segunda-feira, 16 de março de 2015

Carta para Dr. Hyder


Publicado originalmente no Facebook/Lucio Prado Dias, em 11/03/2015.

Carta para Dr. Hyder.
Por Lúcio Prado Dias.

Aracaju, 10 de março de 2015.

Querido professor, confrade e amigo!

“Há um instinto de imortalidade na santidade. Aquele que vive com Deus sabe que viverá para sempre” ( Dom Estevão Bittencourt ).

A Academia Sergipana de Medicina curva-se diante do seu corpo inerte e seu pavilhão posta-se aos seus pés, em sinal de gratidão e respeito.Rejubila-se com o seu espírito que agora habita os tabernáculos do Senhor! Por entender a posição da Medicina na comunidade, você se tornou um líder de sua classe e um modelo de médico.

Como médico pediatra, ao lado de Machado e Paulo Carvalho, você foi um dos tripés da nossa Faculdade de Medicina tanto na sua fundação, quando lecionou por quase dois anos sem nada receber pecuniariamente e depois por longos anos com dedicação até a aposentadoria. Exerceu funções públicas com responsabilidade, probidade e zelo.

A sua recordação da Gruta do Boqueirão, em Lavras da Mangabeira, no Ceará, sua terra natal, encheu-nos de emoção quando o visitamos na semana passada, na companhia dos confrades José Hamilton Maciel Silva, Antônio Samarone, Anselmo Mariano Fontes e Geodete Batista, esses dois últimos colegas de especialidade. Já acometido da insidiosa enfermidade, você nos recebeu afetuosamente, denotando um humor e raciocínio apurados, apesar do abatimento físico, ao lado da companheira de toda a vida, a sua querida Rosa.

Estávamos naquele momento diante de um homem de origem humilde que, superando todas as dificuldades, constituiu uma sólida família em terras sergipanas e atingiu os píndaros da glória profissional, como pediatra, professor pioneiro da Faculdade de Medicina, empreendedor vitorioso, gestor engajado, que na condição de chefe do Departamento de Saúde de Aracaju criou, na década de 60, o primeiro centro de reidratação venosa do Nordeste brasileiro, sendo também um dos fundadores da Sociedade Sergipana de Pediatria e da Academia Sergipana de Medicina, da qual foi presidente, de 2001 a 2003 e um dos seus mais atuantes membros.

Sentimo-nos gratificados em ver você presente, calmo, de bem com a vida e a emoção que contagiou a todos naquele momento só não foi maior que a minha, em particular, pela oportunidade e o privilégio que tive de conviver com você, em torno da nossa Academia de Medicina, a “Casa de Gileno”, a sua Casa, Dr. Hyder,

Sei muita coisa de sua história, que você estudou Medicina na Bahia, formando-se em 1951. Que seu irmão Hugo, mais velho, já estabelecido em Aracaju como obstetra, puxa você para Aracaju, dois anos após a sua formatura. No Hospital Cirurgia, dividiu o atendimento das crianças com José Machado de Souza. Como professor pioneiro de pediatria, ensinou os seus conceitos de atenção à criança e, fato inusitado, incentivou também os seus alunos a economizar água, evitando desperdícios do precioso líquido, talvez por conhecer como ninguém as agruras de sua terra de origem, na luta contra a seca, como bem lembrou Antônio Samarone.

Que mais poderia desejar um homem, na face da terra, do que ter uma sólida família e o reconhecimento e admiração de seus colegas, ex-alunos, amigos e confrades, pelas realizações e conquistas? Muito pouco, Dr. Hyder!

Gostaria que você transmitisse algumas palavras à sua querida esposa, Rosa Queiroz Gurgel. Diga-lhe que, ao seu lado, ela foi um personagem ativo no trabalho diuturno na saúde pública e privada, construindo a dois uma história de realizações, superando com sabedoria e resignação os momentos adversos que encontraram pelo caminho. Soube muito bem conviver todos esses anos com a força da união, dedicados um ao outro com afeto, respeito e amor. Souberam mais. Souberam transmitir aos filhos bons ensinamentos de educação, ética e forte personalidade.

Diz uma das lendas que corria nas Lavras da Mangabeira, que se o menino de calças curtas conseguisse, de fora da Gruta do Boqueirão, cutucar com longa vara a mesa e derrubar toda aquela riqueza, assustava-se ao ver que, em poucos minutos, tudo estava novamente composto. Assim é a vida. Quantas baixelas de ouro e de prata não derrubamos pela vida e que depois foram se recompondo?

Dedico a você, para encerrar essas mal traçadas linhas, as palavras do poeta José de Góis Duarte, dirigidas postumamente a Dr. Augusto Leite, patrono da cadeira três, que você ocupou na nossa Academia desde a sua fundação, em 1994.

" Sublime missão de todo dar-se no exercício pleno da bondade; a prática do Bem, da Caridade; ao amor espontâneo - fruto d'alma - lenitivo sem par que a dor alheia acalma”. Afirma: "Este não morrerá! Este não morrerá, pois que não morre quem de todo se dá, quando socorre ou a quem fere a dor, nos caminhos do mundo".

Hyder Gurgel, repouse em paz!

PS - Um dia a gente se encontra!

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Lucio Prado Dias.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 12 de março de 2015.

Lavras da Mangabeira, Gruta do Boqueirão...




Publicado originalmente no Facebook/Lucio Prado Dias, em 9/03/2015.

Lavras da Mangabeira, Gruta do Boqueirão...lembranças de um pediatra.
Por Lúcio Prado Dias.

O menino nasceu no longínquo 1927, em Lavras da Mangabeira, cidade que fica na região centro-sul do Ceará, a 430 kms de Fortaleza, filho do comerciante José de Aguiar Gurgel e de Dona Maria Bezerra Gurgel. Quando rapazinho, conheceu a Gruta do Boqueirão, uma inusitada formação geográfica aberta na serra do mesmo nome, com altura de quase cem metros. Formada por duas partes descomunais, aberta na própria rocha, por seu canyon corre o Rio Salgado e essa estranha formação deu lugar a lendas e estórias fantásticas.

O garoto ouvia dizer, por exemplo, que no fundo do poço, extenso e profundo, quando a água serenava, era visto um carneiro de ouro em pé sobre uma pedra, prenunciando ali haver um intenso cabedal subterrâneo. E nos escâncaros da gruta que só se pode chegar lá de balsas pelo poço e subir as escadas, era vista uma mesa atoalhada, com baixelas de ouro e prata.

Essas lembranças vieram à cabeça de Hyder Gurgel, o cearense de Lavras de Mangabeiras, quando o visitamos na semana que passou, na companhia dos confrades José Hamilton Maciel Silva, Antonio Samarone e os pediatras Anselmo Mariano Fontes e Geodete Batista.

Acometido de insidiosa enfermidade, recebeu-nos afetuosamente, denotando um humor e raciocício apurados, apesar do abatimento físico, ao lado da companheira de toda uma vida, a sua querida Rosa e do filho Ronaldo, colega anestesista.

Estava diante da gente um homem de origem humilde que, superando todas as dificuldades, constituiu sólida família em terras sergipanas e atingiu os píndaros da glória profissional, como pediatra, professor pioneiro da Faculdade de Medicina, empreendedor vitorioso ( fundou a Clínica, depois Hospital São Domingos Sávio), que por muitos anos prestou relevantes serviços às crianças sergipanas, gestor engajado, que na condição de chefe do Departamento de Saúde de Aracaju criou, na década de 60, o primeiro centro de reidratação venosa do Nordeste brasileiro, sendo também um dos fundadores da Sociedade Sergipana de Pediatria e da Academia Sergipana de Medicina, da qual foi presidente, de 2001 a 2003.

Estudou medicina na Bahia, onde se formou em 1951. O irmão Hugo, mais velho, já estabelecido em Aracaju como obstetra, o traz para Aracaju dois anos após a sua formatura. No Hospital Cirurgia, divide o atendimento das crianças com José Machado de Souza. Como professor pioneiro de pediatria, ensina os seus conceitos de atenção à criança e, fato inusitado, ensina também a seus alunos a economizar água, evitando desperdícios do precioso líquido, talvez por conhecer como ninguém as agruras de sua terra de origem, na luta contra a seca, lembra Antonio Samarone. Quem mais estaria preocupado com isso naquele tempo?

Que mais deseja um homem na face da terra do que ter uma sólida família e o reconhecimento e admiração de seus colegas, ex-alunos, amigos e confrades, por suas realizações e conquistas? Muito pouco...!

Diz a lenda que se o menino de calças curtas conseguisse, de fora da Gruta do Boqueirão, cutucar com longa vara a tal mesa e derrubar toda aquela riqueza, assustava-se ao ver que, em poucos minutos, tudo estava novamente composto. Assim é a vida. Quantas baixelas de ouro e de prata não derrubamos pela vida e que depois foram se recompondo? Assim é a vida!

Texto e imagens reproduzidos do Facebook/Lucio Prado Dias.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 10 de março de 2015.

sexta-feira, 13 de março de 2015

A Saga dos Vieira

Família VIEIRA, ramo descendente de Roberto Vieira do Nascimento. 
Na primeira fila: Alcides, Maria e Josefa; na segunda fila: 
Antônio, Rafael, Zequinha, Pedro, Raimundo e Valdomiro (foto).

Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 03/02/2011.

A Saga dos Vieira.
Por Luíz Antônio Barreto.

LAGARTO é um dos mais antigos chãos de Sergipe, e guarda em sua história fatos singulares, que têm coerência com as projeções ocorridas na linha do tempo. No século XVII, quando o mito da riqueza projetava o nome de Belchior Dias Moréia, era difícil confundir o valor das terras circundantes, de Itabaiana, Lagarto e Campos do Rio Real, que pareciam realçar a identidade de uma região, cujas características sobreviveram, e certificam nos dias atuais uma vocação produtiva. As glebas doadas, em regime de Sesmarias, ocuparam as margens dos rios Vaza-barrís e Piaui e de alguns afluentes, organizando lavouras e criações. Não houve prata, o açúcar era pouco, mas o gado mantinha abundantes currais, com o capim substituindo as matas, às quais foram incorporadas, sob a mesma perspectiva, as matas de Simão Dias.

Um padre – Eusébio Dias Laços Lima – alvoroçou o Lagarto com suposta catequese de indígenas, e idéia libertária, que pretendia romper os vínculos políticos dominantes, para criar um Império, povoado de uma nobreza local, nomeada pelo Príncipe do Brasil. Embora os títulos da nobreza nomeada não tivessem efeito, tal qual a prata, restava a Lagarto uma idéia de liberdade econômica, que fluiria mais tarde e dominaria o século XIX, quando a vigararia passou a contar com o padre João Batista de Carvalho Daltro, com sua fórmula universalmente imposta. Para casar, diz a tradição lagartense, era preciso que o noivo tivesse um cavalo e um pedaço de terra, de onde tirar o seu sustento e da nova família.

Ao lado dos ricos fazendeiros, dos exploradores das matas, dos criadores de gados, surgia no Lagarto pequenos sitiantes, que conciliavam as atividades rurais com as oportunidades de outras fontes de renda. A agricultura do fumo, e mais recentemente do maracujá, da laranja, fortaleceu uma economia e um cooperativismo que são típicos do Lagarto. A Colonia 13 é um excelente exemplo, que chega já aos 50 anos. Também surgia oficiais do ramo de couro, com seus produtos – sela, alpercata, peitoral, gibão, arreios em geral -, incluindo o fabrico de calçados. Proliferaram as oficinas ou sapatarias, de fabrico próprio.

Várias famílias aderiram aos novos tempos, uma delas a VIEIRA, numerosa, formada por gente do campo, sitiantes da zona rural, que buscaram a urbanização do trabalho. A família VIEIRA passou a ter visibilidade ns últimas décadas do século XIX. Nasceram nos oitocentos Manoel Vieira do Nascimento, chamado Mané Rico, José Vieira do Nascimento, conhecido como Zezé do Arroz e Roberto Vieira do Nascimento, apelidado de Benvano, cada um com seu ofício, antes que a realidade lagartense fizesse as suas exigências. Zezé, por exemplo, teve família no couro, mas popularizou-se com caminhões, trafegando nas feiras de Simão Dias, ou conduzindo gente e mercadorias para Aracaju. Seus filhos – José, Vieira e Antonio – também tiveram caminhões. José, sem perda do comando dos negócios, teve comércio de móveis, caminhão próprio, entrou na política e foi Prefeito de Lagarto e Deputado Estadual (1982). Um dos seus filhos, José Aloísio, é médico com Clínica afamada em Lagarto. Mané Rico, com negócios de fumo, como tantos da família, enriqueceu. Um seu neto – José Augusto Vieira -, que foi Deputado Estadual (1982) enveredou pelos negócios, em Lagarto e no Maranhão, é hoje próspero industrial, liderando o Grupo MARATÁ. Benvano era pedreiro, tinha um sítio na Catita, e seus filhos tomaram diversos rumos: Zequinha e Raimundo têm negócios no Rio de Janeiro, Valdomiro é radicado em Fortaleza, no Ceará, onde produz camarão, Pedro, Alcides, Antonio, que lideram com negócios de calçados e de fumo, já morreram. Antonio deixou 2 filhos, um deles o médico José Alberto Cerqueira. Maria Peixoto, que vivia em Simão Dias, com grande prole de professoras, Julieta, moradora em Amélia Rodrigues, são falecidas. Josefa, viúva de João Muniz Barreto, mãe de José Artêmio Barreto, magistrado, de Luiz Antonio Barreto, jornalista e intelectual, e de Luiz Augusto Barreto, advogado da PETROBRÁS, já falecido. Estão vivos: Zequinha, no Rio de Janeiro, Raimundo, sócio de restaurante – Alfaia, casa de bacalhau, situada na Travessa Inhangá – também no Rio de Janeiro, Valdomiro, no Ceará, e RAFAEL, com dupla residência, em Lagarto e em Aracaju.

RAFAEL completou 90 anos no dia 30 de janeiro último e reuniu filhos, netos, bisnetos, sobrinhos e amigos para celebrar o aniversário. Lúcido, atento aos fatos, guardando memória de sua vida no Lagarto, como sapateiro, como construtor de casas, que atestaram o êxito de seus empreendimentos e trabalho. Vibrando com filhos e netos que ocupam espaço na vida sergipana – Carlos Alberto Monteiro Vieira, advogado, filho, Carlos Augusto Nascimento, advogado e atual Presidente da OAB, Emílio Roberto Monteiro Vieira, funcionário aposentado do Banco do Brasil, filho, Paulo Rafael, professor e administrador universitário, neto, Rafael Filho, comerciante do ramo de calçados e couro, em Lagarto, continuador, ao lado da irmã Goreti, dos negócios da família, filhos, ao lado de Edith, Rita e Auxiliadora, com seus descendentes – para citar parte de uma família grande e bonita, que tem dado a Lagarto e a Sergipe o melhor exemplo de construção e de participação, projetando no futuro as vitórias que marcam a fibra dos VIEIRA.

As lembranças da Catita e de outros lugares rústicos de Lagarto jamais foram esquecidas. A saga dos VIEIRA é apenas um exemplo, dentre muitos outros que respondem pela vocação produtiva de Lagarto e de outros municípios do Estado.

Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 10 de março de 2015.

O Centenário de Luiz Garcia


Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 14/10/2010.

O Centenário de Luiz Garcia.
Por Luíz Antônio Barreto.

A biografia centenária de Luiz Garcia é rica, tanto no jornalismo, como na advocacia, como na política. O Correio de Aracaju foi sua grande tribuna diária, com artigos de fundo, emitindo opiniões que representavam o grupamento político ao qual pertencia, ao lado de Seixas Dória, Carvalho Deda, sob a liderança carismática de Leandro Maciel. Seu cunhado Junot Silveira e seu filho Gilton Garcia deram, também, contribuição significativa ao jornal udenista.

No exercício da advocacia, precedido de experiência como Promotor, atuou em Sergipe e no Rio de Janeiro, onde também era advogado o seu irmão Carlos Garcia, no grande e tradicional Escritório do Dr. Hernani Cidade. Advogado no Inventário de D. Adélia Franco, e de outras figuras importantes de Sergipe, Luiz Garcia conciliou as atividades forenses com os mandatos políticos, desde o de Deputado Estadual Constituinte em 1935, quando da elaboração da Constituição do Estado e da eleição, indireta, do Governador Constitucional Eronídes Ferreira de Carvalho.

Na política ingressou aos 24 anos, participando da fundação do primeiro PSD – Partido Social Democrático, juntamente com Leandro Maciel que seria, na UDN – União Democrática Nacional, seu líder e parceiro de muitas campanhas. Depois da passagem pela Assembléia, aguardou que a redemocratização do Brasil reabrisse o espaço eleitoral, candidatando-se a Governador, enfrentando a José Rollemberg Leite, dos quadros do PSD – Partido Social Democrático, chefiado por Leite Neto, coligado com o PR – Partido Republicano, que tinha como principais líderes Júlio Leite e Armando Rollemberg.

Luiz Garcia perdeu a eleição para o Governo do Estado, mas adiante foi eleito Deputado Federal e substituiu a Leandro Maciel, em 1958, como Governador. A renúncia em 1962, para concorrer ao Senado, fez declinar a carreira política, embora durante o período dos Governos dos militares, quando ele optou por filiar-se, com Leandro Maciel, a ARENA – Aliança Renovadora Nacional, elegendo-se Deputado Federal mais duas vezes e tentando, sem sucesso, na eleição de 1978. Sua participação no plenário da Câmara dos Deputados consagrou sua oratória, suas posições, sua conduta, merecendo elogios de correligionários e adversários, como são testemunhos os Anais daquela Casa.

Afastado da política, deixou aflorar o intelectual, nas sessões da Academia Sergipana de Letras, ilustrando o sodalício com sua palavra fácil, suas observações produzidas pela longa experiência, no Estado e fora dele, sendo, por isto mesmo, uma das mais respeitadas e admiradas presenças nas reuniões das segundas feiras, presididas pelo irmão e grande colaborador do seu Governo Antonio Garcia Filho.

Morrendo antes de completar 91 anos, Luiz Garcia deixou em Sergipe um sentimento de perda, que ainda repercute. Ele revive, contudo, evocado pelos sergipanos que conheceram as suas qualidades e os seus trabalhos, como é lembrado pelo acervo de obras e de providências que deram ao seu período de Governo uma qualidade como poucas, no curso da história republicana. O pioneirismo de algumas ações jamais foram superadas, mas, ao contrário, continuam servindo ao Estado e ao povo sergipanos, como o IPES, o BANESE, a ENERGIPE (hoje ENERGISA), O Hotel Pálace de Aracaju, a Estação de Passageiros do Aeroporto Santa Maria, o Centro de Reabilitação Ninota Garcia, a Faculdade de Medicina, a Estação Rodoviária, que leva o seu nome, dentre outras e serviços que modernizaram Aracaju e que formam um legado insofismável às administrações.

Texto e foto reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 10 de março de 2015.

Duas Mulheres, Duas Artistas

 Elóida Ferraz.

Helena Abud.

Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 05/08/2011.

Duas Mulheres, Duas Artistas.
Por Luíz Antônio Barreto.

Sergipe, que deu ao Brasil algumas gerações de intelectuais, médicos, militares, bacharéis e juristas, filósofos e artistas, também é pátria de mulheres ativas, que conquistaram espaços generosos com seus fazeres e pensares, suas criações e suas participações na militância possível da sociedade. Etelvina Amália de Siqueira, professora da Escola Normal, jornalista, poeta, engajou-se na campanha abolicionista, integrando a Sociedade Libertadora Sergipana, liderada por Francisco José Alves, participou da Hora Literária, que antecedeu a Academia Sergipana de Letras, escreveu e publicou poemas e livros, podendo ser, simbolicamente, a representante feminina no século XIX e primeiras décadas do século XX, sem demérito de outras tantas mulheres engajadas nas lutas culturais, como Ítala de Oliveira, médica, Maria Rita Soares, magistrada, Quintina Diniz, professora, Deputada Estadual Constituinte, em 1935. Outros nomes, apanhados na prática dos seus fazeres por Lígia Pina ( A Mulher na História), podem ser referenciados nas pessoas de Ofenísia Soares Freire, de Estancia, e Maria Thetis Nunes, de Aracaju, vocacionadas para o magistério e para as lides culturais, ambas da Academia Sergipana de Letras, ambas falecidas.

Duas mulheres nascidas em Aracaju – HELENA ABUD e ELÓIDA FERRAZ – atuaram no Rio de Janeiro e construíram suas biografias com o selo do trabalho intelectual e da fibra inquebrantável, levada de Sergipe para ganhar o mundo com suas artes. Além de bem sucedidas na arte musical, elas cumpriram outros caminhos e construíram biografias que merecem o destaque do reconhecimento, como a imposição justa das homenagens de que são credoras.

HELENA ABUD, de família de comerciantes estrangeiros, cursou a Escola Normal de Aracaju e antes mesmo de concluir o curso liderou uma campanha pela criação do Jardim de Infância, levando ao Interventor Augusto Maynard, além da idéia, um montante de dinheiro, arrecadado de subscrições voluntárias, produto do esforço de algumas normalistas, empolgadas com a idéia de uma casa de ensino para as crianças menores de 6 anos. O resultado foi a instalação, em prédio especialmente construído segundo projeto de engenharia, que levava em conta preceitos pedagógicos, assinado pelo engenheiro Leandro Maciel, que mais tarde faria carreira política e governaria o Estado.

Além de ver sua idéia vitoriosa, HELENA ABUD ajudou no funcionamento do Jardim, como professora, com seu piano e seu talento. O piano foi instrumento comum nas casas de família e era vendido em casas comerciais, ensinado por vários mestres, como José Sanz, e HELENA ABUD se tornou exímia pianista e abriu curso de piano em Aracaju. Depois foi para o Rio de Janeiro, casou, em 1942, com o maestro Lorenzo Fernandes, que tinha sido seu professor no Conservatório Nacional de Canto Orfeônico, dirigido por Villa- Lobos passando a assinar HELENA LORENZO FERNANDES, e tornando-se valorizada como solista de muitos concertos, sendo designada Embaixadora da Música brasileira nas Américas. Nos anos de vida conjugal, até 1948 quando perdeu o marido, o piano e a sensibilidade de HELENA ABUD ganharam destaque no Brasil e muitos países do mundo. Autora de vários trabalhos, traça o itinerário de sua carreira artística em Caminhos por onde andei (Rio de Janeiro: Gráfica Vitória, 1985). HELENA ABUD morreu no Rio de Janeiro.

ELÓDIA FERRAZ, nascida em Aracaju, cresceu no Rio de Janeiro e tornou-se, desde muito cedo, aluna de piano, canto, harmonia e contraponto, regência e composição, dos quais serviram em sua carreira Filha de Lizipo Ferraz, neta de José Augusto Ferraz e sobrinha do grande empresário e benemérito Thales Ferraz, célebre Diretor da Fábrica Sergipe Industrial. Artista plástica premiada em várias exposições, mantém-se, ainda, em atividade, conciliando o canto lírico e as artes plásticas. A idade não tem impedido a sua participação em exposições nacionais e no exterior, onde dá mostra do seu reconhecido talento artístico.

Além do canto lírico e das artes plásticas ELÓDIA FERRAZ faz poesias, escreve livros, como Testemunhos do Inconsciente, Encontro e Sublimação e Saltérius da Lua Nova. Em 2010 publicou O Som nos Domínios Físicos e Extrafísicos (Rio de Janeiro: CCAA Editora), o que atesta a sua vitalidade e o seu compromisso com a arte musical e a cultura brasileira. Apesar do peso do tempo, ELÓIDA FERRAZ, que passou a assinar-se ELÓIDA FERRAZ MACEDO, em razão do casamento, evoca Aracaju e sua família, como patrimônios que conserva carinhosamente, juntando papéis, recortes de jornais e organizando uma informação sobre os FERRAZ, principalmente o tio Thales Ferraz, falecido no já distante 1927.

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br/luisantoniobarreto

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 10 de março de 2015.

Maria Marieta Telles de Menezes


Publicado originalmente no blog Academia Literaria de Vida.

Maria Marieta Telles de Menezes

Nasceu em Aracaju (17/09/1900), filha de José Teles de Meneses e Maria Sales Meneses. Realizou o curso primário em Frei Paulo com a sua tia, professora Rubina Francisca de Sales. Em 1917 prestou exames para o Atheneu, tendo causado admiração à Banca Examinadora pela gama de conhecimentos demonstrados, especialmente na prova oral de Língua Portuguesa. Um dos examinadores perguntou-lhe quem a havia preparado para os exames, ao que ela respondeu: “a minha tia, professora Rubina Francisca de Sales”. Fez com brilhantismo o curso no Atheneu. Desejava estudar Medicina e estava preparada para prestar o Exame de Madureza, quando o pai, que era tabelião, perdeu o cartório, em consequência da mudança de Governo. Nada mais restava senão procurar um emprego. Marieta deu aulas particulares até que um dia resolveu procurar algo melhor. Na época não havia concursos, valia o pistolão. Marieta não o tinha. Tomou uma decisão. Pediu audiência ao Presidente do Estado, Capitão Augusto Maynard Gomes, e lhe pediu a cadeira de Geografia da Escola de Comércio “Conselheiro Orlando”, que soubera estar disponível. Entusiasmado com a boa palestra, a correção de linguagem da pleiteante, prometeu nomeá-la e cumpriu a palavra, embora pessoas influentes tivessem na mira o mesmo emprego. Lecionou Geografia e Corografia do Brasil, na mesma escola, durante mais de trinta anos, pois antes de deixar o Governo, o Presidente decretou a sua efetivação na Cadeira.

Na Escola de Comércio “Conselheiro Orlando”, Marieta foi professora dedicada, procurando sempre dar o melhor dos seus conhecimentos aos alunos, atualizando-os constantemente através da leitura de bons livros e, sempre que podia, viajava para viver a disciplina “in loco”. Conheceu grande parte do Brasil, é uma das pioneiras em viagem ao exterior, o que naquela época só os ricos faziam. Mas, no Ano Santo de 1950, um grupo de peregrinos, muitos de classe média (professores, sacerdotes), teve a oportunidade de participar de uma excursão a Roma. Marieta, tendo por companheira de viagem a professora Maria Thétis Nunes, Afra Vieira, D. Avelar Brandão Vilela etc., embarcaram no porto do Recife, no navio de nome Geni, rumo à Europa. Em Roma, os passageiros ficavam hospedados no próprio navio. Após conhecer Roma e outras cidades da Itália, como Veneza, Milão, Florença e Pisa, Marieta e Afra resolveram excursionar por outros países da Europa. Entraram em contato com uma companhia de turismo e foram à França, passando um mês em Paris, conhecendo também Marselha, Bordéus, Lourdes e outras cidades francesas. Na Suíça visitou Genebra e Lusaka. Andou pela Espanha, visitando Madrid, Sevilha, Toledo. Em Portugal conheceu Lisboa, Porto, Braga, Fátima, a Ilha da Madeira etc. De todos estes lugares trouxe lembranças para amigos e colegas, cartões-postais, livros com que ilustrava as suas aulas.

Cristã por excelência, Marieta sempre primou pela caridade e pela justiça. Os alunos a chamavam (ocultamente) de “mamãe”, em consequência de um fato ocorrido com um colega. Um desses alunos que “nada querem”, além de perturbar as aulas com brincadeiras, ia ser expulso da escola. O Conselho se reuniu e todos os professores votaram pela sua eliminação. Quando interrogada, Marieta votou contra e justificou: o aluno não perturbava as suas aulas e era um rapaz pobre, filho de uma lavadeira. E lançou aos colegas a seguinte pergunta: “Se fosse um rapaz de família rica, seria expulso?” Então aconteceu o imprevisto: os professores, um a um, retiraram o voto pela expulsão. Marieta, entretanto, não parou aí. Chamou o aluno rebelde, conversou com ele e fê-lo prometer emendar-se. E ele cumpriu a palavra empenhada. Alguns anos depois, encontrou-se casualmente com o ex-aluno que lhe disse ser gerente de uma grande firma, aqui, em Aracaju, e que tudo lhe devia pela lição que dela recebera. Assim é Marieta: simples, caridosa, amiga, uma personalidade forte, superior.

Com a morte dos pais e da tia Rubina, sustentáculos da numerosa família, Marieta assumiu a responsabilidade, criando e educando os irmãos menores: Heribaldo, Paulo, Josefa, Lourdes, Samuel e Hunald e mais três sobrinhos, filhos de um dos irmãos que continuou residindo em Frei Paulo, no sítio da família.

Marieta não é apenas a professora de Geografia. Eclética, é também romancista, poetisa e artista plástica. Possui quatro romances inéditos: O Faroleiro de Catupan, mais de trezentas páginas de grande beleza literária, retratando uma época e costumes, romance que levado ao cinema teria efeitos de Assim Caminha a Humanidade e Show Boat, de Edna Ferber. Uma Consciência Remordida, de cunho psicológico e Eu e Você, filosófico, espiritualista.

Artista plástica, suas telas são marcadas pela firmeza dos traços, harmonia de cores; repousam a vista e transmitem paz. A residência do seu irmão Heribaldo é decorada com telas de Marieta, entre as quais Jesus e a Samaritana no poço de Jacó, Rosas, Os Cães etc.

Simpática, sempre alegre, mas sem afetação, Marieta fez amigos por onde quer que andasse. Na Europa, por exemplo: Em Capri, numa excursão à Gruta Azul, conheceu um grupo de franceses, entre os quais Madame de Jourdan e Pièrre Bourbon. Ela, viúva de um oficial e heroína de guerra. Ele, descendente de nobres, criador de cavalos de corrida. Corresponderam-se durante longos anos, até a morte dos dois. Em Paris, o garçon do hotel, impressionado porque ela não comia carne (carne de cavalo), sempre lhe servia um ovo ou um pedaço de frango. Em Portugal, conheceu em um parque uma professora de nome Dolores, que estava em excursão com as alunas. Marieta correspondeu-se com ela, também, durante muitos anos. Um dia recebeu uma carta de uma colega de Dolores dizendo que ela estava muito doente e em difícil situação econômica. Marieta dividiu com ela o seu salário, ajudando a uma pessoa a quem vira apenas uma vez. Recebeu depois a notícia do falecimento de Dolores. Quando da morte de Pièrre Bourbon ela recebeu a comunicação pelo Consulado Brasileiro, em cartão tarjado. Assim é Marieta: pobres, doentes, sofredores de todos os matizes, os pobres de Deus – a todos considera seus amigos, a todos sempre leva a palavra de conforto e o apoio material.

E a poetisa Marieta? Sua poesia se caracteriza por temas religiosos e humanistas e também a poesia para as crianças, como podemos observar nesta pequena amostragem que recolhi do seu acervo.

VIDA

Tudo no mundo tem vida
e para a vida nos convida
a viver dentro da vida
a nossa própria vida.

E assim se passa a vida
seja bem ou mal vivida,
no desconforto desta vida
esperamos doce vida.

Visando a Eterna Glória
que nova vida nos dará,
façamos na vida d’agora
pela outra vida alcançar.

VARIEDADE UNIVERSAL

No conjunto universal
todo ser tem sua função;
se para o bem ou para o mal
depende só da ocasião.

Os animais domesticados
para o nosso próprio uso,
ao nosso meio adaptado
raras vezes cometem abuso.

No dia a dia rotineiro,
nos atalhos dos caminhos
não sabemos se primeiro
colhemos rosas ou espinhos.

Tudo tem a sua meta
na base da complexidade
da Mãe Natura, direta,
em extensão e variedade.

ÓDIOS E VINGANÇAS

O ser humano se agita
em constante confusão:
Se este fala alto ou grita,
aquele, dispara um canhão.

As injustiças ocorrem
em quase todos os meios;
felizes os que não morrem
tentando fugir dos bloqueios.

Os injustos terroristas
com seus ódios e vinganças
desrespeitam em suas pistas
homens... mulheres... e crianças.

Faltando-lhes fé e amor
em Deus Pai Onipotente
eles praticam o terror
e sacrificam muita gente.

PREDESTINAÇÃO

O homem se diz instruído,
tudo ele sabe fazer...
Com a mulher no sentido
muito lhe falta aprender.

Ele é “chic”, vaidoso,
O Criador lhe fez então
o mais perfeito e formoso
entre os seres da criação.

Coitado dele!... coitado!...
ostentava sua beleza
bem triste e acabrunhado
em meio a tanta grandeza!

As delícias do Paraíso
não lhe causavam alegria...
O homem, com o dom do “juízo”
sentiu sua vida vazia

O Justo Pai Onipotente,
do homem se compadeceu
e para torná-lo contente
uma companheira lhe deu.

PENA DE MORTE

Comete um erro profundo
quem rouba a vida ao irmão
porque ninguém neste mundo
tem direito a tal decisão.

Somos criaturas de Deus,
seres por Ele criados
Segundo os ditames Seus,
somos todos irmanados.

A vida humana é sagrada
pertence a Deus desde o nascer
até a hora consumada,
a outra que iremos ter.

Somente Deus tem o direito
de nos levar, na ocasião
para habitarmos no Perfeito
com o Seu Amor e Perdão.

A SAUDADE

Se a Saudade tivesse
asas como os passarinhos
talvez, muita gente pudesse
suavizá-la devagarinho...

Se a Saudade corresse
como corre uma cachoeira
em busca do nosso interesse
– ela iria bem ligeira!

Se a Saudade por um instante
fosse humana e compassiva
certo não iria adiante
em sua marcha agressiva.

Se a Saudade pressentisse
o mal que sempre nos faz
talvez jamais permitisse
que nós olhássemos para trás.

Mas a Saudade persistente
em sua profunda missão
se infiltra em toda gente
forçando a barra, no coração.

QUANDO PARTIRES

Quando partires, não me digas adeus.
Não quero te ver numa despedida
que deixará a luz dos olhos teus
talvez na dos meus, comprometida.

Quando partires... eu não quero ouvir
o som da tua voz harmoniosa
que na certa me fará sentir
a falta do amor que não se goza.

Quando partires... em silêncio vás;
a tua voz não desprendas não!
Pois eu suponho que será demais
da ressonância a recordação.

Quando partires... adivinharei...
Sem que me digas que te vais embora,
a Saudade – bem certa estarei –
me dirá o dia e talvez a hora!...

DEUS

Deus é “Amor”, é “Caridade”
fonte de luz e é grandeza
a espalhar por toda humanidade
os tesoiros reais da Sua Realeza.

Deus é a nossa Fé, é Crença
onde firmamos todo o nosso bem
e d’Ele esperamos a sentença
que nos aguarda o mundo do Além.

Deus é a nossa Esperança
e alegria maior da nossa vida,
escrínio sagrado, confiança,
que nos atrai à Pátria Prometida.

NEM SEMPRE A VEZ É DO MAIS FORTE

Com muito custo e medo
viceja ao pé de um carvalho
e aproveita do arvoredo
a boa sombra e agasalho.

Frágil plantinha, rasteira
mui tenra, franzina, sem viço,
da robusta árvore à beira
se protegia – pobre caniço!...

Um vendaval tempestuoso
varreu toda a região...
Até o “carvalho” frondoso
caiu... rolou pelo chão!

A árvore mui bela e forte
não se curvou ao temporal
que lhe dera a própria morte,
levando-o pelos ares, afinal.

E o pobre caniço, assustado
ante a fúria desabrida
curvou-se; ao chão deitado,
após a tormenta, escapou com vida.

APROVEITEMOS O TEMPO

O tempo passa... e passa
na sua marcha imperceptível...
Por mais que se queira ou faça,
para detê-lo é impossível.

Mal surge o dia no arrebol
a Terra logo se ilumina
com a luz doirada do sol
que pouco a pouco se declina!

São as leis da Natureza
que nos impõem a meditar
com toda a madureza
neste constante variar.

Aproveitemos, pois o Tempo
enquanto ligeiro se vai.
Por nosso bom exemplo
Devemos dar graças ao Pai.

Do livro “A Mulher na História” de Maria Lígia Madureira Pina.
__________
Nota: Maria Marieta Teles de Meneses faleceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 30 de julho de 1999.

Texto e imagem reproduzidos do blog: academialiterariadevida.blogspot.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 9 de março de 2015.

quinta-feira, 12 de março de 2015

No Scoobydoo

Paulo Parron do bar e lanchonete Scooby Doo.
Foto reproduzida do blog magnopapagaio.blogspot.com.br


(Memórias de bar, com adendo de Marcelo Déda) #‎DedaPresente

No Scoobydoo

O bar de Paulo Parron, o Scoobydoo, era um exíguo balcão entre quatro paredes, banhado por uma caudalosa sarjeta ao rés da calçada, na esquina de Arauá com a Senador Rollemberg. Ele foi, ao final dos anos setenta, uma espécie de casamata da cidadania. Muitos de nós, anda meio zonzos graças ao eflúvios da revolução hippie, pouco nos importávamos com o engajamento partidário. Éramos guerreiros cochilando sobre o botim da última batalha, curtindo a vida numa naice: um cantinho e um violão, uma casa no campo, um tapa na coisa e a pelada aos domingos.

Mas as veias da cidade tratavam de intumescer. Algo havia que nos despertar! A meninada indócil começava espalhar novas palavras de ordem nas mesas malcuidadas do Scubydoo. A tomada de consciência político-partidária dessa nova geração “engajada” custou, à maluquice da minha, certa desilusão: bateu-nos a preguiçosa letargia de quem encarou o barato como militância, nos anos sessenta.
E porque não? Éramos a geração lisérgica, veteranos de grandes embates por posições milimétricas: uma camisa florida, o cabelão desgrenhado, a paz carburada num fininho decente, o amor livre como militância e, principalmente, o direito de encarar a história dos novos tempos com tesão visionária.

O Scuby era um lugar baratinho no centro de Aracaju para onde convergia a resistência intelectual da cidade, a inquietação da moçada “cabeça”. O Scooby atraia a rebeldia gregária da juventude com sandubas irresistíveis, muita zoada e um clima esfumaçado onde se misturavam o cheiro gorduroso do hambúrguer e a fragrância viciosa do Patchouli.

Arrastando alpercatas de couro cru - as desconfortáveis galinh’ovos - estávamos religiosamente lá. De cascão no pé, mas floridos e felizes e empanturrados de literatura. Jean Paul Sartre - o olho vesgo do existencialismo - nos justificava. Thiago de Melo, João Cabral, Ferreira Gulart, Torquato, Leminski, eram os poetas da vez. Os beats Kerroach, Gisnberg, Burroughs e ainda um certo Maiakosvki andavam por lá. Íamos de Bertrand Russell ao gemido underground de Jean Genet, meu ídolo de então: um poeta homossexual egresso dos esgotos parisienses a quem Sartre e a Academia Francesa homenagearam com um jantar chique e tiveram, pelo bardo e seus amantes, a prataria roubada.

Víamos Gauber Rocha suando para inventar um cinema nosso, Jean Luc Godart em closes enfadonhos discursando ideologias, os engraçados/desesperados Fellini, os complicados filmes de Buñuel, os parangolés de Oiticica, as esculturas de Lígia Clark, a desesperada luz vangouguiana de Ignácio Ventura, aqui mesmo na Rua de Laranjeiras, explodindo em esculhambação e arte.

O Scoobydoo ficava numa esquina complicada! Até a aventura acrobática de transar num Fusca, ou mesmo no supra-sumo conforto do Simca Chambord estacionado no escurinho da rua era contida pela austeridade respeitável do visinho em frente, a veneranda família Oliva, católica praticante e ainda mais, engajada nas benfazejas teorias da igreja progressista.
João Oliva, o respeitável patriarca, de vez em quando assomava à varanda perscrutando o ambiente em frente, a ver se os seus rebentos, alguns deles já engajados na secular permissividade do bar, mantinham-se comportados como requeria a moral cristã.
Era de se respeitar... mas só até determinada hora. Meia noite e tanto o bar fremia em rugidos esquisitos, alguém gritava aos berros “Faz Escuro mais eu Canto” enquanto, nos estofados dos carros, compartilhávamos o amor periclitante das conquistas casuais.
Era assim, e era bom demais.

Gosto de lembrar ali, no Scoobydoo, o enclave onde se encontraram os malandros do Parque Teófilo Dantas, os desvalidos dos cabarés e os mofinos, os revolucionários, tudo... e mais o front político dos heróicos PCB’s, o movimento estudantil, tudo num caldeirão fumegante (e bote fumaça nisso!) onde fremia uma geração capaz de alimentar o futuro.
Era o bar das escolhas, das contradições políticas e da permissividade. Cada quem com suas possibilidades ideológicas, cada um comprometido com o sonho de mudança.

Tive saudades do Sccuby outro dia, bebendo com antigos companheiros na assepsia do Bar Ferreiro, no Shopping, onde reinauguramos a fluência dos papos cooptando referencias literárias e (in) coerências políticas, identidades de vida, papos imorredouros. Sempre, com a saudade de quem reencontra a memória e descobre, nos eflúvios de dez chopes bem tirados, que nada foi em vão.

Ainda bebemos bem.

Amaral Cavalcante.

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Foto reproduzida do Facebook/Amaral Cavalcante.

Amaral,

Talvez o mais belo dos discursos messiânicos registrados nos evangelhos seja o das bem-aventuranças. Desde menino, coroinha na Igreja Matriz de Santana, na nossa Simão Dias, o Sermão da Montanha ecoa nos meus ouvidos e clareia minha alma - síntese da ética cristã autêntica, dita pelos lábios de um homem jovem de 33 anos disposto a opor a paz e o amor às armas do império e ao conservadorismo do templo. Se me coubesse incluir um item naquelas bem aventuranças eu escreveria: Bem aventurados os que são tolerantes, pois, para estes, a amizade abandonará o conforto do vernáculo e habitará os alpendres da vida!

O nosso reencontro foi plural. Plural pelas experiências distintas, pelos gostos conflitantes, pelos times rivais, pela raivas guardadas, pelas alegrias vividas, pelas divergências guerreadas e por tanta coisa mais...Mas, não há dúvida que também foi singular: redescobrimos a nossa estrada comum, revisitamos as esquinas antigas onde sonhávamos juntos e nos ensinávamos mutuamente - diferentes gerações compartilhando a vida com uma urgência desatinada e uma generosidade que não conhecia limites.

Seguimos a receita do velho Horácio (o poeta latino, não o bom e velho artilheiro do Itabaiana), nos aconselhando que quanto menos certeza tivéssemos sobre o dia de amanhã, mas firme fosse a nossa decisão de viver integralmente o dia de hoje. - "Carpe diem", dizia ele em sua famosa ode.

Protegidos pelo porto das recordações comuns, chorando nossos mortos, mas rindo da vida que eles ajudaram a fazer mais bela, decidimos abrir as páginas da velha "Folha da Praia" como velas e singrar um oceano de conversa boa, provocações marotas, ousadias filosóficas, discussões sobre estética, opiniões sobre a arte, discordâncias da política. Sem tempestades, até porque o nosso Netuno de Itabaiana tinha guardado o tridente, que brandido sobre a terra, desata terremotos e libera a violência dos mares (naquela noite ele mostrou o que a sua sovinice emocional tantas vezes nos priva: o seu capital de simpatia. Ainda que , no final, para não perder o costume... mas, isso já é outra história.)

Com as luzes do Ferreiro radicalizando o brilho de algumas cabeleiras brancas, ignoramos a sofisticação do ambiente, o bom gosto da decoração e nos transportamos para o Scubydoo, do velho Paulo Parrom. Ali, felizes e impunes, por pelo menos duas horas, celebramos a vida como arte do encontro, embora, como dizia o poetinha, "haja tantos desencontros pela vida". Além de tudo, como você registra no seu belo texto que me provocou essa resposta, bebemos bem!

Um grande abraço do amigo, admirador e conterrâneo,

Marcelo Déda.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 11 de março de 2015.

sexta-feira, 6 de março de 2015

O Relógio


Publicado originalmente no Facebook/Petrônio Gomes, em 4/03/2015.

O Relógio.
Por Petrônio Gomes.

Há muitos e muitos anos, quando as ruas de Aracaju eram quase todas de piçarra, o relógio da Praça Fausto Cardoso era um marco significativo para a maioria dos seus habitantes. E, entre esses habitantes, estavam os alunos do Colégio Atheneu e do Tobias Barreto, cujo itinerário abrangia o cruzamento da velha praça.

Os ponteiros pareciam lembrar o horário das aulas do ginásio, dos minutos cruéis, das arguições de matemática e de latim. Apressávamos o passo, endireitávamos os casquetes e tentávamos relembrar as regras e as declinações.

Mas, de volta, quando o sol deixava a rua de Pacatuba mais à vontade, quando o calor se despedia para ceder lugar ao vento brando e prazenteiro, nós víamos no relógio o amigo galhofeiro, acenando para um refresco de mangaba com pão toddy, dizendo que tínhamos 15 minutos de liberdade, depois da luta.

Invadíamos a rua de João Pessoa em bandos alegres, esquecidos dos pontos para o dia seguinte, formando grupos em torno dos cartazes do cinema Guarany. Era 'Flash Gordon' que viria em defesa de 'Dale Arden', na matinée do sábado que se aproximava...

O relógio da praça era também um aviso para os namorados domingueiros. Precisamente às vinte e uma horas, as mãos que se davam às escondidas deveriam apartar-se, cedendo lugar aos olhares cheios de saudades, que deveriam durar por mais uma semana.

Velho e querido relógio empoeirado, de luz tímida e apagada, que parecia também emocionar-se com os acordes da banda do 28 BC, nas saudosas retretas da praça Fausto Cardoso.

Vi, depois de grisalho, seus escombros em plena praça, atingido que foi por um automóvel em alta velocidade. Contemplei os destroços do meu amigo de infância, sem acreditar no que via.

Depois de muitos anos, resolveram colocar outro relógio na praça. Que me perdoe a patrocinadora da instituição, mas como ele era sem poesia! Além do pedestal que o sustentava, metido a sofisticado, ele era mentiroso. Enganava os que vinham da rua de Pacatuba, zombava dos que vinham pela rua de João Pessoa, dizia que ontem ainda era hoje aos que estavam na Praça...

Mas até que ele tinha razão. Foi colocado num tempo em que ninguém mais se guiava pelas horas e quando já não havia hora marcada para os abraços roubados. O novo relógio virou símbolo de uma época de confusão, em que cada mostrador dizia o que queria, impunemente.

Quando vi o velho relógio caído na praça, tive que conter as lágrimas em segredo. Quando vi o novo relógio, precisando de uma correção monetária, tive vontade de que ele fosse vítima de outro veículo, de uma caçamba de areia que, sem piedade, resolvesse dar fim àquela palhaçada...

Texto e imagens reproduzidos do Facebook/Petrônio Gomes.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 5 de março de 2015.

As compoteiras


(Senta que lá vem crônica)

As compoteiras

Decido espanar o pó da memória nos armários da cozinha.
Rever o sorriso apatetado do biscuit,
polir a esbelta compoteira até que surja,
translúcida,
a lembrança dos doces guardados.

Cheio de trecos inúteis, o armário da cozinha era o tesouro da família. Uma peça delicada com pés de pantera e detalhes floridos, toda envidraçada. Nas portas, uma lâmina de cristal levemente bordada e ao fundo um espelho já carcomido, onde a umidade desenhava impinges.
Lá, a salvo da danação das crianças, estava em louça e quinquilharias a genealogia matriarcal da casa: uma xícara de Macau (sem asa), cumbucas de louça inglesa com algumas rachaduras, bonequinhos de alabastro namorando no jardim, um incompreensível jarro de galalite, saleiros de cristal e prata, talheres de fino lavor e belas, maravilhosas compoteiras.

A majestade delas se erguia altaneira em meio à nostalgia e a decadência da prateleira.
Sobressaiam-se, como incorruptíveis damas de honra do passado, empertigadas cortesãs de um reino carcomido.
Eram as nobres guardiãs dos doces caseiros,
eram, no final das contas,
a elegância que nos sobrava incólume.

Se houver glória em minhas “Cruzadas” infantis, que seja a de buscar naquelas compoteiras o Santo Graal das delícias.
A chave do armário, guardada numa perfumada caixa de pó compacto, fora a primeira honraria conquistada. Ficava na primeira gaveta da cômoda, no quarto matriarcal, entre antigos (e secos) frascos de perfume, num porta-jóias de bronze, tão patinado quanto fedorento.

Com a chave em mãos, aos portões da cidadela!

Honrado cavalheiro em nome do Deus das travessuras e grão-senhor do butim, eu pilhava guloso - e como!
Rodelas púrpuras de banana em calda, groselhas carmins, doces torrões de leite, bolotas de amendoim, jaca dura boiando em calda e, Deus meu, o supremo prazer do araçá batido.

Decido olhar em volta.

É uma cozinha enorme no casarão da Praça “Barão de Santa Rosa”, em Simão Dias. No centro, majestoso, um velho fogão a lenha de ferro inglês com seis bocas, encimado por uma chaminé simãodiense, um arremedo de lareira que não souberam fazer, onde se penduravam as tripas e o toucinho para defumar.
Mas fora ele um nobre e aristocrático fogão, até perder o quarto pé numa faxina desastrada. Manco, sobre plebeus tijolos, ele soube cumprir com dignidade estóica a sua danação republicana.
Don Fogão em sertanejos cuidados: da carne frita aos lombos, dos sarapatéis de carneiro ao miolo de boi e no domingo, sempre, aos camponeses cuidados com o frango de quintal dourando na panela.

Decido acendê-lo, num sábado.

Graveto e querosene, pavio velho, casca de laranja seca e abano. Chegam da feira as partes de alcatra, as mantas de porco, as quartas de carneiro. Mamãe e auxiliares cortam que as cortam em lombos, bifes, carne frita, torresmo. Cuidam de temperá-los que o vinhad’alho era a conserva de tudo, pois não havia – e nem nos faltava – geladeira lá em casa.

Era em torno do velho fogão que se cozinhava aquele amor de família e é a memória dele, movido a achas de lenha, que ainda me cozinha as delicias da alma.

Decido eternizá-lo.

Amaral Cavalcante/maio - 2007

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 2 de março de 2015.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Antigo casarão na Rua da Palma, no município de Propriá

Antigo casarão na esquina da Rua da Palma,
no município de Propriá - Sergipe.
Foto reproduzida do blog: cidadedepropria.blogspot.com.br
Do Professor Telmo Carlos de Oliveira.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 3 de março de 2015.

Homenagem ao Professor Jugurta.

Homenagem ao Professor Jugurta.
Foto reproduzida do Facebook/Antônio Samarone.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 3 de março de 2015.

Educação de luto, morre Tânia Maria Cabral de Araujo

Educação de Luto.
Morre Tânia Maria Cabral de Araujo,
fundadora do Jardim Escola Babylândia.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 3 de março de 2015.

Memorial Histórico e Cultural Dr. Octávio Acciole


Memorial Histórico e Cultural Dr. Octávio Acciole.
Município de Japaratuba - Sergipe.

Instalado em um casarão do final do século XIX localizado na Praça da Matriz, o memorial foi fundado em 1996, com o objetivo de reunir e preservar a memória da cidade. Com seu interior decorado com pinturas que retratam paisagens rurais (Afrescos), seu acervo é composto de peças religiosas e de famílias dos proprietários dos antigos engenhos, fotos da cidade, personalidades, quadros e indumentárias de grupos folclóricos.

Texto e imagem reproduzidos do site: sergipetradetour.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 3 de março de 2015.