quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Manoel Cabral Machado



Infonet - Blog Luíz A.Barreto - 16/01/2009.

Manoel Cabral Machado.
Por Luiz Antônio Barreto.

Sergipe sente o golpe certeiro da morte, que vitimou o professor, intelectual e homem público Manoel Cabral Machado, um dos maiores vultos do século XX, que marcou com sua presença décadas seguidas com atividades inovadoras. Filho do médico Odilon Ferreira Machado e de Maria Evangelina Cabral Machado, neto do bacharel Manoel de Lemos de Souza Machado, Manoel Cabral Machado nasceu em Rosário do Catete, em 30 de outubro de 1916, onde seu pai fixou residência como clinico, em 1915. Criado na Capela, cidade onde seu pai voltou a fixar-se como médico, Manoel Cabral Machado adquiriu uma cidadania capelense, afetiva, presente em sua vida de 92 anos. Depois de desarnar nas primeiras letras, no interior, foi aluno dos colégios Salesiano e Ateneu, em Aracaju, iniciando-se nos movimentos de agitação política estudantil, escrevendo e pronunciando discursos, o primeiro deles diante do corpo morto do jovem Lises Campos, e filiando-se ao movimento integralista e a outras mobilizações dos jovens sergipanos da sua época. Mudando-se para Salvador e ingressando na Faculdade de Direito da Bahia, bacharelou-se na turma de 1942. Entre os convites para advogar na Bahia, ou em outro Estado, Manoel Cabral Machado preferiu retornar a Sergipe, engajando-se na vida local, já como um liberal.

Depois de curta e acidentada passagem, como Promotor nomeado, mas não empossado, de Neópolis, Manoel Cabral Machado ingressou na vida administrativa sergipana, no Gabinete do Prefeito José Garcez Vieira, passando depois a atuar no Departamento do Serviço Público, atual Secretaria de Estado da Administração, levado pelo Secretário Geral Francisco Leite Neto, que viria a ser um dos seus grandes amigos e correligionário político. Com a redemocratização de 1945 ajudou a fundar o PSD – Partido Social Democrático, candidatando-se, sem êxito, à Assembléia Estadual Constituinte. Derrotado nas urnas, foi convidado para compor a equipe de Governo do Dr. José Rollemberg Leite, eleito em princípios de 1947, assumindo a Secretaria da Fazenda, onde implantou um sistema austero de gastos, fez uma revisão das propriedades e cobrou impostos de todos os contribuintes, fossem ou não correligionários. Sua atuação, conquanto servisse ao Estado e aos interesses públicos, provocou reações de aliados políticos e ele terminou substituído, passando posteriormente a ocupar a Secretaria de Governo. Mais tarde, por concurso público, foi Procurador do Instituto do Açúcar e do Álcool, em Sergipe.

Dedicando-se à política, sem prejuízo de outras atividades, principalmente as do magistério, que abraçou também na década de 1940, Manoel Cabral Machado foi eleito três vezes deputado estadual, aumentando em cada eleição o número de votos: 1950, 1.460 votos; 1954, 1824 votos; 1958, 2.012 votos. Na Assembléia Legislativa exerceu a liderança do seu partido e do Governo, e foi uma das vozes mais acreditadas, com uma oratória fluente, rica intelectualmente, e de forte radicalismo partidário. Sua presença na vida do PSD e nos mandatos que galgou pelo seu partido não interferiram nas suas atividades intelectuais, ou no conceito que sempre gozou no magistério secundário e superior do Estado. Com o movimento militar de 1964 que prendeu e depôs o governador Seixas Dória, levando o vice Celso de Carvalho a assumir o Governo, Manoel Cabral Machado foi nomeado Secretário da Educação, em substituição a Luiz Rabelo Leite. Em 1966 compôs com Lourival Baptista a chapa para Governo do Estado, por via indireta, sendo eleito vice governador. Em 1970 renunciou, juntamente com o governador, sendo nomeado Conselheiro do recém criado Tribunal de Contas do Estado, onde foi três vezes presidente, aposentando-se em 1986, aos 70 anos. Foi, ainda, Consultor do Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe e Procurador Geral do Estado.

No magistério, Manoel Cabral Machado construiu uma extensa e ilustre participação, como professor de História do Brasil e História Universal do Colégio Ateneu; de Noções de Direito e Economia Política da Escola de Comércio Conselheiro Orlando; de História do Brasil e Sociologia da Educação do Colégio Nossa Senhora de Lourdes; de História do Brasil e História Universal do Colégio Tobias Barreto; de Administração e Finanças, Direito Financeiro e Direito Internacional no Curso de Administração e Finanças, da Escola de Comércio Conselheiro Orlando, que precedeu a Faculdade de Ciências Econômicas; de Valor e Formação de Preço na Faculdade de Ciências Econômicas; de Direito do Trabalho, Direito Civil e Economia Política da Faculdade de Direito de Sergipe; de Filosofia Antiga, Filosofia Medieval e Sociologia Geral; e de Sociologia da Escola de Serviço Social.

Membro da Academia Sergipana de Letras desde 1963,, ocupante da Cadeira 25, substituindo a Antonio Manoel de Carvalho Neto, falecido em 1954, Manoel Cabral Machado teve profícua atividade jornalística, no Diário de Sergipe e noutros jornais, colaborou com revistas, especialmente a da Academia Sergipana de Letras e publicou diversos livros, destacando-se: Brava gente sergipana e outros bravos (1999), Elegias a Elohim, Poemas à mãe de Deus, Aproximações Críticas (todos de 2002), Baladas de bem-querer à Bahia (2003) e O aprendiz de oboé (2005). Manoel Cabral Machado presidiu a Academia Sergipana de Letras, e freqüentou, permanentemente, as suas sessões, como um dos mais atuantes debatedores. Foi, ainda, por muitos anos, Orador do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. Figura, também, como membro de outras entidades culturais e sociais, como a Associação Franco-Brasileira (Aliança Francesa), destacando-se, nacionalmente, como integrante da Academia Brasileira de Ciências Sociais, com sede no Rio de Janeiro.

Casado, desde 1944, com sua prima Maria de Lourdes, falecida em 2001, Manoel Cabral Machado é pai de 6 filhos: Nina Maria, advogada, já falecida, Odilon, professor e intelectual, Manoel Félix, Administrador de Empresas, Maria de Fátima, professora, Ascendina Maria, Odontóloga e Bacharela em Direito, e Antonia Lúcia. E avô de muitos netos, entre eles o Promotor de Justiça Manoel Cabral Machado Neto.

Manoel Cabral Machado faleceu em Aracaju, na noite de 13 de janeiro de 2009, de falência múltipla de órgãos, recebendo homenagens dos parentes, amigos, admiradores, ex-alunos, de companheiros rotarianos, do Tribunal de Contas do Estado, e da Academia Sergipana de Letras, onde o corpo foi velado no dia 14, sendo sepultado em Capela, no chão que tinha adotado como seu. O Governo do Estado, pelo governador interino deputado Ulices Andrade, decretou Luto Oficial, em homenagem ao ilustre professor, intelectual e homem público sergipano.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 17 de setembro de 2014.

Paulo Corrêa: o pesquisador da música e da cultura nordestina


Publicado originalmente no site Osmário Santos, em 10/08/2009.

Paulo Corrêa: o pesquisador da música e da cultura nordestina
Por Osmário Santos.

Paulo Corrêa Sobrinho nasceu a 11 de março de 1960, na cidade de Lagarto/SE. Seus pais: José Correia Sobrinho e Orlette Corrêa Santos. O pai é um dos comerciantes mais antigos da cidade de Lagarto e marcou atuação no segmento de eletrônicos, perfumaria e papelaria, com a firma que leva seu nome, hoje administrada pela filha Aline Corrêa, que mantém a tradicional empresa, agora voltada exclusivamente para o ramo da papelaria e perfumaria. Foi o primeiro comerciante a vender televisão colorida em sua cidade e um dos cinco sócios que criaram a primeira emissora de rádio, a Progresso AM. Vereador por três mandatos, assumiu a presidência da Câmara Municipal. Como desportista, presidiu o Lagarto Esporte Clube, conseguindo o vice-campeonato estadual durante a sua gestão. Com ele o filho aprendeu a lutar sempre para garantir a sobrevivência e sua maneira de ser comunicativo. Sua mãe, além de cuidar dos cinco filhos e ajudar o esposo na firma José Correia Sobrinho Ltda, nos anos 80 trabalhou até se aposentar na Secretaria estadual de Administração, lotada em Lagarto, onde desenvolvia ações sociais. Marcou presença junto com o esposo em ações desenvolvidas pelo Rotary Club de sua cidade. Dela herdou seu lado alegre e companheiro.

No Colégio Nossa Senhora da Salete, em sua terra natal, faz o primeiro grau. “Um tempo de grande importância em minha vida diante das primeiras amizades, onde comecei a identificar as coisas que mais gostava e que são o cinema, música, fotografia e literatura”.

Da infância em Lagarto, momentos de felicidade e de viver na cida de e no campo, pois os seus avós maternos, Isolino e Pureza, e paternos, Pedro e Idalina, eram proprietários de sítios. “Tirava frutas no pé, jogava futebol e participava de outras brincadeiras aos finais de semana e férias. Tempo bom”.

Registra que o gostar de escrever foi graças as aulas de português no Colégio Nossa Senhora da Salete voltadas para a redação com a professora Josete.

Em 1976 vem estudar em Aracaju e nos primeiros momentos tem abrigo na casa da tia Bia, na rua Boquim.

No Colégio Arquidiocesano estuda o segundo grau. “O colégio dirigido pelo monsenhor Carvalho me deu uma base mais sólida diante de seus bons professores, a exemplo de Chico, em química, Antônio Samarone e Genival Nunes, em biologiab e Clímaco, em Moral e Cívica”.
Não esquece de dizer que ouviu quando jovem muito rock dos Beatles, Rolling Stones e Elvis Presley.

Mesmo sem ter definido em sua mente o curso superior que iria fazer, por ser bom aluno de química e até pela boa performance do professor Chico nessa disciplina no seu tempo de Arquidiocesano, faz com sucesso vestibular para Engenharia Química na Universidade Federal de Sergipe, em 1979. “Tive um bom aproveitamento em todas as matérias nos meus momentos de estudante universitário”.

Quando estava no meio do curso, percebendo que não era o que de fato queria, deixa de lado os dois anos e meio de estudos e cai fora da universidade.

Prepara-se para enfrentar concurso público, submete-se ao da Caixa Econômica Federal e sai aprovado. Como bancário, trabalhou nas agências de Tobias Barreto, de Estância e na agência central de Aracaju. “Tinha até um bom salário, mas trabalhava para a minha sobrevivência, pois nunca fui motivado pelo serviço bancário”.

Depois de 15 anos como bancário, tempo que considera longo, faz opção para trabalhar exclusivamente na área da arte e cultura em Sergipe e começa um novo desafio em sua vida.
Não desistiu dos estudos, pois Direito, Jornalismo e Informática estão em sua mente e pretende retomar os estudos.

Desde o tempo de estudante e de banco admirava e pesquisava tudo ligado ao cinema. Não é por menos que tem toda coleção de filmes de Charles Chaplin a quem considera o mais completo ator e diretor do cinema em todos os tempos.

Na música um xodó todo especial desde menino. Considera o segmento mais forte no campo da artes que aprecia.“Comecei a conhecer em 1976 as obras de Chico Buarque, Milton Nascimento, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro”.

Começa a trabalhar como produtor cultural fazendo trabalho por conta própria e aproveita a experiência da realização do 1º Festival de Música Lagartense, que realizou juntamente com o amigo Floriano Fonseca. “Foi o primeiro festival em que o Grupo Cataluzes se apresentou. Em Aracaju comecei a participar de alguns projetos de pesquisa e de discografia ligados à música brasileira, tais como Raul Seixas e Luiz Gonzaga.

A convite de João Francisco dos Santos, mais conhecido como “Chico Buchinho”, que assumiu a Funcaju na primeira administração do prefeito Marcelo Déda na Prefeitura de Aracaju, Paulo Corrêa assume a chefia de Gabinete da presidência da Fundação. “Nessa época tive oportunidade de criar dois projetos que tiveram uma boa aceitação e que até hoje são realizados anualmente no período junino desde 2001. O Fórum de Forró de Aracaju e a Marinete do Forró, que faz o circuito pelas ruas de Aracaju com os turistas”. Também fizemos a coordenação do Festival de Violeiros Repentistas, iniciado pelo Cultart numa área pequena no ano de 2000 e partir do ano seguinte, realizado em parceria com a Funcaju. Como o evento cresceu, teve de ser transferido para o mercado municipal.

Em 2007 recebe convite do professor Luiz Alberto para trabalhar na assessoria cultural da Secretaria de Estado da Cultura, onde continua, graças ao reconhecimento do seu valor pela nova secretária de Estado da Cultura, Eloísa Galdino. “Paralelo ao trabalho na Cultura, faço um trabalho de pesquisa para a gravadora Revivendo de Curitiba, no Paraná. A gravadora realiza um dos projetos de maior importância para a memória da música brasileira. Resgata para o CD as obras dos grandes compositores e cantores do Brasil nas décadas de 20 a 60. O meu trabalho no momento é voltado para Luiz Gonzaga. Toda vez que vai lançar um CD de Luiz Gonzaga a gravadora entra em contato comigo para que eu faça a indicação de repertório”.

Diz que tem um episódio interessante diante do trabalho que vem fazendo para a série de CDs “Luiz Gonzaga sua Sanfona e seus Amigos”, fica por conta do volume quatro, pela descoberta de uma música inédita do saudoso forrozeiro, 18 anos após sua morte. “É a música Renascença, que fala da transformação do Nordeste depois de uma terrível seca com a chegada da chuva. Em conversa com o compositor caruaruense Onildo Almeida, autor da música, ele me informou que Luiz Gonzaga tinha gravado em estúdio sua composição no ano de 1984 e a música tinha ficado como sobras de gravação. De posse dessa informação, comuniquei os dados para o presidente da Revivendo, o Sr. Leon Barg, e o mesmo providenciou a liberação junto à BMG Music, detentora do fonograma”.

Além do trabalho de assessor cultural na SEC, Paulo Corrêa tem três projetos pessoais que está pensando em formatar. “Não vou poder detalhar, mas é um CD homenageando Aracaju, a proposta de um livro e de um documentário musical para o cinema”.

Produz e apresenta na rádio Aperipê dois programas semanais: na AM 630, o programa Madrugada Livre Especial Musical, que vai ao ar da 0h às 3h, nas sextas-feiras, e na FM 104.9 o programa Nação Nordestina, que vai ao ar aos domingos, das 8h às 10h.

É casado com Kalina Elizabete desde o ano de 1993 e pensa em ter filhos. “Ela é natural de Campina Grande, na Paraíba, e a conheci nos festejos juninos daquele cidade. É a pessoa mais importante na minha vida e uma companheira de todas as horas”.

É de opinião que a vida é grande desafio e tem que ser vencida degrau por degrau, passando por obstáculos difíceis, mas com fé e muita luta tem a certeza da vitória.

Texto reproduzido do site: usuarioweb.infonet.com.br/~osmario
Foto reproduzida do Facebook/Paulo Corrêa.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 17 de setembro de 2014.

A cidade que virou fazenda

 Foto: Silvio Oliveira.

A cidade que virou fazenda
Por Paulo Fernando Teles de Morais.

Perto de Maruim havia uma cidade que se parecia com uma usina. Não é bem assim. Havia uma usina que se parecia com uma cidade. Não importa; foi lá onde nasci.

Faz duas semanas que a historiadora Terezinha Alves Oliva escreveu um excelente artigo aqui no JORNAL DA CIDADE sobre um trabalho universitário intitulado “As memórias de D. Sinhá”, orientado por ela. D. Sinhá era Aurélia Dias Rollemberg, do antigo engenho Escurial, hoje uma belíssima fazenda, provavelmente parente do coronel Gonçalo Rollemberg, dono da usina Pedras, em Maruim. Tocou no meu nervo exposto. A usina Pedras que nós pedrenses temos na cabeça existiu realmente?

Fiz-lhe uma pequena carta falando sobre essa usina de sonhos, até o começo da década de 50, e seu proprietário, coronel Gonçalo, muito mais conhecido pela riqueza que desequilibrava em Sergipe que pela sensibilidade social que acompanhava seus empreendimentos. Para formandos de História, assunto de fartos caminhos para rechear uma tese, porque uma usina Pedras e um coronel Gonçalo especiais existiram, eu vi.

Sou pedrense com dureza de diamante. Eu e dezenas de outros que nascemos e vivemos lá nossa infância, e para onde voltamos de vez em quando, bobos e nostálgicos, para rever cada torrão de massapé, para sentir com um paladar que o travo da vida não conseguiu mascarar o gosto do caldo de cana caiana, ainda morno, saindo da moenda. Apel e Everaldo vêm do Rio e São Paulo, respectivamente; Jaime, de Brasília; Humberto e João Santana, de Aracaju; Jivaldo, de Nossa Senhora das Dores; pedrenses daqui e remotos, que ainda conservam o mesmo paladar, que ainda vêem no velho sobrado o imponente palácio de sua infância, iluminado para as sessões noturnas, reuniões de trabalho feitas em sua varanda sustentada por colunas romanas e no meio delas ladeada por dois bancos onde sentavam feitores e gerentes, a cadeira de vime do coronel Gonçalo.

Quando vou a Divina Pastora, vez por outra faço uma volta danada para passar pelas Pedras; vou sair em Siriri. Paro meu carro na Baixa do Vapor. Canaviais de lado a lado. Lá no fim, a casa onde morei. Morávamos em casas de alvenaria, com energia elétrica, água encanada. Tínhamos escola com várias salas de aula e bons professores. Fiz lá meu primário e quando me submeti ao exame de admissão no Seminário Diocesano, em Aracaju, passei em segundo lugar. Mérito para meus professores, que me prepararam, me deixaram sem complexo de inferioridade por ter estudado numa escola de senzala. Havia consultórios médico e dentário. Cinema, o Cine Pedras – o Cine Cacique, de Maruim, ficava ximando os filmes que passavam lá –, salão de jogos, campo oficial de futebol, com um time, o União, de onde saiu mestre Mendonça, do Bangu; Milton Mendonça, um dos maiores zagueiros do futebol brasileiro, irmão de Henrique, um ponta que jogou no Bahia, e pai de Mendonça, meia do Botafogo, na década de 70.

Glórias bestas, mas que saudade! Se éramos felizes, nossas famílias o eram também. Crianças não se sentem bem em lares com problemas sérios. Diante das Pedras, Maruim ficava no chinelo. Orgulhávamo-nos de viver lá, ao contrário de moradores de outros engenhos, que escondiam a origem dizendo que eram de Riachuelo, Rosário ou Laranjeiras.

Minha cidade natal hoje é uma fazenda. Não importa, é minha terra natal. Enquanto houver um pé de cana e um pedaço de massapé em cima dela, passarei por lá, os pedrenses distantes voltarão para lá, é como se nunca tivéssemos saído de lá. Um dia, a moeda de troca será o amor. Não haverá dinheiro, tudo será comprado pelo preço do amor. Será assim: esta casa é para quem der mais amor; esse carro também; essa terra... e por aí vai. Quem amar mais leva. Porque o amor valoriza e conserva. Mas aí já seremos pó.

A usina Pedras foi tudo isso que seus nativos contam?
Pode ter sido até menos, mas é como lembramos dela. Somos um bando de idosos agarrados ao passado de uma infância inesquecível. Provavelmente tristonhos, atingidos pela melancolia, essa saudade que dói. Saudade do que nunca se teve, nem se tem mais tempo para descobrir o que seria.
Texto reproduzido do site: usuarioweb.infonet.com.br/~osmario

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 17 de setembro de 2014.


Comentário de Petrônio Gomes.

Publicado originalmente no site Osmário Santos, em 20/07/2004

Bravos, Paulo Fernando!
Por Petrônio Gomes.

De súbito, o consagrado contista guarda por um momento suas misteriosas tramas e volta-se para a crônica, deliciando-nos com “A cidade que virou fazenda”, publicada neste jornal no dia 15 de julho último. E que incursão feliz.

Levado por um artigo da historiadora Terezinha Alves Oliva, também aqui publicado, Paulo Fernando Teles de Morais deixa que as saudades do torrão de nascimento corram livres e começa a contar-nos alguns dos segredos que moram no coração da criança que temos, da criança que somos.

O começo da crônica de Paulo Fernando é um desafio ao leitor que pretenda abandonar a leitura impunemente: “Perto de Maruim havia uma cidade que se parecia com uma usina. Não é bem assim. Havia uma usina que se parecia com uma cidade”. Que beleza!

Não é preciso conhecer o autor de que se fala para admirar seus escritos, mas os dividendos são mais ricos para os que o conhecem. Ele é assim, escrevendo ou falando. O jogo magistral de imagens corre na pena de Paulo Fernando como as bolas brancas nas mãos de um malabarista: “Sou pedrense com dureza de diamante” – um atestado de amor incondicional que pode dizer tudo a todos, inclusive a mim, que não conheço a terra onde nasci...

Paulo Fernando consegue até hastear sua bandeira de orgulho ao declarar que as cidades vizinhas, embora mais importantes, iam buscar em sua terra os atrativos sociais da época e o exemplo dos grandes desportistas. Grito da David, em cujo peito latejava aquela confiança capaz de intrigar todos os gigantes que surgissem...

“Enquanto houver um pé de cana e um pedaço de massapé em cima dela, passarei por lá, os pedrenses distantes voltarão para lá”. Na verdade, não importa ao meu caro amigo o fato de haver uma usina fincada na terra onde nasceu, ou que o solo onde começou a existir haja testemunhado o começo da história que misturou tudo. E Paulo Fernando rubrica o artigo com esta frase linda: “Saudade do que nunca se teve, nem se tem mais tempo para descobrir o que seria”.

É a volta inconsciente do contista ao seu torrão na Literatura, quando remete o leitor ao ponto de partida, uma vez que também todos os contos possuem o seu gosto de saudade.

Parabéns, meu caro amigo Paulo Fernando Teles de Morais, sobretudo por sua frase maravilhosa do final, que guardarei entre os meus apontamentos: “Um dia, a moeda de troca será o amor”.

Texto reproduzido do site: usuarioweb.infonet.com.br/~osmario

Amar Em Silêncio



Publicada originalmente no Jornal do Dia Online, em 30/09/2013.

Amar em silêncio.
Por Paulo Fernando Teles Morais*

No cemitério de Maruim há duas sepulturas iguais e incomuns abandonadas há muitos anos. Construídas com sólido e rico material, que sugere mármore de Carrara, suas pedras simetricamente justapostas brilham como se tivessem acabado de ser polidas. Lá dentro, amalgamados, ossos e terra petrificados, sombras do vazio. Em suas lápides constam unicamente os anos de nascimento e morte dos que ali foram deixados e uma inscrição. No primeiro, que fica ao lado direito de quem entra no cemitério, próximo ao muro retangular que o isola, as datas: 1890 - 1932; logo abaixo, a frase: Descanse em paz quem muito amou em silêncio.

Tomando em linha reta a direção oposta, há o outro túmulo, com as mesmas informações, exceto a diferença de datas: l870 - 1931; sob elas o instigante epitáfio.

Durante algum tempo, tentei descobrir os nomes dos mortos, em vão. Das famílias, tampouco. Uma das pessoas consultadas, encalhada habitante da cidade, disse que quando ela nasceu os túmulos já estavam ali, e recorda o aparecimento de forasteiros no Dia de Finados, para rezarem sobre eles e colocar flores em suas cantoneiras. A cada ano tais visitas foram rareando e desapareceram. A velha maruinense ouvira do pároco cônego Antídio que no final do século XIX e na primeira década do século XX algumas famílias do Sul fincaram os interesses comerciais na cidade-trapiche de Maruim, na época ainda exportadora de açúcar para a Europa, e progrediram muito. Alguns dos seus integrantes foram nela sepultados, como se fora grata distinção à terra que os recebeu de forma hospitaleira e pródiga. Quanto à deliberada omissão da identidade dos defuntos nos dois jazigos, haja vista o restante estar nitidamente legível, não houve reza que desvelasse os conhecimentos do reverendo sobre o motivo da singular ausência. Minhas pesquisas deram em resultados pífios, inconsistentes e mal explicados, e terminei cansando. Mas todas as vezes que ia àquele cemitério era atraído pelos dois segredos marmóreos, e por eles levado ao desejo de desvendá-los.

Faz algumas semanas, sem que houvesse qualquer intenção, ao folhear por curiosidade velhos jornais sergipanos encontrei um, edição de 12 de julho de 1943, com reclame de uma casa do Rio de Janeiro que construía jazigos numa Rua de Ramos, ilustrado com a foto dos túmulos de Maruim. Estupefato, escrevi o endereço, não obstante a pouca esperança de que a firma ainda existisse.

Viajei ao Rio. As anotações me levaram a um prédio de arquitetura bizarra, à frente um portão de ferro arqueado, com arabescos enferrujados, indícios de decadência e corrosão pelo tempo; depois dele atravessa-se um jardim também malcuidado, infestado de ervas daninhas até a porta de entrada. Fui recebido por quem me pareceu dono ou sócio da Jazigo Perpétuo - À Prova de Ressurreições. O subtítulo me deu vontade de rir, sem dúvida exagerada referência ao material supostamente indestrutível com que trabalhavam. Estava diante de um homem de feitio remotíssimo, mumificado num terno preto completo, inclusive com colete, o rosto plúmbeo. Ao entrar, não vi mais ninguém. Era possível que a fábrica ficasse nos fundos, e estávamos num espaço que podia ser descrito como parlatório: uma pequena sala, com mesa no centro, sofá e cadeiras de palhinha. A sisudez do homem me deixou desconfortável, apressei a conversa contando-lhe o motivo de minha visita. Fleumático, pediu licença, retirou-se. Alguns minutos depois retornou com um intemporal e maçudo catálogo encadernado a mão. "Vossa Senhoria fique à vontade. O que procura sem dúvida encontrará", e retirou-se, teso. Algumas páginas depois, não me contive: "Ei-los aqui! Senhor, encontrei!". Sob a foto dos dois túmulos, havia um texto. O negociante chegou tão rápido que parecia não ter saído dali. "Deus seja louvado! Vossa Senhoria, por favor, me acompanhe". Levou-me até outra sala onde havia uma única poltrona. "Vossa Senhoria, pode sentar-se e dispor do tempo que achar necessário. Inspire e respire pois lerá a mais tocante história de amor, desde que Julieta Capuleto, debruçada sobre o balcão da sua casa, aguardava a chegada de Romeu Montecchio". O estilo pomposo desse homem chegava ao exagero de citar os sobrenomes dos amantes trágicos mais famosos do mundo.

Fiquei sozinho. O silêncio era total, o ar pesava encurtando meu fôlego. Comecei a ler, inquieto.
"Em 9 de outubro de 1941, recebemos da Excelentíssima Senhora Dona Judith Sachs a encomenda de dois jazigos, nos quais constariam somente datas e um epitáfio, e seriam transportados e edificados no cemitério da cidade de Maruim, no Estado de Sergipe. Exigiu que o material fosse o melhor do nosso estoque, e insistiu para reembolsar-nos imediatamente. Não sendo do interesse da Casa o conhecimento de pormenores da vida dos nossos clientes, limitando-nos ao que diz respeito às transações comerciais, pela primeira vez, em face do extraordinário pedido, abrimos uma exceção: por tratar-se de respeitabilíssima madame, membro e digna representante de família de moral ilibada e comportamento irrepreensível, bem como dos familiares do Excelentíssimo Senhor Giacomo Marsiglia, todos eles nossos honrados amigos e clientes desde que nos instalamos, acatamos, dada a insistência da referida Senhora, um opúsculo dividido em duas partes: a primeira relata um episódio segredo de família, do qual tomamos conhecimento através desta peça, e conosco assim permanecerá, a seu pedido, até a morte dos que estiveram nele envolvidos e seus descendentes diretos; na segunda, resultantes da primeira, estão as instruções que devemos cumprir, com o rigor e discrição habituais em nossas atitudes. Pela firma Jazigo Perpétuo - À Prova de Ressurreições, Anízio Josefo Medrado, Presidente, e Eunápio Josefo Medrado, Vice-Presidente."

O DOCUMENTO.

"Sou filha de Otto e Marlene Sachs, descendentes de alemães. No início do século XX morávamos na cidade de Maruim, no Estado de Sergipe, onde nasci. Meu pai era exportador de açúcar. Alguns anos depois, quando já éramos dois irmãos, chegaram ao município o casal Giacomo e Júlia Marsiglia , descendentes de italianos, e um filho menor. Giacomo tinha a mesma atividade comercial do meu pai. A crise na indústria açucareira ainda não começara e eles associaram-se e tiveram sucesso. O amor entre meu pai e Júlia Marsiglia, ele anos mais velho do que ela, surgiu inopinadamente, como algo oculto que aguardava o momento de revelar-se. Quando aconteceu, teve início um drama que os fez penar durante quatro anos, incapazes de tornar concreto, visível, o que era palpável e claro no íntimo deles.

A sociedade entre Otto e Giacomo aproximou mais as duas famílias, e intensificou a dor de Otto e Júlia. Subjugados pela consciência e por razões morais, amavam-se pelo olhar, vigiavam as próprias palavras, jamais se reuniam sem testemunhas, e mesmo quando não as tinham, por acordo tácito, procuravam-nas, contanto que não ficassem a sós, quando o que mais queriam era sumirem-se um no outro. Com os respectivos consortes dissimulavam elevando o nível de compreensão e carinho que lhes era natural, mas se estavam todos reunidos a encenação escapava do controle e chegava ao exagero, sendo alvos de brincadeiras dos circunstantes, que os deixavam extenuados para sustentar o frágil pedestal em que se assentava o segredo do seu amor. Momentos em que suas almas mais se esgarçavam: a expansão dispersa de sentimentos que deviam estar canalizados entre os dois. O receio mórbido de que a atração que os imantava chegasse ao conhecimento de quem quer que fosse robustecia-lhes a arte do fingimento, enquanto lhes desvigorava o organismo. Viviam vidas duplas, penosa autofagia de emoções que os depauperavam a cada dia.

Com a crise do comércio do açúcar houve redução das exportações, perdeu-se muito dinheiro, a sociedade foi desfeita, e fomos viver no Rio de Janeiro. Giacomo, incapaz de suportar a ronda da falência, morreu de repente. Meu pai continuou no ramo de exportações, agora de café. Morávamos no mesmo edifício, em Botafogo. Ele e Júlia Marsiglia, a um passo de proclamarem o roteiro dramático de suas vidas, minados em seu interior pela tortura do amor execrado, adoeceram. Fazia quatro anos que se autoimolavam numa paixão platônica. Dois dias antes de morrer (minha mãe faleceu dois meses depois), meu pai me contou tudo, compelido pelo remorso. Pediu que trasladasse seus restos mortais e os de Júlia (falecida em janeiro de 1932) para o cemitério de Maruim. Assinara com ele um documento que está comigo, certamente no primeiro e único encontro que tiveram desassistidos. O traslado seria feito na época que eu julgasse oportuna para não causar embaraços de qualquer espécie, e que os túmulos ficassem distantes um do outro, nem os nomes deles inscritos nas lápides , apenas as datas de nascimento e morte, e a frase: "Descanse em paz quem muito amou em silêncio". Acreditava, diante do meu espanto, que se a vida negou, a morte não teria o direito de juntá-los. Deus havia reservado para os dois a união dos espíritos." Assinado por Judith Sachs, filha de Otto e Marlene Sachs. Rio de Janeiro, 12 de março de 1932.
Antes de me levantar, fiquei imóvel alguns instantes refletindo sobre o que acabara de ler. Abri a porta, para devolver o documento ao homem esquisito, que logo apareceu sem que eu o chamasse.
- Incrível! Essa história dá um romance. Encontrei o que procurava. Muito obrigado, Sr...
Curvou a espinha, solene:
- Otto Sachs.

* Paulo Fernando Teles Morais é jornalista e escritor (pftmorais@ig.com.br).

Imagem e texto reproduzidos do site: jornaldodiase.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 17 de setembro de 2014.

domingo, 14 de setembro de 2014

As Memórias de um Oitentão

Na foto, Murilo Mellins na cadeira do engraxate Caio Francisco Matos, um dos seus personagens.

Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 11/12/2008.

As Memórias de um Oitentão.
Por Luiz Antônio Barreto.

No dia 22 de outubro Murilo Mellins fez aniversário, completou 80 anos. Andando pelas ruas de Aracaju, desfilando os seus cabelos brancos, o memorialista, originário do interior, filho de Mário Mellins, que dentre outras coisas foi Intendente de Neópolis (antiga Vila Nova) parece fazer parte da paisagem humana de um modo especial, como guardião de velhas lembranças de ruas, festas, figuras populares, e de aspectos e fatos que marcaram a vida provinciana da capital sergipana. Murilo Mellins tem com Aracaju uma intimidade cumpliciada, como poucos, e ambos, o escritor e a cidade, guardando de cada um muitos segredos.

Homem nascido em bom berço, trabalhador em várias funções no Correio, na Prefeitura, noutros lugares, Murilo Mellins amealhou, contudo, um outro tipo de capital, o lúdico, que gasta parte dele nas edições que faz do seu Aracaju romântica que vi e vivi, que teve 3ª edição em 2007, graças ao patrocínio cultural do SEBRAE, do BANESE e da UNIT. A própria evolução do livro, com novos assuntos e muitas outras fotografias, é suficiente para atestar o quanto o autor tem a dizer e o quanto acumula de imagens com as quais encheu sempre as suas retinas, que a velhice não destrói.

Murilo Mellins concorre com grandes cronistas das décadas de 1940 e 1950, que mais parecem uma belle epoque retardatária na cidade de Inácio Barbosa. Garcia Moreno e Mário Cabral, e mais recentemente Lauro Fontes, que morreu na Bahia, neste ano de 2008, na fixação do cotidiano, de algum modo surpreendente, de uma capital cuja qualidade mais conhecida no País é a de ser pequena, como o Estado. O Brasil não conhece os domínios da sua própria federação e não tem intimidade além do alcance próprio do olhar. O Brasil sabe pouco dos brasileiros e não celebra com eles a festa da vida situada, no contato natural e cultural que mais e mais se integram.

Sergipe também não fica longe. Muitos fatos de sua história são deixados na masmorra do esquecimento, acondicionados em velhos papéis, frágeis jornais, ou na memória pessoal e social dos mais velhos, onde um mundo literário ágrafe ganha relevo, quando feita a interface com o cabedal imaterial do velho mundo. A conquista de Sergipe, feita pelas armas dos soldados de Cristóvão de Barros, em nome do escudo monárquico da Espanha, e que encobre a resistência indígena, não inspira pesquisas, as lendárias minas de prata de Itabaiana, que ouriçaram o imaginário dos europeus, não apetecem sequer a mera curiosidade dos serranos, a presença jesuítica, carmelita, franciscana, com seus tesouros de arquitetura, de arte e de prédicas, foi igualmente reduzida a poucos alinhavos, as divisões do território, alocados em Freguesias, jamais serviram de objeto de estudos esclarecedores, a evolução de cada povoação, vilas, cidades, regiões, continuam carecendo de interpretações econômicas, demográficas, sociais e culturais. Isto é apenas um pouco, quase nada do débito no campo da historiografia.

Nas décadas de 1940 e 1950, que são da especialidade de Murilo Mellins, outros fatos marcaram Aracaju, como a presença de Gilberto Freyre, em 1940, à frente de um grupo de cientistas da saúde pública e mental, ou os torpedeamentos dos navios mercantes, pelo submarino U-507 alemão, em agosto de 1942, as lutas democráticas de 1945,o assassinato do operário Anízio Dário, em 1947, a morte, trucidado na praça Fausto Cardoso, de Lídio Paixão, o crime da rua de Campos, que ceifou a vida de Carlos Firpo, o crime perpetrado por La Conga, que tirou a vida do menino Carlos Werneck, o fim dos bondes, o desmonte do Morro do Bonfim, e isto é tão somente um pedaço ínfimo de um inventário de muitos e muitos fatos, que estão empoeirados pela falta de interesse em estudá-los. O papel de Murilo Mellins na crônica da cidade do Aracaju é inigualável, pela oportunidade das abordagens, variedade temática, e precisão informativa.

Aos 80 anos, Murilo Mellins é credor de um trabalho incansável que faz como curador de memórias aracajuanas. E, fagueiro como os jovens, já prepara livro novo, com fatos curiosos, diferenciados, que nutriram o noticiário dos jornais, os programas de rádio e muito especialmente ficaram alojados nos guardados do povo. Que Murilo Mellins seja louvado como anjo da guarda do memorialismo aracajuano e que a cidade, pelas suas elites dirigentes, culturais, empresariais saibam ser dignas do esforço que ele empreende, em favor de um saber simples, mas ao mesmo tempo especial, como fonte onde são identificadas as lembranças que tanto animam a vida.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br

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Felisbelo Freire


Publicado originalmente no Blog História de Itaporanga,
de Robson Mistersilva

Felisbelo Freire
Felisbelo Freire, o historiador
Por: Maria Thetis Nunes (UFS).

Felisbelo Firmo de Oliveira Freire (1858-1916) é o mais destacado nome da historiografia sergipana. Natural de Itaporanga, integrou a primeira turma do Atheneu Sergipense, fundado em 24 de outubro de 1870, formando-se em Medicina em 1882, pela Faculdade da Bahia.

Talento multifacetado, impôs-se como médico dedicado e estudioso, jornalista combativo e ardoroso, músico exímio no piano e na flauta, embora tocasse vários instrumentos, político de idéias avançadas para o seu tempo, parlamentar atuante, ministro da Fazenda e, interinamente, das Relações Exteriores do governo de Floriano Peixoto. Projetou-se, sobretudo, como historiador, legando-nos uma das mais importantes obras históricas do seu tempo.

Foi abolicionista e propagador das idéias republicas em Sergipe, idéias que defendia desde os bancos acadêmicos. Em 1888, em Laranjeiras, onde clinicava, com Josino Menezes, Baltazar de Góis, Serafim Vieira de Almeida, entre outros, lançou o Manifesto Republicano, seguindo-se a fundação do Partido Republicano. Suas idéias eram divulgadas através dos jornais locais: o Horizonte, o Laranjeirense, o Republicano.

Impressiona-nos como um homem envolvido em atividades múltiplas, como viveu Felisbelo Freire, tenha realizado, dentro dos limites da época, as pesquisas que serviram de embasamento às obras históricas que escreveu.

Suas obras marcadas pela grande formação humanística e filosófica que possuía, são influenciadas pelas doutrinas do determinismo geográfico e do evolucionismo em voga na época. Nota-se, porém, que já o fato social o preocupava, aparecendo destacado em suas interpretações históricas.

Em 1891 publicou a História de Sergipe, que o tornaria, no dizer de José Calasans, o pai da historiografia sergipana. Como ele afirma no prefácio, não contara com “o recurso de obras já escritas sobre Sergipe, tendo necessidade de um trabalho paciente e longo na busca de manuscritos e documentos em seus cartórios e arquivos, compreende-se que me foi preciso muito trabalhar, para oferecer ao público esta modesta obra.

As dificuldades que lutei, em seis anos de pesquisas, foram inúmeras, e muitas vezes, confesso-o, quis desistir do meu plano.

E se não fora o auxílio e animação de amigos, por certo não levaria avante meu projeto”.
Abrangendo a formação sergipana, desde seus primórdios até a mudança da capital da vestuta cidade de São Cristóvão fundada nos idos de 1590 por Cristóvão de Barros, para o povoado de Santo Antônio de Aracaju, a História de Sergipe constitui-se até hoje, na única interpretação, em conjunto, da evolução histórica de Sergipe. Torna-se necessário uma edição revista, onde possam ser anotados enganos, só possíveis de serem evidenciados com as atuais pesquisas feitas, principalmente nos arquivos portugueses.

Elaborou Felisbelo Freire um ambicioso plano de escrever a História Territorial do Brasil, em cinco volumes. Lamentavelmente, só foi possível o primeiro, abrangendo Espírito Santo, Bahia e Sergipe. Nesse estudo da formação territorial sergipana, publicado em 1906, percebe-se que o autor já evoluía, quanto ao método e à orientação filosófica, em relação à História de Sergipe, publicada 16 anos antes. Urge dos poderes públicos a reedição desse livro, hoje obra rara, para que os atuais estudiosos da história sergipana possam nele buscar importantes informações.

Há outros livros históricos de Felisbelo Freire, de grande importância, destacando-se a História Constitucional da República dos Estados Unidos do Brasil, em três volumes, permitindo-nos conhecer os começos da vida republicana brasileira, em que, no momento a Constituição ocupa a atenção dos brasileiros, está despertando interesse, recebendo referências constantes. Ainda destacam-se, entre seus livros, a História do Banco do Brasil, Os portugueses no Brasil, História da Revolução de 6 de novembro de 1893, da editora da Universidade de Brasília, além de muitos amigos inseridos em revistas e jornais.

Preocupado com a educação da juventude, escreveu a História do Brasil, para uso das escolas públicas do Rio de Janeiro, destacando-se o método didático empregado.

Foi Felisbelo Freire um autêntico intelectual do seu tempo, integrou a plêiade de estudiosos da realidade brasileira, dentro das correntes sociológicas e filosóficas que a Europa nos enviava intelectuais que procuravam encontrar as raízes autênticas do Brasil, abrindo caminho para afirmação do nacionalismo literário e artístico eclodido após a Semana de Arte Moderna de 1922.

Ao lado de Capistrano de Abreu, Sílvio Romero, João Ribeiro, Euclides da Cunha, Alberto Torres e outros, pela obra legada no campo da História. Felisbelo Freire está entre os intelectuais precursores do nacionalismo na interpretação da realidade brasileira.

Texto e imagem reproduzidos do blog: historiadeitaporangadajuda.blogspot

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A história do carnaval em Maruim

Bloco Santa Cruz, em 1940 

A história do carnaval em Maruim.
Por Keizer Santos.

O carnaval é a festa mais esperada por muitos foliões em todo o mundo, no Brasil, chegam ao ponto de afirmarem que tudo começa depois do período momesco.

Em Maruim, distante a 30 Km de Aracaju, capital do Estado de Sergipe, houve um tempo que blocos saiam as ruas e o carnaval do município era uma das maiores festas do Estado.

Em 1940, por exemplo, o bloco Chic, com suas cores (verde, amarelo e vermelho) representava Maruim em diversos lugares, com desenhos de Fenelon Moura, José Maia Cruz, o Zé Maia (ex-prefeito de Maruim, de 1954 a 1957) e Decinho. Além do bloco Chic, também existia o bloco Santa Cruz, que nasceu no bairro São José. Os dois blocos eram controlados por grupos políticos do município: O bloco Chic, pelos Dantas e o bloco Santa Cruz, pelo Coronel Gonçalo Prado, da Fazenda Pedras.

Os blocos realizavam os ensaios no Teatro Tobias Barreto, que era situado atrás do prédio da antiga Telergipe. Hoje, no local existe apenas um terreno baldio.

O Micareme era uma das principais festas realizadas em Sergipe, era a ressaca do carnaval, que acontecia no Domingo da Ressurreição. Seu declínio começou a partir de 1946, quando surgiu a Micareta de Aracaju.

Texto: Keizer Santos
Imagem: Edson Lemos / Inventário Cultural de Maruim

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
CRUZ E SILVA, Maria Lúcia Marques. Inventário Cultural de Maruim. Edição comemorativa aos 140 anos de Emancipação Política da cidade. Aracaju: Secretaria Especial de Cultura, 1994.
Foto e texto reproduzidos do site: maruim.net

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Maruim, a cidade e seu cronista


Publicado originalmente no site Serigy, em 11/04/2006.

Maruim, a cidade e seu cronista
Por Luiz Antônio Barreto.

A emancipação política de Sergipe fez nascer e crescer vilas e cidades, ocupando estrategicamente o território, como suporte das atividades econômicas. A crescente produção açucareira nas terras pretas e gordas do massapê fez de Laranjeiras e de Maruim dois centros urbanos destacados na Província, para onde convergiam as atenções. Estância, ao sul, Vila Nova , hoje Neópolis, e Propriá, ao norte, Itabaiana e Lagarto, ao oeste, juntamente com a capital, São Cristóvão, davam a Sergipe os ares do progresso.

Saveiros e Sumacas entrando e saindo dos rios atestavam o grau de riqueza da pequena Província, servindo para o intercâmbio social e cultural com os portos mais importantes do Império e alguns portos do mundo, destino e ao mesmo tempo origem de mercadorias. A exportação de açúcar e de outros produtos da terra correspondia a importação dos bens que a incipiente sociedade consumia.
Maruim, vila em 11 de agosto de 1835 e cidade em 5 de maio de 1854 retratava, com fidelidade, a situação próspera de Sergipe. E o melhor testemunho está na visita que fez a Maruim o Imperador Pedro II, a Imperatriz e comitiva, em janeiro de 1860. Todas as ruas estavam calçadas e limpas, as casas pintadas ou caiadas, e as obras, em conclusão, da Igreja Matriz, com recursos do Barão de Maruim confiados ao vigário José Joaquim de Vasconcelos, encantavam os ilustres visitantes.

Maruim tinha, em todos os seus limites territoriais, cerca de quatro mil habitantes, sendo mais de dois mil deles moradores da cidade, onde conviviam com negociantes estrangeiros, como os Sharhamm, de refinado gosto, que organizaram um pequeno Museu de História Natural, com Eduardo Wien (mais tarde Wynne, com descendência sergipana), então Vice Cônsul da Suécia e da Noruega, dentre outros.

Os historiadores atribuem grande importância no surgimento e no progresso de Maruim ao proprietário rural José Pinto de Carvalho, que integrou a primeira Assembléia Provincial e o Conselho da Província que a antecedeu, e sua mulher Ana Aguiar Pinto, pais do bacharel Sebastião Pinto de Carvalho, um dos mais ilustres sergipanos, nascido no território maruinense em 1827, estudante de direito em Coimbra, Portugal, deputado provincial em Sergipe, professor de Filosofia no Liceu da Bahia. José Pinto de Carvalho era, também, o distribuidor dos principais jornais editados em Sergipe, a começar pelo Recopilador Sergipano, editado em Estância, em 1832, dando à população de Maruim a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento da imprensa e da própria Província.

Maruim deu a Sergipe e ao Brasil figuras ilustres como o Barão de Maruim - João Gomes de Melo, o poeta Cleômenes Campos, Deodato Maia e Alberto Deodato, ambos escritores e políticos, o artista plástico e professor Oséas Santos, dentre muitos outros nomes.

Coube ao filho de Maruim, Joel Macieira Aguiar, nascido em 11 de agosto de 1905, no dia da celebração dos 70 anos da criação da Vila, ser a um tempo o historiador e o cronista da cidade que completou, em 2004, 150 anos. Seu primeiro objeto de estudo foi o Gabinete de Leitura, fundado em 1877 e que representa o melhor exemplo da grandeza intelectual daquela cidade.

Na lista dos fundadores, entre eles João Rodrigues da Cruz, que além dos negócios em Maruim foi o fundador da fábrica Sergipe Industrial, de tecidos, instalada em Aracaju em 1884. O funcionamento do Gabinete de leitura, tanto como biblioteca, quanto como centro cultural, atraiu visitantes ilustres, como Tobias Barreto, conferencistas de vários temas, oradores, e assistentes.

Em 1927 Joel Macieira Aguiar publica a 1ª edição do Escorço Histórico do Gabinete de Leitura de Maruim, evocando 50 anos de atividades, salvando uma memória que o tempo e o descaso, fatalmente, destruiria. O pequeno livro de Joel Macieira Aguiar é um roteiro de informações, básico para a compreensão do fenômeno cultural no interior sergipano, e que tem no velho Gabinete a expressão maior daquele tempo.

Joel Macieira Aguiar, cirurgião dentista formado na Bahia em 1926, trocou de profissão, passando a estudar direito e ainda acadêmico, também na Bahia, já exercia o cargo de Promotor em Capela e em Neópolis. Formado em 8 de dezembro de 1936 voltou a Sergipe e algum tempo depois é nomeado Delegado em Aracaju, na Interventoria de Eronídes Carvalho. Foi nessa condição que Joel Macieira Aguiar, segundo registro de Manoel Cabral Machado no seu Brava Gente Sergipana e outros bravos, coordenou o levantamento cadavérico de Virgulino Ferreira da Silva, o Capitão Lampião, e os homens e mulheres assassinados na gruta do Angico, em Poço Redondo, em julho de 1938.

Mais tarde Joel Macieira Aguiar entrou para a magistratura, sendo juiz em Maruim, em Estância e em Aracaju, assumindo na capital o Juizado de Menores. Foi nomeado desembargador, aposentando-se, aos 70 anos, em 1975. Aposentado voltou a advogar, comparecendo com regularidade ao seu escritório por cerca de dez anos.

Em 1986 Joel Macieira Aguiar prestou homenagem a Maruim, fazendo a crônica da cidade e a história do Gabinete de leitura, num só volume, que foi reeditado, como forma de homenagear os 150 anos de elevação da Vila à categoria de Cidade. O escritor revisita os tempos áureos, registra presenças importantes de novas empresas e empresários, elaborando uma moldura para sua velha paixão, o Gabinete de Leitura.

Maruim da fábrica de tecidos, de Dantas & Cia (Josias Dantas e Alcebíades Dantas), antes Dantas, Leal & Cia, da fábrica de bebidas Hanequim, da Casa de Crédito Popular, de Aurélio Barreto e de Bráulio Barreto, da Igreja da Boa Hora, do Seminário Menor, do Preventório São José, do Abrigo Santo Antônio, do Hospital de Caridade, do Maruim Hotel e do Hotel Santa Terezinha, do Cine Cacique, da banda de música Euterpe Maruinense, do Cine Tobias Barreto, que também foi teatro, do jornal O Comércio, semanário literário ativo na década de 1930, honrando as folhas oitocentistas, desde A Justiça, editada por A N. Aires de Souza, (1862), O Maroinense, de propriedade de Antonio Augusto Gentil Fortes, (1886-1891), O Clarim, de propriedade de uma Associação, O Lavrador (1889) e a própria Revista Literária, do Gabinete de Leitura (1890-1891), dos times de futebol, Ipiranga, Maruinense, Brasiliense, dos blocos de micareme Chic e Paladinos e Santa Cruz, das usinas Pedras, do coronel Gonçalo Rollemberg do Prado, Mato Grosso, dos herdeiros de Gonçalo do Faro Rollemberg, Jordão, de Simeão M. Aguiar Menezes e Caraíbas, de Sabino Ribeiro & Cia, depois pelos seus herdeiros (ainda que estivesse em território de Santo Amaro).

Não parece a mesma cidade nos anos de 1960, quando técnicos norte americanos e sondadores da Petrobras procuravam petróleo na região, ou quando os bares de Nouzinho, de Belo e de Paulo perdem movimento com a estrada federal e a retirada dos ônibus e dos caminhões de vários municípios, com destino a Aracaju. Maruim passou a ser uma espécie de cidade-dormitório, sem o trem de passageiros, sem os saveiros que tomavam o leito do Guahamoroba, sem as ancorêtas fabricadas, artesanalmente, no Lachez, sem os armazens de Soares & Prado, Manoel Corumba, Maynart & Companhia, e sem o próprio Gabinete de Leitura, praticamente fechado, ou tendo seu grande salão transformado em clube social.

Joel Macieira Aguiar é, com seus livros, o melhor guardião da memória da sua terra, da cidade dos seus encantos, e viveu para assistir a decadência econômica do município. Aos 89 anos, Joel Macieira Aguiar morreu em Aracaju, em fevereiro de 1995, sendo enterrado, por vontade expressa aos seus familiares, na sua sempre querida Maruim.

Texto reproduzido do site: clientes.infonet.com.br/serigysite
Foto reproduzida do site: maruim.net

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Três Figuras Atuais.

Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 06/04/2005.

Três Figuras Atuais.
Por Luiz Antônio Barreto.

Sergipe conhece pouco os seus filhos mais ilustres. Tanto aqueles que deixaram a terra berço em busca de oportunidades, construindo em outros Estados as suas biografias, quanto os que aqui permaneceram, no cotidiano do trabalho, mantendo acesa a chama da sergipanidade, conjunto de traços que identificam, em qualquer lugar, quem nasce ou vive no dorso desse pequeno território entre os rios São Francisco e Real, entre o mar oceano e as fraldas das serras da Tabanga, de Itabaiana, da Miaba, do Canine, elevações que mantém à vista e íntegros os limites, que já foram maiores. Há quem procure comparar, por exemplo, a constelação de vultos que Sergipe deu ao Brasil entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX, como a querer identificar igualdades. Cada tempo responde por gerações, sem que se possa cobrar os mesmos destaques. A continuidade existe.

Nesta mesma semana três figuras atuais de Sergipe completam anos, permitindo que se faça, em torno deles, uma viagem interessante, que ateste a contribuição de cada um. José Silvério Leite Fontes, no dia 6 de abril completa 80 anos, Francisco Guimarães Rollemberg, no dia 7, 70 anos, e João Gomes Cardoso Barreto, no dia 8, 75 anos. É preciso, de logo, constatar que hoje se vive mais e se vive melhor, na comparação inevitável com o os séculos passados, quando morreram velhos Tobias Barreto, aos 50 anos, e Silvio Romero, aos 63. Ou, ainda, mortos novíssimos, como o poeta José Jorge de Siqueira Filho, colega de Sílvio e de Tobias, irmão da professora Etelvina Amália de Siqueira, que pouco passou dos 20 anos. O exemplo local é a menor, o mesmo do Brasil, que viu morrer Castro Alves aos 24 anos, e assistiu a uma geração inteira se despedir da vida na casa dos 20 anos.

José Silvério Leite Fontes. 
    


José Silvério Leite Fontes, nascido em Aracaju, em 1925, aqui estudou até seguir para a Bahia, onde fez o curso jurídico, formando-se na turma de 1946. Tornou-se professor do ensino médio, em vários colégios, e do ensino superior, sendo um dos fundadores da Faculdade de Direito de Sergipe, em 1950 e um dos mais destacados professores do ensino universitário, passando a compor o quadro do magistério da Universidade Federal de Sergipe, a partir de 1968. Advogado, Conselheiro da OAB, notabilizou-se pelas lutas em defesa dos direitos humanos e do Estado democrático. Funcionário federal da Inspetoria Seccional do Ministério da Educação exerceu cargos públicos, colaborou com a administração do governador Arnaldo Rollemberg Garcez. Jornalista, colaborador assíduo da imprensa, especialmente da Gazeta de Sergipe e de A Cruzada. Escritor, com obra afortunada de boas críticas, destacando Razão e Fé em Jackson de Figueiredo. Escreveu outros livros, sobre a formação de Aracaju, a historiografia marxista, o pensamento jurídico sergipano, emprestando visões interpretativas singulares aos seus trabalhos. José Silvério Leite Fontes integra a Academia Sergipana de Letras, sentado na Cadeira nº 5. Acometido de uma doença que vem reduzindo os seus movimentos, enfrenta, resignadamente, como homem de fé, a adversidade e atinge hoje 80 anos.

Francisco Guimarães Rollemberg.  
    


Francisco Guimarães Rollemberg, natural de Laranjeiras, tem uma biografia de êxitos. Aliou, como poucos, sua profissão de médico, conquistada em 1959 na Faculdade de Medicina da Bahia, com a vocação política, obtendo mandatos seguidos para a Câmara Federal, desde a primeira eleição em 1970, seguindo-se 1974, 1978, 1982, sempre com votações explêndidas de um verdadeiro campeão de votos. Em 1986 elegeu-se Senador da República e em 2002 disputou o Governo do Estado. Com uma atuação parlamentar antenada com a atualidade brasileira, reservou parte de sua energia para oferecer uma contribuição especial a Sergipe, fosse na organização do Perfil Parlamentar de Fausto Cardoso, obra grandiosa e essencial, fosse na defesa dos limites de Sergipe, confiscados pela Bahia e jamais repostos. Homem de sensibilidade artística ingressou na Academia Sergipana de Letras para ocupar a Cadeira nº 15. Enquanto exercia os seus mandatos ligou-se a outras entidades culturais, especializou-se em vários campos da vida brasileira, fez o curso de Direito, e se tornou, pelos seus pronunciamentos, num dos mais completos políticos sergipanos. Aos 70 anos, em plena atividade profissional, curte a maturidade política e cultural, ciente do que representa para o Estado e para o povo sergipano.

João Gomes Cardoso Barreto.  



João Gomes Cardoso Barreto, nascido em Maruim, viveu grande parte dos seus 75 anos a completar no dia 8 de abril, em Aracaju onde fez de quase tudo, com perfeição. É um homem que a modéstia tem impedido de ser dos grandes sergipanos, pela capacidade de observação, pelo preparo, pelo volume de informação, pela cordialidade no trato e civilidade na convivência. Tem a experiência do servidor público, no melhor sentido, dando à Assembléia o seu talento como Redator de Debates, função que vai além da técnica, para exigir conhecimento das nuances políticas e administrativas do Estado. Foi, por várias oportunidades, Secretário de Estado, na Prefeitura com Cleovansóstenes Pereira de Aguiar, na Administração, no Governo estadual com Djenal Queiroz na Casa Civl, ao lado de Djalmir Queiroz, com João Alves Filho, na principalmente na Educação, repetindo o esforço em prol da escola pública.

Referência viva, com uma memória agigantada pelo interesse de guardar tudo o que tem relação com Sergipe, João Gomes Cardoso Barreto envelhece reconhecido pelo círculo grande de amigos e de admiradores que amealhou ao longo dos anos. É possível, portanto, distinguir dentre muitos homens e mulheres ilustres, figuras que exercem suas vidas vitoriosas, como outros o fizeram no passado.

Fonte "Pesquise - Pesquisa de Sergipe/InfoNet". institutotobiasbarreto@infonet.com.br.
Imagens e texto reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 14 de setembro de 2014.

sábado, 13 de setembro de 2014

Gabinete de Leitura, no município de Maruim

Foto: kleberrq.
Reproduzida do site: panoramio.com/photo

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 11 de setembro de 2014.

Homenagem a Fedro Portugal


Publicado originalmente no Facebook/Araripe Coutinho, em 11/09/2014.

Fedro Portugal.
Por Araripe Coutinho.

Fedro viveu a história de Sergipe como ninguém.
Fedro Portugal faz parte de uma linhagem de médicos que dignificam o Estado de Sergipe. É um homem que merece ser biografado. Dono de uma memória privilegiada, Fedro viveu a história de Sergipe como ninguém, tendo marcado época em tudo que participou com brilho intenso e presença rara. Na Universidade Federal de Sergipe e no Hospital Universitário, ultrapassou os limites do afeto e do respeito, sendo endeusado pelos alunos e colegas sempre com aquele jeito europeu de ser. Além de sua atuação acadêmica percorrendo os corredores das didáticas, Fedro solidificou-se mesmo como médico, atendendo em consultório pessoas da sociedade, anônimos e celebridades sociais, que logo viam nele um amigo, um mestre a cuidar das feridas do corpo e da alma também. Agradável ao extremo, refinado, Fedro sempre foi adepto de uma boa mesa, de um aconchegante hotel e de um vinho de rara safra. Elegante em seus ternos cortados pelo alfaiate Valdir, era íntimo de pessoas nobres e importantes, como o monsenhor Claudionor Fontes, que o fez fiel depositário de seus bens. Casado com a também médica Selma Portugal, uma joia rara de pessoa, vivem um amor eterno, de cumplicidade. Tem três filhos: Joana Angélica, Maria da Glória e Fedrinho, que ingressou no ramo da Gastronomia com o seu restaurante Baco.

Ninguém nunca viu Fedro gritando com ninguém, sempre cordato, altruísta e humano ao extremo. Faz a liturgia de médicos como Augusto Cesar Leite, José Augusto Barreto, Dietrich Wilhelm Todt, Maria Luiza Dórea, Antonio Garcia Filho, pai do poeta Eduardo Conde Garcia, José Calumby Filho, Hyder Gurgel, Amilton Maciel, Cleovansóstenes Pereira de Aguiar, José Abud, Petronio Gomes, José Fernandes de Magalhães, José Machado de Souza, José Rezende, José Teles de Mendonça, João Machado de Aguiar Melo, Marcos Almeida, Almir Santana, Lucio Prado, William Soares, Ilma Fontes, Marcelo Ribeiro, Gélio Albuquerque, Raimundo Sotero, Zairson Franco, José Maria Rodrigues e tantos outros nomes. Fedro é uma pessoa extraordinária, com gosto para Arquitetura (sua casa tem portão de Osiris Rocha, projeto de Paulo Rehm), louco por ópera e cinema, admirador dos artistas sergipanos, incentivador dos mesmos - comprando livros, quadros, peças de antiquário. Fedro toca piano e é um memorialista de sua terra, tendo vivido os tempos áureos do Cine Guarany, Vitória, Rio Branco e Cine Pálace, a sorveteria Yara, a Cascatinha, o Cacique Chá com painéis de Jenner Augusto, a Cinelândia de seu Araujo com seu sorvete de coco, e Russo e seu sanduíche inesquecível de queijo do reino e pão de cachorro-quente, a Luzitânia com seu bolinho de bacalhau incrível até hoje, e as festas de Natal na Praça da Catedral, com a pipoca lírio do vale. Como Fedro sempre foi um intelectual, frequentou a fase áurea da Livraria Regina, onde podia-se encontrar livros de várias nacionalidades: italianos, franceses, espanhóis, além dos nacionais, em diversas áreas do conhecimento.

Vários intelectuais tiveram livros impressos pela Regina, como Mário Cabral, Santo Souza, Alberto Carvalho, José Calazans, Pires Wynne, entre outros com quem mantinha amizade. A tarde de autógrafos desses lançamentos não só era um entretenimento da Rua João Pessoa, mas, sobretudo, um encontro de intelectuais. Fedro também sempre foi um apaixonado pelo Jornalismo e comprava todo final de semana os jornais do Sul: "O Globo", "Folha de S. Paulo" e "Estadão", dando sempre uma passada na Charutaria Chic, de Moacir. Católico, Fedro é um admirador de Dom Luciano Cabral Duarte, ouvindo a hora católica da Rádio Cultura, sempre aos domingos, ao meio-dia.

Nasceu em Aracaju, Sergipe, no dia 1° de julho de 1944, sendo seus pais o famoso Francisco Nascimento Portugal e Maria da Glória Menezes Portugal. Fez o curso de Humanidades em sua cidade natal, onde frequentou o Colégio Tobias Barreto, conceituado estabelecimento de ensino da capital sergipana. Em 1962, ingressou na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Federal de Sergipe. No curso de seu tirocínio acadêmico, lecionou Biologia no Colégio Estadual de Sergipe, no Colégio Tobias Barreto e no Colégio Arquidiocesano. Quando estudante de Medicina, foi um dos fundadores do curso BETA, destinado à preparação de alunos para o concurso vestibular. No último ano de seu tirocínio médico, estagiou no Hospital das Clínicas Prof. Edgard Santos, da UFBa, e no Instituto de Dermatologia, sob orientação do Prof. Newton Guimarães, em Salvador, Bahia. Concluído o estágio curricular, diplomou-se na primeira turma de Medicina da Universidade Federal de Sergipe, UFS.

Em 1972, prestou concurso para professor auxiliar de ensino da Faculdade de Ciências Médicas, iniciando, assim, sua carreira docente em sua universidade de origem. De 1976 a 1978, fez residência médica na Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ. Naquela ocasião, seu currículo profissional contava com 54 participações em congressos e 49 cursos de pós-graduação na área de Dermatologia, 34 participações como palestrante em eventos da especialidade, além de aprovação em concurso público para professor substituto de Dermatologia.

É membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, do Colégio Íbero-Americano de Dermatologia, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, da Associação Brasileira de Hansenologia, da Sociedade Médica de Sergipe e da Academia Sergipana de Medicina. É fundador da Secção Regional da Bahia e de Sergipe da Sociedade Brasileira de Dermatologia. É detentor de diversos títulos e honrarias, tais como a de Honra ao Mérito da Sociedade de Cirurgia Plástica e de Queimados, da Sociedade Norte/Nordeste de Dermatologia e da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Como ser humano, Fedro Portugal nos enobrece pelos gestos comedidos, coração grande, percepção humana invejável. Continua atendendo humildemente em seu consultório, dando aula aos residentes do Hospital Universitário, ministrando palestras pelo mundo afora e, recentemente, quando se encontrou internado, os seus alunos deram plantão no hospital, além de ter visitado o poeta no HU com as suas lindas alunas o acompanhando. Fedro é como dizem os mais velhos: não existe. É um mito, uma lenda. Um Bagavadguitá. Uma canção de Deus. O texto, escrito em sânscrito, relata o diálogo de Krishna (uma das encarnações de Vixnu) com Arjuna (seu discípulo guerreiro) em pleno campo de batalha. Arjuna representa o papel de uma alma confusa sobre seu dever e recebe iluminação diretamente do Senhor Krishna, que o instrui na ciência da autorrealização. Seria assim a alma de Fedro Portugal. Um diamante raro, de cuidadosa lapidação própria, esculpido no mais nobre amálgama do tempo e da vida. É um luxo ser amigo de Fedro Portugal. Uma honra tal como o diamante Koh-i-noor, o Diamante dos Imperadores.

Gostaria de ter a capacidade de falar deste homem. Mas escassa é a palavra e inútil o significado diante do amor que sentimos por ele. Tantas vezes atendendo meu pai em seu consultório, sem lhe cobrar nada. Quanto a mim (ah!, meu Deus!), quantos anos! Sempre me honrando com palavras imerecidas de apoio, numa discrição e polidez únicas. Tal como um filme de Luchino Visconti com o sensível e refinado "Morte em Veneza" (1971), protagonizado por Dirk Bogarde e baseado na obra de Thomas Mann. O filme conta a história de Gustav Aschenbach, um compositor que vai passar férias em Veneza, e acaba por viver uma grande e inesperada paixão, que iniciaria a sua completa destruição. O filme faz uma abordagem do conceito filosófico de beleza, assim como a passagem do tempo e a importância da juventude nas nossas vidas. Assim, em meio a tantas paixões em sua vida: pelas artes, pela ciência e pelo ser humano, Fedro Portugal pode repetir com Drummond: “As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão.
Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas, ficarão”.

Foto e texto reproduzidos do Facebook/Araripe Coutinho.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 12 de setembro de 2014.