sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Manoel Bomfim: o "professor de professores" sergipano¹


Publicado originalmente pelo Sergipe Cultura, em 14/08/2012.

Manoel Bomfim: o "professor de professores" sergipano¹
Por Antônio Wanderley de Melo Corrêa (2)

Manoel Bomfim foi um dos maiores intelectuais sergipanos de todos os tempos e um dos maiores do Brasil nas três primeiras décadas do século 20. Segundo um de seus biógrafos, o alagoano Ronaldo Conde Aguiar, o “esquecimento” de sua obra, profunda e volumosa, e de sua personalidade marcante, se deveram a algumas condições: a sua não aceitação em fazer parte dos 40 primeiros imortais da Academia Brasileira de Letras, convidado pelo fundador Machado de Assis; à sua crítica furiosa, radical (de raiz) e consistente às elites da República Velha; a não adesão do intelectual sergipano à Revolução de 1930, que para ele “não traz substituição de gentes, nem de programas, nem de processos”; não ter absolvido o Socialismo como teoria para sua obra nem para a sua militância, não obstante ter sido um simpatizante da Revolução Bolchevique de 1917. Sobre o Socialismo, Bomfim pontificou: “seria um sistema perfeito, se os homens fossem perfeitos”.

Este escrito é uma pequena contribuição para o (re) conhecimento sobre a vida e a obra do médico, psicólogo, escritor, pedagogo, professor, homem público, sociólogo e historiador sergipano, desconhecido da imensa maioria dos seus conterrâneos do presente.

Manoel José do Bomfim nasceu em Aracaju em oito de agosto de 1868, filho de um próspero comerciante da Rua da Aurora (atual Avenida Rio Branco) e proprietário do engenho Quiçamã (São Cristóvão): Paulino José do Bomfim e de Maria Joaquina do Bomfim. “Nezinho” foi o quarto dos 13 filhos do casal. Por volta dos 12 anos foi morar no engenho Quiçamã, ajudando o pai a administrar a propriedade. Aos 16 anos, comunicou aos genitores a sua intenção de sair de Sergipe para se tornar médico.

Em 1886, o jovem Manoel José, com apenas 18 anos, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia. Dois anos depois, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde conheceu o poeta Olavo Bilac, tornando-se seu amigo até a morte deste em 1918. A dupla Bomfim e Bilac iria, nos 30 anos seguintes, realizar vários projetos literários e educativos. Em 1890, com 22 anos, concluiu o curso de Medicina com a tese “Das Nephrites”.

O ano de 1891 foi significativo para Bomfim. Foi nomeado médico da Secretaria de Polícia do Rio de Janeiro e casou-se com Natividade Aurora de Oliveira. No ano seguinte, foi promovido a tenente-cirurgião da Brigada Militar (atual Polícia Militar) da capital federal de então. Naquele período escreveu seus primeiros artigos para a imprensa, atividade a qual realizou por quase toda a vida.

Em 1894, com 26 anos, Bomfim perdeu seu pai Paulino José e, meses depois, sua filha Maria de três anos, durante uma epidemia de tifo. Desiludido com a Medicina abandonou a profissão.

No ano de 1897 foi nomeado diretor-geral do Pedagogium, uma instituição federal criada por Benjamim Constant para a profissionalização e o aperfeiçoamento de professores públicos e particulares. Ao mesmo tempo lecionava a disciplina Instrução Moral e Cívica na Escola Normal, de formação de professores do Curso Primário, do Rio de Janeiro. Ainda lecionou nesta instituição as disciplinas Pedagogia e Psicologia Aplicada à Educação. No ano seguinte, foi nomeado o diretor da Instrução Pública (cargo equivalente ao de secretário de educação na atualidade) do Distrito Federal. No Pedagogium, Bomfim instalou o primeiro Laboratório de Psicologia Experimental do Brasil.

Por ter se tornado um homem público no campo da educação, ter escrito vários livros para o trabalho educativo, ser formador de professores e um defensor incansável da instrução sistemática para todos os brasileiros, se autodenominava um “professor de professores”. E o foi até os seus últimos dias. No seu derradeiro livro tratou da educação brasileira, como informaremos adiante.

Nos anos seguintes publicou, em parceria com Olavo Bilac, Livro de Composição para o Curso Complementar das Escolas Primárias (1899) e Livro de Leitura para o Curso Complementar das Escolas Primárias (1901).

No biênio 1902/1903 estudou Psicologia em Paris, com bolsa do Governo Federal.

Após ser solicitado por jornalistas parisienses para que escrevesse um artigo sobre a América Latina e o Brasil (em 1903), Bomfim escreveu um livro: América Latina Males de Origem, o seu primeiro título histórico-sociológico, publicado em 1905, tendo o autor a idade de 37 anos.

América Latina foi um livro original, contrário à visão preconceituosa que os europeus tinham dos latino-americanos, associando a mestiçagem a uma suposta inferioridade física, intelectual e moral. Visão esta, aceita e reproduzida por muitos intelectuais brasileiros de então. Apesar da boa aceitação, o livro foi criticado e desqualificado violentamente por Silvio Romero, conterrâneo de Bomfim. Romero era um dos maiores representantes das teorias racistas de superioridade da “raça” ariana ou germânica diante das “raças” mestiças locais. Para ele, os mestiços eram “uma sub-raça brasileira cruzada”. Darcy Ribeiro (ver fontes) adjetivou América Latina como “um livro extraordinário”.

Naquele mesmo ano (1905), junto com Luis Bartolomeu e Renato de Castro, fundou a revista infantil O Tico-Tico. A primeira revista em quadrinhos semanal e colorida do Brasil. Foi um sucesso desde a sua primeira edição. Foi publicada por quase 57 anos, até fevereiro de 1962, totalizando 2097 edições, divertindo e educando várias gerações de brasileiros.

Em 1906, Bomfim propôs ao prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos, a idéia da composição de um hino à Bandeira Nacional. O projeto foi concretizado, o Hino à Bandeira, Letra de Olavo Bilac e música de Francisco Braga, espalhou-se pelo Brasil e foi oficializado pela República em 19 de novembro daquele ano.

Na legislatura 1907/1908, Bomfim foi eleito deputado federal, formando com Felisbelo Freire, Gilberto Amado e Silvio Romero uma “prestigiosa bancada sergipana”. Naquele período, além de parlamentar, exerceu outra vez o cargo de chefe da Instrução Pública do Distrito Federal (Rio de Janeiro).

Em março de 1908, o deputado federal Manoel Bomfim chegou a Aracaju com a família, Natividade e seu filho Aníbal. Veio visitar sua mãe e irmãos, reunir-se com políticos correligionários da capital e do interior, agradecer os votos que o elegeram e reorganizar os negócios da família, entre eles a venda do engenho Quiçamã, em função da crise da produção açucareira que atingia o estado. Em 14 de fevereiro de 1909, após a derrota pleiteando a reeleição, Bomfim e família embarcaram no navio Satélite de volta ao Rio de Janeiro. Não mais voltaria a Sergipe.

Em 1910, aos 42 anos, publicou, em parceria com Bilac, o livro de leitura escolar Através do Brasil, que foi lido por diversas gerações de brasileiros nos bancos escolares ao longo do século 20, tendo 66 edições até 1965. Um marco na literatura escolar brasileira. Da geração dos nossos avós para trás, todas as crianças brasileiras que foram à escola, aperfeiçoaram a leitura se deliciando com as aventuras dos garotos Carlos, Alfredo e Juvêncio de Através do Brasil.

Em 1911, o “professor de professores” reassumiu a direção do Pedagogium, ficando até 1919, quando foi extinto. Por 19 anos dirigiu aquela instituição.

Em 1915, em plena Primeira Guerra Mundial, Bomfim escreveu dois artigos no Jornal do Comércio (do Rio de Janeiro) intitulados A Obra do Germanismo, nos quais criticou os interesses geopolíticos da Alemanha e a responsabilidade daquele país em deflagrar o conflito. Transformou os artigos em um livreto e destinou o rendimento da venda da publicação à Cruz Vermelha da Bélgica, país invadido brutalmente pelo exército alemão. Ao final da guerra, em 22 de novembro de 1918, foi condecorado pelo rei Alberto I da Bélgica com a Ordem Leopoldo.

Outras publicações de Bomfim: Lições de Pedagogia: Teoria e Prática de Educação (1915); Noções de Psicologia Escolar (1916); Primeiras Saudades (1919); A Cartilha, Lições e Leituras, Crianças e Homens, Livro dos Mestres: com Aplicações à Linguagem do Ensino Primário (1922); Estudo do Símbolo no Pensamento e na linguagem (1923); O Método dos Testes (1928) em parceria com Ofélia e Narbal Fontes.

Foi redator de várias revistas e colaborou com alguns dos maiores jornais da época: Notícia, Tribuna, Jornal do Comércio e Paiz.

Entre os muitos amigos ilustres do “professor de professores” sergipano, destacaram-se: Olavo Bilac, Alcindo Guanabara, Aluísio Azevedo, Arthur Azevedo, Paula Nei, Luis Murat, Pardal Mallet, Guimarães Passos, Raul Pompéia, Humberto de Campos, Gilberto Amado, Coelho Neto, Pinheiro Machado, Graça Aranha, Juracy Camargo e Medeiros de Albuquerque.

Não obstante possuir uma mente brilhante e enorme capacidade de trabalho, Bomfim era uma personalidade de temperamento forte, teimoso, intransigente, rigoroso no julgamento, inclusive consigo mesmo. Como a contradição é uma marca do espírito humano, ele teve fama de sedutor e de ter relacionamentos paralelos ao casamento com a companheira de toda a vida: Natividade Aurora.

No ano de 1926, começou a ter problemas com a saúde. Em 1928, descobriu que estava com câncer na próstata. Percebendo que lhe restava pouco tempo de vida, dedicou-se corajosamente a escrever. Iniciava-se ali a fase mais brilhante de sua carreira de escritor. Entre 1928 e 1932, os últimos lustros de sua vida, o pedagogo sergipano escreveu a trilogia histórico-sociológica que o consagrou, além de mais um título sobre educação. Não queria morrer sem deixar prontas as obras sobre o Brasil que tanto amava.

Sofreu terrivelmente com a doença evoluindo para a metástase. Foi internado várias vezes e sofreu, nada mais nada menos que, 14 cirurgias. Vivia a maior parte do tempo deitado, sentindo dores atrozes por não aceitar sedativos, debilitado ao extremo. Mesmo assim, não abandonava a máquina de escrever.

Num esforço heróico, escreveu e publicou O Brasil na América (1929) com mais de 400 páginas; O Brasil na História (1930) com quase 600 páginas; e O Brasil Nação (1931), este último em dois volumes.
Com as forças físicas praticamente anuladas, produziu seu último trabalho Cultura e Educação do Povo Brasileiro prostrado no seu catre de dor e de idéias, ditando ao teatrólogo Juracy Camargo (autor da peça Deus lhe Pague). O livro foi publicado postumamente em 1933 e premiado pela Academia Brasileira de Letras.

Finalmente, na noite de 21 de abril (Dia de Tiradentes, o mártir da Independência) de 1932, Manoel José do Bomfim deu seu último suspiro. Tinha 64 anos. No dia seguinte, 22 de abril (Dia oficial do achamento do Brasil), o cortejo fúnebre saiu do bairro de Santa Teresa em direção ao Cemitério São João Batista. O sepultamento aconteceu no final daquela tarde nublada, bem simbolizando a tristeza dos familiares e amigos do “professor de professores” sergipano. Até o presidente da República, Getúlio Vargas, enviou representante.

Os biógrafos e estudiosos da obra de Bomfim são praticamente unânimes em afirmarem que o seu esquecimento não foi por mera obra do acaso ou por simples displicência da memória coletiva. Por ter sido um homem à frente de seu tempo, foi rejeitado e amaldiçoado pelas elites conservadoras e atrasadas da República Velha oligárquica e repressora.

Pela profundidade, originalidade, amplitude e atualidade de sua obra, em função das idéias antiimperialistas, anti-racistas, democráticas, de educação pública generalizada, por criticar os pífios investimentos governamentais em educação, por propor uma escola sem castigos físicos e humilhantes e com uma educação humanizante e prazerosa, além do “desmesurado amor pelo Brasil”, nas últimas décadas vêm ocorrendo o redescobrimento de Manoel Bomfim. Diversos intelectuais vêm se debruçando sobre os escritos do sociólogo sergipano. Um número significativo de teses e artigos são produzidos por historiadores, sociólogos, geógrafos, psicólogos e pedagogos nas universidades e institutos de pesquisa. Editoras do porte da Topbooks e da Companhia das Letras reeditaram vários de seus trabalhos, inclusive uma caudalosa biografia do “professor de professores” com 560 páginas (AGUIAR, 2000).

Vários intelectuais sergipanos vêm citando, analisando e tendo como referência teórica a obra grandiosa do conterrâneo aqui biografado. Eis alguns deles: Ivo do Prado, Ariosvaldo Figueiredo, Maria Thétis Nunes, Terezinha Oliva, Marta Cruz, José Vieira da Cruz e Antônio Bittencourt.

Em 2010, a deputada estadual Ana Lúcia fez uma propositura solicitando a transformação do prédio onde nasceu e viveu por 12 anos o “professor de professores” em um “Memorial Educador Manoel Bomfim”. O imóvel é situado na Avenida Rio Branco (A “Rua da Frente”, antiga “Rua da Aurora”) próximo à Praça Fausto Cardoso em Aracaju, onde abrigou o antigo jornal Diário de Aracaju e a Rádio Jornal AM. O objetivo do Memorial é preservar e tornar reviva a história da educação em Sergipe.

Para concluir, pequenos fragmentos do pensamento de Bomfim sobre dois temas atualíssimos: o meio ambiente e a democracia, numa época na qual quase ninguém se importava com a devastação da natureza, enquanto a democracia no Brasil oligárquico era uma palavra sem muito sentido.

“A natureza é inesgotável, com a condição, porém, de que a estudemos, e que alcancemos aproveitá-la e explorá-la, sem que a inutilizemos. (...) pensem, então, nas ferozes devastações dos nossos bosques e matas, tão úteis à vida; pensem no que se tem perdido, da uberdade do nosso solo, nos incêndios bárbaros que a ignorância da nossa lavoura acende todos os dias, desde quatro séculos, por sobre milhares de léguas quadradas de terras, que, férteis e virgens ontem, (...), estão hoje convertidas em campos ásperos, agrestes, nus, que só muito trabalho e muita ciência poderão restituir à cultura”. (in América Latina: Males de Origem, 1905).

“A democracia, voz da maioria, converteu-se em regime de exploração da maioria trabalhadora, (...). Senhora dele [o capital], uma minoria pode subordinar o aparelho democrático aos interesses capitalistas e, arrimada nos direitos patrimoniais, pessoais, exige a garantias dos privilégios de fato em que está montada, privilégios que significam justamente o sacrifício do grande número”. (in O Brasil Nação, 1931).

1 – Artigo publicado no Jornal do Dia, Aracaju: 08 e 09 ago 2012. P. 04.

2 - Licenciado em História pela UFS, professor das redes públicas estadual (SEED) e municipal de Aracaju (SEMED) e co-autor do livro didático Sergipe Nosso Estado.

FONTES:
AGUIAR, Ronaldo Conde. O Rebelde Esquecido: Tempo, Vida e Obra de Manoel Bomfim. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.
BILAC, Olavo. BOMFIM, Manoel. Através do Brasil: Prática da Língua Portuguesa. Coleção Retratos do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
BOMFIM, Manoel. América Latina: Males de Origem (Prefácios de Darcy Ribeiro, Franklin de Oliveira e Azevedo Amaral). 4ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks, 1993.
BOMFIM, Manoel. O Brasil Nação: Realidade da Soberania Brasileira (Prefácios de Wilson Martins e Ronaldo Conde Aguiar). 2ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.
BOMFIM, Manoel. O Brasil na América: Caracterização da Formação Brasileira (Prefácio de Maria Thétis Nunes). 2ª edição. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997.
CRUZ, Jose Vieira da; BITTENCOURT JUNIOR, Antonio (Organizadores). Manoel Bomfim e a América Latina. Aracaju: Editora Diário Oficial, 2010.
SANGALLI, Adriana. Prédio do Antigo Diário de Aracaju Pode se Tornar Memorial Manoel Bomfim. Agência de Notícias da Assembléia Legislativa de Sergipe (Internet). 10 fev. 2011.
SANTANA, Sonia Cristina Pimentel de. Manoel Bomfim: Resgate de um Educador Comprometido com a Causa da Instrução Pública Brasileira. Boletim Informativo. Ano IV. Nº VIII. São Cristóvão: UFS/Departamento de Ciências Sociais/NPSE, agosto a dezembro de 1999.

Texto reproduzidos do blog: sergipecultura.blogspot.com.br
Foto reproduzida do site: cliopsyche.uerj.br/arquivo

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 2 de outubro de 2014.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Detalhes de antigo casarão na rua Estância, em Aracaju

Foto reproduzida do blog: jorgescruzehistoria.blogspot.com.br

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 28 de setembro de 2014.

Pascoal Maynard


Primo e amigo Pascoal Maynard, sentindo falta de suas publicações as quintas feiras:

"Gravando para o "Expressão" desta sexta, dia ..., às 19 horas e reprise no sábado, .... às 14 horas, pela TV Aperipê".

Mas é só por um tempo, logo, logo você estará de volta e com MUITA SAÚDE e disposição.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 27 de setembro de 2014.

José, Conceição e Marta, na Praia, em Aracaju

Quê Beleza! Gostei muito de ver isso.
"Zé do Cartório", Conceição e uma de suas filhas, a Marta,
curtindo um dia de Sol na Praia da Sarney, em Aracaju/SE.
Fotos reproduzidas do Facebook/Marta Garcez.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 27 de setembro de 2014.

Lucilo da Costa Pinto


Publicado originalmente no site Jornal da Cidade.Net, em 30/09/2013.

No registro dos 100 anos de nascimento de Lucilo da Costa Pinto
Por Osmário Santos.

Lucilo da Costa Pinto nasceu a 23 de setembro de 1913, em Olinda, Pernambuco. É filho de Ricardo José da Costa Pinto e Alice Barreto da Costa Pinto.

Estudou Medicina em Recife e casou já doutorando com Célia Albuquerque. Por problemas políticos, vivendo a época da ditadura de Vargas, já formado, sentia a constante presença da polícia na sua vida. Meu pai tinha consultório na rua da Aurora. Fui para lá, eu recém-formado e a polícia estava na porta me vigiando. Ia para casa e a polícia na esquina.

Não foi possível sua presença na formatura junto ao grupo de colegas de turma, nem pôde fazer parte do quadro. Recebeu o diploma na secretaria da faculdade, tempos depois, pois estava preso na época. Abandonou sua terra, fugindo das perseguições do Interventor Federal em Pernambuco, Agamenon Magalhães. Percebendo que ia levar uma vida insustentável, sem poder fazer nada, aceitou o convite do professor Joaquim Sobral, que mandou a Recife um emissário para procurar um professor de Química. Chegou em Aracaju em 1939.

Tendo oito filhos do seu casamento com Célia Albuquerque da Costa Pinto, já falecida, trouxe na época, além da bagagem, a mulher e três filhos: Rosa, Carlos e Marcos Túlio, recém-nascido. Como precisava sair urgentemente de Pernambuco, ficou muito satisfeito com o emprego de professor do Atheneu, recebendo 165.000 réis. Depois passaram para 300.000 réis, melhoraram. Foi nomeado professor de Química e ensinava pré-Engenharia e pré-Medicina Química. Era a presença no Atheneu de um professor do mais alto gabarito. Chegou a ensinar diversas matérias. Ensinei Química no Colégio Tobias Barreto e no antigo Colégio das Freiras. Como professor do segundo grau, Costa Pinto lembra fatos importantes da sua vida.

Meu concurso em 1945 foi uma coisa que me marcou profundamente. Fui enfrentar a banca examinadora para catedrático do Atheneu. Como estávamos na época da guerra, a luz era cortada. Eu escrevi minha tese com dois candeeiros de querosene. Não tive dinheiro para imprimir e mimeografei. Tinha que dar dez volumes ao Atheneu e dinheiro que é bom nada... Então, o professor Acrísio Cruz me disse: ‘Olha! Eu trabalho numa secretaria que tem um mimeógrafo. Você que mimeografar?’ Fiz 50 exemplares do meu trabalho intitulado ‘Contribuição ao Estudo da Fisiologia do Timo’ (uma glândula de secreção interna). Foram oito meses de pesquisa para garantir meu ingresso no concurso e enfrentar a temida banca julgadora.

Costa Pinto lembra dos professores que enfrentou na banca: Oscar Nascimento, que foi um dos maiores didatas de Sergipe; professor Alfredo Montes, Dr. Clóvis Conceição e Dr. Garcia Moreno.

Da época do seu contato com os alunos do Atheneu, lembra um episódio que envolveu a polícia e os estudantes. Houve uma das greves feitas pelos alunos e eu, com o meu espírito de político, fiquei do lado dos meninos. Era Interventor Federal o general Maynard Gomes, que mandou cercar o Atheneu pela cavalaria da polícia. Eu achei uma afronta fazer isso com os estudantes secundaristas que estavam liderados pelo Tertuliano Azevedo, hoje figura política de atuação em Sergipe.

O Tertuliano estava à frente da estudantada, quando percebi que os investigadores já estavam pulando o muro do Atheneu de revólver na mão. Eu, então, saí com o professor Abdias e fomos ao palácio fazer o nosso protesto ao Interventor. Ele nos atendeu e nos disse que não tinha autorizado. Mandou chamar o chefe da polícia e ordenou a retirada da cavalaria imediatamente. Voltei com o professor Abdias e prometemos que iríamos trabalhar para acabar a manifestação. No Atheneu, o professor Abdias fez uma preleção e tudo foi resolvido a contento. Isso foi para mim um fato histórico e marcante na minha vida.

Em 1941, montou o seu consultório. Subloquei um consultório com o Dr. Garcia Moreno no edifício defronte dos Correios e Telégrafos. No prédio, havia alguns consultórios, o de Dr. Manoel Cardoso, dentista recém-formado; Dr. Paulo Faro, também recém-formado, Dr. Garcia Moreno e o meu.

Costa Pinto já tinha dois anos em Aracaju e trabalhava, até então, somente como professor do Atheneu. Seu ingresso na Medicina em Sergipe foi de suma importância, pois Aracaju já necessitava de um especialista em Urologia. Não havia urologista com curso de especialidade em Aracaju. Passei dezessete anos sem ter concorrente e não tenho um tostão ganho em Medicina. Costa Pinto diz isso, sem nenhuma queixa.

A Medicina, naquela época, era, na verdade, uma supremacia de sacerdócio. Um ganha pão. O dinheiro era secundário. O exemplo do Dr. Augusto Leite, o fundador da Medicina em Sergipe. Foi um grande cirurgião e morreu pobre. Não tinha nada. Tinha uma aposentadoria do Hospital Cirurgia que dava um conto de réis por mês. Ele tinha bens de família, mas ganho em Medicina, nada! Tinha uma conta financeira ridícula e quase todos os médicos, como o D. Juliano Simões, morreram pobre. Fez uma casinha, depois de não sei quantos anos de especialidade. Em geral, os médicos que tinham posses eram os que tinham heranças; já eram ricos. Mas os que se formaram pobres, morreram pobres. Eram um sacerdócio, mesmo!

Uma medicina onde inicialmente o médico atendia ao paciente, para depois receber o seu honorário e, quando podia receber... Um paciente chegava e dizia: “Olha, doutor, eu quero saber a sua conta, pois o dinheirinho que trouxe só deu para pagar o hospital. O seu depois mando”. Quanto pagou de hospital? “Paguei um conto e quinhentos”. Depois você me manda quinhentos mil réis... Olha que era um bom dinheiro pois sustentava a família com trezentos mil réis. E quando recebia? Mas o lado do médico humanista tinha sua compensação: recebia muitos presentes, principalmente os famosos capões do interior, bons...

Era uma maneira de o paciente manifestar a sua gratidão dentro de suas posses. Era muito melhor assim, a gente se sentia muito mais confortado e realizado, quando tratava um pobre e um mês, dois, um ano depois, vinha com um capão de presente. A gente não ganhava o dinheiro, mas recebia uma gratidão eterna. Eu conheço, hoje, gente em Aracaju que operei há quarenta anos atrás e, quando me encontra na rua, é uma festa.

Não se compara as condições de um centro cirúrgico do passado com as de hoje. Hoje, a medicina dispõe de aparelhos sofisticados de anestesia, mas a gente tinha um tal aparelho ombretano, uma máscara pesadíssima que colocava no rosto do paciente. Não tinha balão de oxigênio, não tinha nada. Quando o doente ficava um pouco arroxeado com pouco oxigênio, o anestesista suspendia o aparelho para o doente respirar o ar atmosférico.

O Dr. Costa Pinto conta um dos momentos cruciais em sua profissão. Eu operei a próstata do pai de um colega meu. Foi a maior próstata que tirei no Estado de Sergipe, enorme. Aplicamos todos os recursos disponíveis da Medicina. Então, o doente começou a perder sangue, e tome sangue, tome sangue e a pressão baixando e a coisa ficou séria. Ao meu lado estava o Dr. José Augusto Barreto, cardiologista, recém-formado, que atendeu o meu convite para transfusão, e o cirurgião Fernando Sampaio, já falecido. Uma equipe boa, que formei para me ajudar nessa operação. Lutamos de nove horas da manhã até às três horas da madrugada do dia seguinte. Como o doente estava como morto, eu então cheguei junto da irmã Clara e disse: “Irmã, eu estou cansado e vou deixar o atestado de óbito assinado”. Ela então disse: “Doutor, o senhor quer se antecipar a Deus? Se o homem não morrer, doutor?” Para mim, foi uma lição. Fui para casa. Naquele tempo, morava na rua Siriri. Sete horas da manhã o meu enfermeiro, o Moreira, bateu à porta. Quando abri, estava o enfermeiro e o filho mais velho do paciente, que era bancário do Banco do Brasil e os dois rindo. Eu disse: O que foi que houve? Meu pai mandou chamar. Quer saber se pode tomar um mingau.

A política já estava presente em sua vida, pois seu pai era político. Quando chegou em Aracaju, já trouxe a carta de apresentação de um amigo de Recife que conhecia Walter Franco, irmão do Dr. Augusto Franco.

Tinha um banco aqui na rua da Frente, o Banco Indústria e Comércio. O Walter Franco, o Zezé Franco, os três irmãos, se não me engano. Então, fui ao banco, apresentar a carta. Por coincidência, no momento, estava no banco o Dr. Leandro Maciel. Quando entreguei a carta ao Walter, depois de ler, ele disse: ‘Leandro, aqui está um pernambucano, médico, veio para ensinar no Atheneu’. Pois bem, o Dr. Leandro logo fez o convite para eu ir a sua casa. Como o homem era o chefe político de oposição do Estado, eu fiquei com ele até a Revolução de 1964 que acabou com os partidos.

Foram mais de vinte anos com a UDN. Costa Pinto conseguiu uma suplência na Assembléia Legislativa e, por alguns meses, chegou a ser deputado estadual. Foi candidato a prefeito da capital pela UDN e perdeu para Godofredo Diniz.

Sendo contra a ditadura, ingressou no MDB. Foi um dos seus fundadores em Sergipe com ficha de inscrição de número nove. Foi vereador de Aracaju pelo partido por nove anos e meio. Participou de memoráveis campanhas e resolveu deixar a política. Acabou a ditadura e eu, então, não queria mais saber de política. Afastei-me de tudo, pois sempre fiz política por idealismo e não com interesse.

Um dos comícios mais interessantes foi o realizado em Propriá. Certa feita em Propriá, num comício, o povo estava de braços cruzados. O povo de lá é duro para comício. Falaram onze oradores. Um amigo, que era contrário, da ARENA, disse-me: “Muitos discursos e o povo sem bater palmas. Eu não falei ainda. Costa, eu reconheço que você é um bom orador popular, mas vou apostar uma garrafa de whisky como você não arranca as palmas do povo de Propriá”. E eu apostei. Saí e fui para casa onde estava hospedado. Lá, tinha na parede uma espada. Perguntei à filha do dono da casa de quem era a espada. Foi do meu avô que era Guarda Nacional. Pedi a espada e uma toalha de banho e prometi trazer logo de volta. Quando subi no caminhão que era o palanque, Oviêdo me disse: “que armada Costa Pinto está aprontando? O que é esse negócio enrolado na toalha?” Eu, calado. Quando chegou a minha vez, uma hora da manhã, para encerrar o comício, o locutor Jaime Araújo passou o microfone. Pedi para ele segurá-lo, peguei a espada e apontei para o povo e gritei: Eis o símbolo da revolução que nos tortura. Foi um delírio.

Costa Pinto atuou na Educação, na Medicina e na Política, além de trabalhar na Igreja Católica. Chegou a ser o orador, em nome do clero sergipano, para saudar o bispo D. Fernando Gomes na sua chegada, para tomar posse na Diocese de Aracaju. É um pai de grande dedicação aos filhos, netos e bisnetos.

Sou um homem realizado. Até com os meus fracassos. Caio, levanto-me, vou adiante. Não deixo de comprar uma coisa para guardar dinheiro. Não sou daquele tipo de pessoa que vê um queijo, tem vontade de comer e guarda o dinheiro. Quem guarda com fome, o rato come, não é?

Texto e Imagem reproduzidos do site: jornaldacidade.net/osmario

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 28 de setembro de 2014.

8 de Julho - Emancipação Política de Sergipe.



O Povo enche o peito de orgulho e grita, Sou Sergipano!

8 de Julho - Emancipação Política de Sergipe.

A emancipação ocorreu no dia 8 de julho de 1820, onde Sergipe ficou independente da Bahia. Foi um momento marcante da história do estado porque a partir desta data começou a autonomia política, econômica e cultural.

Também começou a surgir a sergipanidade e o pensamento sobre qual é a característica do sergipano. Os elementos da nossa cultura começam a ser valorizados a partir da nossa emancipação.

Sergipe comemora sua emancipação política do estado da Bahia pelo decreto de Dom João VI, constituindo-se unidade da nação.

Imagem: Secult
Reproduzida do site: imprensa1.com.br
Texto reproduzido do site Do G1 SE.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 29/09/2014.

Estátua de Francisco Camerino



Publicado originalmente na Linha do Tempo/Facebook/Ademar Queiroz.

A Praça Camerino, no Centro de Aracaju, recebeu a estátua do homenageado, Francisco Camerino. Natural de Estância (SE), nasceu em 1841 e morreu em 1866, aos 25 anos, na Guerra do Paraguai. Camerino era o voluntário paisano, que desde a adolescência pensava em defender o Brasil. Estava na Bahia quando eclodiu a guerra do Paraguai, levando-o a alistar-se e a participar do conflito, morrendo vítima de ferimentos em batalha. Ficou na alma do povo brasileiro, essencialmente romântica, o gesto heróico daquele voluntário que, ferido gravemente e recusando tomar o clorofórmio, recita no momento extremo, ao ter os seus braços amputados, estes singelos versos de sua autoria e que bem definem a sua bravura e a sua indomável coragem:

"E ou morre o homem na lida.
feliz, coberto de glória;
ou surge o homem com vida,
mostrando em cada ferida
o hino de uma vitória."

Para a sua glória, era bastante que ele tivesse sido soldado voluntário na campanha do Paraguai, mas é que acima do soldado cumpridor do seu dever, ele era poeta e foi por causa da sua poesia que o seu nome ficou ligado à História da Pátria.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Ademar Queiroz.


Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 01/10/2014.

sábado, 27 de setembro de 2014

“É difícil viver de teatro no Nordeste”, diz Jorge Lins

Foto: Márcio Garcez

Publicado originalmente no site F5News, em 03/03/2013

“É difícil viver de teatro no Nordeste”, diz Jorge Lins.
Diretor teatral fala sobre paixão e desafios das artes cênicas

Por Adriana Meneses

Criador e fundador do Grupo Raízes, o diretor teatral Jorge Lins de Carvalho, às vésperas de completar 56 anos de idade, e 40 anos de carreira artística, fala, nesta entrevista a F5 News, sobre a paixão pelas artes cênicas e os desafios de lidar profissionalmente nesse segmento no panorama cultural de Sergipe. Nascido em Aracaju, Jorge Lins é formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal de Sergipe.

F5 News: Quando surgiu a sua paixão pelo teatro?

Jorge Lins - Quando eu estudava no Colégio Atheneu Sergipense, no início da década de 70, eu assisti a uma montagem sobre a vida de Santos Dumont e despertei para esse universo mágico que é o Teatro. Engraçado que quando criança nunca tinha ido ao teatro, sou de uma geração órfã de espetáculos e projetos culturais aqui na cidade. Minha família sempre teve uma ligação muito grande com as letras, com a leitura, mas Teatro eu nunca tinha sonhado em fazer. Agora, é lógico que sempre tive uma tendência grande em contar histórias, viver histórias... Quando menino, tinha 365 tampas de garrafas e todas elas tinham nome e eu inventava histórias diariamente com elas, brincando pelo chão. Mas Teatro mesmo, só aos 13, 14 anos...

F5 News:Você é formado em Ciências Jurídicas e Sociais, porém nunca trabalhou na área. O teatro contribuiu para isso?

Jorge - Na verdade, quando eu comecei a estudar Direito na UFS, não havia naquela época solução de sobrevivência vivendo do fazer cultural em Aracaju. Há 36 anos, a opção para quem queria ser artista era ir para o sul do País. Eu não queria sair da minha terra, aí na época me meti com jornalismo, lecionava em escolas, Cursos de Pré-Vestibular e fazia teatro e música. Eu sempre tive um envolvimento muito grande com a área da música. Não sei se o Teatro contribuiu para que não seguisse a carreira jurídica. Na verdade, eu não me considero assim um "homem do Teatro" embora, minha principal linguagem seja realmente o teatro. Eu me acho mais um produtor cultural. Então, se eu me perguntasse se a minha paixão pela cultura fez com que eu não seguisse a carreira jurídica, eu diria que, assim que eu encontrei uma maneira de sobreviver fazendo o que faço, não tinha como fazer mais nada.

F5 News: Ao longo dos seus 40 anos de carreira, quantos espetáculos você já dirigiu ou participou? Teve algum que marcou especialmente a sua trajetória artística?

Jorge – Como ator, acho que fiz mais de 40 espetáculos diferentes e participei de mais de 20 shows. Como autor, eu tenho mais de 140 textos escritos. Agora que estou tentando resgatar todos os meus trabalhos e criar um site só para isso. Tem uns 10 anos que não subo num palco, só dirijo e produzo os espetáculos. Eu tenho a impressão que a peça que mais marcou a minha trajetória e a que foi mais montada foi "Quem descobriu o Brasil?" que já foi montada por vários grupos de vários estados.

F5 News: Como é trabalhar com o teatro em Sergipe? Existe apoio do poder público?

Jorge - Trabalhar Cultura no Nordeste é muito complicado. Não existe uma estrutura profissional por parte dos órgãos e instituições, que estão acostumados a dialogar com grupos e propostas amadoras. Há uma carência enorme de produtores e gestores de Cultura em Sergipe e em todo o Nordeste. Já se ensaia algumas iniciativas por parte do Governo, nas três esferas (federal, estadual e municipal), mas nada que possa ser lido como uma política cultural. O nosso grupo trabalha quase que especificamente com o público, sem editais, verbas de patrocínio e apoio estatal. As nossas iniciativas mantêm o nosso trabalho, a nossa ação. Estreamos espetáculo atrás de espetáculo. Esse ano, já foi "As mulheres de Hollanda" e agora "Quintal de sonhos". Em abril, "Drummond, o poeta maior", "O menino do dedo verde" e "A chegada de Lampião no inferno". E não paramos, funcionamos como uma fábrica de ilusões.

F5 News: Que tipo de apoio poderia impulsionar a expansão do teatro sergipano?

Jorge - Deveríamos ter projetos de circulação permanente de espetáculos, adequar salas no interior do estado para que pudéssemos criar um circuito pelos principais pólos das regiões, circular pelas escolas, levar as escolas para o Teatro, as faculdades, fazer um trabalho gigantesco de formação de platéias. Se um dia eu tivesse o poder nas mãos para decidir linhas e ações dentro da área, a prioridade número um seria a formação de plateias. Formar cidadãos conscientes e com envolvimento com a arte é fundamental para a formatação de um novo Brasil, mais humano, justo e desenvolvido.

F5 News: Como o público sergipano se comporta diante das produções teatrais dirigidas e apresentadas por artistas locais?

Jorge - Eu acho que mudou muito e isso é uma conquista de várias gerações. Do pessoal que veio antes de mim - Amaral Cavalnati, Aglaé Fontes, Bosco Seabra, Newton Lucas, Oto Cornélio, Vieira Neto, Walmir Sandes -, ao pessoal da minha época - Tadeu Machado, Neu Fontes, Paulo Lobo, Luiz Eduardo Oliva, Isaac Galvão, Lindolfo Amaral, Isabel Santos - e do pessoal que está aí hoje na luta - Lindemberg Monteiro, Bruno Kelvernek, Raimundo Venâncio, Diane Veloso, Flávio Porto, entre tantos. A luta de toda essa gente por tantos anos foi criando uma plateia para a nossa produção. Hoje, já existe público para espetáculos sergipanos. Eu me orgulho muito de ter um público caloroso e gigantesco sempre nos meus espetáculos. Há algum tempo atrás, era impossível se encher teatro com produção local, hoje encho constantemente. Acho que o trabalho do Grupo Raízes é fundamental para esse público que se criou para artistas da terra.

Texto e imagem reproduzidos do site: f5news.com.br

Postagem originária da página do Facebook/Grupo MTéSERGIPE, de 27 de setembro de 2014.

Grupo Parafusos, da cidade de Lagarto, no estado de Sergipe.

Foto reproduzida do Facebook/Fan Page/Sergipe, como eu vejo.

Grupo Parafusos, da cidade de Lagarto, no estado de Sergipe.

Grupo formado por homens vestidos de anáguas de renda completamente branca, eles realizam movimentos em 360º sobre si mesmos, no sentido horário e anti-horário dessa forma parecendo a “volta” de um parafuso. Formado pelo padre José Saraiva Salomão, a origem do grupo remonta o ano de 1897. O grupo faz alusão à fuga de escravos das senzalas.

Fonte: Edivan Santtos/lounge.obviousmag.org

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 26/09/2014.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Antonio Maia - Arte e alma de Sergipe


Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 03/10/2008.

Antonio Maia - Arte e alma de Sergipe.
Por Luíz Antônio Barreto.

Nascido em Carmópolis, em 9 de outubro de 1928, quando aquele lugar ainda era Carmo, ex-vila e povoado de Rosário, servindo pelo “Maria fumaça” do “Chemins de Fer”, Antonio Maia Cruz, levou de Sergipe, nos olhos e na alma, todos os sentimentos e crenças, valores e costumes, que alicerçaram a sua arte, a um tempo simples e grandiosa, com a qual enfeitou e deu ao Brasil uma linguagem estética popular. Passou pela Bahia, terra de tantos mistérios, e terminou no Rio de Janeiro, onde nos anos de 1950 chegou para viver, com suas irmãs, uma existência de quase 80 anos, repartida entre a sobrevivência e as múltiplas manifestações do seu talento de artista. Parecia difícil conciliar a carreira militar, na Aeronáutica, com os pincéis, espátulas, telas e tintas, interessando-se por técnicas e temáticas próximas do povo, fosse o seu povo, como os ex-votos, fossem os orientais com os Tarôs, baralho de 76 cartas, seriadas em quantidades distintas de lâminas, de uso adivinhatório, e o Origami, com suas dobraduras de papel, além de outras sutilezas da alma humana.

Outro sergipano – Artur Bispo do Rosário – nascido em Japaratuba, nas vizinhanças de Carmópolis, levou para o Rio de Janeiro a tradição dos estandartes, que tanto abrem desfiles e apresentações de grupos folclóricos e de procissões, como fixa cores, partidos, nos ciclos de festas, notadamente o natalino, agregado a Santos Reis e São Benedito, ornado pela cerimônia de coroação de Reis negros, costume que desde o século XVII tem registro no Recife, em Pernambuco, e no século XIX populariza-se em Sergipe, em volta das igrejas matrizes, de invocações de Nossa Senhora da Vitória e Nossa Senhora do Rosário, ou nas capelas dos engenhos de açúcar e das fazendas de gado.

A lúdica sergipana ambientou entre Japaratuba e Carmópolis o povoado Entrudo, e guardou, nos primeiros dias de janeiro, na velha Missão de Japaratuba, a guerra das cabacinhas (que já foi conhecida como Limões de Cheiro) junto da qual desfilavam blocos de Maracatu, Cacumbís, Reisados, Cheganças, e outros fatos folclóricos que sobrevivem, de certa forma desfocados, como representações simbólicas do povo sergipano, ainda que formem uma base, na qual está contida a tradição, sem prejuízo da cultura popular que viceja nos contatos sociais, como uma expressão de liberdade num casulo subalterno que a economia impõe.

Antonio Maia carregava com ele esse substrato estético dos desvalidos, como tinha na retina a paisagem da sua terra, hoje pontilhada de “Cavalos de Ferro” e cortada de canos que levam óleo e gás para os depósitos da PETROBRÁS. Foi em Carmópolis, em 1963, que foi descoberto petróleo fora da Bahia, abrindo uma perspectiva de exploração, ao tempo em que revelava grandes jazidas de evaporitos, das quais atualmente a Companhia Vale do Rio Doce minera o Potássio, na Mina de Taquari-Vassouras, no município de Rosário do Catete. O contraste entre a riqueza do solo e a pobreza da população é mediado, muitas vezes, pelo calendário de festas, devoções, usos e costumes, fatos folclóricos autenticados pela genuinidade, dinamicidade, expressividade e colegialidade, que são as características que identificam a tradição da cultura brasileira, dominantemente ágrafe e multiétnica.

Antonio Maia tinha, engaiolados no seu apartamento do Rio de Janeiro, santos dos mais populares. Tinha, escorrendo pelas paredes, tocando o chão, quadros com ex-votos, como a retirar dos caminhos nordestinos as promessas, abrigadas na Santa Cruz de beira de estrada. As oferendas votivas, que dá a cada promessa sua graça, cada santo seu poder, cada pessoa seu merecimento, marcaram, por décadas seguidas, a pintura de Antonio Maia, vista nas exposições. Cabeças, olhos fixos, pedaços de corpo, com suas cores e dimensões dão forma ao universo onde a promessa está na base do compromisso e é algo sagrado para os que selam o pacto silencioso com a divindade e com os santos.

Assim como Artur Bispo do Rosário costurou e bordou o manto que vestiria para seu encontro com Deus, Antonio Maia muniu-se de ex-votos para configurar sua arte, até morrer, recentemente (12 de julho de 2008), sem doenças ou reclamações. Dormiu, não acordou. Faria, daqui a mais alguns dias, 80 anos e era, sem favor, um dos mais autênticos artistas do povo brasileiro. Em tudo que buscasse inspiração encontrava a raiz da tradição, os matizes da cultura, recriando as formas com a espontaneidade da gente simples, que nas valetas da vida teimam em resistir. Sua arte tem a força das bandeirolas simétricas, estiradas nos cordões que enfeitam os terreiros de sua terra, nas noites juninas. E, mais que Volpi, Maia fez de sua arte um varal, a expor suas singularidades cromáticas sociais, traçando o norte de suas pesquisas, de parentesco concretista.

Um irmão de Antonio Maia – José Maia Cruz – doublé de notário e de artista, viveu em Maroim desenhando os rótulos das bebidas da fábrica Hanequim, e cuidando das pinturas da Matriz, mantendo-as restauradas como um adorno sobre as cabeças dos fiéis.

Sergipe pai e mãe, que perderam o filho há tanto tempo desgarrado, vive na arte desse migrante da permanente diáspora que agita o coração da terra, universalizando-se e universalizando-a.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 22 de setembro de 2014.

Santidades: pobres e mestiços criam céu em Sergipe


Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 02/08/2008.

Santidades: pobres e mestiços criam céu em Sergipe.
Por Luíz Antônio Barreto.

João Dantas Martins dos Reis registrou, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, editada em 1942, a existência de uma Santidade nas terras de Riachão do Dantas.

Foi a curiosidade intelectual de João Dantas Martins dos Reis responsável pelo registro, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, nº 16, referente aos anos de 1939-1940, editada em 1942, de uma Santidade nas terras de Riachão do Dantas. O magistrado, de uma das mais tradicionais famílias ambientadas em Sergipe, escreveu o seu pequeno artigo, datando-o de 1939, sobre o ajuntamento no povoado Carnaíba, dando umas poucas informações sobre o ajuntamento de pobres e mestiços, criando um céu “ao vivo”, no qual as pessoas tomavam nomes de santos e repartiam tudo, vivendo comunalmente, em todos os sentidos. O autor dá notícia da reação local, dizendo que “as autoridades do Riachão e cidadãos qualificados, alcançando o perigo, resolveram destroçar com o novo céu em formação.”

Arivaldo Fontes e Ariosvaldo Figueiredo, recentemente falecidos, tomaram o registro de João Dantas Martins dos Reis, amplificando-o para a posteridade, em seus livros. Silvio Romero também tratou do ajuntamento de Riachão do Dantas, como mencionou a passagem de Antonio Conselheiro por Sergipe, noticiada pelo jornal O Rabudo, de Estância, por volta de 1876. As Santidades motivam o Inquiridor Geral Heitor Furtado de Mendonça, quando da Visitação na Bahia, em 1592/1593. Alguns habitantes das terras de Sergipe, que então pertenciam a Bahia, responderam a processos inquisitoriais, e dentre eles são citadas as Santidades. Diogo de Campos Moreno, que foi Sargento-Mor no Maranhão, é autor do Livro da razão do estado do Brasil, possivelmente de 1612, faz referência a Santidades em Sergipe.

Correu um Processo, na justiça de Sergipe, sobre a Santidade das Carnaíbas. O Juiz Municipal de Riachão do Dantas, Antonio Exupero de Almeida enquadrou os integrantes do “céu”, ou “almas devotas de Nossa Senhora da Agonia”, em crime de resistência, certamente porque reagiram aos batalhões formados para destroçar o lugar. Pela ausência de um Promotor em Riachão, o Juiz nomeou o jovem Abdias Farias de Oliveira, para atuar na Promotoria do caso, tomando-lhe o juramento, em 24 de janeiro de 1876. Abdias de Oliveira mais tarde cursaria Direito, seria Juiz em Campos (atual Tobias Barreto) e entraria na carreira jurídica em Pernambuco, aposentando-se como Desembargador naquele Estado.

O ajuntamento de Carnaíbas foi influenciado, certamente, por Antonio Conselheiro, que estava em Sergipe em 1875, ano do fato que uniu autoridades armadas, no destroçamento da reunião de homens e mulheres. A Santidade enfrentou o batalhão com armas simples, paus e pedras, manejados com coragem e com fé.

Conselheiro atravessou o território sergipano, fazendo e arrastando adeptos, construindo pequenas igrejas e cemitérios, como ficou na tradição popular. A igreja de Mocambo, depois Nova Olinda, atual Olindina, junto a Itapicuru, na Bahia, foi obra do Conselheiro, há poucos anos derrubada, para em seu lugar surgir uma nova igreja. Sabe-se de gente de Sergipe formando sob a liderança de Antonio dos Mares, como também chegou a ser conhecido, e alojando-se no Monte Santo, como parece ser o caso de Estevam, cativo de uma viúva residente em Porto da Folha, na Província de Sergipe, que foi acusado de “ andar embriagado e insultar as autoridades”, como o Juiz de Direito da Comarca de Itapicuru, na fronteira da Bahia com Sergipe. Estevam e outras pessoas, como José Manoel, citados na Delegacia da Vila de Itapicuru, através do ofício datado de 28 de julho de 1876, dirigido ao Alferes Diogo Antonio Bahia, como “fanatizados e partidários do preso Antonio Vicente Mendes Maciel” atestam, com seus nomes, o envolvimento de sergipanos no cordão dos seguidores do Conselheiro, que 20 anos depois faria de Canudos uma epopéia de pobres e de mestiços, santificados pela mesma resistência: uma Santidade.

Há, nos jornais sergipanos, farto noticiário sobre Conselheiro em Canudos, na Bahia. Manoel Pedro das Dores Bombinho, mestre da banda de música de Simão Dias, na fronteira oeste de Sergipe com a Bahia, porta de acesso a Canudos, escreveu um livro, em versos, sobre a saga do Conselheiro, que permaneceu inédito desde 1897 até 2002, quando foi finalmente editado, em São Paulo, graças ao esforço de Marco Antonio Vila. Mas são raros os registros da presença do líder cearense, na década de 1870 no território sergipano.

A Santidade de Carnaíbas tem todas as características de um movimento messiânico, e apesar do nome de Antonio Vicente Mendes Maciel não aparecer no Processo por crime de resistência, em Riachão do Dantas, não quer dizer que não fosse ele um mentor, um inspirador e até mesmo um organizador. Dando-se o crédito devido a que ele estava, naquela ocasião, preso, em Itapicuru, a poucos quilômetros do território do Riachão do Dantas, mais fácil fica ligar sua influência no ajuntamento.

O jornal A Notícia, publicado em Aracaju, noticia, em 4 de dezembro de 1896, que seguiram várias tropas para Canudos, onde o “célebre fanático Antonio Conselheiro entendeu de estabelecer-se com seus sectários, subtraindo-se ao regime da lei e a obediência devida às autoridades federais e estaduais.” Na edição de 30 de março de 1897 o mesmo jornal refere-se a uma carta, datada de Divina Pastora, situada na região açucareira sergipana, em 14 de abril de 1895, tratando da adesão de filhos e moradores de Sergipe ao cenário do Monte Santo. Diz a carta, dirigida a Lellis Piedade: “A febre emigratória para Belo Monte, outrora Canudos, há chegado, nestes últimos tempos, ao último grau de intensidade no termômetro da ignorância deste povo cá do centro. É uma moléstia fanático-cerebral que vai contagiando até pessoas que supúnhamos refratárias à ação de tão estranho quão ridículo morbus. E como não ser assim, ilustre redator, se, naquela moderna Canaã, ao verbo poderoso de Antonio Conselheiro surgiu o rio de leite, imaginado de uma massa congênere a do cuscus de milho.”

O ingrediente da Cocanha, presente em Canudos, mas citado nos séculos anteriores em parte do nordeste brasileiro, também esteve incrustado nas Santidades, como parte do mito do encoberto, ou Sebastianismo, presente na formação da cultura do povo brasileiro.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 22 de setembro de 2014.

Apenas Ontem


Publicado originalmente na página do Facebook de Petrônio Gomes.

Apenas Ontem.
Por Perônio Gomes.

Quando voltei, haviam construído um grande edifício em Aracaju, na esquina da rua Laranjeiras com a João Pessoa: era o prédio da “Moda”, de João Hora, o segundo a possuir um elevador; o primeiro ficava no “Serigy”, Praça General Valadão, depois Secretaria da Saúde. Os pavimentos superiores do prédio da Moda eram alugados para consultórios e escritórios diversos.

A “Livraria Regina” de minha infância estava a todo vapor, tendo à Frente o sr. José Apóstolo de Oliveira Neto, um perfeito cavalheiro, perito em seu ramo. José Apóstolo era fotógrafo nas horas vagas e tinha em seu acervo as mais belas fotografias da cidade. Cultivavam o mesmo passatempo os meus colegas do Banco do Brasil, Hugo Ferreira e Carlos José Cabral Duarte, irmão de Dom Luciano Duarte.

A loja de “P. Franco & Cia.” era a campeã dos eletrodomésticos, tendo por proprietário-gerente o sr. Francisco Franco, com sua proverbial tranquilidade. Comecei a comprar em sua loja os meus inumeráveis LPs, dos quais ainda guardo muitos exemplares, a despeito do ostracismo em que foram jogados. Aliás, minha primeira geladeira também foi comprada no mesmo endereço. Sabem que trabalhava na primeira fila do atendimento dos aparelhos domésticos? Heribaldo, dono do posto de combustíveis da rua de Laranjeiras e Raimundo, também empresário de sucesso.

O “Ponto Chic” continuava com o galardão de lugar principal da cidade, tal como nos meus tempos de menino, quando os frequentadores do Cinema Rio Branco se retiravam depois do espetáculo para o costumeiro sorvete. Depois, o passeio em volta da praça Fausto Cardoso para aquela “paquera” à moda antiga, misturada com medo.

“Marinete” ainda era o apelido dos ônibus, que faziam ponto na rua da frente. Ainda não se pensava na construção da Rodoviária pelo Governador Luiz Garcia, o que veio a acontecer pouco depois. As “marinetes” vieram substituir os meus queridos bondes, aqueles simpáticos veículos balouçantes que transportavam passageiros vestidos de linho branco e usando chapéus de panamá. Era comum o gesto de ceder o lugar a uma senhora e continuar a viagem no estribo do bonde, com terno branco e tudo...

A “Associação Atlética de Sergipe” era ainda o elegante clube da Vila Cristina, onde aconteciam as melhores festas, a “menina dos olhos” do dr. Bragança, que morava na rua de Itabaiana, esquina com a rua Boquim, onde mais tarde a “Varig” resolveu montar sua agência.

“A. Fonseca & Cia. Ltda.” era, de longe, a primeira no ramo de ferragens e materiais de construção, e continuava assim quando voltei. Depois, vieram os anos de crepúsculo, o definhamento progressivo, que tanto pode acometer o corpo dos homens quanto o fruto do seu próprio trabalho. Não falarei mais sobre o mesmo que aconteceu a tantas firmas que eu sempre julguei como verdadeiras rochas, esquecido de que somente um Rochedo existe.

Quando voltei, trazia no coração a ideia tola de encontrar minha cidade do mesmo modo, tal como os brinquedos que ia buscar quando voltava do colégio. Voltei para assistir à passagens dos anos difíceis, aqueles que marcam as transições inelutáveis da vida.

“Setenta anos é a vida do homem”, reza um dos Salmos. “Os mais fortes chegam aos oitenta, a maior parte ilusão e sofrimento.”

Fiz o possível para não escrever aqui nada que lembrasse o sofrimento, preferindo a parte da ilusão, a coisa mais parecida que existe com a esperança...

(imagem: sergipeemfotos.blogspot.com.br onde se pode ver em destaque o prédio de 'A Moda' na esquina, seguido de o "Ponto Chic", a "Livraria Regina" e a "Joalheria Safira").

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Fan Page/Petrônio Gomes.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 22 de setembro de 2014.

Família Campos


Aida Campos:

Meu pai Laurindo Campos, ministro Geraldo Sobral e tios Lises e Maria Helena Campos.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 27 de fevereiro de 2014.

Dr. Darcilo Costa, Carlos Henrique (Bonequinha)...


Olha aí o que Celsinho Celso Oliva mandou. Vejam:

Dr. Darcilo Costa, Carlos Henrique (Bonequinha), tio Adroaldo Campos, D. Carmelita mãe de Marcos, Dr. Heribaldo Vieira, Dr. João Aguiar, Dr. Paulo Moura, meu pai Laurindo Campos, Dr. Epaminondas e de branco Dr. Aloisio Abreu.

Confiram !!!!

Postagem originária da página do Facebook/Grupo Minha Terra é SERGIPE, de 8/06/2013.

Família Campos


Aída Campos em Capela/SE - Anos 70 - Acervo da família.

FAMÍLIA CAMPOS - Os filhos de Adroaldo Campos - Dudu da Capela - e Ocirema Alves Campos 

Lealdo Lima Campos, Aldo de Jesus, Laurindo Alves Campos, Adroaldo Campos Filho, Lisaldo Alves Campos, Lenalda Campos Duboc e Lises Alves Campos.

Postagem originária da página do Facebook/Grupo Minha Terra é SERGIPE, de 16/09/2012.

domingo, 21 de setembro de 2014

A Biblioteca de Petrônio Andrade Gomes

Petrônio, Lúcio e Henrique Batista na Biblioteca (foto).

Infonet - Blog Lúcio Prado - 18/01/2008.

A Biblioteca de Petrônio Andrade Gomes.
Por Lúcio Antônio Prado Dias.

A magnífica biblioteca do Dr. Petronio Andrade Gomes, um rico acervo com mais de 15 mil livros, além de documentos dos mais variados, sobre todos os assuntos, é a maior biblioteca privada de Sergipe, na visão de Cabral Machado.

A minha paixão pelos livros vem da infância. Desde cedo, gostava de ler, afinal não tínhamos muitas opções de lazer e entretenimento. Dos gibis em quadrinhos aos clássicos da literatura infanto-juvenil (“A Ilha do Tesouro”, “Moby Dick”, entre outros) aos contos policiais de Agathe Christie, os romances de Sidney Sheldon e as tramas bem urdidas de Frederick Forsyth, além dos livros de Jorge Amado, li quase todos.

As coleções de livros vendidas em bancas de revista eram uma atração à parte para mim, principalmente pelo seu baixo custo. A mesma coisa acontecia com a série de fascículos sobre os mais variados temas, que colecionava semanalmente e depois levava para encadernar. Fiz amizade duradoura com o Sr.Theódulo Cortez, que morava na esquina das ruas Propriá e Pedro Calazans e trabalhava com a encadernação de livros. Admirava demais o seu trabalho e só vivia por lá, trocando idéias sobre livros e literatura. Considerava-o um artista pela habilidade que possuía, para mim uma atividade nobilíssima. Nunca mais o vi.

Com muitos livros, comecei a ter problema de espaço para acomodá-los. Como arrumar convenientemente tantos livros sem comprometer outras necessidades do lar. Terminei por transferir todos os meus livros para a nossa clínica na Praça da Imprensa, somados com os de minha irmã, Magali, também uma apaixonada pelos livros. Pensamos em montar uma locadora, mas desistimos. Depois montei uma livraria, a Canal Livro, realizando o sonho louco de trabalhar com livraria no Brasil, um país de poucos leitores. Não deu certo. Com a venda da clínica, anos depois, resolvemos colocar esse acervo à disposição da FTC – Faculdades de Ciências e Tecnologia, que o colocou numa sala em sua sede na Rua Vila Cristina, criando a Biblioteca Jornalista Antonio Conde Dias. Todos os nossos livros estão agora lá, sendo devidamente cadastrados e organizados nas estantes.

Fiz esse preâmbulo para reforçar a opinião que tenho sobre a magnífica biblioteca do Dr. Petronio Andrade Gomes, um rico acervo com mais de 15 mil livros, além de documentos dos mais variados, sobre todos os assuntos. Lá temos nos reunido com alguma freqüência, trabalhando na preparação do nosso Dicionário Biográfico dos Médicos Sergipanos e a cada vez que a visito percebo que ela se supera em tamanho e organização. Há anos, num trabalho exaustivo e minucioso, ele vem recebendo adquirindo volumes e recebendo doações de bibliotecas inteiras de médicos falecidos e de outras personalidades sergipanas.

Petrônio Gomes, neurocirurgião formado pela UFS e com especialização no serviço do Dr. Paulo Niemayer, no Rio de Janeiro, é um colecionador vocacionado. Membro atuante da Academia Sergipana de Medicina e do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, ele tem dedicado todo o seu tempo de descanso e lazer aos livros, com especial interesse às obras que versam sobre a história de vultos da nossa Medicina. Sua família tem tradição. Seu pai, o jornalista Petronio Gomes, é contista dos bons, escreve com freqüência nos jornais. Seu tio, Carlos Cabral, grande pesquisador da genealogia das famílias sergipanas, conseguiu reunir 70 mil nomes das mais tradicionais famílias sergipanas, trabalho que foi continuado por Ricardo Gomes, irmão de Petronio, mas interrompido em função de sua morte prematura. Todo este acervo está na biblioteca, esperando somente a hora de ser finalizado e publicado.

Manoel Cabral Machado, o grande escritor sergipano, disse recentemente em artigo publicado no Jornal da Cidade, com a autoridade e a experiência que possui, que a biblioteca particular do Dr. Petronio Gomes, esse “médico talentoso que cuida da arrumação das cabeças atrapalhadas”, é a maior que já viu. E realmente todos que a visitam ficam fascinados com o carinho que ele dedica aos livros e pelo compromisso que assumiu de preservar a história de uma forma tão decidida e arrojada. E à medida que o acervo cresce, os espaços se ampliam indefinidamente.

Se no passado recente os livros representavam, para regimes ditatoriais e de exceção, uma forte ameaça por propiciar a difusão de ideais libertadores, hoje eles sofrem, em função dos avanços tecnológicos, notadamente pela disseminação dos computadores pessoais, um claro processo de rejeição. E não são poucas as pessoas que querem se livrar desses “troços inúteis”. Não é assim que pensa o Dr. Petronio Gomes, nessa saga meritória que optou desenvolver.

Homens passam, livros ficam. Nesse histórico ano de 2008, que registra o 200º aniversário de fundação da primeira escola médica do país, a vetusta Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, na Bahia, talvez a maior herança trazida por D. João VI e sua família tenha sido a Real Biblioteca. Hoje conhecida com Biblioteca Nacional, com sede no Rio de Janeiro, tem um acervo de mais de 10 milhões de itens, contando a história do Brasil e boa parte da história mundial, sendo uma das maiores bibliotecas do mundo.

Conhecer, contemplar e enaltecer a biblioteca do Dr. Petronio é dever imperativo de todos aqueles que entendem o valor do livro como instrumento de transformação social e de preservação da história.

Texto e foto reproduzidos do site: infonet.com.br/lucioprado

Postagem originária do Facebook/Grupo Minha Terra é SERGIPE, de 19 de setembro/2014.