segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Manoel de Oliveira Martins

Fundador da primeiro frota de ônibus de Sergipe
Por Alessandra Franco.



Falar de Manoel de Oliveira Martins é rememorar a história da capital sergipana. Nos idos dos anos 40, quando o 'pequeno, mas arrumadinho'¹ comércio da cidade concentrava-se nas ruas João Pessoa, José do Prado Franco, Itabaianinha, Laranjeiras e São Cristóvão, o jovem de visão promissora para os negócios deixou sua marca.

Um dos pioneiros a promover o desenvolvimento social e econômico de Aracaju, deixou um importante legado ao transporte público da cidade. Foi pelas suas mãos que os primeiros ônibus começaram a fazer o transporte de passageiros. Ainda em madeira, a frota dos 'gostosões', como eram chamados os veículos dada a sua beleza e conforto, substituiu os bondes elétricos que saíram de circulação no ano de 1956.

É justamente essa época que o Setransp pretende reviver com a terceira edição do Prêmio de Jornalismo. Essa viagem pelo tempo servirá para trazer, ao momento presente, detalhes históricos que as novas gerações desconhecem, além de fazer uma justa homenagem a um sergipano de mente brilhante.

Comércio

Nascido no município de Maruim, em 29 de novembro de 1896, Manoel de Oliveira Martins, o Oliveira Martins, como era conhecido na cidade, começou a vida como marinheiro - alistou-se na Marinha de Guerra no ano de 1912. Em uma das inúmeras viagens que fez, ao desembarcar novamente em Sergipe, decidiu abandonar a carreira militar e entrar para o ramo dos negócios.

Com o dinheiro que conseguiu economizar, fez o primeiro investimento ao montar um armazém de secos e molhados, na Rua Laranjeiras. Logo as vendas prosperaram e ele resolveu investir também no ramo de combustíveis automotivos. Com esse novo comércio - que começou com uma única bomba e logo evoluiu para um posto construído nas proximidades de onde hoje se localiza o Grand Hotel, no Centro de Aracaju -, conseguiu dinheiro para comprar vários terrenos na região. Nos locais, abriu outros negócios como filiais do armazém e prédios de hospedaria.

Enquanto isso, a cidade se movimentava sobre os lentos, porém charmosos, bondes elétricos. Os veículos transitavam pelas ruas de Aracaju fazendo o transporte de pessoas entre os bairros Industrial, Santo Antônio, 18 do Forte, Siqueira Campos e Centro. Em meados dos anos 50, no entanto, ao saírem de circulação, os bondinhos deixaram uma lacuna que só começou a ser preenchida a partir de uma ousada iniciativa de Oliveira Martins.

Após uma viagem ao Rio de Janeiro, conseguiu convencer um marceneiro carioca a acompanhá-lo até Sergipe. Aqui, com a ajuda desse profissional, em um galpão situado à Rua Apulcro Mota, começou a construir a primeira frota de ônibus de Sergipe, a ETU – Empresa de Transporte Urbano São José, com sede na Avenida Airton Teles.

Perfeccionista, juntamente com o empregado, trabalhou dia e noite para deixar os ônibus impecáveis. Ficaram tão bonitos e modernos para a época que foram apelidados de "Os gostosões de Oliveira Martins". Os veículos já possuíam, além do motorista, catraca e cobrador, e passaram a fazer as linhas que, anteriormente, eram feitas pelos bondes.

Viagem à Europa

Aventureiro e empreendedor, Oliveira Martins integrou a comitiva que saiu de Sergipe rumo à Europa na década de 70, naquela que foi considerada a primeira excursão de turismo do Estado. A viagem ampliou os horizontes e aguçou a visão empreendedora dos que dela fizeram parte.

Não por acaso, vários dos nomes que estavam no grupo marcaram o desenvolvimento de Sergipe, tais como Júlio Prado Vasconcelos, pioneiro no ramo de supermercados no Estado; Carlos Mascarenhas, agente da companhia aérea Cruzeiro do Sul; e Robson Santos, dono da Robson Turismo, 1ª empresa de turismo sergipana.

Mudança de Ramo

Com o passar dos anos, Oliveira Martins não estava mais sozinho no ramo de transporte de passageiros. A concorrência de empresas mais modernas o fez abandonar o negócio optando por um cotidiano mais tranquilo. Juntamente com a família, recolheu-se em um sítio localizado na Barra dos Coqueiros, onde se dedicou ao cultivo e à venda de coco verde.

Com o negócio adquiriu outras propriedades e colaborou para o desenvolvimento do município com a geração de empregos e a construção de pontes. Amante da natureza, criou também uma espécie de refúgio que ainda hoje é mantido pela família. No local, criou aves, peixes, preservou a vegetação nativa e viveu intensamente, celebrando a vida até seus últimos momentos.

Avenida Gostosão

Ao deixar a lida com o transporte de passageiros, Oliveira Martins reuniu os antigos ônibus em um terreno cravado no bairro 18 do Forte. A localidade ficou conhecida como Avenida Gostosão e os veículos acabaram servindo de moradia para pessoas desfavorecidas economicamente.

A rua que ganhou fama por abrigar parte da história da capital sergipana, na realidade, chamava-se Manoel Carvalho Neto. Desde 6 de março de 2001, no entanto, por força da Lei 2.907, sancionada pelo então prefeito de Aracaju, Marcelo Déda, foi rebatizada como Manoel de Oliveira Martins.

Trata-se de um trecho de rua que guarda muito mais que um nome, uma honrada história de vida cujo legado se reverencia no cotidiano da cidade, no ir e vir de cada cidadão.

Iate Clube

Dono de uma vitalidade invejável, Oliveira Martins sabia aproveitar a vida como poucos. As festas que costumava promover, principalmente em celebração ao seu aniversário, eram assunto das rodas sociais durante dias. E não era pra menos. As comemorações duravam até o dia raiar e eram marcadas por discursos e homenagens regadas a muita música, comida e bebida farta.

Nas horas vagas, um de seus lugares favoritos era o Iate Clube de Aracaju, cuja sede ajudou a construir adquirindo 15 títulos ao valor unitário de Cr$ 5 mil, em agosto de 1958. Sócio de número 57, Oliveira Martins era uma figura imponente. Com seu indefectível terno branco, deixou um lastro de seriedade e respeito até hoje reverenciada.

Herdeiros

Oliveira Martins casou-se, pela primeira vez, na década de 20, com Marieta Lima de Oliveira. Dessa união, frutificaram sete filhos: Maria, Raimundo, Geraldo, José Serapião, Zélia, Guido e Adailton. Todos já falecidos.

Ao ficar viúvo, teve outros dois filhos, Vera (falecida) e José Roberto. Alguns anos depois, em 24 de fevereiro de 1976, oficializou a união com Maria Lúcia Viana Martins, com quem teve mais quatro filhos: Manoel, Amélia, Tânia e Acácia.

Toda sua vitalidade, no entanto, foi vencida por problemas vasculares. Aos 83 anos, em 23 de dezembro de 1979, Manoel faleceu, vítima de trombose. Seu corpo foi enterrado no cemitério Santa Isabel.

Passados 21 anos, em 04 dezembro do ano 2000, a atual sede do Setransp foi inaugurada, no Distrito Industrial de Aracaju, sendo, oportunamente, batizada de Manoel de Oliveira Martins.

* Texto produzido por Alessandra Franco, jornalista e gerente de Comunicação & Marketing do Setransp, com informações obtidas através de familiares e do memorialista Murilo Melins, que conheceu Manoel de Oliveira Martins na infância/ adolescência através de uma grande amizade que surgiu com Geraldo, um dos filhos de Oliveira Martins.

1 – Expressão tirada do livro 'Aracaju Romântica que vi e vivi – anos 40 e 50', de Murillo Melins.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 13 de outubro de 2013.

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