sábado, 22 de novembro de 2014

Sergipe é um estado rico em artesanato


Publicado originalmente no site Destaque Comunicação, em 25/02/2013.

Sergipe é um estado rico em artesanato.

O artesanato, cuja técnica é transmitida de geração a geração, é uma forma de trabalho espalhada por grande parte do território sergipano. Entre as peças, há aquelas que se destacam pela beleza e riqueza de detalhes, como é o caso da renda irlandesa, confeccionada no município de Divina Pastora. Além disso, o visitante poderá encontrar verdadeiras preciosidades que demonstram a criatividade do artesão sergipano, capaz de inovar sem que sua obra perca as características típicas.

A cerâmica de Santana do São Francisco, antiga Carrapicho, reúne comunidades de artesãos. A principal fonte de renda do município é o artesanato de argila e sua confecção envolve adultos e crianças. A maior parte da produção é utilitária e constituída de moringas, potes, vasos, panelas e pratos que são vendidos a granel nas feiras. A cerâmica figurativa retrata o homem rural e seu modo de vida. Entre os ceramistas destacam-se Beto Pezão, natural de Santana de São Francisco, porém residente em Aracaju, e Judite Santeira, do município de Estância.

Além da renda irlandesa e da cerâmica, a cestaria é outro tipo de artesanato encontrado em Sergipe. A prática veio de herança indígena e africana (como a cerâmica) e utiliza como matéria prima, cipó, taquara, junco, fibra e palha de palmáceas. São confeccionados, entre outros, caçuás, balaios, cestas, bolsas, chapéus e esteiras.

Todavia, é no setor de bordados e rendas, que o artesanato sergipano ostenta grande produção. É freqüente observar, em vilarejos e povoados, mulheres sentadas em frente às suas casas bordando. O bordado característico de Sergipe é o rendendê, associado ou não ao ponto de cruz. O rendendê é produzido nos municípios de Própria, Malhada dos Bois, Cedro de São João, Aquidabã, Tobias Barreto e Lagarto. Há bordados de considerável refinamento quanto ao desenho, combinação de cores e acabamento. São produzidas toalhas e caminhos de mesas, colchas, panos de prato, blusas, entre outros.

Ainda é possível encontrar no sertão do estado, mais precisamente no município de Poço Redondo, as rendas de bilro, peças de madeira compostas de uma haste com a extremidade em forma de bola ou fuso, que recebe o nome de 'cabeça de bilro'.

Arte de couro - O artesanato de couro está ligado à vida sertaneja. Chapéus, apetrechos de montaria, gibão, sandálias, além de cintos e carteiras. Além do couro, a madeira também é utilizada para confecção de utensílios, como colheres de pau e gamelas de todos os tamanhos, tamboretes, apitos de chamar passarinhos e produção figurativa.

No artesanato de madeira, o destaque cabe a Cícero Alves dos Santos, nome de batismo do artista conhecido como "Veio". O artesão mantém, a 8 km da sede do município de Nossa Senhora da Glória, na Rodovia Engenheiro Jorge Neto, um museu a céu aberto. É o 'Sítio Sóarte', com suas esculturas gigantes iluminadas pelo sol da caatinga. Escultor intuitivo, "Veio" usa o canivete e o formão para fazer emergir de troncos e galhos retorcidos de mulungu ou jurema, catados na região, totens, carrancas, animais e figuras humanas. Suas esculturas são despojadas, rústicas e de vigorosa expressividade.

Há ainda toda uma produção artesanal voltada para as brincadeiras de criança, como o mané-gostoso, pião, bonecas de pano, carrinhos de lata ou madeira, panelinhas de barro e outros utensílios de cozinha, miniaturas de mobiliários, além de cavalos e bois, que transportam o mundo dos adultos para o faz-de-conta infantil.

Os municípios sergipanos que se destacam pelo artesanato são: Santana do São Francisco, Simão Dias, Cedro de São João, Aquidabã e Própria. Em Aracaju, o artesanato de todo o estado pode ser encontrado no Centro de Turismo, no Mercado Central, no Centro de Arte e Cultura da Orla de Atalaia e na feirinha da Praça Tobias Barreto.

Fonte: Portal de Sergipe.
Texto e imagem reproduzidos do site: destaquenoticias.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 20 de novembro de 2014.

domingo, 16 de novembro de 2014

Homenagem a Pinduca


Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 02/12/2006.

Homenagem a Pinduca
Por Luíz Antônio Barreto.

Desde o ano passado, quando sugeri ao prefeito Marcelo Deda uma Medalha comemorativa dos 150 anos Aracaju ao maestro Luiz D’Anunciação, ou apenas Pinduca, músico que tem parte de sua vida ligada, com intimidade, à história do rádio e dos clubes aracajuanos, que a eficiente responsável pelo Cerimonial da Prefeitura anunciou que a honraria seria outorgada. O tempo passou, e com ele a festa da cidade, e Pinduca não foi agraciado. Agora, a Sociedade Filarmônica de Sergipe fez o resgate justo e, na modéstia das suas possibilidades, prestou a homenagem da entrega de uma placa, significando o apreço, o reconhecimento, a admiração da parte da cidade que a SOFISE representa, músicos, cantores, maestros, e outros artistas, ao grande músico.

Luiz D’Anunciação nasceu em Própria, em 1928 e desde menino aprendeu a tocar com o seu pai, na banda local. Aos 8 anos tocava piano e assombrava os ouvintes, sendo trazido para Aracaju e mostrado, com sua precocidade, como um artista talentoso e de futuro. Cresceu com a música e formou, ao lado de jovens de sua idade para mais velhos, grupos musicais que marcaram época na capital sergipana. Murilo Mellins, seu primo e contemporâneo, brilhante memorialista de Aracaju, encarregado pela professora Olga Andrade, dirigente da SOFISE, percorreu as ruas do passado, cassinos, clubes, reuniões, farras, festas, tudo enfim que emoldurava a vida da cidade. Pinduca, com sua Rádio Orquestra, esteve no centro dessa geração que ganhou notoriedade com a instalação, pelo Governo estadual, da Rádio Difusora ( hoje Aperipê), instalada inicialmente no Palácio do Governo, para servir de comunicação ao DEIP – Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda – instrumento do Estado Novo, e depois, em prédio compartilhado com o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.

Tempos bons, de Alberto Horácio Bissextino de Carvalho Teles, simplesmente Bissextino, baterista, cantor, nascido em 29 de fevereiro de 1924, que também foi Escrivão, já falecico; Urcino Fontes de Araújo Góis, o Carnera, nascido em Boquim, em 26 de julho de 1920, reinventor do modo de tocar violão, vida longa, morto há pouco tempo; Cláudio Silva, nascido em Riachuelo, em 30 de outubro de 1903, era o mais velho do Grupo e tinha a família, a começar por Wolney Oliveira Silva, que nasceu em 15 de abril de 1932, foi locutor da Voz da América, emprestou sua voz a eventos especiais no Rio de Janeiro e morreu, de repente, no trânsito carioca, deixando mais dois irmãos ligados ao rádio: José Romário e Paulo Silva; Oscar Pessoa dos Santos, o “Seu” Oscar, pandeirista, diretor de Escola de Samba, presença freqüente nos auditórios das rádios sergipanas, vítima de preconceito, porque apresentado como “o pretinho da alma branca. “Seu” Oscar era, também, de Riachuelo, e nasceu em 21 de fevereiro de 1914. Outros nomes surgiram: João Melo, o cantor máximo de Sergipe, criado em Boquim, José Santos Mendonça, Arnulfo Santos Santana, José Ribeiro, com o pseudônimo de Sodré Júnior, de uma família de radialistas e radiologistas, Nelson Souza, que nasceu na Bahia e fez rádio e política em Sergipe, Alfredo Gomes, e muitos e muitos outros, que trafegaram nos mesmos espaços, e reuniram o que de melhor Sergipe produzia naquele tempo, e que digam Carvalhal, José Moreira, e o próprio Pinduca.

Mais do que um músico de múltiplas faces, capaz de sair da Bahia, onde fazia sucesso, para comprar um instrumento usado, em Aracaju – um Vibrafone -, enfrentando a má vontade de Augusto Luz, arrendatário da Rádio Difusora, Pinduca estudou, buscou aperfeiçoar-se, no País e no exterior, exercendo longo tempo de maestria em orquestras nacionais, estúdios de gravação, programas de rádio e de televisão, construindo uma biografia de sucesso, desdobrada, nas últimas décadas, em estudos e publicações que revelam as qualidades e as singularidades dos instrumentos populares, de percussão, identificando os sotaques diferenciados, que têm maravilhado os ouvidos do mundo.

O Pandeiro e o Berimbau, dentre outros, são os instrumentos que o maestro Pinduca estuda, como atesta o seu mais novo livro – Os instrumentos típicos brasileiros na Obra de Villa-Lobos (Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Música, 2006), edição bilíngüe, português-francês, acompanhada de um CD do músico, com o mesmo título.

Na sua vinda a Sergipe, para receber a homenagem da SOFISE, o maestro Pinduca apresentou seu novo livro, encontrou velhos amigos, e ficou feliz pelas horas que a festa permitiu evocar do passado, povoadas por muitas lembranças.

Texto e foto reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 16 de novembro de 2014.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Escola de Dança - Studium Danças de Lu Spinelli


Publicado originalmente no Facebook/Linha do Tempo/Mario Resende,
em 7 de novembro de 2014.

O mundo artístico e cultural de Sergipe foi pego de surpresa com o anúncio do possível fim da Escola de Dança Studium Danças. Fruto do valor, da persistência, da perseverança, competência, do amor a arte da sua fundadora, a professora Lu Spinelli, a escola de Dança mais antiga de Aracaju, após quatro décadas e meia, pode encerrar suas portas nesse ano de 2014. E não o fará por falta de alunos, de prestígio e respeito na sociedade aracajuana. Conforme palavras de Lu: "chegou a hora!". Mas o que será das horas nessa cidade sem a presença do mais intenso e longevo instituto cultural, ligado a arte da Dança, quando definitivamente ocorrer o seu fim?

Lu chegou em Aracaju ainda uma menina moça, lá pelo início dos anos 70. Na cidade plantou e colheu seus frutos, viveu seus amores, formou sua família, angariou uma multidão de fãs. É uma professora respeita e competentíssima, da qual orgulhosamente fui aluno. Se constituí numa Barsa sobre a Dança no mundo e no Brasil. Ainda não consigo imaginar a cidade de Aracaju sem a sua mais antiga Escola de Dança. Enquanto a ficha vai caindo, homenageio Lu Spinelli com um poema de Edimilson Pereira, um poeta mineiro, em versos do poema intitulado: “O que danças?”

“Um corpo se não diz a que veio/ não nos interessa./ Ainda que resuma a noite em sol, Não vale mais que ímã para os rastros./ Porém, se erra entre vizinhos e estrangeiros/ é um caniço para toda música – a cicatriz desse corpo são os ofícios que aprende”.

“Um corpo, se não diz a que veio não veleja em outro, /ainda que resuma o dia em lua, /não vale mais que um asilo para os rastros. (...) Um corpo que diz a que veio /erra entre os vizinhos e os nômades/ é um caniço para toda música”.

Que a professora Lu Spinelli continue, em Aracaju e no mundo, com seu corpo-arte-vida--dança, inspirando a humanidade e sendo música para os ouvidos dos que amam a dança!

Texto e foto reproduzidos do Facebook/Mario Resende.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 12 de novembro de 2014.

O poeta Hunald Fontes de Alencar lança livro


Publicado originalmente no Facebook/Linha do Tempo/Amaral Cavalcante, em 10 de novembro de 2014.

O poeta Hunald Fontes de Alencar lança livro

Foi bom ver o poeta Hunald Alencar ativo e altivo, conquistando novos públicos para a sua poesia certeira, sua exigente elegância poética sendo absolvida, didática e necessária, pela mais nova geração.

Ele tem escolhido o teatro, o conluio com a emoção dos atores que, de certo modo, sempre foram os intérpretes ideais da poesia, para dar voz e performance ás suas invenções.
Fui hoje ao lançamento do seu novo livro, “Quatro Monólogos Trágicos” e o que eu encontrei lá, na gente que o cercava, foi o futuro.

Fiquei feliz ao ver que esse poeta, tão importante na minha formação, continua formando novas gerações de leitores e admiradores, fieis seguidores do seu estro , como eu e muitos da nossa geração.
O que não podemos admitir é a obsolescência!

Amaral Cavalcante.

Texto e foto reproduzidos do Facebook/Amaral Cavalcante.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 12 de novembro de 2014.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Preservar é preciso.


Publicado originalmente no Jornal da Cidade.Net, em 06/06/2014.

Preservar é preciso.
Quem se interessa por arquitetura deve ter prestado atenção que Aracaju já tem poucos imóveis com fachadas antigas.
Por: JornaldaCidade.Net

Quem se interessa por arquitetura deve ter prestado atenção que Aracaju já tem poucos imóveis com fachadas antigas. No centro da cidade, onde no passado era o reduto dos casarões de época com maior expressão do neoclassicismo, muitas casas vêm sendo derrubadas de modo desenfreado e com finalidades estritamente comerciais. Muitas delas se tornaram estacionamentos, outras viraram agencias bancárias, clínicas, ou até alvo da marginalidade. É o caso do casarão de Dr. Augusto Leite, na avenida Barão de Maruim, que virou a agencia da Caixa, é o caso da casa da família Freire, que virou a agência do Banese, na mesma avenida, além de outras tantas que deixaram de existir dando lugar a um terreno para estacionamentos.

A causa para essa falta de preservação está na omissão de tombamentos. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) jamais reconheceu um bem sequer de Aracaju como patrimônio oficial. Por outro lado, o governo municipal nunca tombou nenhum imóvel na cidade, e as determinações legais do Plano Diretor Municipal também não são suficientes para impedir a descaracterização de obras ou imóveis que marcaram a paisagem da capital sergipana.

A professora Terezinha Oliva, superintendente do IPHAN em Sergipe explica que há alguns anos existia uma visão de que só deveriam ser tombados aqueles imóveis públicos ou privados que apresentassem traços coloniais. “Como Aracaju é uma cidade que surgiu no século XIX e tem sua estrutura arquitetônica marcada pelos estilos modernismo, pós-modernismo e contemporâneo então não havia como se tombar nada”. No entanto, a professora admite que hoje a visão do instituto mudou e já existe um estudo para preservação de bens considerados relevantes para o país. È o caso da estação ferroviária e do próprio Palácio Olimpio Campos, que por enquanto ainda estão descobertos.

A professora acrescenta que foi desenvolvido um plano de ação para cidades históricas que serão beneficiadas com projetos de tombamento. É o caso de Aracaju, onde as ações se darão sobre o centro da cidade.

Na verdade, o que existe em Aracaju são imóveis considerados de interesse histórico-cultural pelo Plano Diretor de Aracaju, como: O Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, a Biblioteca Pública (atual Arquivo Público do Estado), a Associação Atlética de Aracaju, o Edifício dos Correios e Telégrafos e o Palácio Serigy. No entanto, até o momento nenhum deles foi tombado pelo município.

Sem um impedimento legal e com a enorme crise de vagas nas ruas estreitas do centro de Aracaju, o que acontece é que muitos imóveis antigos passaram a ser demolidos na calada da noite e nos fins de semana (onde não existe fiscalização alguma por parte das autoridades competentes), e os terrenos transformados em estacionamentos. Dessa forma, a história está desaparecendo aos poucos.

Texto e foto reproduzidos do site: jornaldacidade.net

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 7 de novembro de 2014.

A história da capital de Sergipe, Aracaju

Antigo Postal da Cidade de Aracaju/SE.
As margens do Rio Sergipe, a Avenida Ivo do Prado
e Rio Branco, mais conhecidas como "Rua da Frente".
Foto reproduzida do blog: coisasdoestadodesergipe.blogspot

Histórico de Aracaju Sergipe - SE.

A história da capital de Sergipe, Aracaju - antigo povoado Santo Antônio de Aracaju, é uma das mais inusitadas. Sua fundação ocorreu inversamente ao convencional. Ou seja, não surgiu de forma espontânea como as demais cidades, foi planejada especialmente para ser a sede do Governo do Estado. Passou à frente de municípios já estruturados, principalmente São Cristóvão, do qual ganhou a posição de capital. Acredita-se que uma capelinha, a Igreja de Santo Antônio, erguida no alto da colina, tenha sido o início da formação do arraial que se transformaria depois na capital do Estado.
A cidade de Aracaju, surgiu de uma colônia de pescadores que pertencia juridicamente a São Cristóvão. Seu nome é de origem tupi, e, segundo estudiosos da língua indígena, significa cajueiro dos papagaios.

Por ter o privilégio de estar localizado no litoral e ser banhado pelos rios Sergipe e Vaza-Barris, o pequeno povoado foi escolhido pelo presidente da província, Inácio Joaquim Barbosa, para ser a sede do Governo. Deixou para trás, além de São Cristóvão, grandes cidades como Laranjeiras, Maruim e Itaporanga d'Ájuda.

Inácio Barbosa assumiu o governo em 1853 com o desejo de fazer prosperar ainda mais a província. Ele sabia que o desenvolvimento do Estado dependia de um porto para facilitar o escoamento da produção. Apesar do desenvolvimento econômico e social de várias cidades no Estado, faltava essa facilidade. O presidente da Província contratou o engenheiro Sebastião José Basílio Pirro (homenageado com nome de rua em Aracaju) para planejar a cidade, que foi edificada sob um projeto que traçou todas as ruas em linha reta, formando quarteirões simétricos que lembravam um tabuleiro de xadrez.

Com a pressa exigida pelo Governo, não houve tempo para que fosse feito um levantamento completo das condições da localidade, criando erros irremediáveis que causam inundações até hoje. O projeto da cidade se resumia em um simples plano de alinhamentos de ruas dentro de um quadrado com 1.188 metros. Estendia-se da embocadura do Rio Aracaju (que não existe mais), até as esquinas das avenidas Ivo do Prado com Barão de Maruim, e a Rua Dom Bosco, antiga São Paulo.

A cidade cresceu inflexível dentro do tabuleiro de xadrez. Aterrou vales e elevou-se nos montes de areia. Foram feitas desapropriações onerosas e desnecessárias, para que o projeto mantivesse a reta. A única exceção foi uma alteração imposta pelo próprio presidente, permitindo que a Rua da Frente ganhasse uma curva, criando a bela avenida que margeia o Rio Sergipe.

As terras de Aracaju originaram-se das sesmarias, doadas a Pero Gonçalves por volta de 1602. 

Compreendiam 160 quilômetros de costa, que iam da barra do Rio Real à barra do Rio São Francisco, onde em toda as margens do estuário não existia uma vila sequer. Apenas eram encontrados arraiais de pescadores. Há notícias de que às margens do Rio Sergipe, em 1669, existia uma aldeia chamada Santo Antônio do Aracaju, cujo capitão era o indígena João Mulato.

Quase um século depois, essa comunidade encontrava-se incluída entre as mais importantes freguesias de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro do Tomar do Cotinguiba.

Os fatos mais relevantes da vida política de Aracaju estão registrados a partir de 1855. O desaparecimento das lutas e agitações da vida colonial possibilitou o crescimento da economia. O açúcar, produto básico da província, era transportado por navios que traziam em troca mercadorias e as notícias do reino.

Fonte: IBGE.

Texto reproduzidos do site: sergipearacaju.blogspot.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 7 de novembro de 2014.

Livro: "Mensagens, João Sapateiro"


Livro: "Mensagens, João Sapateiro"

João Silva Franco nasceu na cidade de Riachuelo, em Sergipe, no dia 20 de junho de 1918. Negro, quase dois metros de altura, teve a vida marcada pelo sobrenome postiço. Profissionalizou-se como sapateiro. Passou a ser conhecido como João Sapateiro e reconhecido como o sapateiro poeta.

Viveu quase 90 anos, antes de morrer placidamente em uma quinta-feira, dia 9 de outubro de 2008. Sua poesia, tal qual sua arte de consertar sapatos, é um patrimônio de Laranjeiras, um rico exemplo de criação que nada aos vates nascidos e criados naqueles domínios. Os sapatos gastos perdem-se, mas a poesia continua servida, nos livros que publicou.

Extraído de Um Poeta e seu Ofício de Luiz Antônio Barreto.

Texto e foto reproduzidos do blog: culturasdemalhador.blogspot

Postagem oririnária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 9 de novembro de 2014.

Zé Antônio: representante do Cordel Sergipano


Zé Antônio: representante do Cordel Sergipano
Zé Antônio (Cordelista Sergipano).

Títulos: O Folclore Sergipano, O Manifesto Comunista Comentado em Cordel, Aquecimento Global - O Apocalípse.

José Antônio dos Santos (Zé Antônio) nasceu no Oiteiros, povoado de Moita Bonita-Se, em 09 de agosto de 1955. Filho de Emeliano Antônio dos Santos e Maria Francisca dos Santos, pequenos agricultores. É professor de história e já publicou mais de sessenta cordéis, entre os quais se destacam: A história Comentada da Literatura de Cordel, A História do Velho Chico no Reino da Natureza, A Súplica do Velho Chico, Lampião: O Guerreiro do Sertão. Foi contemplado no programa BNB de Cultura do Banco do Nordeste, edição 2005, com os cordéis: O Guerreiro de Belo Monte, A História do Padre Cícero, O Santo Casamenteiro e a Revolta de Maricota, A Paixão de Cristo. Foi premiado em primeiro lugar no Prêmio Nacional de Literatura de Cordel, edição 2006, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia com o cordel: O Bandido Cabeleira – O Autor de Luisinha. Tem proferido palestras e ministrado oficinas de literatura de cordel nas redes pública e particular de ensino. Sua obra já foi tema de monografia de curso de estudantes de jornalismo da UNIT, Roberta Carvalho de Santana e da estudante de letras da Faculdade de Ciências Humanas de Paripiranga – Bahia Elenice de Santana Santos.

Texto e foto reproduzidos do blog: culturasdemalhador.blogspot

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 9 de novembro de 2014.

Quatro Vozes de Aracaju


Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 06/08/2005.

Quatro Vozes de Aracaju.
Por Luíz Antônio Barreto.

Quem for pro Aracaju
Me faça uma caridade
No cabelo das meninas
Ponha um ramo de saudade.
(Quadra popular).

Mais do que historiadores e intérpretes de Aracaju, José Calasans, Mário Cabral, Fernando Porto e Lauro Fontes são personagens ilustres da cidade, que deram contribuição de excepcional qualidade, formando um referencial teórico que funciona como uma luz, abrindo caminho à revelação e ao conhecimento dos fatos da vida aracajuana.

Em 1995, quando Aracaju completou 140 anos, José Calasans abriu sua casa, na avenida Sete de Setembro, em Salvador, para receber dois outros sergipanos que moram na capital baiana: Mário Cabral e Lauro Fontes, e mais Fernando Porto, da mesma geração, que foi de Aracaju especialmente para o encontro, juntamente com Luiz Antonio Barreto, Jackson da Silva Lima e Aglaé d’Ávila Fontes.

O encontro, cheio de lembranças e evocações, gerou uma fortuna crítica notável, tocada pelo sentimento de saudade, pelo carinho e pelo amor dos escritores à cidade idealizada por Inácio Barbosa. Dos seus longos depoimentos, extraiu-se o seguinte, como declaração lúdica, pessoal, íntima:

“O meu amor pela minha terra pode ser traduzido pelo que eu tenho escrito através de toda a minha vida. Mas Aracaju é uma cidade que me comove muito, me comove pela cidade em si, pelo traçado da cidade, pela paisagem humanista, pela paisagem urbana. Aracaju para mim é poesia, é trecho de céu, é farrapo de eternidade. Eu amo Aracaju.”

Mário Cabral, 91 anos, escritor nascido em Aracaju, jornalista, advogado, membro da Academia Sergipana de Letras, residente em Salvador desde a década de 1950, autor de uma vasta obra de poesia, de ficção e de crítica.

“Sempre eu tenho Aracaju nas minhas evocações. Quando vou a Aracaju, eu não vejo diferença nenhuma, porque ela está sempre eterna, dentro de mim. Ela está viva. Sempre.”
Lauro Fontes, 91 anos, engenheiro, nascido em Laranjeiras, residente em Salvador, onde atua com escritório técnico e onde escreve seus textos memorialísticos tendo a vida sergipana como permanente inspiração.

“O meu primeiro trabalho histórico foi sobre a mudança da capital, acontecimento que eu considero como o mais importante da história de Sergipe no século passado (XIX). Sergipano ausente, menos por vocação do que por destino, eu me sinto muito ligado a Aracaju. Gosto de rever a minha cidade.”
José Calasans, nascido em Aracaju em 1915, historiador, professor, ex presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, fundador - juntamente com Mário Cabral - da Revista de Aracaju, especialista em Canudos, com biografia intelectual consagrada na Bahia, falecido em Salvador, em 2003.

“A minha estima por Aracaju não nasceu como um fato compulsório, decorrente da minha certidão de nascimento, ela nasceu da contemplação da terra aracajuana, de uma cidade que para mim sempre estaria sorrindo, de uma cidade em que 50% da população nós conhecíamos e os outros 50% nós sabíamos quem era. Era uma cidade que, no meu tempo, era fraterna, o povo não andava correndo, uns sorriam aos outros, e isto fazia como eu dissesse: a cidade é um sorriso. Ao longo de todo esse tempo eu sempre fui catando, adubando esta amizade, que hoje é tão grande quanto a de qualquer outro lá tivesse nascido.”

Fernando Porto, nascido em Nossa Senhora das Dores, engenheiro, professor, autor de livros sobre Aracaju, falecido recentemente no interior de São Paulo, aos 94 anos. Os quatro mestres deram a Aracaju uma contribuição essencial: nas cátedras, nas páginas dos jornais, das revistas, nas instituições que criaram e ajudaram a transformá-las em fontes da história, no convívio fecundo com a terra e no esforço permanente de interpretação dos fatos sergipanos. Cada um deles deu contribuição especial:

Mário Cabral é, antes de tudo, o cronista da década de 1940, o pesquisador do folclore infantil, o guardião crítico dos vultos eminentes de Sergipe, como Tobias Barreto, Silvio Romero, Fausto Cardoso e muitos outros. Lauro Fontes, filho de Sindulfo Fontes, de uma família de grandes talentos – José Barreto Fontes, Sindulfo Filho, e outros – levantou, com José Calasans, no final dos anos de 1930 e início dos anos de 1940, o patrimônio histórico e artístico, para fins de proteção e tombamento.

José Calasans, com sua tese sobre Aracaju, chamou a atenção para a mudança da capital, e seguindo as pegadas de Clodomir Silva, mestre e inspirador, bebeu na fonte do povo, registrando as manifestações da cultura popular, participando, ainda, dos principais movimentos intelectuais de Sergipe. Fernando Porto, dedicado à sala de aula da Escola Técnica Federal, da Faculdade Católica de Filosofia e depois da Universidade Federal de Sergipe, teve passagem no serviço público, como Prefeito de Propriá, diretor de Obras de Aracaju, presidente da Energipe.

Mário Cabral, Lauro Fontes, que permanecem atuantes na Bahia, vencendo as barreiras do tempo com a lucidez dos seus idéias e compromissos, vibram, neste ano, com os 150 de Aracaju. José Calasans e Fernando Porto, emudecidos pela morte, são estrelas que brilharão sempre, como símbolos de luz na vastidão do conhecimento.

Fonte: "Pesquise - Pesquisa de Sergipe/InfoNet".
institutotobiasbarreto@infonet.com.br.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 9 de novembro de 2014.

Luiz Antônio Barreto

Foto reproduzida do site F5.

Homenagem a Luíz Antônio Barreto (1944 - 2012).

Luiz Antônio Barreto
Por Lúcia Gaspar.
Bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco.

A história de Luiz Antonio Barreto é múltipla e vária...Olhar para o seu legado é ficar diante de um amplo panorama no qual produção intelectual e ação cultural nunca se dissociam, posto que uma é movida pela outra, ao mesmo tempo que também a impulsiona, demonstrando o quanto ele foi capaz de correlacionar a reflexão com a realidade que viveu, pesquisando práticas da vida dos indivíduos e das instituições públicas e privadas, adequando sempre teoria e prática.[...]
Jorge Carvalho do Nascimento.

[...] Os sergipanos muito devem a Luiz Antonio pelas pesquisas que ele empreendeu no campo do folclore, da música popular, de todos aqueles costumes que foram praticados em tempos imemoriais, em tempos antigos, que já estavam morrendo no esquecimento do povo sergipano, mas que foram relembrados pela pena e também pela paciência, pela cultura incomparável deste sergipano que orgulhou a todos nós. [...]
Senador Antonio Carlos Valadares.

Luiz Antonio Barreto nasceu no município de Lagarto, localizado a 77 km de Aracaju, Sergipe, no dia 10 de fevereiro de 1944, filho de João Muniz Barreto e Josefa Alves Barreto.

Fez o curso primário na Escola Rural nº 149, em Pedrinhas, SE, e o ensino médio no Colégio Tobias Barreto, em Aracaju.

Vítima de perseguição política, sua família morou em diversos municípios de Sergipe, da Bahia e ainda na cidade do Rio de Janeiro.

Jornalista e historiador, estudou Direito nas Faculdades de Direito de Sergipe, em Aracaju, e na Nacional, do Rio de Janeiro, assim como cursou a Escola Nacional de Música, também no Rio de Janeiro.

Como jornalista exerceu atividades de repórter, colunista, redator, diagramador e secretário de redação dos jornais sergipanos Correio de Aracaju, Folha Popular, Gazeta de Sergipe, Sergipe Jornal e A Cruzada, no período de 1959 a 1971. Foi diretor da Revista Perspectiva (1966-1967) e colaborador de vários periódicos de Aracaju, Salvador, Recife, Rio de Janeiro, Teresina, Porto Alegre, Maceió, e da revista Il Moderno, de Milão, na Itália.

Atuou nas áreas de educação, cultura, história, comunicação, literatura e folclore, exercendo cargos em instituições públicas e privadas, entre os quais o de Assessor Cultural do Instituto Nacional do Livro (INL) e Diretor da Organização Simões, Editora, ambos no Rio de Janeiro; Diretor da Galeria de Artes Álvaro Santos, em Aracaju; Chefe da Assessoria Cultural da Secretaria da Educação e Cultura do Estado de Sergipe; Secretário da Educação e Cultura de Aracaju; Superintendente de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco, Recife (1987-1989); Diretor Cultural da Fundação Augusto Franco, Aracaju; Assessor da Presidência da Confederação Nacional da Indústria; Diretor do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira (Portugal); Diretor do Instituto Tobias Barreto.

Ocupante da Cadeira nº 28 e presidente da Academia Sergipana de Letras, nos biênios, 1981-1983 e 1983-1985, era ainda membro e orador do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe; conselheiro dos Conselhos Estadual e Municipal de Cultura do Estado; membro da União Brasileira de Escritores (UBE)-Secção de Pernambuco e membro fundador do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, em Lisboa.

Foi o responsável pela criação de diversas atividades educativo-culturais em Sergipe, como os Encontros Culturais de Laranjeiras; a Discoteca Pública, do Museu Afro-Brasileiro de Sergipe, também em Laranjeiras; o Seminário do Gado e do Couro, em Lagarto; o sistema de Vagão-Escola, da Biblioteca Infantil no Vagão, localizada no Parque Teófilo Dantas; a Oficina de Artes, da Escola de 2º Grau José Antonio da Costa Melo e a escola Ecológica, localizada no Parque da Cidade Governador José Rollemberg Leite.

Especialista em Tobias Barreto, é autor de diversos trabalhos sobre o ilustre sergipano, entre os quais, Tobias Barreto: a Abolição da escravatura e a organização da Sociedade (1988); Nova missão Tobiática no Recife e Tobias Barreto e seus seguidores, duas séries de artigos publicados na Gazeta de Sergipe (1987-1989); Tobias Barreto e a organização da sociedade, artigo publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, em 1989; A fé e a razão, Tobias Barreto e a crítica, e Tobias Barreto e a luta pelo Direito; ensaios introdutórios às Obras Completas de Tobias Barreto (INL; Record, Rio de Janeiro, 1989-1990);Tobias Barreto e a Filosofia no Brasil (Aracaju, 1990); O pensamento e a ação política de Tobias Barreto (Actas do I Colóquio Tobias Barreto, Lisboa, 1992).

Publicou ainda, A Bíblia na literatura de cordel (Revista Brasileira de Cultura, Rio de Janeiro, 1971); Vaquejada e São Gonçalo em Sergipe, ambos na Revista Sergipana de Cultura, em 1978; Opção informal na pré-escola: experiência da Secretaria da Educação e Cultura do Município de Aracaju, 1981; A arte sergipana, in Brasil, arte do Nordeste (Spala: Rio de Janeiro, 1986); Um novo entendimento do folclore (Recife, 1988); Simão Dias: história e tradição (Aracaju, 1990); Sergipe, 400 anos de história, in Turismo e Lazer, Aracaju, 1990; O Poder Judiciário de Sergipe, 100 anos de história (Aracaju, 1992) e o livro Memórias de Sergipe: Personalidades sergipanas, uma seleção de textos sobre personalidades que marcaram a história de Sergipe (2007), entre outros.

Luiz Antonio Barreto morreu em Aracaju, no dia 17 de abril de 2012.

Recife, 22 de maio de 2012.

Texto reproduzido do site: basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 9 de novembro de 2014.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O Chefe Invisível


Foto da família, vendo-se Silvio Leite pai de Leite Neto, que está sentado, 
de chapéu de palhinha e Francisco Leite, pai de Júlio Leite,
 que está de chapéu de palhinha, em pé.
 O garoto é Armando Rollemberg.

Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 02/10/2004.

"O Chefe Invisível".
Por Luíz Antônio Barreto.

A figura do senador Júlio César Leite serviu a que o seu neto, advogado e jornalista Ricardo Leite revistasse os álbuns de família e as páginas da história, construindo uma biografia política, sublinhada pela admiração, a começar pelo título do livro: Júlio Leite, o chefe invisível (Aracaju: Instituto Tancredo Neves/Banese, 2004). É um livro sincero, algumas vezes apaixonado, que ocupa lugar destacado na história política e republicana de Sergipe, revelando o seu autor como um pesquisador consciente do objeto de suas pesquisas.

Poucos são os personagens sergipanos que têm biógrafos. Homens como os generais Manuel Priscialino de Oliveira Valadão, José de Siqueira Menezes, José Joaquim Pereira Lobo, José Calasans, Augusto Maynard Gomes, como os médicos Felisbelo Freire, Rodrigues Dória, os bacharéis como Martinho Garcez, Ciro de Azevedo, que tiveram papéis destacados na política e na administração pública do Estado, são personagens que estão a espera de quem possa biografá-los, no contexto dos cenários de suas épocas.

Os políticos, em sua grande maioria, passam nas páginas dos livros com citações, mesmo porque são poucos os autores que trabalham com a análise dos fatos, com a compreensão do fenômeno político. Os livros de Ibarê Dantas são praticamente únicos e cobrem décadas importantes, nas quais surgiram movimentos, como é exemplo a década de 1920 com as revoltas tenentistas. O último livro de Ibarê Dantas historia a República, detalhando o itinerário prático decorrente dos ideais republicanos, passando em revista as administrações, abarcando longo período, chegando a resenhar a dupla gestão do governador Albano Franco, o que dá precisa atualidade ao livro recentemente lançado.

Ricardo Leite cumpre, então, um papel de historiador ao focar suas pesquisas e análises no senador Júlio Leite (1896-1990), bacharel pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro, com curso na Escola Superior de Guerra, Delegado, Chefe de Polícia, Inspetor Escolar, Secretário – Geral do Estado de Sergipe, banqueiro do Banco Mercantil Sergipense,( casa fundada em 1924, tendo como companheiros o Coronel Gonçalo Rollemberg do Prado, seu sogro, e Moacir Rabelo Leite) , industrial da Fábrica Santa Cruz, (de propriedade da Companhia Industrial de Estância, fundada pelo comendador João de Souza Sobrinho, e mais tarde adquirida pelo coronel Gonçalo Rollemberg do Prado) e, ainda, da Fábrica Senhor do Bonfim, (de propriedade da Empresa Industrial Estanciana, que organizou com Constâncio Vieira, que também possuía as fazendas Limeira e Peripery, onde criavam gado Zebu, e as fábricas de descaroçar algodão Modelo e Sulina, respectivamente em Riachão e em Boquim), integrante do Partido Republicano, organizado em 1945, quando da redemocratização do País, e que em Sergipe foi herdeiro da velha União Republicana, liderada pelo médico Augusto Leite, irmão do biografado.

Discreto, qualidade presente na família, a ponto de ser tido como “invisível” em suas articulações, Júlio Leite dedicou-se às atividades empresariais, parecendo deixar a participação política eleitoral em segundo plano. Candidato a senador em 1950 ganhou o mandato em disputa, com 42.832 votos, derrotando Augusto Maynard Gomes que obteve 38.258 votos. Cumpridos 8 anos, voltou a disputar a cadeira de senador, em 1958, perdendo-a para Heribaldo Vieira, da UDN, por pouco mais de 3 mil votos. Na eleição seguinte, em 1962, conquista novo mandato para o Senado, tendo a outra vaga ocupada pelo seu sobrinho Leite Neto.

Nos 16 anos que passou no Senado Federal Júlio Leite soube ser um bom representante do Estado, muito embora sua imagem estivesse sempre associada as articulações políticas, onde parecia estar mais à vontade para exercer seu papel de líder, que dividiu com Armando Rollemberg e com outras lideranças setoriais do Partido Republicano. Ricardo Leite selecionou discursos do segundo mandato, deixando de listar os temas tratados entre 1951 e 1959, fase de efervescência política, que cobre o fim da Era Vargas e o Governo de Planos e Metas do presidente Juscelino.

Muito justamente, o autor destaca a presença de Júlio Leite na Estância, dirigindo a Fábrica de Tecidos e concorrendo com sua visão social para a harmonia entre o capital e o trabalho, certamente influenciado pelas ações vanguardistas do Dr. Thales Ferraz, ao dirigir a Fábrica Sergipe Industrial, a primeira de Sergipe, de propriedade da família Cruz, instalada em Aracaju. Ainda hoje é possível verificar os equipamentos sociais, desportivos e culturais das Fábricas Santa Cruz e Senhor do Bonfim.

Igrejas, residências para os funcionários graduados e vilas operárias, gabinete dentário, Salão de Diversões, Teatro e Centro Recreativo fazem lembrar o Parque Sergipe Industrial, montado em 1913, pela visão de Thales Ferraz, o mais completo complexo de lazer que já teve a capital sergipana, ponto de atração de famílias inteiras e de jovens aracajuanos, ávidos por diversão. Thales Ferraz, que não foi político, é um personagem a espera de um biógrafo, não somente pelo Parque, mas pelas revolucionárias atitudes sociais.

Júlio Leite, o chefe invisível de Ricardo Leite é um tributo, pessoal e familiar, a um político que influiu na história de Sergipe, muito especialmente nas décadas que exerceu mandatos como representante do Estado no Senado Federal. Sua família, toda ela de sensibilidade política, revelou os filhos Augusto, executivo de fino trato e competência, Fernando, que foi deputado estadual pelo PR, de 1963 a 1967 e suplente de deputado federal, na eleição de 1966, e que na condição de presidente da Assembléia Legislativa assumiu o Governo do Estado, na ausência do governador Celso de Carvalho, que governava desde a deposição e prisão do governador Seixas Dória. A terceira geração vai bem na política, como é o caso de Otávio Leite, virtual vice prefeito da cidade do Rio de Janeiro, depois de ser vereador e deputado estadual na Cidade Maravilhosa, honrando a biografia do avô.

Bem ilustrado, reproduzindo alguns documentos, o livro de Ricardo Leite pode figurar na estante sergipana de história como uma contribuição significativa de resgate de um personagem e uma época.

Texto e fotos reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto
Fonte "Pesquise - Pesquisa de Sergipe / InfoNet". institutotobiasbarreto@infonet.com.br.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 5 de novembro de 2014.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Sala do Passado


Publicado originalmente no Facebook/Petrônio Gomes, em 31/10/2014.

A Sala do Passado.
Por Petrônio Gomes.

Atualmente a sala destinada ao encontro dos funcionários aposentados do Banco do Brasil ocupa um local excelente, no primeiro pavimento do edifício, junto aos elevadores e aos guichets de expediente.

Não se escuta nem se vê, do lado externo, o que se fala e o que acontece no lado interno, graças à porta de vidro escuro que faz o papel de fronteira. É uma porta de vai-vem com um aviso de que nem todos os mortais devem entrar. Mas tenho o prazer de convidar o leitor a vir comigo.

Aquela fotografia ampliada na parede oposta à entrada é um retrato de Aracaju quando tinha quarenta anos a menos. Podemos contar os edifícios pelos dedos de uma das mãos.

Nesta outra parede, várias fotografias de colegas, em grupos, colhidas na calçada do antigo prédio do Banco, na rua da frente. Deveria ter sido pelas dezesseis horas, quando nos era permitido um intervalo chorado. Lembro-me de que muitos aproveitavam esse tempo de folga temporária para o namoro dos próprios automóveis. Éramos jovens, afinal de contas.

Esta mesa retangular que ocupa o centro da Sala, cercada de poltronas confortáveis, é destinada às reuniões diárias dos colegas. É aqui onde lembramos os casos engraçados e também as passagens tristes de nossa passagem pelo Banco.

Mas esta outra mesa, redonda e coberta com feltro verde, constitui o fraco de grande parte dos aposentados. Quando a porta de vidro se abre, ouve-se um barulho difícil de ser identificado. Somos levados a pensar que uma briga está acontecendo lá dentro, mas não se trata disto. As pancadas e os gritos fazem parte do jogo de gamão diário. E gamão não tem graça quando não batemos as pedras no taboleiro. Até campeonatos periódicos existem, com juízes, caderninhos e inventários de jogos passados.

Que mais poderei mostrar da Sala do Passado? Talvez o que ela tem de mais querido, de mais prazenteiro, e que, infelizmente, não se pode exibir. São a própria razão de existir este recanto, estojo de lembranças que cada um de nós tem guardadas.

Por alguns instantes, volto no tempo e torno a ver esses mesmos colegas trabalhando, de camisas sociais e gravatas. Era um tempo diferente, sem aparelhos de ar condicionado, mas mesmo assim, a gravata era tão obrigatória como a folha de ponto. Apenas os ventiladores giravam, durante todo o expediente, enquanto a fumaça dos navios que atracavam na “Ponte do Lima” invadia o recinto do Banco...

E as condições de trabalho? Pesadas máquinas de datilografia, inclusive algumas da marca “Continental”, de fabricação alemã, de carro grande para a confecção de mapas que a gente compunha durante horas, espelhando estudos estatísticos que a Direção exigia. Essas máquinas eram fixadas nos tampões das carteiras e depois recolhidas, quando terminávamos o trabalho mecânico, voltando as carteiras a exibir a superfície normal.

Quando se aproximava a época do balanço, a maioria dos funcionários se ocupava em contar os números relativos aos juros que seriam creditados na data aprazada. Para tanto, usávamos outras máquinas de calcular, estranhas engenhocas que exigiam outro tipo de trabalho. Cada uma delas tinha uma pequena maçaneta que deveríamos girar, tantas vezes para a direita quantos fossem os números dos multiplicadores se quiséssemos multiplicar, tantas vezes em sentido contrário se quiséssemos diminuir. Não havia munheca para trabalhar durante as horas intermináveis que duravam esse trabalho.

A rotina do expediente, como é natural, amoldava-se aos meios físicos de trabalho. Assim, havia todo um ritual para se atender ao público, com extratos de contas escritos manualmente, cadernetas de depósitos e outros artigos inimagináveis atualmente. Grande gavetas de aço guardavam as fichas de depósitos, e uma ficha desaparecida constituía a mesma dor de cabeça que os computadores de hoje também oferecem quando ocorrem os inevitáveis equívocos.

Quanto à disciplina, é bastante lembrar que só havia dois motivos para justificar o fato de ser encontrado um funcionário fora do Banco em horário de expediente: ou estaria cumprindo dever externo ou estaria em férias. Quem faltasse ao trabalho na quarta-feira de cinzas, por outro lado, perderia a remuneração referente ao carnaval inteiro.

O numerário para outras agências e destas para a Capital era transportado em automóveis comuns, sobre estradas poeirentas, muito mais extensas do que as de hoje, quando as rodovias cortaram trechos desnecessários. No sul do país, essas viagens também eram feitas por trem, com os malotes de dinheiro sob os bancos, durante dois ou mais dias.

Havia um código disciplinar que informava sobre a conduta dos funcionários. As respostas insatisfatórias às perguntas que esse código formulava eram motivo para o atraso na promoção. Houve muita injustiça por causa da prepotência de alguns chefes, não devidas ao sistema disciplinar, mas à eterna fraqueza humana.

Todavia, a época era outra no tocante aos valores e aos costumes, não apenas no Banco do Brasil, mas em todos os setores. A mesma retidão que o Banco usava para com os funcionários, desde o concurso – que era considerado um paradigma no Brasil inteiro – até o modo como cumpria os seus deveres para com o funcionalismo, era também exercida por esses mesmos funcionários na sua vida particular.

E nessa época em que ainda não havia a Universidade na maioria das capitais, os nossos colegas se tornavam professores nas cidadezinhas onde serviam. Quanto ao “status”, é bastante dizer que não precisavam se preocupar com o que hoje é motivo de inquietação: o dinheiro que recebiam era o suficiente para uma vida digna em qualquer parte do país.

Se a porta de vidro da Sala do Passado se abrir agora, deixando passar para o seu interior um flagrante do mundo atual, nós é que ficaremos deslumbrados com o salto de gigante que a vida executou. Como é possível a gente saber o saldo da conta em qualquer cidade do país em poucos minutos? E estamos perfeitamente convencidos de que jamais poderíamos aprender a lidar com os meios sofisticados de agora.

Quanto ao mais, tudo continua exatamente como antes. Existem ainda as pessoas alegres, como no nosso tempo, que nos faziam rir durante o trabalho, como existem as injustiças, as perseguições. Isto porque a inveja ainda não foi banida do mundo, a mediocridade não foi erradicada.

Quando você, meu querido amigo, estiver na fila de um dos caixas no primeiro andar e ouvir um barulho como de briga quando a porta de vidro estiver aberta, perdoe nossa algazarra de velhotes em torno de uma mesa de dominó. Pois existem momentos em que nossa alegria também estanca, há ocasiões em que deixamos de rir ao mesmo tempo. É quando uma notícia qualquer nos chega de que outro colega irá compor o retrato do grupo daqueles que já partiram...

Texto e imagens reproduzidos do Facebook/Fan Page/Petrônio Gomes.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 01 de novembro de 2014.

A Passagem Secreta



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Publicado originalmente no Facebook/Linha do Tempo/Lilian Rocha,em 12 de outubro de 2013.

A Passagem Secreta.
Por Lilian Rocha.

Quando entrei no Arqui pela primeira vez, tinha apenas 10 anos. Como tantos, fui atraída por alguns boatos que circulavam pela cidade: "O Arqui vai ter piscina"!
Ora, o que hoje parece uma tolice, não o era em 1969, tempo em que a gente contava nos dedos as piscinas de Aracaju. E um colégio com piscina era um verdadeiro sonho para uma criança de 10 anos!
E assim, fui matriculada na '1ª série de ginásio', que depois virou '5ª série' e hoje, '6º ano'. Como me senti bonita e importante na minha farda nova! Era uma saia cinza, toda plissada, uma blusa branca, de poliéster, meias brancas, sapatos pretos Vulcabrás e, no bolsinho da blusa, um escudo de metal com o símbolo do colégio.

Meu Arqui era grande para meus olhos de criança! Onde hoje é o auditório, havia três salas de aula, todas de ginásio. Estudei nas três: 5ª, 6ª e 7ª série. No primeiro andar, ficavam outras salas de ginásio e o científico. Perdi as contas das vezes em que me sentei à sombra daquelas velhas mangueiras para olhar os rapazes do científico, que passavam os intervalos das aulas debruçados nos murinhos, olhando com desprezo para nós, "crianças" do 1° grau. Como eu desejava ser do científico! Só assim eu usaria saia justa e blusa rosa, em vez de branca e, quem sabe, seria mais respeitada por eles...

Cada intervalo das aulas era uma loucura pra ver quem chegava primeiro no speed-ball, um esporte que, nessa época, só existia no Arqui. Toda essa gostosura consistia num mastro fincado no chão e uma bola pendurada por uma corda que, por sua vez, era presa no mastro. O objetivo de cada dupla de jogadores era enrolar a bola num sentido e impedir que a dupla adversária enrolasse primeiro no sentido contrário. Quando o sinal tocava para entrar, lá estávamos nós, com o rosto vermelho e completamente suados, num misto de cansaço e prazer...

Mas o gostoso mesmo do Arqui eram os horários vagos. A gente aproveitava e ia explorar o colégio. Subíamos sorrateiramente as escadas do 2º andar, o lugar mais proibido do Arqui, pois era ali onde dormiam os seminaristas, e também onde ficava o apartamento do padre, que ainda hoje permanece no mesmo lugar, só que agora desabitado. Só o soalho era escuro, velho e fazia um barulhão quando andávamos por ali.
No 2º andar ficava também a biblioteca com a doce Irmã Augusta. Desde aquele tempo, era ela quem fazia as capas dos nossos trabalhos escolares. De vez em quando, nos batíamos com um seminarista pelos corredores e saíamos correndo, entre risos e sustos, uma delícia...

Onde hoje funciona o RH, ficava a cantina e comandando tudo, nossa velha Morena. Aliás, Morena estava em todos os lugares ao mesmo tempo: na cantina, pelos corredores, no portão, sempre atenta, sempre vigilante, sempre fiel ao Arqui, fiel ao padre, fiel ao seu dever. E cada vez mais me orgulho dela, pois há quase 50 anos, Morena mantém essa mesma fidelidade.
E, finalmente, a quadra de esportes. Era um campo todo gramado, cercado por um muro baixinho. Ali, fazíamos educação física e alguns esportes como vôlei e hand-ball. Tento forçar a memória para lembrar como é que a gente às vezes escapava do colégio pelo campo, mas não consigo. Lembro-me, apenas, que por algum lugar a gente ia parar na igrejinha N.S. Menina, que fica exatamente no fundo do colégio. Imaginem vocês que pecado! Pra gazear, a gente passava pela Igreja, nos ajoelhávamos, pedíamos desculpas à N.S. e lá estávamos nós na rua de Itabaiana, rumo à Cinelândia, em busca do picolé mais gostoso da cidade, livres de qualquer culpa ou remorso...
Mas logo o padre descobriu essa "facilidade" e tratou de fechar essa passagem.

Quanta saudade sinto de você, meu Arqui!
Você me viu crescer, foi cúmplice do meu primeiro namoro, meu primeiro beijo. Nas suas escadas vermelhas me sentei várias vezes, para chorar as mágoas de amor, me sentindo a pessoa mais infeliz do mundo. É de se esperar, pois com 14 anos, a gente exagera tudo...
Em 1973 cheguei ao científico, mas não usei saia justa. O Arqui tinha mudado a farda. Em vez de saia e blusa de botões, passamos a usar calça jeans, blusa de malha e tênis, uma verdadeira inovação. Fui estudar no 1º andar e confesso que também olhei com desprezo as "crianças da quinta série". Agora já me sentia uma veterana.
Em novembro de 75, desci pela última vez suas escadas e cruzei a porta de saída, rumo ao vestibular. Confesso que nem olhei para trás nem nunca mais voltei para vê-lo. Estava com a cabeça cheia de sonhos, ocupada demais com o futuro. Não havia tempo a perder com saudades. Aliás, é assim que a gente se sente aos 17 anos. Sem tempo para as saudades. Saudade é coisa de velho, que não combina em nada com nosso espírito de adolescente...

E o tempo passou. Tornei-me professora, casei, tive filhos. E uma por uma, as experiências foram se sucedendo. Fui professora de pré-escola, de ensino fundamental, de curso pedagógico, do ensino médio... Ensinei em escolas, ensinei em casa, ensinei pelo rádio e pela televisão...
Um dia, recebo um convite singular do Pe. Carvalho para ensinar Português e, “nas horas vagas, ser uma espécie de mãe para os alunos". Nem pensei duas vezes e disse a ele que sim. Na verdade, não estava dizendo ‘sim’ só a ele, mas ‘sim’ às minhas lembranças, à possibilidade de voltar ao meu colégio tão querido, palco da minha adolescência, onde vivi algumas das experiências mais doces de minha vida.

E foi assim que em 1995 entrei outra vez no meu colégio, quase vinte anos depois. Procurei minha cantina, meu campo gramado, a escada por onde eu subia escondido pra tocar o sino, mas nada disso encontrei. Foi aí que eu vi como o tempo tinha passado e como nós tínhamos crescido!
Meu Arqui havia se transformado numa verdadeira cidade, de 4.200 alunos, toda informatizada e moderna, com capela, auditório, teatro, coral, jornal, posto médico, carpintaria, livraria e tudo o mais que há em qualquer cidade. Meu antigo campo gramado havia virado um imenso e belo ginásio de esportes e lá no canto estava ela, a minha tão sonhada piscina...

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18 anos se passaram depois disso. Vi outras piscinas serem construídas, outras cantinas, outras escadas...
Vi pessoas saindo, pessoas entrando...
Vi o tempo passar, impiedoso como sempre, carregando junto com ele histórias e lembranças de um tempo que também foi meu...
Olho em volta e não sei por onde começar a faxina. Há vestígios de saudade por todos os lados: nas paredes, nas gavetas, prateleiras, armários... Pedaços de uma história bonita que eu não tenho coragem de rasgar...
Assim como ainda não tive coragem de fechar essa pequena passagem secreta que me conduz às melhores lembranças de você...

(Lilian Rocha – 12.10.13).

Texto e fotos reproduzidos do Facebook/Linha do Tempo/Lilian Rocha.


Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de  2 de novembro de 2014.

Lembranças


Publicado originalmente no Facebook/Petrônio Gomes, em 28/10/2014.

Lembranças.
Por Petrônio Gomes.

Não foi apenas uma vez que interrompi minha caminhada matinal para assistir ao ritual de "Zé Peixe", o seu “bom-dia” solitário à cidade.

São cinco horas da manhã, hora em que o rio mais parece um espelho, refletindo os primeiros raios do sol. "Zé Peixe" atravessa a rua em demanda do ancoradouro da Capitania dos Portos, vestindo um calção que andava em plena moda, lá pelos anos quarenta.
Sua pele, bastante curtida pelo sol, é uma prova viva de que toda a sua vida teve o rio por cenário, fato que já foi divulgado em livro, embora as façanhas de José Martins Ribeiro Nunes já sejam por demais conhecidas pelos sergipanos.

Chegando à plataforma da Capitania, Zé Peixe inclina o corpo e salta. Nunca vi tanta naturalidade, tanta familiaridade com este rio que banha a nossa cidade. Poucos segundos depois, sua cabeça emerge à superfície e ele começa a nadar em direção do ponto onde me encontro. Zé Peixe nada como nenhum professor de natação ensina aos seus alunos, isto é, de modo inteiramente contrário às regras, levantando a cabeça para ambos os lados e sem bater os pés! Em suma, qualquer aluno de natação, tendo por instrutor um diplomado que ensina nos grandes clubes, será reprovado sumariamente, se nadar do modo como José Martins Ribeiro Nunes costuma nadar, aliás, do único modo como "Zé Peixe" sabe nadar.

- Tudo bem, Zé? - perguntei-lhe, certa vez, enquanto ele subia as escadas.
- Tudo certo - respondeu ele, com o mesmo ar simplório de sempre.
- Zé, quantos metros de profundidade existem na cabeceira da ponte?
- Quase dois, quando a maré está pelo meio.
- Só isto, Zé? E você pula de cabeça?
- Mas eu sei pular...

E dizendo isso, afastou-se de mim com um sorriso, acenando-me um até logo bem humorado. Prossigo minha caminhada obrigatória, absorto em minhas lembranças.

Tínhamos a mesma idade, Zé Peixe e eu, e por isso, fomos testemunhas das mesmas cenas que enfeitaram nossa meninice: os saveiros que pontilhavam as águas do rio, o velho trampolim da rua de Maruim, que ficava cheio de garotos nas tardes de domingo; o aeroporto flutuante da Panair do Brasil e a chegada dos hidro-aviões da Companhia, fabricando uma longa esteira de espuma na superfície do rio; o barquinho a motor que conduzia os passageiros para o embarque, deixando invejosos todos os que o contemplavam da balaustrada; a Agência da Panair, que ficava a cargo da firma “A Fonseca”, talvez a mais tradicional da cidade.

Nessa época, já era habitual para Zé Peixe atravessar o rio, façanha que envolvia desafios dos outros meninos, pois era uma espécie de herói, aos olhos dos outros, aquele que conseguia chegar à Barra dos Coqueiros, apenas com a força dos braços.

Aracaju era apenas uma cidade-província, onde se experimentava a potência dos automóveis na subida da ladeira de Santo Antônio. Sim, qualquer carro que lograsse vencer aquele declive sem engasgar, poderia ser comprado pelo candidato. Depois, essa mesma ladeira do Santo Antônio haveria de arrancar risos de todos os que voltavam de Salvador...

Da Capitania dos Portos, volto em sentido contrário pela mesma rua da frente. E novas recordações vêm chegando. Vejo outra vez as antigas casas comerciais ressurgirem das cinzas: a casa “Dantas & Kraus”, o consultório do dr. Augusto Leite, no prédio onde funcionou depois a Gazeta de Sergipe; o armazém de ferragens de Ribeiro & Cia., o Banco do Brasil, o Trapiche Lima, o Banco Mercantil Sergipense, a Companhia Telefônica...

Apenas nos antigos postais e em nossa memória existem ainda essas sombras do passado. Quando as evocamos, mil outros acontecimentos também ressurgem, como pedaços de um calendário perdido, restos ilustrados de uma folhinha que não conseguimos esquecer.

Hoje, até Zé Peixe também, já faz parte de minhas lembranças...

Texto e foto reproduzidos do Facebook/Fan Page/Petrônio Gomes.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 29 de outubro de 2014.