quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Itabaiana, Terra de Ceboleiros.

Foto ilustrativa - reproduzida do blog: culturanotnet.blogspot

Itabaiana, terra de ceboleiros.

Quem nunca ouviu falar na terra da cebola, nos ceboleiros ou nos papa-cebolas? Essas expressões populares ligadas a Itabaiana atualmente constitui um patrimônio cultural imaterial de Sergipe sem o reconhecimento oficial. Apesar de não ter nenhum patrimônio cultural tombado, a urbe agrestina tem uma infinidade de bens culturais enriquecedores da cultura sergipana. Examinaremos, sob o ponto de vista histórico, um dos mais significativos desses bens: as expressões papa-cebolas e ceboleiros. As expressões em estudo são bastante utilizadas e difundidas em todo Estado de Sergipe e além-fronteiras, porém muito pouco se escreveu sobre os apelidos coletivos de Itabaiana. Merece especial destaque as lacônicas considerações do folclorista José de Carvalho Déda (1898-1868) e do pesquisador José Sebrão de Carvalho (1898-1973), reproduzidas por Vladimir de Souza Carvalho (1950- ). O artigo Aspectos antropológicos dos itabaianenses, do escritor Alberto Carvalho (1932-2002), não se ateve a expressão como marca identitária dos itabaianense. Privilegiou o escritor serrano em seu “tipo singular” itabaianense aspectos como o municipalismo (bairrismo), a sagacidade para os negócios, o fenótipo, o uso de apelidos, a paixão pelo jogo e a violência. Nosso objetivo é explicar brevemente as supostas origens, significados e mutações desses apelidos coletivos.

Primeiramente, é importante compreendermos o que vem a ser (ou o que pode ser) patrimônio cultural imaterial. Nas últimas décadas do século XX, o patrimônio cultural passou a se concebido para além dos bens materiais. Os estudiosos observaram que os bens culturais imateriais também são portadores de referência à memória e identidade cultural de um povo e, na maioria das vezes, representam muito mais determinadas comunidades que edificações de “pedra e cal”. A convenção para salvaguarda do patrimônio cultural imaterial (2003), realizada em Paris, definiu o patrimônio cultural imaterial como compreendendo os usos, representações, expressões, conhecimentos e técnicas, junto aos instrumentos, objetos, artefatos e espaços culturais que lhes são inerentes, que os grupos e em alguns casos, os indivíduos reconheçam como parte de seu patrimônio cultural. Este patrimônio cultural imaterial é recriado constantemente pelas comunidades, grupos e indivíduos em função de seu meio ambiente (entorno), sua interação com a natureza e sua história, gerando um sentido (sentimento) de identidade e continuidade, contribuindo para a formação da diversidade cultural.

Ao que tudo indica, a expressão papa-cebola remota os tempos imperiais. Em meados do século XIX, as principais feiras de Sergipe estavam concentradas na região do Cotinguiba. O itabaianense comercializava nas ricas regiões dos canaviais por não ter aqui um centro comercial estruturado. Os nossos antepassados eram comerciantes natos que abasteciam as outras vilas e cidades de Sergipe e Bahia com seus produtos. Não havia, como até nos dias atuais, uma só feira em Sergipe que não tivesse um itabaianense. A histórica e cultural cidade de Laranjeiras chamava atenção na segunda metade do século XIX pela pujança econômica e cultural. A feira de Laranjeiras, pela proximidade e importância, era para onde afluíam caravanas de itabaianenses. Estes dominavam a feira de tal forma que eram hostilizados pelos habitantes locais. Nessa época, a sociedade itabaianense era formada, sobretudo, por humildes comerciantes, lavradores e criadores. Homens rudes intelectualmente pela falta de instrução pública, porém espertos e aventureiros. Laranjeiras era o berço da intelectualidade sergipana, terra de João Ribeiro e de refinada elite açucocrata. Os gêneros alimentícios de primeira necessidade consumidos em Laranjeiras eram produzidos em Itabaiana. As férteis terras margeadas pelo Cotinguiba eram destinadas à plantação de cana para exportação. Eram os sítios serranos que abasteciam o comércio interno sergipano, daí o rótulo de cidade celeiro de Sergipe.
A forma que os laranjeirenses usaram para ferir o orgulho dos itabaianenses foi de denominá-los de papa-cebolas. Por que papa-cebolas? Itabaiana tinha produção razoável nas férteis encostas serranas da verdura acre de cheiro forte. Chamando os itabaianense de papa-cebolas, estavam chamando-os de fedorentos a cebola. E mais: de somíticos, pois mesmo conseguindo volumas somas com a venda de gêneros alimentícios e outros objetos, os itabaianenses substituíam a carne (mais cara) por uma farinha acebolada produzida por suas esposas. O cheiro de cebola era perceptível de longe. Bastava um itabaianense colocar sua marmita para se ouvir os moleques gritarem: “papa-cebola, papa-cebola, papa-cebola!!!”.

Papa-cebola era um termo pejorativo. Inicialmente, a expressão não foi bem aceita. As chacotas, às vezes, acabava em revide de ofensas, brigas ou em episódios mais trágicos. Com o passar do tempo, o curioso apelido coletivo tornou-se tradicional e aceito pelos próprios itabaianenses. As novas gerações de papa-cebolas muitas vezes não entendiam a origem jocosa e o primitivo significado da alcunha; pensavam que era por serem trabalhadores e terem abundantes cebolais. Tinham alguns que se sentiam orgulhosos quando eram rotulados de papa-cebola.

José Sebrão de Carvalho, o famoso Sebrão Sobrinho (1898-1973), pesquisador itabaianense, o mais bairrista de todos os itabaianólogos, nos oferece outra versão para a origem da expressão. O velho pesquisador legou em suas pesquisas valiosas informações acerca do passado de sua terra natal, além de arrebanhar um volume documental impressionante sobre Itabaiana do século XVII ao XX. Sebrão descreveu, numa série de artigos para o Sergipe-jornal, diversos aspectos da vida social e cultural-histórica de Itabaiana dos anos 40. Ele acredita que o apelido nasceu em Itabaiana devido ao apelido imputado a Júlio Cesar Berenguer de Bitencourt, juiz municipal na época. Esse magistrado esteve em Itabaiana no ano de 1849 e fixou residência no sítio Pé da Serra, local de destacada produção de cebolas. Com isso, os amigos do juiz começaram a chamá-lo pelo apelido de papa-cebola. A expressão outrora pessoal tornou-se coletiva. A aceitação do apelido tempos depois, segundo Sebrão Sobrinho, dava-se pelo fato de pensarem os itabaianense que se tratava de um elogio a “superioridade de sua terra para a policultura”. Essa versão nos parece ter menos valor explicativo que a anterior, pensada por Carvalho Déda.

Acreditamos que de início não havia o termo ceboleiros, mas somente papa-cebolas. A utilização da expressão ceboleiros é bem provável que tenha sido iniciada na segunda metade do século passado, para servir de sinônimo do termo anterior que entrou em desuso ou, não é razoável supor, o fato de a expressão papa-cebola ser ofensiva contribuiu para sua substituição paulatina pelo seu termo mais corrente nos dias atuais, restando apenas a antiga expressão na memória dos mais idosos. Seja como for, as alcunhas coletivas papa-cebola e/ou ceboleiro eram tão pejorativas que muitos rapazes naturais de Itabaiana não conseguiam namorar com moças de famílias tradicionais de Aracaju e outras cidades de Sergipe, pois os pais davam sempre o conselho às filhas para não quererem itabaianenses, ou seja, os fedorentos a cebolas e tabaréus. Hoje, é até uma honra ter um genro ceboleiro, principalmente se for rico ou “cabra macho” trabalhador.

Nas últimas décadas, a palavra ceboleiro ganhou força dentro e fora de Itabaiana de modo inimaginável. A expressão ceboleiro foi tão integrada ao itabaianense que praticamente se tornou sinônimo de todos aqueles que nascem ou moram em Itabaiana. Se no passado seu uso era uma forma pejorativa, no presente a função é outra: tornou-se um elogio, uma forma de identificação dos itabaianenses, um patrimônio cultural. Contribuiu decisivamente para o fortalecimento da alcunha de terra da cebola a construção do Mercado de Hortifrutigranjeiros, nosso famoso Mercadão, em 1989. Nesse grande empório comercializam-se volumosas quantidades de cebolas produzidas em Itabaiana e, principalmente, provenientes de outros estados. Verdadeiras montanhas de cebolas são vistas todos os dias, dando um perfume especial à feira local.

O apelido adentrou de tal forma o imaginário social itabaianense que o mascote da Associação Olímpica de Itabaiana, principal clube de futebol da cidade e um dos mais tradicionais do Estado de Sergipe, é uma cebola vestida com o uniforme tricolorido de azul, vermelho e branco. Até mesmo o universo acadêmico sofreu a ação do acebolamento social. O Campus Universitário “Prof. Alberto Carvalho” (UFS) tem como mascote, escolhido em votação, uma cebola - o cebolufs.

Portanto, a palavra ceboleiro, usada no contexto de identificação do itabaianense, é um patrimônio cultural imaterial sergipano por ser uma expressão cultural que gera identidade e continuidade para a comunidade itabaianense e sergipana. Sergipe é um estado rico em apelidos coletivos. Nós, os ceboleiros, não somos caso único. Os lagartense receberam a pejorativa designação de papa-jaca, os simão-dienses de capa-bodes, os porto-folhenses de buraqueiros, os campo-britenses de lobisomens (ou labisomis) e etc. Era a rivalidade local que produzia esses apelidos coletivos que atualmente compõe uma rica e pouco estudada herança patrimonial. Todas essas expressões populares integram o patrimônio cultural sergipano e provam que a cultura sergipana também é rica fora do eixo litorâneo (Aracaju-Laranjeiras-São Cristóvão).

BIBLIOGRAFIA

CARVALHO, Alberto. Aspectos antropológicos do itabaianense. Vão Livro. Aracaju: s/d, 1996. P. 75-80;

CARVALHO, Vladimir Souza. Apelidos em Itabaiana. Curitiba: Juruá, 1996;

_________. Vila de Santo Antonio de Itabaiana. Aracaju: J. Andrade, 2009;

DÉDA, José de Carvalho. Brefáias e Burundangas do Folclore Sergipano. Aracaju, Livraria Regina, 1967. P. 83-84;

IPHAN. Patrimônio Imaterial. Disponível em: www.iphan.gov.br/bens/P.%20Imaterial/imaterial.htm acessado em dez/2005;

LIMA JÚNIOR, F. A. de Carvalho. Monografia histórica do município de Itabaiana. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Aracaju, v.2, n.4, 1914. p.128-149;

SEBRÃO SOBRINHO. Cordial política da plutocrata terra papa-cebola. Sergipe-Jornal, Aracaju/SE, 26 jan. 1944, p.1. Transcrito em SEBRÃO, SOBRINHO. Fragmentos de histórias municipais e outras histórias. Org. Vladimir Souza Carvalho. Aracaju: Instituto Luciano Barreto Júnior, 2003. P. 253-256.

Texto reproduzido do blog: culturaitabaiana.blogspot

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 17 de outubro de 2013.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ismar Barreto, Cantor e Compositor


Site: Serigy, a História de um Povo.
Portal de Cultura de Luiz Antônio Barreto.

..........................................................................

Ismar Barreto I - Cantor e Compositor - 18/07/2006.
Por Luiz Antônio Barreto

Sergipe perdeu, no dia 2 de junho, um dos seus mais completos artistas: o poeta, compositor, instrumentista (violão) e cantor Ismar Barreto, símbolo de uma geração que teve de aliar a criação artística com a sobrevivência, sem prejuízo da qualidade dos seus trabalhos. No caso de Ismar Barreto a publicidade foi a saída para o ganha pão da sobrevivência e seus jingles, que foram veiculados aqui, entre nós, e levados para outras partes do país, atestam a consciência do autor. Doente, enfrentando uma moléstia que não deu trégua, Ismar Barreto resistiu o quanto pôde e deu uma lição de vida, sem medo algum das circunstâncias que interromperam a sua biografia.

Ismar Barreto Dória, filho de Isidório Dória e de Maria Barreto Dória, nasceu em Aracaju, em 1º de outubro de 1953. Estudou até completar o antigo 2º Grau (atual ensino médio), o que foi suficiente aperfeiçoar-se em cursos, visando as atividades profissionais. Fez curso de Técnico em montagem de plataforma de perfuração e produção de petróleo, e cursou Inglês no CCAA, em Brasília – DF. Com esta formação saiu de Sergipe e trabalhou como Técnico e como Intérprete encarregado de plataforma de petróleo e como Intérprete em diversas companhias nacionais e estrangeiras, tanto no Brasil, quanto no exterior, entre 1973 e 1985.

Ismar Barreto trabalhou para as seguintes empresas: Marine Inc., Diammond M. Perfurações Ltda; Mcdermott Inc.; Marlin Perfurações; Superpesa Transportes Marítimos Ltda; e Schahin Cury Eng. Ltda. Em Brasília, onde residiu por alguns anos, Ismar Barreto foi Intérprete de eventos, como o Congresso Internacional de Doenças no Campo da Metalurgia e no Lançamento Mundial de Pneus Goodyear. Foi, também, auxiliar técnico do IBGE, chefe do gabinete da presidência do IBGE, assessor do gabinete do Ministro do Planejamento e assessor do gabinete do Presidente da República (Governo João Figueiredo).

Voltando a Aracaju exerceu atividades de Intérprete, destacando-se os trabalhos do Congresso Internacional de Medicina e com o Ballet Real da Dinamarca, dedicando-se, enfim, a publicidade, criando e produzindo jingles comerciais, institucionais e políticos.

Com Egle Rebello Moreira Dória teve três filhos: Manoel dos Santos Silva Neto, nascido em 1978, em Brasília; Yana Rebello Moreira Dória, nascida em Aracaju, em 1984; e Yasmin Rabello Moreira Dória, nascida no Rio de Janeiro, em 1988. Sua família tem outros artistas, como o bonequeiro e dançarino Augusto Barreto, do Mamulengo do Cheiroso, a atriz Marlene e a instrumentista e bonequeira Maire Barreto.

Falecido em 2 de junho de 2006, aos 52 anos, Ismar Barreto enlutou toda uma geração de artistas e uma legião de amigos e admiradores, solidários durante os meses da doença e que acompanharam, com pesar, seu sofrimento e morte, velório e sepultamento.

Alegre, sempre disposto a brincadeiras, Ismar Barreto deixou uma espécie de recomendação (como aquela de Noel Rosa: ‘Quando eu morrer/ não quero choro nem vela’) que os amigos, como lembrou Cleomar Brandi, levaram à risca. Pascoal Maynard, João Alberto, que mais que médico era parceiro, Neu Fontes, Pantera, dentre outros guardam, como curadores, os bens intangíveis do artista morto.

...........................................................

Ismar Barreto II – A Música - 19/07/2006
Por Luiz Antônio Barreto

Antes de Luiz Gonzaga a música de sotaque nordestino significava pouco no contexto nacional e valia menos ainda na economia discográfica. Alguns autores, cantores, como o comediante e violonista Jararaca, que fazia dupla com o saxofonista Ratinho, como Zé do Norte, Manezinho Araújo, Augusto Calheiros apresentavam as emboladas alagoanas, e ritmos comuns das festas populares do nordeste. Luiz Gonzaga criou um verdadeiro sistema musical, renovando a poética, o compasso melódico, criando ritmos, e uma expressão sonora inigualável, que apresentou a todo o Brasil o sotaque regional nordestino.

A pedagogia do baião atravessou décadas de sucesso, seduzindo as platéias das demais regiões brasileiras, inspirando uma certa universalização dos ritmos regionais, na convivência harmoniosa, que foi capaz de atrair artistas consagrados para que também cantassem o baião. Nos anos de 1950 o baião urbanizou-se em vozes conhecidas, que freqüentavam as emissoras de rádio e se apresentavam em festas por todo o país. Luiz Gonzaga envelheceu autêntico, consciente de que deu ao povo uma coroa de rei, honrando com sua sanfona e sua simpatia o reinado do baião, a tal ponto que o Brasil não viu que ele era um negro e que em muitas ocasiões cantou as suas origens étnicas, e sempre cantou as origens sertanejas.

Em vários Estados surgiram artistas e grupos que elevaram e sofisticaram a contribuição nordestina à música brasileira, a começar por Jackson do Pandeiro, da Paraíba. Estão por aí, correndo o Brasil, artistas como Alceu Valença, de Pernambuco, Gilberto Gil, da Bahia, Elba Ramalho e Zé Ramalho, da Paraíba, Geraldo Azevedo, Nando Cordel, de Pernambuco, Belchior e Fagner, do Ceará, Xangai, da Bahia, Vital Farias, da Paraíba, como Chico César, e muitos outros identificados com a forma especial de expressão regional nordestina.

As ondas da discoteca, da chamada música sertaneja, sem sertão, o axé, o pagode, nada impediu que Dominguinhos e tantos outros sanfoneiros, herdeiros da tradição sanfônica do nordeste, regessem um cancioneiro novo, elaborado com todo o sentimento diante da realidade de uma natureza madrasta, que impõe o rigor das estiagens, gerando fome e incerteza, aviltando a vida e tornando mais distante o sonho justo de bem viver.

Mesmo contando com Josa, o Vaqueiro do Sertão, com Luiz Paulo, Erivaldo de Carira, Passarada do Ritmo, Trio Pé de Serra, e o reforço de Gerson Filho e principalmente de Clemilda, que aqui vive há muitos anos, Sergipe não acompanhou o movimento musical nordestino e seus artistas, pela maioria deles, preferiram assimilar linguagens dominantes, predominantemente urbanas, efetivamente de boa qualidade. Alguns, no entanto, engajaram suas artes na corrente de sons nordestinos, como são exemplos Amorosa e Antônio Carlos do Aracaju, como intérpretes, Ismar Barreto, como compositor, seguindo-se outros, como Nino Carva, Neu Fontes, Rubens Lisboa, sempre ligados às raízes culturais da terra, embora tenham desenvoltura em outros ritmos e temas.

A morte, prematura, de Ismar Barreto desfalca a seleção dos abaionados (apaixonados pelo baião), que seguiram as trilhas abertas pelo Bolo de Feira e pelo Grupo Repente, dois conjuntos de harmonia belíssima, dando vozes aos cantos regionalizados pelos arranjos do Quinteto Violado, de Pernambuco, que continua na estrada, acreditando no que faz.

Ismar Barreto pertence, de todo direito, a uma geração de criadores que ousaram além dos três minutos de uma composição poética e musical. O jingle, expressão rápida de arte a serviço da propaganda comercial, síntese desafiante, contou com o talento de Paulo Lobo, o exímio cantor de Aracaju, e de Ismar Barreto, com sua verve, sua esperteza verbal, sua voz inconfundível, produzindo peças que ficarão lembradas. Não apenas as do comércio propriamente dito, mas também as composições de natureza política, feitas para candidatos, e que galgaram o êxtase da boca do povo, a melhor das consagrações.

O médico Luiz Mitidieri, deputado estadual, foi candidato a prefeito da capital, em 1992 e ganhou de Ismar Barreto uma bela página de campanha, que foi gravada por Amorosa e que pode, sem dúvida, figurar em qualquer antologia do jingle político. Mitidieri perdeu a eleição, mas ganhou uma obra de arte, como poucas já criadas em Sergipe, com aquilo que pode ser denominado de espírito local.

Ismar Barreto não fugiu ao cotidiano urbano de Aracaju e compôs algumas das músicas antológicas do seu repertório de autor, uma delas, fazendo uma viagem pela cidade, sem pressa, parando até para tomar um chope com Pascoal Maynard, no saudoso bar Fans, da avenida Rio Branco, no térreo do edifício Oviêdo Teixeira, que mereceu gravação irrepreensível de Amorosa, espécie de interprete preferencial do compositor.

Neste particular da música urbana, “universal”, Sergipe tem sido bem servido de autores e intérpretes cujos nomes circulam debaixo dos aplausos públicos: Kleber Melo, Antônio Rogério e Chico Queiroga, Mingo Santana, Irmão e Tonho Baixinho, Joésia Ramos, Patrícia Polayne, o extinto Bando de Mulheres e muitos e muitos outros, concorrendo, desigualmente, nesses tempos de Calcinhas Pretas.

Os Festivais

Os Festivais renovaram a música popular brasileira e lançaram nomes de poetas, compositores, músicos e arranjadores, e intérpretes que deram ao Brasil uma nova música, alastrando um sentimento nacional de renovação, como nunca o País havia experimentado. Para dizer o mínimo, nomes como o de Milton Nascimento, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Ivan Lins, Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha, que dominaram a cena musical das décadas seguintes a dos Festivais, tornaram-se referências, seguidos de muitos outros nomes que fizeram essa história recente da MPB, difundindo um modo brasileiro de expressão musical.

Antes dos Festivais dos anos de 1960 e 1970, apenas a Bossa Nova havia criado motivação para renovar a música popular brasileira, então estrangeirada pelos ritmos que eram gravados e tocados, por toda a parte. Era o Brasil do tango, na voz de Albertinho Fortuna, Nelson Gonçalves, Anísio Silva, Orlando Dias e outros que também se tornaram defensores do bolero, do samba-canção, ao lado do fox, e de outros ritmos trazidos pelo cinema e pela indústria fonográfica. Era ainda o tempo de Alcides Gerardi, Carlos Galhardo, e já o tempo de Cauby Peixoto, Ângela Maria, Agnaldo Timóteo e outros cantores, que fizeram a trilha sonora da vida brasileira. A Bossa Nova deu João Gilberto, que vale por muitos, Antonio Carlos Jobim, renovou a poesia de Vinícius de Morais, e lançou vários autores, cantores e grupos vocais e instrumentais de jovens, cujos nomes figuram na agenda da história do movimento musical.

Os Festivais tinham proposta cultural própria, e abriram espaço para manifestações políticas, simbolizadas no antológico “Pra não dizer que não falei de flores”, ou simplesmente “Caminhando”, de Geraldo Vandré, compositor e cantor paraibano, que passou pela Bossa Nova e redescobriu a musicalidade do povo nordestino, condimentando-a com o gesto audaz do engajamento político. Mais do que cantar, Geraldo Vandré soltou um grito, que pareceu um canto geral, de um povo inteiro que permanecia em silêncio, tolhido em sua liberdade. Os Festivais, então, tinham duas características essenciais: renovava a linguagem poética e musical, e tomava matiz de resistência e de politização, provocando uma reação forte, através da censura.

Em Sergipe, como em outros Estados, o efeito dos Festivais repercutiu e na esteira dos eventos do Rio de Janeiro e de São Paulo jovens estudantes, aliados aos militantes da música local, organizaram Festivais que serviram, também, para a explosão e exposição de talentos, pela primeira vez reconhecidos das platéias reunidas nos espaços públicos. Cada autor, compositor, cada intérprete, tinha pequena multidão de torcedores, com camisas, faixas, cartazes, e aos gritos acompanhando as apresentações.

Dentre muitos nomes – Hunald Alencar, Marcos Melo, Roberto Melo, Valdifrei, Luiz Augusto Barreto, Teotônio Neto – um surgiu como grande promessa: Alcides Melo, que produziu o surpreendente canto do Mercado Thales Ferraz. Ismar Barreto vem dessa nova geração nascida nos Festivais estudantis e outros Festivais e tem ligação íntima como Alcides Melo, sendo, em certa medida, seu continuador, desde que aquele artista mudou de Sergipe para o interior de Minas Gerais.

Muitos anos depois, os Festivais foram recriados, como o Canta Nordeste, no Recife, que deu a Ismar Barreto a chance de ser duas vezes vencedor, com duas composições que caíram no gosto popular: "Coco da Capsulana", vencedora de 1993 e "Salada Tupiniquim", ganhadora do ano seguinte, 1994. Mais do que vencer, Ismar Barreto conquistou um espaço na história da música sergipana e regional.

Alternando-se como autor e como intérprete, como publicitário – campo em que foi um vitorioso, projetado nacionalmente – Ismar Barreto desenvolveu um lado debochado de ver o mundo, cheio de gracejos, criando uma linguagem de forte apelo popular, resguardada, no entanto, pelo envólucro musical de qualidade.

“Tremendamente Sacana”, seu 2º CD, atesta, com todas as letras, esse lado conotado da criação musical de Ismar Barreto, como a substituir o meramente político dos Festivais, por um tipo de brega bem humorado, o que não deixa de ser uma contribuição a mais, do artista para o seu público.

Será difícil avaliar, fora do contexto de sua criação, os caminhos percorridos por Ismar Barreto desde que se deu à música, e com ela estabeleceu uma comunicação múltipla, que vai do regional – “Coco da Capsulana” -, para o brega – “Porteiro de Cabaré” – passando pelos jingles geniais que formam um capítulo especial de sua obra de poeta e de compositor.

....................................................................

Ismar Barreto III - Por ele mesmo - 20/07/2006

O próprio Ismar Barreto deu a receita divina do seu nascimento, em texto de 1992. Eis o que foi dito:

“Caetano disse um dia que ‘Deus é um cara gozador, adora brincadeira...’ e ele tava certo. Mas eu queria lhe perguntar por que uma coisinha tronxa que nem eu merece o carinho e a bondade de algumas pessoas.

É inevitável me perguntar se ele tava meio distraído quando me concebeu ou pelo menos quando assinou a ordem de serviço para a minha concepção. Fazer uma criatura assim deve ter sido duro. Porque na minha receita botaram 3 kg de massa radical, 1 litro de leite azedo, 750 gramas de intolerância, humildade era pra ser 2 kg e só botaram 1 kg, cerveja era pra ser 2 botaram 12, safadeza era 1 colher das de chá, botaram 4 conchas cheias, grossura era só uma pitada em água morna descansando por meia hora, mas ai um anjo safado foi lá, meteu a mão cheia e escondeu durante umas 3 h. Inteligência era pra ser uma colher das de sopa, botaram uma colher das de sopa mesmo. Nada anormal. Sorte, eram 3 rodelas grossas, puseram 2 finas.

Mas tudo bem, eu não vim nesse mundo para ser rei. No máximo, o bobo da corte. Juízo precisava de 3 molhos bem verdes, mas acharam que ficava parecido com muqueca e não botaram nenhum. Beleza eram duas medidas pequenas. Veio o anjo traquino de novo e trocou por feiúra e ainda botou mais 3 medidas das grandes. Ninguém segue uma receita inteiramente ao pé da letra mesmo. Deixaram em banho-maria (o nome de minha mãe) por 9 meses e aí vieram os enfeites. A boca era pra ser média e ficou média mesmo. Mas no pulmão meteram um compressor de 500 libras e aí quando é pra falar... barra da porra! E se for de música, sai de baixo.

Os olhos eram pra ser bonitos e enxergaram mais beleza nas pessoas. Às vezes vê, às vezes dá uma cegueira e ele só enxerga o lado ruim. Mas tem oculista e o tempo... velho professor. O nariz esse velho apêndice idiota, nem fede nem cheira. As ‘zureias’... essas são de lascar. Escutam 6 conversas ao mesmo tempo, mas também sabem gostar de arte, do canto, da poesia e também das críticas. Elogio, quem não gosta? Afinal todo artista é narciso mesmo...! O fígado, esse bravo guerreiro resiste aos ataques de feijoada, rabada, mocotó, moqueca e aqui ali alguns cálicizinhos de lúpulo e cevada.

Mas eu queria falar mesmo é desse velho coração. Não é nenhuma obra prima, mas Deus teve pena de mim e aí ele deu uma mãozinha. Embora numa criatura tronxa como eu já disse, esse meu coração malino faz coisas de que me orgulho como a dele ter conquistado o carinho de algumas pessoas. Deus abe o que faz. No meu caso foi só uma brincadeirinha pra relaxar. Deus também precisa de lazer”.

Texto: reproduzido do site clientes.infonet.com.br/serigysite
Foto: divulgação.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 15 de outubro de 2013.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Manoel de Oliveira Martins

Fundador da primeiro frota de ônibus de Sergipe
Por Alessandra Franco.



Falar de Manoel de Oliveira Martins é rememorar a história da capital sergipana. Nos idos dos anos 40, quando o 'pequeno, mas arrumadinho'¹ comércio da cidade concentrava-se nas ruas João Pessoa, José do Prado Franco, Itabaianinha, Laranjeiras e São Cristóvão, o jovem de visão promissora para os negócios deixou sua marca.

Um dos pioneiros a promover o desenvolvimento social e econômico de Aracaju, deixou um importante legado ao transporte público da cidade. Foi pelas suas mãos que os primeiros ônibus começaram a fazer o transporte de passageiros. Ainda em madeira, a frota dos 'gostosões', como eram chamados os veículos dada a sua beleza e conforto, substituiu os bondes elétricos que saíram de circulação no ano de 1956.

É justamente essa época que o Setransp pretende reviver com a terceira edição do Prêmio de Jornalismo. Essa viagem pelo tempo servirá para trazer, ao momento presente, detalhes históricos que as novas gerações desconhecem, além de fazer uma justa homenagem a um sergipano de mente brilhante.

Comércio

Nascido no município de Maruim, em 29 de novembro de 1896, Manoel de Oliveira Martins, o Oliveira Martins, como era conhecido na cidade, começou a vida como marinheiro - alistou-se na Marinha de Guerra no ano de 1912. Em uma das inúmeras viagens que fez, ao desembarcar novamente em Sergipe, decidiu abandonar a carreira militar e entrar para o ramo dos negócios.

Com o dinheiro que conseguiu economizar, fez o primeiro investimento ao montar um armazém de secos e molhados, na Rua Laranjeiras. Logo as vendas prosperaram e ele resolveu investir também no ramo de combustíveis automotivos. Com esse novo comércio - que começou com uma única bomba e logo evoluiu para um posto construído nas proximidades de onde hoje se localiza o Grand Hotel, no Centro de Aracaju -, conseguiu dinheiro para comprar vários terrenos na região. Nos locais, abriu outros negócios como filiais do armazém e prédios de hospedaria.

Enquanto isso, a cidade se movimentava sobre os lentos, porém charmosos, bondes elétricos. Os veículos transitavam pelas ruas de Aracaju fazendo o transporte de pessoas entre os bairros Industrial, Santo Antônio, 18 do Forte, Siqueira Campos e Centro. Em meados dos anos 50, no entanto, ao saírem de circulação, os bondinhos deixaram uma lacuna que só começou a ser preenchida a partir de uma ousada iniciativa de Oliveira Martins.

Após uma viagem ao Rio de Janeiro, conseguiu convencer um marceneiro carioca a acompanhá-lo até Sergipe. Aqui, com a ajuda desse profissional, em um galpão situado à Rua Apulcro Mota, começou a construir a primeira frota de ônibus de Sergipe, a ETU – Empresa de Transporte Urbano São José, com sede na Avenida Airton Teles.

Perfeccionista, juntamente com o empregado, trabalhou dia e noite para deixar os ônibus impecáveis. Ficaram tão bonitos e modernos para a época que foram apelidados de "Os gostosões de Oliveira Martins". Os veículos já possuíam, além do motorista, catraca e cobrador, e passaram a fazer as linhas que, anteriormente, eram feitas pelos bondes.

Viagem à Europa

Aventureiro e empreendedor, Oliveira Martins integrou a comitiva que saiu de Sergipe rumo à Europa na década de 70, naquela que foi considerada a primeira excursão de turismo do Estado. A viagem ampliou os horizontes e aguçou a visão empreendedora dos que dela fizeram parte.

Não por acaso, vários dos nomes que estavam no grupo marcaram o desenvolvimento de Sergipe, tais como Júlio Prado Vasconcelos, pioneiro no ramo de supermercados no Estado; Carlos Mascarenhas, agente da companhia aérea Cruzeiro do Sul; e Robson Santos, dono da Robson Turismo, 1ª empresa de turismo sergipana.

Mudança de Ramo

Com o passar dos anos, Oliveira Martins não estava mais sozinho no ramo de transporte de passageiros. A concorrência de empresas mais modernas o fez abandonar o negócio optando por um cotidiano mais tranquilo. Juntamente com a família, recolheu-se em um sítio localizado na Barra dos Coqueiros, onde se dedicou ao cultivo e à venda de coco verde.

Com o negócio adquiriu outras propriedades e colaborou para o desenvolvimento do município com a geração de empregos e a construção de pontes. Amante da natureza, criou também uma espécie de refúgio que ainda hoje é mantido pela família. No local, criou aves, peixes, preservou a vegetação nativa e viveu intensamente, celebrando a vida até seus últimos momentos.

Avenida Gostosão

Ao deixar a lida com o transporte de passageiros, Oliveira Martins reuniu os antigos ônibus em um terreno cravado no bairro 18 do Forte. A localidade ficou conhecida como Avenida Gostosão e os veículos acabaram servindo de moradia para pessoas desfavorecidas economicamente.

A rua que ganhou fama por abrigar parte da história da capital sergipana, na realidade, chamava-se Manoel Carvalho Neto. Desde 6 de março de 2001, no entanto, por força da Lei 2.907, sancionada pelo então prefeito de Aracaju, Marcelo Déda, foi rebatizada como Manoel de Oliveira Martins.

Trata-se de um trecho de rua que guarda muito mais que um nome, uma honrada história de vida cujo legado se reverencia no cotidiano da cidade, no ir e vir de cada cidadão.

Iate Clube

Dono de uma vitalidade invejável, Oliveira Martins sabia aproveitar a vida como poucos. As festas que costumava promover, principalmente em celebração ao seu aniversário, eram assunto das rodas sociais durante dias. E não era pra menos. As comemorações duravam até o dia raiar e eram marcadas por discursos e homenagens regadas a muita música, comida e bebida farta.

Nas horas vagas, um de seus lugares favoritos era o Iate Clube de Aracaju, cuja sede ajudou a construir adquirindo 15 títulos ao valor unitário de Cr$ 5 mil, em agosto de 1958. Sócio de número 57, Oliveira Martins era uma figura imponente. Com seu indefectível terno branco, deixou um lastro de seriedade e respeito até hoje reverenciada.

Herdeiros

Oliveira Martins casou-se, pela primeira vez, na década de 20, com Marieta Lima de Oliveira. Dessa união, frutificaram sete filhos: Maria, Raimundo, Geraldo, José Serapião, Zélia, Guido e Adailton. Todos já falecidos.

Ao ficar viúvo, teve outros dois filhos, Vera (falecida) e José Roberto. Alguns anos depois, em 24 de fevereiro de 1976, oficializou a união com Maria Lúcia Viana Martins, com quem teve mais quatro filhos: Manoel, Amélia, Tânia e Acácia.

Toda sua vitalidade, no entanto, foi vencida por problemas vasculares. Aos 83 anos, em 23 de dezembro de 1979, Manoel faleceu, vítima de trombose. Seu corpo foi enterrado no cemitério Santa Isabel.

Passados 21 anos, em 04 dezembro do ano 2000, a atual sede do Setransp foi inaugurada, no Distrito Industrial de Aracaju, sendo, oportunamente, batizada de Manoel de Oliveira Martins.

* Texto produzido por Alessandra Franco, jornalista e gerente de Comunicação & Marketing do Setransp, com informações obtidas através de familiares e do memorialista Murilo Melins, que conheceu Manoel de Oliveira Martins na infância/ adolescência através de uma grande amizade que surgiu com Geraldo, um dos filhos de Oliveira Martins.

1 – Expressão tirada do livro 'Aracaju Romântica que vi e vivi – anos 40 e 50', de Murillo Melins.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 13 de outubro de 2013.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Jordão de Oliveira, poeta-pintor

Auto-retrato de Jordão de Oliveira, poeta e pintor.

Jordão Eduardo de Oliveira Nunes, nasceu a 13 de outubro de 1900, em Aracaju, filho de Domingues Nunes e Júlia Oliveira Nunes, casou-se por duas vezes, primeiramente com Laura e depois com Dulce, tendo desses relacionamentos três filhos: Laura, Virgínia e Jordão. Por ter perdido os país nos primeiros anos da infância fora criado juntamente com a única irmã pela tia Emília de Oliveira. Jordão iniciou seus estudos sobre arte sob a influência do mestre Quintino Marques (18??-1942), catedrático no colégio Atheneu Sergipense, da cadeira de desenho nas primeiras décadas do século XX. Desde os quinze anos já produzia retratos por encomendas:

“Vontade continuada, espírito lúcido, desde a puerícia vem revelando natural pensador para as artes. Na idade em que todos brincam inconsideradamente, ele já procurava idealizar a realidade: não raro o haviam de encontrar contemplando, aparentemente distraído, uma cousa qualquer, uma paisagem... Quando não, vê-lo-iam, carvão em punho, tentando realizar o ideal. As calçadas de residência, os muros vizinhos transformavam-se, então, em telas de sua febre visionária...”[1]

Em 1917 trabalhou no Recife como ferroviário, na empresa Tramway e no ano seguinte contratado como marítimo da Costeira. Em 1921 mudou-se para o Rio de Janeiro, matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes, tendo como professores João Batista da Cunha, Lucílio de Albuquerque e Rodolfo Chambeland. A ENBA, hoje instituição oficial da Universidade Federal do Rio de Janeiro, cujas primeiras atividades datam de 1816, quando se estabeleceu o ensino oficial das artes plásticas no Brasil, como resultado da chegada da Missão Artística Francesa.

No início do ano de 1922, Jordão publica o artigo “Horácio Hora” questionando a cópia da Virgem da Conceição, do artista barroco Barolomé Esteban Murilo, oferecido pelo copista à igreja Matriz de Aracaju. Sobre a tela de Horácio Hora, óleo sobre tela (1878) Jordão tece alguns comentários, no que diz respeito ao local da instalação da pintura:

“Obra de grande valor artístico-histórico, dado vigor de técnica de que se apossara o pintor conterrâneo, cremos seja igual ao original. Quanto isto ignoremos, não podemos deixar de admirar a correção do desenho, o modelado e a perspectiva área daquelas figuras.

Só os desenhos de Horácio Hora bastariam para atestar o seu incontestável merecimento. Infelizmente, porém esses mesmos que ainda restam estão ameaçados de destruição. A que parecia mais protegida, esta, talvez por um excesso de zelo, não está bem colocada. Tratamos da “Virgem”, de Murillo. Vimo-la no teto da então Catedral dessa cidade. Devemos dizer que a tela é muito pequena para um teto daquele tamanho. Fica desarmônico. Para que houvesse harmonia fora preciso que toda a decoração tivesse como centro a tela, isto é, partisse daí até a barra inferior das paredes laterais, como uma encíclica da cor. Mesmo assim não agradaria, porque a pintura central sobre não ter a perspectiva própria de “plafonnier” é rembrontesca. Obrigaria a uma decoração toda escura, toda fúnebre, incompatível com as toalhas de linho dos altares e a simplicidade encantadora de Jesus.”[2]

Sobre sua exposição na Biblioteca Pública, o jornalista do Diário da Manhã comentou suas impressões sobre a abertura da exposição de pintura de Jordão de Oliveira, como um motivo de encantamento espiritual:

“Reservando-nos para mais de espaço lhe fixar a diretriz emocional, com uma impressão detalhada e sincera dos novos trabalhos de Jordão de Oliveira – neste minuto em que expõe os lindos frutos pacientes do seu ardente labor, limitamo-nos a dizer-lhe cordialmente, como um bom presságio:

- Salve, doce companheiro, pela tua coragem indômita. A fé move os teus passos para o futuro. Seja para diante menos ensoalhada e pedregosa atua estrada. Ao fim encontrarás um banco de pedra, à sombra com a música de um próximo regato. Não longe, no bosque, à moda grega, ninfas dançarão. E adormecerás contente.”[3]

O Diário Oficial do Estado registrou todos os passos do conterrâneo Jordão de Oliveira, durante sua estada em Aracaju:

“Esteve ontem, no Palácio, o jovem pintor sergipano Sr. Jordão de Oliveira, que ali foi convidar o Sr. Presidente do Estado para assistir à inauguração da sua exposição, que se realiza hoje, às 3 horas da tarde, na Biblioteca Pública.”[4] Dois dias depois registrou comparecimento do Presidente à exposição:

“O Dr. Graccho Cardoso, em companhia de sua exma. senhora esteve domingo à tarde, na Biblioteca Pública, em visita à exposição de pintura do jovem e promissor artista sergipano Sr. Jordão de Oliveira.

O Presidente do estado, que teve excelente impressão das qualidades do novel pintor patrício, o qual dia a dia desenvolve as suas superiores aptidões, felicitou-o vivamente pelo êxito que os seus trabalhos alcançaram.”[5]

O repórter do Correio de Aracaju analisando o talento do jovem pintor, por ocasião da sua exposição na Biblioteca Pública do Estado, publica em sua edição do dia seguinte um artigo não assinado endossando a crítica especializada:

“Faz algum tempo dissemos, nesta mesma página, que os mestres de Jordão se não envergonhariam de assinar as telas do jovem pintor sergipano, cuja modéstia, aliada a uma altivez admirável, não permitiram ainda estardalhaço em torno de sua personalidade, inconfundivelmente artística.”[6] O Sergipe-Jornal também se fez presente no grande acontecimento:

“A exposição de quadros que ele acaba de fazer num dos salões da Biblioteca Pública de nossa capital, devidamente examinada e admirada, é de sobejo uma prova eloqüente de que esse jovem sergipano já não é, na arte que abraçou uma simples revelação, porém uma exata realidade, que o futuro mais afirmará e mais radiará de admirável brilho.

Ali encontrará o crítico mais rigorista, a arte da pintura admiravelmente cuidada em algumas das suas modalidades. E é de ver, assim, que mais belezas do mister a que se dedica, será o jovem sergipano, um dia não longe, uma das belas figuras representativas do talento em nosso terrão amigo.”[7]

Mais uma vez o Diário da Manhã dá destaque a Exposição de Jordão de Oliveira, através de um longo texto assinado por Agathon, onde além de abordar o valor e a importância da exposição para Sergipe, sugere ao Estado a compra para a coleção da Biblioteca Pública de pelo menos duas telas a óleo.

“Antes que plástico, é Jordão um pincel altamente preocupado de motivos interiores, uma consciência que quer intimidar-se com as almas e trazê-las sempre à tona, numa revelação constante de sentimentos. O olhar que possui sobre qualquer daquelas sanguíneas principalmente sobre aquele magoado retrato de moça ou aquela cabeça de rapaz devorada por perturbantes cogitações íntimas, recolhe-se tocado dum estranho sentir, vindo não da forma, do traço, da modelagem ou da atitude, mas da expressão anímica que se espalha por elas, fluida, animada, sensível, como que se insinuando no nosso coração pela compreensão de que ali vive um ser nosso irmão pelo sofrimento e pelo amor.”[8]

O Diário Oficial do Estado, registra mais uma vez, três notas sobre a visita de Jordão de Oliveira ao Palácio Olímpio Campos, para agradecer pessoalmente ao Presidente Graccho Cardoso pela presença na abertura da exposição e doação do quadro Cabeça de Operário.

“Havendo marcado há dias a sua brilhante exposição de pintura, esteve ontem, no Palácio do Governo, o Sr. Jordão de Oliveira, que ali foi em visita de agradecimento ao Dr. Graccho Cardoso, por lhe haver dado a honra de inaugurar aquele certame, bem, como para oferecer pessoalmente a S. Ex. o seu trabalho Cabeça de operário, que é uma das mais fortes e melhores produções do jovem artista sergipano.”[9]

Na edição de 28 de junho do mesmo periódico diz:

“O Sr. Presidente do Estado resolveu ontem adquirir, para figurar na coleção de pinturas existente na Biblioteca Pública, o belo trabalho a óleo “Adormecida”, do jovem pintor sergipano Sr. Jordão de Oliveira, o qual figurou aqui na sua última exposição de arte.”[10]

Finalmente nesta mesma edição, informa sobre sua partida para o Rio de Janeiro:

“O jovem pintor sergipano Jordão de Oliveira esteve ontem no Palácio do Governo, aonde foi despedir-se do Sr. Presidente do estado,por seguir hoje para o Rio, onde vai prosseguir os seus estudos.”[11]

Impossibilitado de comparecer as redações de todos os jornais da capital, Jordão de Oliveira deixa uma nota de despedida publicada no Diário da Manha:

“Seguindo hoje, no Itaperuna para a Capital Federal, e não podendo despedir-me pessoalmente de todos os amigos, o faço por este meio, oferecendo os meus préstimos ali, onde provisoriamente vou fixar residência.

Aj, 28 – 6

Jordão de Oliveira”.[12]

Em outubro de 1924 Jordão de Oliveira se encontrava no Rio de Janeiro, e da capital federal envia o artigo Exposição Geral de Belas Artes, onde relata os acontecimentos do Salão de Belas Artes, tecendo comentário sobre as obras de alguns artistas participantes da XXXI Exposição Geral, como: Baptista da Costa, Eliseu Visconti, Oswaldo Teixeira, Cândido Portinare, Garcia Bento, Vicente Leite e João Pharion:

“Entre os hors concurs salientam-se Gutmann Bicho e Marques Junior. Este enviou duas telas de grandes proporções. Serenidade (painel decorativo) é uma paisagem esmeraldina, de um lago adormecido, todo coalhado de nenúfares, onde algumas virgens se isolam despercebidas. Como ar livre não tem retração nenhuma. Parece mais um interior.

Gutmann Bicho, o homem dos retratos duros, tratados a preto e terra de Sienne voltou da Europa pontilhista a Hemi Martin. Expõe um retrato que se ele não fosse membro do júri bem mereceria a medalha de ouro. A sua pintura é boa e das melhores, atualmente.

As mais estão mal representadas. ”[13]

Devido à impossibilidade, por circunstâncias materiais de continuar o curso que vinha fazendo na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, o Presidente da Província Graccho Cardoso, através de decreto, concedeu-lhe uma pensão mensal de duzentos mil réis, a fim de que ele pudesse prosseguir o curso:

“DECRETO Nº 881 – de 25 de junho de 1924

Concede a pensão de 200$000 mensais ao pintor sergipano Jordão de Oliveira, para prosseguir nos seus estudos na Escola Nacional de Bellas Artes.

O Presidente do Estado, considerando que cabe à ação educativa do Governo fomentar não só a instrução geral, mas também elevar, por outros meios que escapam à escola puramente intelectual, o nível moral e estético do povo:

Considerando que inexistem estabelecimentos ou institutos locais especializados quanto ao ensino da pintura, da escultura, enfim do desenho aplicado, fator indispensável ao aperfeiçoamento do trabalho e ao desenvolvimento econômico das nações:

Considerando que importa em serviço capital aquele que o Estado presta animando as aptidões naturais e contribuindo para que certas naturezas privilegiadas possam melhor devassar os horizontes infinitos da arte;

Considerando, em particular, a vocação e o valor das tentativas demonstrados, no ramo da pintura, em mais de uma exposição, pelo jovem sergipano Jordão de Oliveira, impossibilitado, por circunstâncias materiais, de continuar o curso que tão promissoramente vinha fazendo na Escola Nacional de Belas Artes;

Considerando que nenhum texto fundamental o proíbe, revogado, pela vigente reforma constitucional, o que tirava a Sergipe a faculdade de poder cooperar para o desenvolvimento das suas letras e artes, e, por conseguinte, da sua própria civilização e cultura.

DECRETA

Art. 1º É concedida a Jordão de Oliveira, afim de que possa prosseguir nos seus estudos de pintura na Escola Nacional de Bellas Artes, a pensa mensal de duzentos mil réis.

Art. 2º Esse auxílio só se tornará efetivo mediante prova de achar-se o mesmo matriculado na referida Escola e de que a freqüenta com proveito notável, devendo nesse sentido ser presente ao Governo um atestado ou relatório do diretor da mencionada Escola.

Art.3º Este decreto fica dependendo de aprovação da Assembléia Legislativa.

Palácio do Governo do Estado de Sergipe, Aracaju, 25 de junho de 1924, 36º da República.

Maurício Graccho Cardoso

Carlos Alberto Rolla

Em 1933 Jordão de Oliveira conquistou pela segunda vez o prêmio de viagem a Europa na Escola de Belas Artes. Descendente de família pobre, muito cedo se revelou uma esperança de Sergipe-artístico, mas para sua ascensão gloriosa era necessário apoio financeiro que o levasse a outras terras, especificamente a capital federal, núcleo da intelectualidade nacional, coisa difícil até hoje nesta terra. O amigo Thales Vieira da Silva, diz que Jordão lutou muito para o reconhecimento público:

“Mas, nunca lhe faltou coragem, moral para suportar asperezas do nosso meio. O livro era como é ainda hoje o seu amigo leal e dedicado, onde ele depositava e deposita as suas nobres aspirações. As suas telas feitas sem os instrumentos modernos, porque lhe faltava dinheiro para adquiri-las, não obstante todos esses empecilhos encantavam a gente pelo valor da paisagem e harmonia das cores. Graças a Deus um homem veio ao encontro de Jordão, para arrancá-lo daqui e colocá-lo no Rio de Janeiro, auxiliando-o nos seus largos remígios. Foi Pereira Lobo, então Presidente do Estado, que fez esse inesquecível benefício a Sergipe.”[14]

A estada de Jordão de Oliveira em Aracaju foi registrada na Gazeta Socialista, fundada pelo jornalista e político Orlando Dantas em sua edição do dia 9 de janeiro de 1957, onde o autor da matéria nomeia algumas figuras do folclore aracajuano conhecidas por Jordão de Oliveira no tempo em que residia em Aracaju, da fase de boemia sentimental de sua mocidade:

“Hoje, tantos anos lá no fundo dos velhos corações, mas ficaram as grandes telas trabalhadas pelo calor da vida, pelo variado das cores, o vigor das formas e a harmonia dos contrários que Jordão Oliveira transpôs para os seus quadros, com a inteligência a sensibilidade e a beleza que Deus lhe deu.” [15]

Desde dezembro de 1956 que Jordão de Oliveira encontrava-se em Aracaju para descansar e rever amigos, após longos anos de ausência. Durante todo esse período ficou hospedado na residência de Manuel Donizetti Vieira, diretor da Rádio Difusora de Sergipe. Aproveitando a oportunidade, Jordão reuniu um grupo de amigos e admiradores para uma palestra, produzida pelo Movimento Cultural de Sergipe onde leu alguns capítulos do livro de memória, reunião esta não divulgada na impressa, apesar de vários jornalistas locais estarem presentes, dos poetas Santo Souza, Eunaldo Costa, Clarêncio Fontes, Álvares da Rocha, José Maria Fontes

E dos pintores, Inácio de Oliveira e Florival Santos. Encerrando a comunicação, Jordão de Oliveira prometeu aos presentes realizar em breve no município de Aracaju, uma exposição retrospectiva de seus quadros.[16]

O poeta José Maria, registrou este grande encontro de intelectuais sergipanos, através das páginas do Diário de Sergipe:

“Entre as pessoas que este festivo fim de ano trouxe a Sergipe, para rever amigos e à boa terra conta-se o eminente pintor e intelectual brasileiro Jordão de Oliveira, artista laureado e coração boníssimo, há tantos anos ausente do rincão natal.

Pela singularidade do seu talento e temperamento, fidelidade a uma inata pureza de princípios, desprendimento pessoal e, sobretudo, essa sua simplicidade afetiva, cordial, a figura de grande Jordão, onde quer que se ambiente, firma-o na estima e na amizade de todos.”[17]

Painéis no Palácio

Encomendado pelo governo sergipano, Jordão de Oliveira prepara dois painéis para o hall de entrada do Palácio Olímpio Campos. Segundo o artista plástico Leonardo Alencar que realizava sua primeira exposição no Rio de Janeiro, em 1961 na Escola Nacional de Belas Artes, viu em seu ateliê Jordão preparando um desses painéis. O Diário Oficial do Estado registra a chegada de Jordão em 3 de julho de 1962, vindo especialmente para afixar os painéis :

“Por via aérea chegou a esta capital o nosso ilustre coestaduano Prof. Jordão de Oliveira, a fim de afixar os painéis, que lhe foram encomendados pelo senhor Governador Luiz Garcia, no hall do Palácio Olímpio Campos.

Ao seu desembarque, no Aeroporto Santa Maia, compareceu o chefe do Executivo, na pessoa do Bel. Junot Silveira, Secretário do Governador.”[18]

Em junho de 1962 Jordão encontra-se em Aracaju participando da inauguração do Hotel Pálace e do Festival Sergipano de Escritores, com presença marcante de intelectuais baianos e sergipanos que residiam em outros estados: Jenner Augusto, Joel Silveira, Nelson de Araujo, Vasconcelos Maia este último na qualidade de Diretor do Conselho de Turismo de Salvador, representando o Prefeito Heitor Dias, “acentuou que a sua cidade se unia à Aracaju, possuído da mesma alegria e que ele não poderia deixar de assistir tão expressiva e histórica solenidade de tamanha influência na vida sergipana.”[19]

Estiveram participando do festival a convite do Governo sergipano, vários intelectuais do país como, Oscar Tosta (Diário de Pernambuco), Paulo Silveira (Última Hora), Eneida (Diário de Notícia), Moacyr Werneck de Castro (escritor), Renato Jobim (Diário Carioca); Dr. Estácio de Lima (Professor da UFBA); Waldemar Matos (professor); Ranulfo Oliveira Presidente da Associação Baiana de Imprensa e Diretor do jornal A Tarde. Carlos Cony (Correio da Manhã), José Calasans (Diretor do Deptº Regional do SENAC-SESC), entre outros. Durante o final do Governo de Luiz Garcia (1959-1962) ocorreram vários eventos importantes na sua administração que contribuíram para divulgar o Estado de Sergipe, alguns como O Festival Sergipano de Escritores, e as Inaugurações do Hotel Palace de Aracaju, da Galeria dos Governadores de Sergipe e dos painéis pintados por Jordão de Oliveira.

Em 6 de julho , às 20 horas, nas dependências do pavimento térreo do Palácio Olímpio Campos, o Governador Luiz Garcia e o vice-governador Dionísio de Araújo Machado, acompanhado de várias autoridades civis, religiosas e militares, inauguraram a Galeria dos Governadores de Sergipe numa expressiva homenagem aos seus ilustres antecessores:

“O Senhor Governador destacou a atuação dos seus antecessores, a capacidade de trabalhar e a inteligência de que eram portadores, focalizando o último deles, ex-governador Leandro Maciel, que iniciou em Sergipe, um processo novo de administração verdadeira revolução pelo trabalho, possibilitando, cestaros a atual administração as realizações que já são do conhecimento público.”[20]

Sobre os painéis do Palácio Olímpio Campos, o pintor, caricaturista e crítico de arte em atividade no Rio de Janeiro, Quirino Campofiorito (1902) professor do Núcleo Bernardelli (primeiro agrupamento de artistas de orientação não acadêmica a se formar no Brasil), filho do pintor e arquiteto brasileiro Pedro Campofiorito (1879-1945), projetou vários edifícios públicos e foi um dos organizadores e diretor do Museu Antonio Parreiras, em Niterói. Quirino em apresentação do Catálogo da Exposição Retrospectiva da obra de Jordão de Oliveira, promovida pelo Centro Sergipano da cidade do Rio de Janeiro, de 1º a 15 de setembro de 1965, onde foram expostas 114 telas, pintadas no período de 1921 a 1964. Vejamos um trecho específico sobre os painéis:

“Recentemente, realizando pinturas murais de grandes dimensões, para decorar o Palácio do Governo de Sergipe, desenvolveu Jordão temas de ousada movimentação de figuras, paisagem e acessórios, sobre a história econômica daquele Estado. Tarefa cheia de dificuldades, dados os atropelos que sofre, entre nós, um pintor para realizar trabalhos de excessivas proporções, o nosso artista, entretanto, se desincumbiu galhardamente, acrescentando, assim, à sua obra, mais um aspecto que vem colaborar na afirmativa de que ele tem sabido ampliar as suas possibilidades.”[21]

Exposição em Aracaju

No início de abril de 1978, Jordão de Oliveira chaga à Aracaju para participar da abertura de sua exposição, entre o período de 7 a 16, na Galeria Horácio Hora de Artes, Móveis e Decorações, situada à Rua Riachuelo, 757. Na oportunidade o “Presidente do Conselho Estadual de Cultura, Antonio Garcia, falou em nome do Governador do Estado, ressaltando a figura do artista Jordão de Oliveira e do valor de suas obras, conhecidas internacionalmente.

Entre os quadros expostos, destacam-se os retratos, principalmente o auto-retrato, sendo que os comentários do grande público presente se voltaram com maior evidência para o retrato da sogra de Jordão de Oliveira, que pela expressão facial lembra a célebre Monalisa de Leonardo da Vinci.” [22] Na tarde do dia 06, acompanhado do Secretário Everaldo Aragão Prado, da Educação e Cultura, Jordão de Oliveira visitou o Governador José Rollemberg Leite, no Palácio Olímpio Campos. Faziam parte da Comitiva Antonio Garcia Filho, Presidente do Conselho Estadual de Cultura e dos jornalistas Luiz Antonio Barreto, assessor Cultural e Luiz Adelmo, Diretor da Galeria Horácio Hora.

O Governador José Rollemberg Leite, na oportunidade, afirmou que:

“Sergipe sentia-se orgulhoso com a obra de Jordão de Oliveira, não só pelo esforço de notáveis trabalhos que atestam a inteligência e o espírito artístico de um filho que sempre soubera honrar a sua terra além fronteiras.”[23]

A exposição de Horácio Hora em Aracaju (uma das raras exposições que realizou ao longo de sua vida) foi composta de 28 quadros a óleo e a sua trajetória artística foi definida, desta forma pelo escritor Jorge Amado:

“Sua exposição e sua presença após tantos anos de árduo trabalho em distantes paisagens, é um acontecimento impar na vida cultural de Sergipe, pátria de muitos e poderosos talentos, de grandes figuras do panorama artístico e literário do Brasil. Algumas exponenciais. Entre essas avulta, pela grandeza e consciência de sua obra, a de mestre Jordão de Oliveira, agora em meio à sua gente, de volta a seu princípio, com as telas, a poesia e o humanismo.”[24]

No dia 10, Jordão de Oliveira visita o Conselho Estadual de Cultura, sendo recebido pelos conselheiros, em sessão presidida pelo médico Antonio Garcia Filho, foi saudado pelo conselheiro Severino Uchoa, tendo discursado também o Dr. Manoel Cabral Machado, presidente da Academia Sergipana de Letras. Estiveram presentes também familiares de Jordão de Oliveira, que após a saudação, falou recordando sua ligação com Sergipe e sobre a sua vida artística, dedicada à arte sem comercialização.

Livros

Jordão de Oliveira publicou três livros: Caminhos Perdidos (memórias), Rio de Janeiro, Gráfica Ouvidor, 1975; A cor das coisas (poemas), Rio de Janeiro, Gráfica Olímpia, 1976 e Delta (poemas), Rio de janeiro, Zagorá, (póstumo), 1980. Comentando seu livro de estréia, o romancista baiano Jorge Amado, em carta enviada ao poeta-pintor diz o seguinte:

“Li seu livro emocionando-me sucessivas vezes. Você bem sabe como sou ligado a Sergipe e a sua gente. Revi em suas páginas a paisagem e o povo, viajei novamente no Ita de minha adolescência. Afinal Anselmo José, por mais você tente fazê-lo independente, é o próprio Jordão de Oliveira, mestre da pintura.

Tudo é bonito em seu livro, como em sua pintura. Há páginas que são obras-primas como a Carta de Tamãe no capítulo 44. Que livro mais bonito seu Jordão! Não importa o rótulo, de memória ou romance é a presença de um homem de verdadeira grandeza. ”[25]

O escritor João Felício dos Santos, responsável pela apresentação do livro, diz que:

“Caminhos Perdidos mostra-nos manchinhas de todos os matizes, mas sempre em doces meios-tons, ainda quando Jordão fala em prosaicas revoluções.

Com a mesma naturalidade que nos conta de Laura, seu primeiro amor, diz-nos de seu primeiro contato com tintas e pincéis, como pintor improvisado de bondes, na velha Tramway do Recife ou como segundo taifeiro de um pequeno ITA, ao percorrer toda costa do Brasil.”[26]

Inteligente e discreto, Jordão de Oliveira conviveu em sua juventude entre muitos intelectuais da época; Carlos Fontes, Passos Cabral, Abelardo Romero, Heribaldo Vieira e outros frequentadores dos salões nobres da capital aracajuana. Aos domingos estes salões se enchiam de jovens elegantes para ouvir a mocidade discutir sobre literatura, poesia, arte, política e filosofia. Desde jovem o menino humilde e pobre era aprontado como o grande despertar da vida cultura de Sergipe, por isso galgou posição de destaque no cenário cultural local e não demorou muito para que conseguisse matricular-se na Escola Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro.

Suas obras se espalham por diversas galerias particulares e, dentre outras instituições, no Museu Nacional de Belas Artes; na Sociedade Brasileira de Belas Artes; no Palácio do Catete; no Palácio do Rio Negro e no Museu Imperial, em Petrópolis; no Palácio do Ingá e no Museu Antonio Parreiras, em Niterói; nos Ministérios da Aeronáutica e da Agricultura; na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro; na Ordem Terceira da Candelária; nas Faculdades de Medicina e Odontologia da Universidade do Brasil; na Pinacoteca do Estado de São Paulo; na Faculdade Nacional de Direito, mas grande parte de suas obras encontra-se na pinacoteca que levou seu nome, no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, em Aracaju. A pinacoteca Jordão de Oliveira abriga mais de 150 obras de artistas sergipanos e brasileiros, principalmente daqueles que fizeram parte da Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro.

Recentemente, o artista plástico Ismael Pereira, em artigo publicado na imprensa sergipana, indignado pelo desprezo com que os órgãos públicos, tratam os bens culturais do nosso Estado, no caso em questão, o Auto-Retrato de Jordão de Oliveira, pintura a óleo sobre tela, 61 x 51 cm (1970), localizada na Sala do plenário do Conselho Estadual de Cultura – Biblioteca Epífânio Dória – Secult, descreveu o estado deplorável em que se encontra a referida tela:

“Aproximei-me o máximo da obra, estacionei o meu olhar em sua direção e facilmente pude perceber os estragos – manchas comprometedoras, muita poeira e na base inferior esquerda do chassi, a tela está estufada e se desprendendo de sua estrutura. A moldura pareceu-me entristecida como que a pedir uma nova e mais compatível com a importância da obra de um grande mestre como você, Jordão.”[27]

Crítica sobre a Obra

Sobre sua produção artista escreveram vários críticos brasileiros, alguns como Walmir Ayala:

“Seu colorido discreto completa na sua obra o equilíbrio das massas e as sutilezas de luz e sombra. Sem demonstrar preferências por um único gênero, consegue interpretar seus modelos com semelhança e sem amaneiramentos de forma e suas paisagens reproduzem aspectos de horizonte amplo, de perspectiva bem compreendida.”

(Walmir Ayala, Dicionário Brasileiro de Artistas)

ou o jornalista Carlos Rubem, do jornal carioca A Noite:

“A impressão que se colhe dos quadros de Jordão de Oliveira é que se está diante de um pintor que sentiu e interpreta a luz brasileira e atingiu a plenitude de suas qualidades de verismo e interpretação. Se nos retratos ele revela mais do que uma álgida expressão fisionômica, uma alma afirmando-se por outras virtudes, um magistral pintor no gênero, nas paisagens e marinhas ascende a um cimo de sentido luminoso raras vezes atingido por artista nosso. Senhor duma técnica decidida, de uma pintura ampla, larga e sem vacilações vivendo o motivo, Jordão de Oliveira realiza o postulado de Gastaldi espiritualizando a natureza que esse escritor balzaquiano diz que – e não mente – o fim primacial da arte.”

o jornalista e admirador sergipano Mário Cabral, abalado com a perda do amigo, conseguiu, depois de refeito da emoção pelo desaparecimento do mestre da pintura, publicou um artigo na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe:

“Foi um dos maiores pintores do seu tempo, conquistando, uma a uma, todas as medalhas e premiações da Escola Nacional de Belas Artes e da qual seria professor emérito. Causou-me um choque a notícia da sua morte. E, à noite, esperei a divulgação do acontecimento, e, do que isso, um registro elogioso à sua pessoa e à sua nobre arte. Mas o Jornal Nacional, televisado às vinte horas, nada disse. Nem uma palavra. Nem uma imagem.”[28]

Morte

Jordão Eduardo de Oliveira Nunes faleceu às dezoito horas do dia 28 de abril de 1980 no Rio de Janeiro. Seu corpo foi velado no Cemitério do Cocuia, na Ilha do Governador, sendo sepultado na tarde do dia seguinte às 16,30 h. A única notícia sobre sua morte registrada na imprensa sergipana, veio através da coluna de João de Barros, do Jornal da Cidade:

“Jordão de Oliveira que nasceu em nossa Aracaju e foi criado pelo Sr. Eduardo Moreira, teve um início de vida dos mais humildes chegou até a limpar trilhos de bonde no interior alagoano, mas graças a sua grande inteligência e força de vontade, desenvolveu-se no dia a dia da sua existência, consagrando-se um dos melhores artistas plásticos do nosso país. Membro do Centro Sergipano no Rio de Janeiro (onde sempre fez questão de divulgar os valores da nossa terra) e aonde chegou a merecer a comenda máxima de “Cidadão Carioca”. Escreveu livros de poemas e histórias, onde em um deles, encontramos esta beleza de dedicatória: “Marcelo, meu filho, esta dedicatória não é uma errata é outro poema”. Jordão de Oliveira pertenceu ao círculo intelectual de Garcia Rosa e a geração de Cleomenes Campos, Amando Fontes, Barreto Filho, Passos Cabral, Abelardo Romero, Silva Ribeiro, Freire Ribeiro, Milton de Assis e muito outros.”[29]

Apesar de ter sido noticiado na imprensa que a Subsecretaria de Cultura juntamente com o Conselho Estadual de Cultura, que iriam programar com outros órgãos culturais, uma homenagem póstuma a Jordão de Oliveira, não temos notícia dessa realização. Exceto uma noção assinada por Antonio Garcia Filho “Homenagem a Jordão”, publicado um ano após sua morte:

“Mas colocaram-me a túnica da responsabilidade para transmitir, em nome do Governo do Estado, por honrosa indicação do Exmº Sr. Secretário da Educação e Cultura e pelo Conselho que presido, a manifestação de apoio e reconhecimento pela Obra que Jordão vem realizando no País, como artista e como professor, preparando gerações e mais gerações, nas Disciplinas Pintura e Modelo Vivo, na Escola Nacional de Belas Artes, tendo recebido, ao longo da sua carreira artística, desde as Menções Honrosas, Medalhas de Honra e Prêmios de Viagem, às Medalhas de Prata e Ouro.

Sergipe estava a dever a Jordão de Oliveira esta manifestação de carinho e gratidão.” [30]

*****
Mestre Jordão - Depoimento

Leonardo Alencar

Pelo que conversei com alguns amigos contemporâneos dele, Jordão sempre manteve essa ligação, essa fraternidade com todos que ficaram aqui, tanto que o senhor Donizetti diretor da antiga Rádio Difusora era muito amigo dele e morador da Praça da Bandeira quando ele visitava Aracaju ficava hospedado na residência de Donizete. Jordão era uma pessoa humana formidável, muito fiel as amizades não só pelo caráter dele como também pelo sentido de que as pessoas que professaram, digamos assim, uma vocação mais socialista, se união mais pela própria sobrevivência. Era uma atitude espontânea, “vamos unir para sobrevivermos mais”.

Uma das coisas que acho mais importante na pintura de Jordão é a atmosfera das suas telas, porque carregou consigo o céu de Sergipe, a pintura dele já era usada no Sul, em Cabo Frio e na Região dos Lagos, está sempre presente o azul do céu de Sergipe. Não porque ele não soubesse retratar outro céu, mas o céu que estava com ele era o céu de Aracaju. Além disso, o fato de que Jordão de Oliveira tinha uma noção muito humanista, tanto que os retratos feitos para a Escola de Belas Artes durante os exercícios das aulas, os modelos masculino ou feminino eram todos naturalistas, tinha esse sentido de não transformar o modelo em herói Grego, que eram o modo das escolas neoclássicas, mas ele se mantinha fiel ao naturalismo.

Jordão era dentro da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, inovador, era muito respeitado pelos colegas, e como inovador, alguém que podia incomodar, tanto do ponto de vista da didática, quanto do ponto de vista da posição política. Jordão era também um tipo muito interessante do ponto de vista da sobrevivência, porque ele morava na Ilha do Governador que era um passeio àquela época, da Explanada do Castelo, pegar o ônibus e ir até a Ilha do Governador, aquilo era prazeroso, eu foi diversas vezes com ele, porque ele saia do centro nervoso do Rio de Janeiro, do centro nervoso do capitalismo, para o bucolismo da Ilha do Governador.

Era um transplante que ele fazia e conseguia sobreviver desta maneira, tanto psicológica quanto materialmente também, como não era cobrado para as elites sociais, ele também não precisava gastar. Jordão era muito inteligente, um exemplo como artista, como figura humana, como cidadão e se sentia muito preso a Sergipe, muito preso aos amigos de infância, muito preso as reminiscências, basta dizer que ele foi de navio para o Rio de Janeiro, aquela idéia do navegante português essa ida de navio. É interessante que se comentava que ele foi como copeiro para complementar a passagem.

A história de Jordão de Oliveira é a história do migrante, de vitorioso e do recusado, porque à medida que ele vencia no Rio de Janeiro, aqui em Sergipe, desvalorizava e este fato aconteceu com outros artistas plásticos sergipanos: José de Dome, Jenner Augusto e comigo.

Aracaju, 16 de fevereiro de 2012.

Notas

[1] Jordão de Oliveira, R.F. Aracaju, Diário da Manhã, 28 de outubro, 1924.
[2] Horácio Hora, Jordão de Oliveira. Aracaju, Diário da Manhã, 20 de janeiro, 1922.
[3] Exposição – Jordão de Oliveira, C. G. Aracaju, Diário da Manhã, 8 de junho, 1924.
[4] Noticiário. Diário Oficial do Estado. Aracaju, 08 de junho, 1924.
[5] Noticiário. Diário Oficial do Estado. Aracaju 10 de junho, 1924
[6] Exposição de Pintura, Correio de Aracaju. Aracaju, 9 de junho, 1924.
[7] Jordão de Oliveira, Sergipe-Jornal. Aracaju, 9 de junho, 1924.
[8] Jordão Oliveira, Diário da Manhã. Aracaju, 10 de junho, 1924.
[9] Noticiário. Diário Oficial do Estado. Aracaju, 21 de junho, 1924.
[10] Noticiário. Diário Oficial do Estado. Aracaju, 28 de junho, 1924.
[11] Noticiário. Diário Oficial do Estado. Aracaju, 28 de junho, 1924.
[12] Seção Livre. Diário da Manhã. Aracaju, 1º de julho, 1924.
[13] Exposição Geral de Belas Artes, Jordão de Oliveira. Aracaju, Diário da Manhã, 1º de outubro, 1924.
[14] Jordão Oliveira, Sergipe–Jornal. Aracaju, 02 de setembro, 1933.
[15] Jordão de Oliveira, Gazeta Socialista. Aracaju, 9 de janeiro, 1957.
[16] O pintor Jordão de Oliveira lê parte das suas memórias, O Nordeste. Aracaju, 16 de fevereiro, 1957
[17] Encontra-se em nosso meio este alto valor das Belas Artes. Diário de Sergipe. Aracaju, 21 de janeiro, 1957.
[18] Noticiário. Diário Oficial do Estado. Aracaju, 3 de julho, 1962.
[19] Noticiário. Diário Oficial do Estado. Aracaju, 27 de junho, 1962.
[20] Noticiário. Diário Oficial do Estado. Aracaju, 13 de julho, 1962
[21] Catálogo da Exposição de 1965, reproduzido Por Marcelo Ribeiro no livro Jordão de Oliveira. Aracaju. Secult, 2006.
[22] Jordão Inaugura Exposição. Gazeta de Sergipe, 08 de abril, 1978.
[23] Governador recebe visita do artista sergipano. Diário Oficial, 07 de abril, 1978.
[24] Jordão de Oliveira expõe em Aracaju, Diário Oficial. 10 de abril, 1978.
[25] Carta a Jordão de Oliveira, Jorge Amado. Bahia 13 de setembro, 1975.
[26] Caminhos Perdidos, Jordão de Oliveira. (Apresentação). Rio de Janeiro, Gráfica Ouvidor, 1975.
[27] Jordão de Oliveira, Ismael Pereira. Aracaju, Jornal da Cidade, 10 de fevereiro, 2011.
[28] Um Mestre da Pintura, Mario Cabral. Aracaju, Revista da Academia Sergipana de Letras, nº 28, 1981. Republicado no livro Jornal da Noite, 1997.
[29] Morreu Jordão de Oliveira, João de Barros. Aracaju, Jornal da Cidade, 30 de abril, 1980.
[30] Homenagem a Jordão, Antonio Garcia Filho. Aracaju, Revista da Academia Sergipana de Letras, nº28, 1981.

GILFRANCISCO:
Jornalista, professor universitário, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e Diretor do Departamento de Imprensa da ASI

gilfrancisco.santos@gmail.com

*Foto e texto reproduzidos do blog: professorgilfrancisco.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 12 de dezembro de 2012.