terça-feira, 15 de abril de 2014

Bosco Rolemberg - A história de um militante

Bosco Roelmberg. Foto: Marcelle Cristinne.


 Bosco recebe a visita da esposa Ana Côrtes, com o filho Eduardo,
 no presídio de Itamaracá. (Foto: acervo Bosco Rolemberg).

Foto ao lado dos demais presos políticos antes de um jogo de futebol no presídio/Bosco de camisa listrada em pé. Da esq. Para direita: Arlindo Felipe (PE), Marcelo Melo(PE), José Calistrato Cardoso (PE), Francisco de Assis(PE), Alanir Cardoso (PE) (atual presidente do PC do B), Carlos Alberto Soares (PE), Alberto Vinicius (PB). Agachados: Francisco Peixoto (PE), Rholini Cavalcante (AL), Antônio Ricardo Bráz (PE), Valmir (AL), Luciano de Almeida (RN), José Adeildo Ramos (AL). (Foto: Acervo Alberto Vinicius).

Bosco com violão na oficina de artesanato do presídio (1975). (Foto: acervo Bosco Rolemberg)

Publicado originalmente no site Memórias da Ditadura.

Bosco Rolemberg.
A história de um militante
Por Hugo Sídney.

Uma história de vida inspiradora e, acima de tudo, um exemplo de militância e devoção aos ideais democráticos. Aos 67 anos, Bosco Rolemberg, por trás de uma aparência serena e um sorriso fácil, guarda em sua memória os registros de sua luta contra a ditadura, dos momentos dramáticos que passou, e a convicção, mantida até hoje, de ter buscado fazer o seu papel.

Reconhecido por sua atuação histórica nos movimentos de esquerda e pelas diversas funções públicas que exerceu, João Bosco Rolemberg Côrtes, é testemunha viva de um tempo em que parte dos jovens brasileiros assumiram a perigosa e nem sempre gratificante tarefa de lutar pela democracia, pela liberdade de pensamento e expressão, e sobretudo, pelo direito de defender um projeto político que diferia do vigente à época.

“Se pudesse, eu faria tudo de novo!”, afirma, com a altivez de quem superou o sofrimento da prisão e da tortura diante da busca pela democracia, pela liberdade e pelo exercício pleno da cidadania que hoje é facultado aos brasileiros.

“Ainda sofro quando lembro de alguns momentos dramáticos por que passamos, mas o que conforta é ver a evolução social que temos hoje, onde todos podem expressar seu pensamento, divergir do projeto político vigente e eleger seus representantes sem ser perseguido, ter sua liberdade cerceada, nem ser violentado!”

A Gênese.

O mais novo de sete irmãos, filhos de um mestre de obras e de uma doméstica, Bosco e seus irmãos tiveram uma educação sob os princípios da religião católica, onde integraram diversos dos movimentos que reuniam os jovens da época. “Todos os meus irmãos participavam dos movimentos da juventude católica onde, à época, se discutiam muitos novos conceitos, a polarização dentro da igreja entre uma linha mais conservadora e a linha mais à esquerda, que cobrava não só as discussões dos temas espirituais, mais o engajamento e busca pela igualdade social, as idéias do papa João XXIII. Além disso, havia o clima desenvolvimentista que o Brasil vivenciava. Todos nós éramos ferrenhos nacionalistas. Como o caçula, eu ‘bebi’ toda essa formação, amadurecendo a vontade de ter um engajamento, de dedicar minha vida a esses objetivos”, afirma.

Após o golpe militar, em março de 1964, o engajamento dos irmãos mais velhos nos movimentos vanguardistas da igreja católica e, sobretudo, o envolvimento do primogênito, José Rolemberg, então estudante de Medicina, na Ação Popular (AP), que viria a ser um dos movimentos mais perseguidos pelo regime. Por ser uma das lideranças nacionais da AP, José Rolemberg foi preso e processado.

“Até hoje quando me recordo da invasão da minha casa, lá na rua Santa Luzia, onde nasci e vivi até os 21 anos, pelos homens do Exército que levaram meu irmão, vasculharam a casa e levaram todos os livros, me emociono. Lembro que isso provocou um grande trauma em toda a família. Éramos vítimas até de comentários na vizinhança, que se referiam à nossa casa como de “comunistas”. Isso me trouxe uma profunda depressão, assim como o Brasil também viveu uma grave depressão. O clima de perseguição e crítica que começamos a vivenciar, tanto da igreja, quanto da própria sociedade, fez a família se mudar para o Rio de Janeiro”.

Recentemente, contou Bosco Rolemberg, ele retornou à rua Santa Luzia, no número 150, e encontrou a casa do mesmo jeito. Perguntando a vizinhança atual sobre a história da casa, ele ouviu: “Aí moravam uns comunistas”. “Isso mostra o quanto o contexto social da época nos foi desfavorável”, reflete Bosco.

O Início da Militância.

Após ingressar na Faculdade, no curso de Serviço Social, ele conheceu aquela que viria a ser a companheira de sua vida, no casamento e na militância, Ana Maria dos Santos, também estudante de Serviço Social, a hoje reconhecida assistente social e ex-secretária municipal de Assistência Social na capital, Ana Côrtes. “Ela era a presidente do DCE e, inclusive foi quem assinou a minha carteirinha. A minha prática no movimento estudantil e no movimento social amadureceu. Nós nos filiamos a AP, recrutados por meu irmão. Fazíamos pichações contra a ditadura e nos engajávamos nas lutas do movimento estudantil, inclusive para a fundação da Universidade Federal de Sergipe. A minha assinatura está na ata de fundação da UFS, como representante do movimento estudantil, ao lado de Chico Varela”, relembra.

Em Sergipe, o movimento estudantil estava polarizado, segundo Bosco, entre a AP e o Partido Comunista Brasileiro (PCB), onde figuravam o hoje governador e advogado Jackson Barreto, os advogados Wellington Mangueira, hoje secretário adjunto de Estado da Cultura, e Jonas Amaral, ex-deputado, já falecido; além de João Augusto Gama, ex-prefeito e hoje secretário de Estado do Planejamento Orçamento e Gestão, dentre outros. “Era uma polarização entre a turma de Serviço Social e a turma de Direito, além de alguns do curso de Medicina. Mas eles tinham maior liderança de massa naquele momento. A primeira eleição disputada para o DCE da UFS foi polarizada entre eu e João Augusto Gama, eu representando a AP, e Gama representando as forças do velho ‘partidão’”, conta Bosco.

A ditadura acirrou a perseguição aos movimentos estudantis, o que culminou com a prisão de centenas de militantes no célebre Congresso de Ibiúna. “Alí, eu e os companheiros citados que integrávamos a comitiva de Aracaju, também fomos presos. Essa foi minha primeira prisão. Após o AI-5, em 1968, fomos presos novamente no dia 20 de dezembro, aqui no 28º BC, onde ficamos mais de um mês, inclusive o Natal, mas não fomos torturados, houve só interrogatórios. Houve inquéritos e vários processos, mas nem sei o que foi que deu, já que eles não demonstraram muita ‘inteligência’ para perceber o que estávamos realmente fazendo”, relembra, em tom bem humorado.

O engajamento.

O bom humor é substituído pela emoção e pelos olhos cheios de lágrimas ao relembrar das torturas que deixou marcas no corpo e, segundo ele, na alma. “Nós estávamos nos preparando para o que se chamava de ‘proletarizar’, dedicar nossas vidas à revolução. Eu pensava em abandonar a universidade, deixar a minha vida de lado, já que éramos perseguidos, não podíamos ocupar funções em nenhum movimento dentro da legalidade. Então estávamos decididos a um plano de deslocamento, elaborado pela AP, onde, após casarmos na clandestinidade em 20 de abril de 1969, eu e Ana ‘desaparecemos’. Fomos morar em São Paulo, numa vila operária da cidade de Mauá, acolhidos por um casal operário vinculado a AP, que abrigava quem estava em deslocamento. Nós queríamos ser a força protagonista no enfrentamento à ditadura. Foi um período muito difícil”, afirma Bosco, ao contextualizar uma fase onde a repressão estava acirrada em São Paulo, com as principais lideranças sendo rastreadas.

“Este casal foi detectado e preso. Eles foram barbaramente torturados pelo delegado Fleury, sofreram terrivelmente”, lembra Bosco, ao marejar os olhos e respirar profundamente. Ele se refere ao delegado Sérgio Fleury, então um famigerado “caçador e exterminador” das lideranças de esquerda, que atuava no Departamento da Ordem Política e Social (Dops), em São Paulo, sendo o acusado por vários sequestros, agressões e assassinatos no período, inclusive o de Carlos Marighella. “Ano passado, fui a São Paulo e encontrei a dona Gilda, e foi muito emocionante. O Seu marido já faleceu”, relata Bosco.

“Nós atuávamos e trabalhávamos em vários empregos, nessa época ainda com as identidades originais. As lideranças começaram a ‘cair’, sendo capturadas pelos órgãos da repressão em São Paulo. Presenciamos o primeiro assassinato, quando o operário Raimundo Eduardo da Silva, militante da AP, foi morto lá em Mauá. Então começamos a fugir, moramos em Santo André, onde atuar e mobilizar em nossas funções ficava cada vez mais complicado. Aí a direção do movimento nos propôs uma movimentação para Pernambuco, o que também topamos na hora”, descreve Bosco.

Ação com os Camponeses.

Nesse empreitada, segundo ele com o vigor da juventude preponderando e após os dois anos que viveram em São Paulo, eles não titubearam em aceitar o novo desafio.

“Quando chegamos, havia pouco tempo que duas jovens lideranças da AP que moravam na Zona da Mata Sul, uma região marcada pelo ódio de classes alimentado pelos usineiros, além do ódio político da direita conservadora, haviam sido assassinadas, o que reforçava uma tradição de violência contra os movimentos sindicais e sociais. E eu cheguei para ser o dirigente do comitê zonal desta região. Para sobreviver chegamos até a ser feirantes no Cabo, em Catende, em Palmares e outras localidades da região. Eu vendia miudezas e Ana vendia confecções”.

Numa destas feiras, ocorreu um fato curioso, já que havia um feirante se anunciando sergipano, o que gerou o medo de serem reconhecidos, uma vez que suas fotos certamente já haviam sido divulgadas em Sergipe. “Quando o feirante começou a gritar: “Laranja de Boquim! A melhor do Brasil”, nós gelamos! Pensamos que um sergipano lá poderia nos reconhecer”.

Nesse período, Bosco já utilizava uma identidade falsa fornecida pela organização com o nome de João Lopes de Almeida, natural de Crateús, no Ceará, para realizar um trabalho mais difícil ainda, já que lideranças do próprio movimento haviam tombado lá, e pelas características da geopolítica regional. “Ocorreram debates internos na organização sobre a necessidade ou não de se organizar um partido, as estratégias de resistência, o caminho da luta armada. Eu me filiei na clandestinidade no PC do B. Tínhamos o pensamento que através de uma guerrilha, a partir do Araguaia, iríamos nos expandir e criar bases de resistência contra a ditadura. Isso ocorreu em 1972, onde a minha grande aspiração era ir para a guerrilha”, descreve Bosco.

Esse sonho não se concretizou e Bosco continuou fazendo o trabalho político e de massas nessa região pernambucana, visando a cooptação e preparação de quadros para enviar à guerrilha. “Nós fazíamos reuniões com os camponeses nas madrugadas, dormíamos escondidos nos engenhos. Lá encontramos muitos militantes oriundos das ligas camponesas, com um grau elevado de radicalização e uma vontade instintiva de romper com aquela oligarquia. Nós vivíamos como sobreviventes, buscando manter o que restava para a ‘chama’ continuar acesa”, afirma.

Detenção e Tortura.

Começaram então a ocorrer as quedas das lideranças do PC do B no Nordeste, tanto dos militantes mais antigos, quanto dos militantes oriundos da AP. “Isso nos forçou a uma movimentação mais frequente entre as cidades. Quando chegamos a Caruaru, percebemos uns caras fazendo perguntas no hotel onde estávamos. No segundo dia, quando estava num ônibus em direção a um ponto onde faria uma atividade, subiram uns caras e começaram a pedir a identificação de todos os passageiros. Aí eu senti que estava em perigo. Eles chegaram a mim, e me mostraram a minha foto. Me deram voz de prisão. Eu disse não saber o que estava acontecendo. Não consegui me comunicar com Ana”, narra Bosco.

“A foto era do congresso de Ibiúna. Eu continuei negando a afirmando a minha falsa identidade de João Lopes de Almeida. Um dos caras me disse que se eu não confirmasse ele me entregaria a um bando de assassinos. Eu continuei negando. Me encapuzaram e me levaram na carroceria de uma caminhonete. Eu sabia que o destino era um quartel em Recife. Ao chegar, já iniciou a sessão de torturas. Me deixaram de cuecas e me penduraram numa argola, com os pés fora do chão. Iniciou a sessão de choques com eletrodos nos lóbulos das orelhas e nos genitais. Foi choque e porrada”.

Levando choques, socos, pontapés e pauladas, durante dois dias, de vez em quando era “examinado” por um suposto médico que buscava detectar o grau de orientação e a sua resistência física. “Eu passei por isso do dia 4 de junho a 4 de agosto de 1974. Ana também já havia sido presa. A comida era colocada em bandejas por debaixo das portas. Lembro do som das chaves que os carcereiros carregavam quando chegavam para nos levar pra tortura. Isso me enerva até hoje”, diz Bosco, demonstrando um visível desconforto.

“Nessa situação, percebi os companheiros que também estavam lá, a exemplo de Luciano Siqueira, hoje vice-prefeito do Recife, e outras lideranças da AP. Cochichávamos e descobríamos quem estava por ali. Fomos levados, em seguida, para o Rio, onde pernoitamos no quartel da Polícia do Exército na rua Barão de Mesquita, e na sequência nos levaram para São Paulo. Lá sofremos a tortura psicológica, que é tão ou pior que a tortura física. Foi quando eu soube que Ana estava grávida do nosso primeiro filho. E eles usaram isso. Foi devastador. Isso nos arrasou durante uma semana onde as equipes se revezavam diuturnamente em interrogatórios incessantes”, descreve Bosco, relatando a constatação da gravidez do primeiro de seus três filhos com Ana Côrtes.

Nossa prisão foi ‘legalizada’ então pela Polícia Federal e a notícia veiculada pelo Diário de Pernambuco, retornamos à Recife e fomos recebidos por um torturador famoso, o “Fleury” de lá, o delegado Luís Miranda, que já me recebeu abertamente na porrada. Ele demonstrava um ódio irracional. Temo que se tivesse sido preso inicialmente por ele, não estaria aqui contando essa história”, narra Bosco.

De agosto de 1974 a janeiro de 1975, eles foram mantidos no Dops, em Pernambuco. À esta altura, com a evolução da gravidez e a intervenção de advogados, Ana Côrtes foi libertada. “A luta agora, junto aos advogados, era para conseguir a transferência para a penitenciária Barreto Campelo, na ilha de Itamaracá, onde estavam as principais lideranças e diversos militantes da AP”.

Em fevereiro de 1975, Bosco é transferido para Itamaracá. “Aí inicia outro capítulo onde, como presos políticos, tínhamos algumas vantagens em relação aos presos comuns, como acesso aos jornais devidamente censurados e uma disputada televisão que se revezava entre as celas. Lá tinha gente de outras organizações como PCBR, Var-Palmares, ALN, além de lideranças que eu conhecia do PC do B, a exemplo de Luciano Siqueira, atual vice-prefeito do Recife e Alanir Cardoso, hoje presidente do PC do B. Me sentia entre camaradas, podia conversar e fazer novos amigos”, descreve Bosco.

Essa fase foi marcada pela célebre luta de resistência dos presos de Itamaracá, com sucessivas greves de fome, que totalizaram 52 dias, pela melhoria das condições e contra o isolamento de dois companheiros que foram condenados à prisão perpétua. “Lá fiz várias grandes amizades. Encontrei gente da melhor qualidade, lutadores guerreiros por um Brasil melhor. Após julgamentos, fui condenado a três anos em Pernambuco e tinha sido condenado a dois anos em São Paulo, pena que foi extinta pelo STF. Fui condenado “legalmente” só a três anos. Fui liberado mediante um habeas corpus impetrado por Ronilda Noblat só em 20 de março de 1979. A anistia só veio em agosto”, conclui Bosco Rolemberg.

Ele afirma que de tudo isso o que fica de lição é a importância da contribuição dada por uma geração para a redemocratização do país.

“O que me dá essa serenidade e paz de espírito nessa fase de maturidade, já que estou fazendo 67 anos, é ter certeza de ter feito a minha parte. Às vezes, pessoas que nunca vimos nos cumprimentam e dizem que conhecem nossa história e nos dão parabéns emocionadas. Fomos considerados loucos por familiares e amigos, já que tivemos de ‘desaparecer’, abrir mão de nossa vida cômoda. Esse reconhecimento nos provoca bem estar. O nosso sacrifício valeu à pena!”, enfatiza Bosco.

Esse é um testemunho que demonstra o preço alto que muitos brasileiros pagaram por defender suas opiniões e o direito à liberdade que é hoje desfrutado em nossa sociedade. Aprender com as experiências do passado é fundamental para vislumbrarmos um futuro onde a garantia de cidadania e a busca incessante por justiça social seja o lema. É fundamental mostrar que não é certo prender, sequestrar, torturar, estuprar e matar por divergências de opinião sobre um projeto político para o Brasil. Que produtivas reflexões sejam produzidas a partir do conhecimento dessas trajetórias heroicas!

Imagem e texto reproduzidos do site: memoriasdaditadura.agencia.se.gov.br

Postagem originária da página do Faceboo/Minha Terra é SERGIPE, de 15 de abril de 2014.

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