sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Mercado


Publicado originalmente no Facebook/Petrônio Gomes, em 18/02/2015.

O Mercado.
Por Petrônio Gomes.

Creio poder incluir-me entre os que podem falar com base, a respeito do nosso Mercado Municipal, já pelos invernos que juntei até agora, já pela experiência adquirida, pois minha infância e meus primeiros anos de jovem estudante decorreram nas vizinhanças do Mercado, quando ainda existia o saudoso Colégio Nossa Senhora de Lourdes, do qual tenho a honra de ter sido aluno, embora numa idade em que não sabia onde estava e nem o que estava fazendo.

Fui um dos pequenos fregueses do seu Sérgio, que vendia o caldo de cana mais delicioso de Aracaju, com seus copos de vidro grosso que descansavam na parede, enfiados num paliteiro de madeira. Fui também o cliente assíduo do seu Xavier, um velhote simpático e falador, quase do meu tamanho, que gostava de me afagar a cabeça quando me entregava o pacotinho de bombons de mel de abelhas.

Ao contrário do seu Sérgio, o velhote Xavier vendia de tudo em sua loja. Era engraçado como se arrumavam as mercadorias em todas as casas: vassouras amarradas junto da porta de entrada, rolos de arame no chão, latas de querosene também à vista, lampiões dependurados, além de um pequeno armário com portinha de vidro sobre o balcão, para os artigos comestíveis, incluindo os meus bombons. Enfim, eu sabia onde ficavam as lojas do meu interesse exclusivo, como a que vendia as flechas dos meus papagaios de papel e as pequeninas bolas de vidro para o jogo do “marraio”...

Aquele relógio central do Mercado, que felizmente não demoliram, era o meu companheiro, desde a hora em que eu recolhia o velocípede e os seus quatro mostradores se iluminavam para a vigília silenciosa da noite. Ele informava as horas com uma precisão que vocês não iriam acreditar se eu lhes contasse!

Quando a tarde começava a declinar, meu passatempo favorito era acompanhar a chegada dos saveiros, com suas velas enormes, oscilando sobre a água, brinquedos do vento. Sentado sobre a balaustrada, um pacote de roletes de cana em punho, eu assistia à derradeira manobra dos tripulantes para amarrar os pesados barcos no cais.

Pouco depois, era a hora da descida das portas de ferro do Mercado, um ritual melancólico e silencioso como o cair da tarde. Cansados da lida, os feirantes se despediam uns dos outros, arrastando os calçados gastos em direção de casa. Quando a noite descia, apenas o relógio espalhava a sua luz tênue sobre os telheiros do Mercado.

Voltando a Aracaju, muitos anos depois, continuei a visitar frequentemente o Mercado, pois minha vida continuou girando em torno do mesmo ambiente, se bem que agora modificado. A cidade havia crescido mais do que eu poderia imaginar e seus habitantes haviam dobrado de número. Por uma curiosa ironia, voltei a percorrer os mesmos lugares de antes, quando menino, só que agora levado pelo dever e por outros motivos. Assisti, portanto, ao início da decadência do velho Mercado, como se ele estivesse esperando meu regresso para começar a morrer.

Foram-se avolumando os problemas, cada vez mais desafiadores. Conheci de perto o dr. Aloísio Campos, homem ilustre e de poucas palavras, o criador do Ceasa, a primeira tentativa séria para descongestionar o antigo ponto de abastecimento da Capital. Para solucionar o problema do Mercado, a providência teria de ser das mais enérgicas, pois toda a área em volta já exigia um desafogo para o trânsito, de vez que as barracas e as bancas improvisadas já se haviam esparramado pela redondeza.

O epílogo de toda esta história é conhecido dos aracajuanos. Na gestão do Prefeito João Gama, o novo Mercado foi erigido “na marra", como diz o povo. E não era possível esperar “consenso” , como não se pode aguardar bom tempo para uma cirurgia de vida ou morte.

Novamente fui o espectador silencioso dessa operação radical a que foi submetido o “Thales Ferraz”. Um dos espetáculos gratuitos foi a fuga das ratazanas, aos milhares. Toda a imundície que se havia enterrado entre as velharias do Mercado foi, aos poucos, desaparecendo. Um novo trecho do rio Sergipe, exatamente o mais poético, o mais pitoresco, apareceu diante dos olhos dos aracajuanos. Aliás, o mais velho trecho do rio, que permaneceu oculto durante dezenas de anos.

Mas não faltaram reclamações e protestos contra a reforma do Mercado Municipal. Quando foi inaugurado o ponto das lanchas para a Barra dos Coqueiros e Atalaia Nova, o "Terminal Hidroviário", a mesma onda de protestos choveu sobre a cidade. Queriam que os “tototós” continuassem, pelos séculos dos séculos, pois as lanchas viriam roubar o pão dos pais de família que exploravam suas canoas, há duzentos anos. Com tal mentalidade, Aracaju alcançaria 3 milhões de habitantes comprando no Mercado que foi construído na fundação da cidade e viajando para a Barra dos Coqueiros a bordo dos mesmos “tototós”.

Talvez tenha sido por absoluta falta de paciência que nunca me candidatei a cargo político...

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Petrônio Gomes.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 21 de fevereiro de 2015.

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