cívico com a chapa Ação, e foi derrotado. Sem mandato, ele montou, com outros jovens de escolas públicas e privadas, um grupo que tinha o objetivo de reconstituir o Movimento Secundarista e a sua principal entidade, a USES (União Sergipana dos Estudantes Secundaristas), na época proibida pelo Regime Militar.

Em 1979, começou a trabalhar com seus companheiros na criação do PT (Partido dos Trabalhadores), durante a reforma partidária no final do governo Figueiredo.
O DCE foi o início de uma militância mais ativa, articulada e fundamentada na política. Neste período, ele conciliava os estudos, o trabalho e a militância no Movimento Estudantil e na Fundação do PT. Trabalhou como professor de Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e Educação Moral e Cívica (EMC) e foi estagiário do Banese.

Um universitário com sede de conhecimento.

Na Universidade, Marcelo Déda viveu com uma geração de professores extraordinários dentre os quais sempre destaca Luiz Alberto dos Santos, atual secretário de Estado da Cultura, Josué Modesto dos Passos Sobrinho, professor de Economia eleito recentemente para o cargo de reitor da UFS; Adélia Moreira Pessoa, professora de Introdução ao Estudo do Direito; e Ibarê Dantas, professor de Ciências Políticas, historiador e atual presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGS).

Com Ibarê, Déda conheceu Gramsci que, segundo ele, foi fundamental para mudar sua imagem de mundo e entender melhor a disputa política no Ocidente. "Meu modelo de pensar resistiu intensamente a incorporar esses novos valores e a trabalhar com essas novas categorias. Porém, na prática de construção do PT, aprendi a valorizar intensamente os ensinamentos gramscianos e de outros chamados marxistas heterodoxos, pessoas que pensaram o marxismo e o socialismo por outros paradigmas".

Marcelo Déda aliava os debates, os estudos e os conhecimentos acumulados à prática, e à luta do povo brasileiro por democracia, liberdade e pelo fim do Regime Militar.

Enquanto estudante, Déda também esteve engajado nos movimentos sociais daquele período. Apoiou os índios Xocó; e em Santana dos Frades esteve ao lado dos posseiros expulsos por fazendeiros na Coroa do Meio, bem como na luta contra a destruição das barracas dos pescadores.

Para Marcelo Déda, a Militância Estudantil não podia ser meramente corporativa, mas global. Seu foco seria na universidade, com a militância vinculada diretamente às lutas do povo pela derrubada da ditadura no Brasil e pela construção de um país justo e igualitário.

Déda e a fundação do PT.

Com uma câmara Super 8, Marcelo Déda filmou em 1981 a segunda visita de Lula ao Estado de Sergipe. A primeira deu-se em 1978, quando o atual presidente da República ainda era dirigente sindical. No carnaval de 81, também filmou toda a luta de Santana dos Frades - os jagunços armados, a retomada dos posseiros, a missa rezada por D. José Brandão.

Nesse período também ocorre a fundação do PT. Esses filmes são exibidos no interior de Sergipe ou em Aracaju. As pessoas assistiam às cenas e a partir dessas exibições faziam os debates.

"O Movimento Social de maior peso que apostou na construção do PT, foi o Movimento Estudantil da UFS, na época dirigido pela tendência Atuação, que tinha derrotado em duas eleições consecutivas o pessoal que articulava com a chapa Construção, vinculada ao PCB, na época", relata.

Em 1982, na primeira eleição do PT, Déda é lançado candidato a deputado estadual. Estava com 22 anos e obteve apenas 300 votos. "A prática mostrou que a política não era tão fácil assim. Não basta você ter certeza da sua verdade, é preciso que as outras pessoas acreditem nela".

Entre 1980 e 1981, Déda foi aprovado em concurso para trabalhar no CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura). Dividido entre o trabalho, os estudos, a militância política e a família, ele reduz significativamente sua militância no Movimento Estudantil, saindo do DCE e passando a atuar no CONSU (Conselho Universitário) e no CONEP (Conselho de Ensino e Pesquisa). "Foi a primeira vez que ocupei uma cadeira num ‘parlamento'", diz brincando.

Em 1984, explodiu a campanha das Diretas. Naquele momento, Marcelo Déda ingressou no processo de mobilização e começou a participar de comícios em todo Estado. Para ele, o Brasil descobriu nessa campanha que era possível fazer política com alegria, sem ódio. No dia 26 de fevereiro de 1984, um comício reuniu mais de 30 mil pessoas em Aracaju com as presenças de grandes nomes da política brasileira como Lula e Ulisses Guimarães.

Déda é pai de cinco filhos, sendo três filhas (Marcela, Yasmim e Luísa), do primeiro casamento, João Marcelo e Mateus, fruto de sua união com a repórter-fotográfica, Eliane Aquino, primeira-dama do Estado, que sempre marcou sua atuação pela defesa dos direitos das crianças e dos adolescentes menos favorecidos. No Governo de Sergipe, ela é responsável pelo Comitê de Políticas Públicas Integradas, que cuida da integração dos projetos na área social.

Déda e o sonho de um Sergipe Novo.

Em 1985, acontecem as eleições para prefeito em Aracaju. A conjuntura política da época foi determinante para que o PT resolvesse lançar Marcelo Déda, aos 25 anos de idade, candidato a prefeito de Aracaju. Todos os dias, às 11 horas, ele saía para fazer o horário eleitoral ao vivo por conta das dificuldades financeiras. "A lei me facultava fazer ao vivo, então eu ia cru, pregava uma bandeira com durex e estava pronto o cenário do ‘ao vivo'. Aquilo que era uma desvantagem virou uma vantagem porque me transformei no âncora do programa eleitoral, comentando criticamente o programa dos meus adversários".

A campanha decolou. Segundo Déda, era impressionante a quantidade de jovens em busca de material do partido. Com apenas 5 mil cartazes e um Passat, funcionando como carro de som, vários atos e caminhadas foram realizados. Marcelo Déda conquistou o segundo lugar nas urnas com aproximadamente 19 mil votos, levando petistas e não-petistas à passeata de comemoração pelas ruas da cidade.

Um ano depois de concorrer pela primeira vez nas eleições municipais, Marcelo Déda é eleito deputado estadual com mais de 32 mil votos. Em 1990, quatro anos depois da votação estrondosa, Déda conseguiu apenas 10% disso e não se reelegeu. Em 1994, porém, voltou às campanhas eleitorais e candidatou-se à Câmara Federal, sendo eleito deputado com 26 mil votos, o último de uma bancada de oito. A reeleição veio em 1998 com 83 mil votos, a segunda maior votação proporcional do Brasil.
Na Câmara Federal teve atuação destacada, com grande presença nos debates e inserção na mídia nacional, chegando à liderança da bancada do PT e do Bloco de Oposição.

Em 26 de maio de 2000, Marcelo Déda ingressa no processo eleitoral como candidato a prefeito de Aracaju, sendo um dos últimos colocados nas pesquisas. Contudo, a campanha decolou e Déda começou a crescer nas pesquisas, ganhando a eleição ainda no primeiro turno, com 52,80% dos votos válidos, ao lado do então vice-prefeito Edvaldo Nogueira.

A gestão municipal de Marcelo Déda levantou as bandeiras da participação popular e da inversão de prioridades, que, através de ações articuladas, tornaram-se marcas da sua administração. Para o então prefeito, o grande desafio era implementar um modelo de governo que não esquecesse os mais pobres, desenvolvendo políticas públicas de inclusão social. Era a periferia aos poucos mudando de cara. Era a cidadania acessível a todos, sem que se abandonasse os bairros ditos nobres, conservados com zelo.

Déda também consolida a atuação em defesa dos interesses dos municípios brasileiros, que já havia sido demonstrada enquanto ainda era deputado federal, se alinhando aos prefeitos de todo o Brasil em manifestações que chegaram a ser reprimidas no Palácio do Planalto, pelo governo de então. A atuação destacada leva o então prefeito de Aracaju a assumir o comando da Frente Nacional de Prefeitos (FNP), que redefiniu o poder de interlocução dos municípios junto ao Governo Federal, com reflexos até os dias atuais.

Em 2004, Déda foi reeleito prefeito de Aracaju com 71,38% dos votos válidos, o que lhe garantiu a vitória com ampla vantagem sobre a segunda colocada Susana Azevedo (PPS), que ficou com 18,05% dos votos válidos. A vitória ficou marcada na trajetória política de Déda, o prefeito eleito no primeiro turno com o maior número de votos, proporcionalmente, no país. Os princípios de sua primeira gestão continuaram a direcionar as ações do governo municipal. Em cinco anos e três meses, Marcelo Déda transformou Aracaju na capital nordestina da qualidade de vida, conforme pesquisa da Fundação Getúlio Vargas.

No dia 31 de março de 2006, Déda renunciou ao mandato de prefeito de Aracaju para encarar a disputa pelo governo do Estado. Em vitória histórica, que simbolizou uma mudança no cenário político sergipano, Marcelo Déda é eleito governador do estado de Sergipe com 52, 48% dos votos, ao lado do vice-governador Belivaldo Chagas, também simãodiense. Em sua bagagem política, o atual governador coleciona títulos, mas se orgulha, sobretudo, de ser ator da transformação social, e líder de um grande desafio: construir um novo Sergipe.

"Podemos hoje, sergipanos de um novo tempo e de um novo século assumir o desafio de retirar as pedras do caminho e abrir novas estradas para o progresso, a paz e a prosperidade, usando com a simplicidade dos sábios, os mais singelos dos instrumentos de que o criador nos dotou: 'duas mãos e o sentimento do mundo.'" (Trecho do seu discurso de posse na Assembléia Legislativa, janeiro de 2007).

Em 2010, Déda foi em busca da reeleição, tendo, agora, como vice-governador, seu fiel amigo Jackson Barreto de Lima, objetivando dar continuidade ao projeto de Governo que vinha dando bons frutos e sendo abraçado pelo povo sergipano. Como consequência do trabalho, o resultado do pleito em outubro daquele ano não foi diferente: Déda reeleito com 52,08%.

Texto reproduzido do site: agencia.se.gov.br
Foto reproduzida do site: maisgloria.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 2 de dezembro de 2013.

Marcelo Déda Chagas (1960 - 2013)

Aracaju, 02 de Dezembro de 2013.

Falece o governador Marcelo Déda

Ele morreu na madrugada desta segunda-feira, 2, por volta das 3h30, em decorrência de um câncer gastrointestinal

É com pesar que o Governo de Sergipe anuncia o falecimento do governador Marcelo Déda Chagas (PT). Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, e lutava contra um câncer gastrointestinal há um ano e três meses. Segundo nota oficial do hospital, Déda faleceu por volta das 3h30 da madrugada desta segunda-feira, dia 2, após apresentar piora progressiva de seu estado de saúde no último sábado, dia 30 de novembro. O corpo do governador será velado no Palácio-Museu Olímpio Campos. O Governo do Estado anunciará em breve o horário do velório (será aberto a população) e sepultamento, para que familiares e sergipanos deem o último adeus ao governador.

Déda realizou uma verdadeira batalha pela vida, sempre recebendo forças de sua companheira de todas as horas e seu pilar de sustentação, Eliane Aquino. Ao longo dos meses, entre sessões de quimioterapia e radioterapia no Sírio-Libanês, Déda demonstrou perseverança e nunca se permitiu abater pela doença, deixando o povo sergipano sempre atualizado com mensagens positivas em seu perfil numa rede social.

Dois meses depois do início do tratamento, Déda optou por retomar as atividades administrativas, alegando que o “limite do trabalho é o limite da sua resistência, com fé na vida, esperança e vontade de continuar oferecendo sua contribuição ao povo sergipano”.

Déda afastou-se do cargo de governador em 27 de maio deste ano para dedicar maior atenção a seu tratamento de saúde, transmitindo sua função ao vice-governador Jackson Barreto (PMDB), o qual vem conduzindo as ações do Executivo estadual desde então.

No último dia 29 de junho, Déda foi submetido a uma cirurgia para extração do baço, cujo procedimento ocorreu de forma satisfatória, deixando a UTI no dia 6 de julho e recebendo alta-médica do hospital Sírio-Libanês no dia 24 daquele mesmo mês. As sessões de quimioterapia continuaram, e com elas, a fé e os votos de recuperação emanados pelos sergipanos.

Marcelo Déda tinha 53 anos, deixa cinco filhos, sendo três filhas (Marcela, Yasmim e Luísa), do primeiro casamento, e dois filhos (João Marcelo e Mateus), frutos de sua união com a repórter-fotográfica, Eliane Aquino, primeira-dama e secretária de Inclusão Social.

Reconhecimento

Reconhecido nacionalmente por sua envergadura política e capacidade intelectual de primeira grandeza, Déda sempre foi muito querido não somente dentro do Partido dos Trabalhadores (PT) – sigla a qual ajudou a fundar em Sergipe –, mas por colegas de outras legendas partidárias, recebendo elogios veementes por sua conduta ética e moral ao longo de sua estrada política e pessoal, além do seu poder de retórica, do discurso pomposo e impávido.

Nos últimos dois meses, entre mensagens e orações de amigos e familiares, Déda recebeu as visitas do ex-presidente da República e seu compadre, Luiz Inácio Lula da Silva, e da atual presidenta Dilma Rousseff na capital paulista, numa demonstração de carinho, reconhecimento e solidariedade ao companheiro de tantas lutas...

Texto reproduzido do site: agencia.se.gov.br
Foto: Marco Vieira/ASN.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 2 de dezembro de 2013.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Coronel Gonçalo Rollemberg do Prado

Coronel Gonçalo Rolemberg Prado (Fonte Cadastro de Sergipe 1949).
Imagem e legenda de Paulo Roberto Dantas Brandão.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 29 de novembro de 2013.

Coronel Josias Vieira Dantas

Desejo publicar fotos de figuras de Sergipe que poucos conhecem a imagem. A começar por Josias Dantas, empresário em Maruim (Fonte Cadastro de Sergipe 1949). 
Imagem e legenda de Paulo Roberto Dantas Brandão.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 29 de novembro de 2013.