terça-feira, 8 de julho de 2014

08 de julho, dia de celebrar o orgulho de ser sergipano

Foto: Marcelo Déda.

08 de julho, dia de celebrar o orgulho de ser sergipano.

194 anos separam o dia de hoje do momento histórico em que Dom João VI pôs fim aos longos anos de subserviência. Sergipe se emancipava da Bahia.

Vamos entender a história.

1537. O Brasil é dividido em Capitanias Hereditárias e Sergipe Del Rey se torna capitania da Bahia. Um conjunto de vilas pobres que, em todo seu território, contava com mais de 200 engenhos de açúcar e importantes fazendas com pasto farto para uma quantidade ainda maior de rebanhos bovinos. Além de abastecer a Bahia, era de Sergipe Del Rei que saia o máximo de farinha de mandioca também para Pernambuco. A exploração chegava a deixar sem comida os próprios moradores. O mesmo aconteceu com o algodão, produto extremamente lucrativo no mercado internacional e também cultivado em nossas terras.

1820. Sergipe Del Rey se prepara para a tão sonhada independência. O governo baiano estabelece resistência e manda tropas com ordens expressas de conter o movimento. O primeiro governador sergipano, nomeado pelo imperador, é preso. Dom João VI, no entanto, assina o decreto que torna Sergipe independente politicamente da Bahia e põe fim aos tantos anos de subserviência. Sergipe Del Rey livre...

O 8 de julho ficou marcado como o dia em que Sergipe começou a desenhar o seu caminho independente, com a coragem, firmeza e ousadia da sua gente. 194 anos depois, o sergipano relembra suas raízes e celebra a sergipanidade, novamente, de olhos voltados para o futuro.Parabéns, Sergipe! Parabéns, Sergipanos!

Trecho reproduzido de artigo publicado no site: e-sergipe.com

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 6 de julho de 2014.

Memória de Post do MTéSERGIPE, de 07/07/2014

Amaral Cavalcante.
[Artigo republicado/novos comentários]

De Bar em Bar.

O Barbudo cismou
- Agora, só vou andar de bata!

Hippie da costela oca, deslumbrado com as ondas do mar e com os peixinhos do céu, Henrique Barbudo, divinal proprietário do Bar Barbudo’s, no calçadão da Atalaia, era o guru do pedaço. O seu bar, na década de setenta, era uma espécie de repositório da inteligência contracultural, local de benfazejas incursões ao psicodelismo em voga, portal de liberdades essenciais à plena formação intelectual de todos nós.

O Bar Barbudo’s nos agregava amorosos e revolucionários.

Até porque ostentava um grande cabedal de cheques sem fundos espetados num inconveniente quadro de avisos onde se divulgava a velhaquice reinante. No Bar Barbudo’s era comum beber-se sem um puto no bolso e sair-se bem, como afirmação de invejável bandidagem. Também, com o dono do estabelecimento cheio de maconha até a tampa, o que nos restava fazer? Tome-lhe devo, que amigo é pra essas coisas.

Henrique, no Barbudo’s, foi o grão mestre de certa geração zuadenta e amorosa, que fazia do seu bar a trincheira da liberdade lisérgica. Lá se misturavam a cidade careta e os malucos de então, numa zoada infernal, num embate sacro, ritual, de inteligência e caretice. Afinal, era no Barbudo’s onde neguinho podia cheirar o sobaco capiloso da paquera para depois, quem sabe, levá-la a catar conchinhas na praia e daí ás zodiacais trepadas por traz das dunas.

No Barbudo’s os mais ousados empreendimentos da nossa psicodelia tupiniquim foram urdidos, num ambiente em que ninguém era de ninguém e cada um cuidava de propagar sua loucura aos quatro cantos. Vivíamos a ditadura, mas o amor livre era o nosso Ato Institucional.

Um bar em que ninguém se acomoda em sua mesa, as figuras mais divinais zanzando pelo meio, até que alguém lhes oferecesse uma bitoca na “biata”, ou lhes dispusesse uma providencial cafungada, discretamente, no fétido banheiro? Pois assim era o Barbudo’s um templo reservado à inteligência e à contravenção.

No Barbudo’s imperava a peculiar revolução de costumes que nos foi possível fazer: gradual, maluquinha, mas debaixo de sete capas que a repressão se mantinha à espreita, doidinha pra nos pegar.

Henrique casou-se com uma morena de olhos lindos, em cerimônia hippie na beira da praia, coroado com trançadas margaridas e de bata rebordada, com uma mulher linda de grandes olhos claros, siderais, depois de nos fazer acreditar que a achara boiando na espuma do mar da Atalaia, numa plena maré lunar. Era o mais feliz de todos nós.

- Agora, só vou andar de bata, e das grandes, que é pra esculhambar, anunciou o guru Henrique e nós, os seus incautos seguidores, achamos linda a viagem do maluco.

Deu para andar de bata, cada uma mais bonita, e jurou que jamais usaria outra veste enquanto vida tivesse.

Pois bem. Um dia foi Henrique de kafta longo e florido tratar, no Banco do Estado, de visitar suas parcas economias. Não deu certo: barrado por um segurança dada à inconveniência das vestes, armou o maior barraco. Que a sociedade capitalista era uma bosta, que Che Guevara não morreu, que a revolução socialista já vinha dobrando os contrafortes do Iate Club e que ele, se querem saber, portava um cheque devolvido, assinado por um bam-ban-bam do Banco do Estado e que diante disso ele passava a ser, naquele momento, não um Hippie de Kafta, mas o próprio armagedom da história, um homem bomba capaz de explodir a honra daquela instituição bancária.

Juntou gente, a notícia se espalhou pelo calçadão e coube a nós - a mim e a Fernando Sávio - depois de um esbaforido “Vamos lá, meu irmão, que o maluco endoidou de vez”, a tarefa de explicar ao guarda que aquilo era moda, que em Woodstock todo mundo se vestia assim... mas não adiantou.

O que valeu mesmo foi a o velho chavão:”Deixa pra lá meu irmão, o homem é conhecido do governador”, o que era verdade.

Henrique Barbudo foi imediatamente liberado.

Amaral Cavalcante.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 7 de julho de 2014.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

O Barraco de Boa-Morte

Foto:Agapito na capa do Baggios.

De Bar em Bar:

O Barraco de Boa-Morte. 
Por Amaral Cavalcante.

O petroleiro Boa Morte era um sujeito bem de vida. Qualquer empregado na Petrobrás na remota década de setenta, em Aracaju, era um cidadão com a vida arrumada e grande importância social. Afinal, eles amealhavam no final do mês um invejável salário, namoravam as coroas mais enxutas, tinham crédito ilimitado no Gavetão, assento cativo no Mira Mar e mesa especial no restaurante do Hotel Pálace com direito a um cálice de licor por conta da casa.

Boa Morte foi mais além: era o rei da noite com o seu Barraco instalado na esquina do Hotel Beira Mar, lugar das maiores doidices nos primórdios da Atalaia. O que teria levado Boa Morte a se envolver em negócio de bar? Pela renda não seria que no Barraco dele o “devo” era federal. Seria então para dispor, garanhão que acreditava ser, da recém descoberta liberalidade de costumes e do amor livre, tão em voga nos idos setenta?

Sabe-se lá! O certo é que o Barraco era um respiradouro de modernas emoções, o barulhento templo da moçada liberal, único no gênero e memorável sempre.

O melhor de lá era a intimidade dos garçons, comparsas da patuléia que se misturava à doidice geral. Dois deles merecem memória: Agapito e Bigode.

Bigode era enferruscado, dério senhor de cinturão atochado no limite da virilha para conter o inconveniente barrigão. Baixinho de cara fechada e coração brincalhão, estava ali, mas não estava, que a dele já se sabia: do Barraco voltava à família, onde por certo arrepiava contando os escândalos que presenciara no bar. Mas acontece que o devo era mais fácil com ele. Rara condição em coração de garçom essa cumplicidade de pai: - “Seguro até amanhã, Boa Morte nem vai saber!”

Bigode era o pai do penduro.

Já Agapito tinha muita história. Fora garçom do Vaqueiro onde começara a endoidar pelo cinema, ajudado por uma geração de cineastas Super-8 em proliferação na década de 70 que fazia cinema de tudo o e se divertia com isso. Convenceram-no de que ele era um Caubói desaproveitado capaz de glórias hollyoodianas! Agapito se acreditou o Rock Lane do Aracaju, mas como apanhava o nosso herói!

Num faroeste sergipano dirigido por Wagner Ribeiro ele apanhou tanto do mocinho que baixou hospital.Não somenter qapamhou como foi traido na cena onde ele encarnando o vilão seria enforcado. A produção mão amarrou direito a corda na cintura que o manteria em segurança para que o corrediço nó no pescoço lhe garantisse uma convincente performance de enforcado. Aprontaram com ele! Enquanto Agapito já sem fôlego esperneava socorro, -os pés querendo chão e a butuca do olho saltando em polvorosa, a trupe inteira morria de rir. Deu-se então que, finalmente, Agapito Cawboy encheu de murros o cinegrafista, deu um tapa na continuista, um safanão o maquidor e investiu aloprado: filhos da puta, vocês querem me matar?

Vai ver que por causa dessa precoce insubordinação o nosso ator nunca chegou às telas de Luiz Severiano.

Agapito concedia ao público do Barraco algumas performances como a do duelo no corredor de mesas, onde sacava com rara velocidade o abridor de garrafas em performance ameaçadora e, pernas arqueadas, olhar feroz, beiço ocupado em transversais palitos e peito aberto a qualquer zum que viesse, ploc, ´ploc... com um saque certeiros nos gargalos ele sempre nos vencia em duelo!

Agapito está vivo, mas já não conta muito de si, largado que está em nosso esquecimento. Vive no Mercado Central onde instalou o seu mais inusitado set e virou compositor de uma street music merecidamente valorizada por bandas sergipanas como a festejada The Baggios que o colocou de mala e cuia na capa do seu último disco, “Sina”.

A sina de Agapito é a de imortalizar o melhor do nosso underground.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 5 de julho de 2014.

Cacique Chá é reinaugurado e aberto ao público


Fotos: Portal Infonet.

Infonet - Cultura - Noticias - 02/07/2014.

Cacique Chá é reinaugurado e aberto ao público
O Cacique Chá foi fundado na década de 50 como casa de chá

Foi entregue a população sergipana nesta quarta-feira, 2, a reforma do Cacique Chá e restauração dos painéis do artista Jenner Augusto. O espaço localizado na Praça Olímpio Campos, no Centro Comercial de Aracaju, contou com investimentos em torno de R$ 400 mil.

O cacique chá foi fundado na década de 50 como casa de chá, passando a ser reduto da boêmia sergipana nos anos 80, sendo consagrado por sergipanos da época, por reunir pensadores e artistas no espaço cultural.

Em seu interior, o local abriga obras do artista plástico sergipano Jenner Augusto que estão nas paredes do Edifício. Os murais possui valor histórico-cultural e foi pintado com tinta a óleo nas paredes com um tema bem regional ao qual retratou a bravura dos índios.

De acordo com o secretário de Estado do Turismo, José Roberto de Lima, o local servia como ponto de encontro da elite pensante do estado. “O cacique chá tem uma importância não só como patrimônio arquitetônico, mas têm muito da história dos últimos 50 anos aqui no cacique. Muitas das discussões políticas e momentos conturbados eram discutidos aqui, já que era um ponto de encontro da fina flor da sociedade sergipana. Entregar esse espaço nas condições originais e o painel de Jenner, que é uma obra de arte importante, destaca que estamos preservando a memória de Sergipe”, diz.

Após a entrega, o espaço será aberto à visitação do público e servirá como um espaço café utilizado pelo Senac, onde também abrigará a formação de cursos profissionalizantes ligadas às atividades gastronômica e turística do Estado. O espaço abriga ainda um auditório que será utilizado para eventos.

O espaço servirá para capacitar profissionais e acolher pessoas

Presente no evento, o diretor regional do Senac em Sergipe, Paulo do Eirado Dias Filho, destaca que o espaço será utilizado para a formação de profissionais, e sobretudo, funcionará como espaço acolhedor.

“Hoje a festa é do governo por ter restaurado esse patrimônio histórico e artístico. Agora, o SENAC passa a ter a posse do bem e vamos buscar resgatar o máximo possível a memória e o modelo do Cacique Chá. Aqui vamos ter a formação de garçons, baristas, sommeliers e de várias outras coisas ligadas à gastronomia. Será também um espaço onde a ideia é resgatar o seu funcionamento e ter um lugar acolhedor, com cara de Sergipe e disponível para todos”, garante.

Por Aisla Vasconcelos.
Fotos e texto reproduzidos do site: infonet.com.br/cultura

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 6 de julho de 2014.

Só para lembrar - O Cacique era o point

 Foto reproduzida do blog aracajuantigga.blogspot

Foto reproduzida do site: infonet.com.br/cultura
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Só para lembrar - O Cacique era o point
Por Eugênio Nascimento.

Fundado na década de 1950 para ser um espaço especial para reunir a elite sergipana, o Cacique Chá foi um estabelecimento que abrigou desde grandes festas das famílias mais abastadas a até o concurso de Miss Sergipe e em um dos quais foi eleita a ex-secretária da Cultura de Sergipe e Aracaju, professora Aglaé Fontes. Para ter acesso no período inicial de sua criação até meados dos anos de 1960, os homens usavam smoking ou terno e as mulheres vestido longo.

No início dos anos de 1970, o estabelecimento começou a abrir mais as suas portas e virou ponto de encontro de políticos, empresários, jornalistas e profissionais liberais, entre os quais advogados e economistas. Iam ao Bar e Restaurante conversar sobre política, a economia do Estado, temas ligados às atividades profissionais e banalidades. Consumia-se bons tiragostos, almoços e jantas. Mas o que mais atraia gente para o bar era a cerveja e os preços razoáveis, além do fato de ficar no centro da cidade.
Para os jornalistas, no Cacique Chá bebia-se informações. É verdade. Por lá passavam senadores, deputados federais, estaduais, alguns vereadores e todos conversavam bastante com os jornalistas que no estabelecimento andavam, entre os quais eu, Adiberto Souza, Gilvan Manoel, Fernando Sávio, Luciano Correia, Amaral Cavalcante, Valdomiro Júnior, Ofélia Onias, José Andrade, Carlos Magno, Paulo e Gilberto Serra, Zé Brasil, Cássia Santana, Marcos Cardoso, Aluízio, Carlos Magno e Angelica Miranda, entre outros. A mesa da imprensa, era, na verdade, quatro ou cinco mesas coladas umas às outras e delas participavam ainda os ex-vereadores Bosco Mendonça, Marcélio Bomfim, Rosalvo Alexandre e Antônio Góis e ocorriam visitas de deputados. Joanelice (Boneca), era presença diária.

Numa longa mesa interna, de mármore, ficavam o advogado Jaime Araújo, o professor Silvério Leite Fontes, o senador Gilvan Rocha, os deputados Tertuliano e Guido Azevedo, Leopoldo Souza, Francisco Paixão, José Carlos Teixeira, Jackson Barreto, Jonas Amaral, Lucilo da Costa Pinto, o ex-prefeito João Augusto Gama, os intelectuais Alberto Carvalho e Fernando Nunes, os então juízes Antônio Góis e Lauro Pacheco, os empresários Tarcísio e Luiz Teixeira, entre outros. Por lá apareciam políticos de outros estados e ministros que vinham em missão ao Estado. E bem próximo deles estávamos nós, os jornalistas, em busca de boas matérias e notas para os jornais.

Muita gente ia para o Cacique ler revistas e jornais ou comentar algum fato do dia anunciado pelos presidentes generais de plantão do governo federal, enquanto bebia. Era o local propício para bons papos políticos.

Nas noites da década de 1980 entraram as prostitutas e homossexuais. E o bar e restaurante mantinha-se sempre lotado. No final desses anos, começou um processo de esvaziamento. A falta de estacionamento e o intenso movimento no centro atrapalhou a vida do bar e restaurante. . E de lá desapareceram, junto com as fartas mesas, os garçons, Josias, Álvaro, Dias, Cabeção, Bisqui...

Esse foi o Cacique que conheci e vivi. Agora ele voltou com uma nova roupagem e foi entregue à população sergipana na quarta-feira, 2 de julho, reformado e com restauração dos painéis de Jenner Augusto. O espaço, localizado na Praça Olímpio Campos, no Centro Comercial de Aracaju, ,continua bonito e contou com investimentos em torno de R$ 400 mil. Ainda que tenha virado um café, o bom Cacique, aquele que será lembrado por quem viveu os seus bons tempos será o da boemia, das longas farras e dos bons bate papos.

(Publicado originalmente no Jornal da Cidade, edição de 06 e 07/07/2014).

Texto reproduzido do blog: primeiramao.blog.br

Postagem originária da página do Faceboo/MTéSERGIPE, de 6 de Julho de 2014.

Memória de Post do MTéSERGIPE, de 17/08/2011.

Yolando Valois Cruz

Lembra essa musiquinha:

“Para ser bom sergipano

é preciso ser bacano não dá bola para o azar

é torcer pelo Sergipe bater papo lá na chic e ir a praia farrear

Sergipano bom sergipano legal

tem que gostar de praia futebol e carnaval”.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 17 de agosto de 2011.

Memória de Post do MTéSERGIPE, de 12/11/2011.

Amaral Cavalcante.

A caminho da praia.

Nos idos sessenta a praia de Atalaia era um lugar distante, nos cafundós de Aracaju. Alguns ricos mantinham lá suas casas de veraneio, mas o povão tinha de enfrentar a marinete aos domingos, um frege alucinante de quebra-coco e suores para alcançar as delícias da praia. “Banhistas” era chamada assim a patuléia! O ponto de embarque ficava no oitão da Alfândega, na pracinha General Valadão. Filas e filas em qualquer domingo ensolarado, uma alegre profusão de gente humilde com seus teréns malajambrados, no empurra-empurra que nóis gosta!

E a quem se aboletava lá dentro na escassa marinete da Bonfim, o purgatório: como arrumar o cesto de camarão, a prancha de pegar jacaré, as câmaras de ar para boiar em pneumáticas performances? As comidinhas nos bocapius, o rádio portátil, a esteira de junco pra não melar o fundilho na areia e os frascos de azeite de dendê com essência de maçã para se bronzear, tudo havia de caber.

Tirando essa aglomeração que se passava unicamente aos domingos, a Atalaia restava na semana como o grande mocó dos amantes, onde levar a paquera às novidades do mar e suas possibilidades eróticas. Muito cabaço se foi e muita história ficou pra contar.

Foi aqui na Atalaia que um grande estelionatário armou - para desgosto das autoridades provincianas - o golpe da “Ova de Camarão” e com ele ridicularizou os nossos brios de cidade moderna, no afã do desenvolvimento industrial. Nesses idos, quem cuidava disso por aqui era o CONDESE, criado pelo Dr. Aloísio de Campos, economista, planejador emérito e grande figura! O galego de fala enrolada convenceu os técnicos de que se desperdiçava em nossas praias a riqueza industrializável da ova de camarão e, para melhor convencimento, levou-os a mastigar a areia da Atalaia: - “Isto é ouro puro, sinta o gosto! Vamos exportar para o mundo!”. Foi-se para as Bahamas com um saco de dinheiro emprestado pelo Banese e babau.

Acontece que a Atalaia era, então, muito estreita para o meu desbunde: ia do Vaqueiro ao Salva Vidas, a cem metros de onde desaguava a marinete. Lá estava no final de tudo o velho Salva Vidas, uma torre circular que abrigava aos domingos, debaixo de si, a família aracajuana e suas impolutas virgens. Local resguardado, onde se esvaíam as possibilidades de interação entre os veranistas e a patuléia. Lá exibia a última moda em maiôs e costumes a moçada inexpugnável da sociedade: coxas carnudas, bundas de quilo e meio, peitinhos juvenis apontando o céu. Credo em cruz se um de nós, egresso das marinetes da Bomfim, ousasse se chegar ali com qualquer chamego.

Em chegando à Atalaia, era mister a qualquer um se dividir: quem com putas ia pro lado de lá do Mirachula – um cabaré que ficava onde hoje é o Hotel Beira Mar – já os “de família” se espremiam entre o “Vaqueiro” e o exíguo Salva Vidas. Assim era o permitido.

Hoje, vivo bem aqui em casa e o mar é meu moleque de recados: “Vai ali à áfrica levar noticias de mim”. Ele vai. “Corre, vai pegar um caramujo de sol que eu quero assoprar” Ele vai, e volta estrondando mundo aos meus pés - meu cão de espumas.

O bar do Caboclinho, bem pertinho, ainda é prestigiado por barrigudos do futebol dominical e pescadores antigos na banca ao lado, onde se vende peixe fresco toda quinta-feira. E Caboclinho ainda pesca uma cerveja estupidamente gelada quando eu chego lá, com meus mistérios antigos e minha velhice recém conquistada.

Eu vivo muito bem aqui, na Atalaia.

Amaral Cavalcante.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 12 de novembro de 2011.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Memória de Post do MTéSERGIPE, de 03/07/2014

Amaral Cavalcante.

(Ê, thi bum, mergulho na memória!)

Do Vaqueiro ao Manequito

Ninguém conseguia arrancar Luiz do Vaqueiro da sua cadeira de balanço na cozinha, só se fosse para atender a um desembargador ou algo que o valha, porque Luiz não era mole não. Sorridente e bonachão, Luiz tinha lá seus princípios. Um deles era o de que ele, filho de Deus, mesmo sendo dono do mais concorrido bar da Atalaia, merecia descanso quando bem quisesse e a de abstrair-se folgazão no meio da cozinha mandando às picas a freguesia do seu negócio, um príncipe: “Tenho empregado é pra isso” dizia, e deixava rolar no restaurante um verdadeiro inferno sem satânicos comandos. Era um títere, mas quando Deus dava bom tempo ficava uma moça no trato com os amigos, mas sempre uma fera com qualquer bagunça.

Lá mesmo, não! Quisesse tocar seu Iê-Iê-Iê que fosse pras dunas, onde aquela idiotice proliferava. Já as situações de amigação duvidosa e transgressões matrimoniais eram permitidas, desde que na entoca de uma mesa discreta e sem nenhuma safadeza visível.

De vaqueiro o bar do Luiz só tinha o nome. Especializado em moquecas sergipanas com muito coco e um tiquinho de dendê, atendia a um filé com fritas fazendo munganga, debicando do freguês. Um Parmegianne então, tão em moda entre os elegantes da época, saia sim, mas debaixo de quatro tuncos.

Esta coisa de som ao vivo ainda não existia, mas lá estavam em mesa bancada por Hugo Costa, o seresteiro Antonio Teles e o cantor Lourão, de vez em quando o sopro de Medeiros e o violão de Macêpa. acompanhando a voz maviosa de Nicinha Santos debulhando boleros e guarânias.

O “Balneário”, primeira construção vetusta na praia de Atalaia, fora construído no governo Leandro Maciel por volta de 58 e completava, com a pista asfáltica onde se incluía uma ponte nova e o Aeroporto Santa Maria, as atenciosas melhorias que o governo apresentava a uma Aracaju que se descobria capaz de grandes transformações. Assim a praia de Atalaia, por causa do Aeroporto, começou a se incluir como um bairro possível no traçado urbanístico de Aracaju.

A iniciativa privada chegou afoita: primeiro Zé, o irmão, depois Luiz assumiu a empreitada transformando o Balneário público no restaurante “O Vaqueiro”, de quem trato aqui por conhecê-lo como a palma da mão. Muitas vezes fui levado à sua cozinha pra acomodar o facho juvenil das contestações para me acalmar degustando com Luiz um resto de camarão ao alho, cada um dest’amanho, mastigados o sabor dos seus conselhos, bom Luiz!

O Burguesia

Saindo do Vaqueiro convinha dar uma passadinha no vizinho “Busrguesia” para tomar um Cleper- bebida inventada pelo dono para substituir o Cuba Libre - já tão fora de moda - e embebedar-se com a moçada politizada do recinto, ali urdindo contra golpes intelectuais em ofensiva à ditadura numa beleza de revolução via comanda onde o comunismo era a doutrina, mas a conta chegava ao final, certeira no capital da freguesia. . O velho Burgesia, um comunista de sólidas posições e vida impoluta, reunia em seu bar a fina flor da contravenção. E o seu bar era um alegre aparelho.
Depois vinha o Barbudo’s onde eu certamente estaria drogado e nas delícias homéricas das grandes curtições etílicas, tão essenciais na década de 70.

O Manequito.

A tinta passos do Vaqueiro ficava o templo homérico das transgressões mais malucas, a bodega do velho pescador Manequito, um gigantesco preto-retinto de manoplas incomensuráveis e voz suave, uma figura idílica contando coisas do mar difíceis de acreditar: histórias de arraias que assombravam o mundo, caranguejos dançando gafieira, camarões de barba branca e tempestades dignas de qualquer Ulisses.
 No Manequito,enquanto a moçada navegava no alto mar de lorotas do velho e belo negão gigante, Manequito, ele servia pros bebuns a pilombeta esquálida que lhe rendia alguns trocados. Também era um bar de cheiro insinuante pela despudorada sovaqueira do proprietário que invadia em incitantes feromônios o casto nariz das donzelas. Diz-se dele que nunca calçou um sapato; os pés cinqüenta e tanto nunca encontraram calçado que os abrigasse. E era sempre de pés no chão que nos atendia, abrindo folgazão suas garrafas de batida. a atração da casa: “Tem de tudo quanto é coisa!” e mostrava na prateleira a fileira de litros arrolhados com capuco de milho, seu inigualável estoque de batidas sortidas que faziam a nossa cabeça e nos maravilhava.
Só que para tanto poder etílico nós, a maioria da sua freguesia, carburavamos no seu quintal um providencial baseado, necessário equalizador de tanta loucura..
No Manequito eu bebi de todas, mas a melhor, meu branco, era a de Murici, que travava o gogó e batia imediatamente no juízo do freguês.
Nunca se viu igual.

Amaral Cavalcante.

Postagem originária de compartilhamento na página do Facebook/MTéSERGIPE, 03/07/2014.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Os Bolinhos de Bacalhau de "A Luzitânia"


"A LUZITANIA, vizinha à Igreja São Salvador. O bolinho de bacalhau mais divino do mundo. O protuguês, o filho, as meninas atendendo no balcão. aquela delícia de balcão e a paisagem vista do calçadão, eu vendo a moda passar, comendo um bolinho uma vez com Dom Luciano que acabara de celebrar uma missa e com Wilson Silva, calçadão da Laranjeiras, 25. ai que saudade. A Luzitania ainda está lá de pé ´para nossa alegria" (Araripe Coutinho).

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 20 de agosto de 2011.


Memória de post do MTéSERGIPE, de 17/08/2011

Laura Cecília Fontes.

A PRACINHA DA ATALAIA... FLERTES, JOGOS, FAMILIARES DOS FRANCOS QUE VINHAM DO RIO DE JANEIRO, CELINHA DOS ANJOS, BETO, JOSÉ E MAYNARD GARCEZ, TRÊS IRMÃOS, COM AS TRÊS IRMÃS, SÔNIA, VANDA E VERA FONSECA.... TEMPINHO BOM ONDE EU ERA A MASCOTE!...

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 17 de agosto de 2011.

Memória de post do MTéSERGIPE, de 19/08/2011

Pedrito Barreto.

Todas estão aí: as Miss Sergipe Graciema Madureira ( 1956 ). Maria Helena Morais ( 57 ), Nilza Brito ( 58 ), Zélia Mendonça ( 63 ), Maria Isabel de Avelar Elias ( 64 ), Maria Luiza Cruz ( 65 ), Leonísia Fonseca Mota ( 68 ), Carmen Gentil Barreto ( 69 ), Cláudia Toscano ( 70 ), Josenyr Monteiro ( 72 ), Helenita Santos ( 74 ), Márcia Menezes ( 80 ), Ana Paula Santana ( 83 ), Laudicéa Gildo ( 85 ), Fernanda Silva Costa ( 87 ), Patrícia Loeser de Carvalho ( 89 ).


Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 19 de agosto de 2011.

O Barracão de Luiz Adelmo (Trecho final)


O Barracão de Luiz Adelmo (Trecho final).
Por Amaral Cavalcante.

Foi então que voltou Luiz Adelmo, regressando de experiências cariocas, onde aprendeu as demandas do consumo cultural e suas possibilidades comerciais. Trazia histórias de arrepiar. Intimidade com as estrelas, notícias de um mundo fantástico que existia pra lá do Vaza Barris, no Sul Maravilha do Teatro Opinião, nos bares de Ipanema e nas luzes estreboscópicas do Hippopótamus. Adelmo sempre foi um visionário e voltou na hora certa.

Abriu o primeiro bar multicultural de Aracaju, o “Barracão”, em imóvel alugado na exígua Atalaia. Virou moda! Foi o Bar que nos acostumou a rumar para a praia, fosse como fosse, de marinete ou de carrão, de carona ou dissimulado no transporte da Bonfim, para encontrar consonância e abrigo psicodélico num bar que reunia tudo. Todo mundo ia!

E era chique! Primeiro, ele pintou grandes margaridas sob fundo azul no muro da calçada, depois, inventou noites temáticas como a do “Amor e paz”, devidamente decorada em celofanes e flores multicoloridas. Tratou também de matinês políticas onde a turma dos “engajados” tramasse a derrocada de qualquer poder, encorajados pela valentia etílica de alguns engradados de cerveja. Logo depois, teve de consentir bailes de máscara e outros rococós, para contentamento da freguesia gastante. Tudo bem! E se não fosse ali, onde haveríamos de estar? A pista que trazia Aracaju à Atalaia nunca estivera tão congestionada!

Mas a missão de Luiz não era fácil! Toda vez que ele promovia uma festa, acabava em briga de murro. Rapazes brigões se afirmavam assim, no esfrega-esfrega da luta corporal. Mesas de pernas pro ar, contas sem dono, prejuízo irrecuperável e intimações policiais, resultavam sempre. Chegou o dia em que não deu mais pra segurar e Luiz Adelmo foi tratar de vida melhor em outros ramos: botou uma Galeria de Artes – a “Horácio Hora”, onde, por muito tempo, fez das artes plásticas sergipanas um empreendimento lucrativo.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 19 de agosto de 2011.

Memória de Post do MTéSERGIPE, de 18/11/2011

Amaral Cavalcante.

"Volto a insistir na necessidade de arquivarmos as pereciosas imagens e informações históricas postadas aqui, num sitio mais perene. Creio que se for necessária a contratação de uma empresa especilalizada em tais tarefas, não será difícil nos cotizarmos para tanto. Será um desperdício deixarmos que todas estas fotos e informações se percam na profusão veloz, indistinta, imprecisa e alheia a quaisquer peculiaridades particulares, como é, por natureza, essa mídia Facebook. Nosso grupo é pecluliar, pelo menos aqui em nossa província. Vamos cuidar do nosso registro histórico".

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 18 de novembro de 2011.

domingo, 29 de junho de 2014

Domingo era assim.



Publicado originalmente no Facebook/Fan Page/Petrônio Gomes.

Domingo era assim.
Por Petrônio Gomes.

Era-nos facultada a escolha entre a missa das sete ou a das nove horas da manhã, na Catedral. Os mais preguiçosos preferiam esta última, pois vem de longe o mau costume de se adiar a “obrigação”. Se tínhamos o direito de escolher a hora da missa, não podíamos, entretanto, perdê-la, nem pensar! Seria o mesmo que estragar o domingo inteiro, atraindo sobre nós os olhares carregados dos pais, que não estavam “criando hereges”.

A Santa Missa era celebrada em Latim e o oficiante a rezava de costas para os fiéis, que não entendiam patavina do que ele dizia. O padre era auxiliado por um acólito, ou “coroinha”, geralmente um garoto levado da breca nos dias úteis. Como não se entendia a reza do padre, formavam-se uns grupinhos de rapazes fora da igreja para os comentários sobre assuntos sempre estranhos às recomendações da Caridade. Esses grupinhos renitentes sabiam quando deviam retornar ao recinto do templo nos momentos mais importantes.

Depois da missa, o café com cuscuz, legítimo de Braga, feito em cuscuzeiro de barro, coberto com um pano escuro e furado. Conversa na hora da refeição era mais frequente entre os adultos. Qualquer pergunta dos meninos a respeito de qualquer assunto era sempre rebatida na hora, principalmente quando eles não sabiam responder. A gente aproveitava para comer enquanto eles estavam falando.

Após o café, o banho de mar na Praia Formosa, um recanto que haveria mais tarde de perder a formosura quando se tornou passagem para a “zona sul”. Essa praia oferecia a vantagem do simples acesso, pois os seus frequentadores surgiam de todos os lados, a pé, escoltando bandos de crianças. Quando a maré estava na vazante, e se houvesse o azar de acontecer isto no domingo, a Praia Formosa parecia um imenso campo de concentração de gente seminua e triste.

Os mais afortunados, todavia, seguiam para a Atalaia Velha, a bordo de seus raros automóveis ou compondo a lotação de “marinetes” fretadas para este fim. Em qualquer dos casos, era sempre uma aventura tomar banho no “oceano”.

Os rapazes usavam uns calções de banho parecidos com as “bermudas” de hoje, com a diferença de que não tinham bolsos. Ninguém ficava de peito nu na praia, de um lado para outro. Era de praxe uma camiseta, que a gente pedia para alguém guardar quando dava vontade de entrar na água.

As moças usavam uma espécie de camisa de força que deixava apenas os membros livres, assim mesmo nem tanto livres. Quando surgiu o maiô de duas peças, foi um acontecimento que estremeceu a cidade, pois ninguém seria capaz de imaginar a possibilidade de tamanho atrevimento.

Depois da praia, almoço. Domingo era dia de galinha, uma galinha só. Era o único momento em que a paz do lar parecia desaparecer, sendo uma família numerosa. Todos nós gostávamos de coração, e galinha só tinha um. Todos nós gostávamos de moela, mas a galinha só tinha um estômago. Esperávamos o mais precioso: o peito, a titela. Mas era costume reservar a titela para o jantar, quando ela seria servida assada.

À tarde, cinema. Sessão das quatro no Guarani, com direito a seriado depois do filme. Picolé no corredor do cinema, xingamentos dos meninos que estavam na “geral”, um poleiro de madeira que havia nos fundos da sala de projeção, quase tocando no teto, quente como o diabo. Eles estavam xingando quem podia chupar picolé. Sempre haverá descontentes no mundo.

Terminada a “janta”, uma volta pela praça Fausto Cardoso, ouvindo a banda da Polícia Militar, vestindo o melhor terno de Panamá, em busca de olhares enamorados, mas já com o pensamento nos deveres da segunda-feira.

Domingo em Aracaju era assim..

Imagens: Praça Fausto Cardoso e Rua João Pessoa,
extraídas de sergipeemfotos.blogspot.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 27 de junho de 2014.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Da Série "De Bar em Bar"


Do Lumiar ao Cio da Terra.
Por Amaral Cavalcante.

Tenho boas lembranças do Bar Lumiar. Ficava lá pra dentro. na Atalaia, ao pé de uma ladeira íngreme, despovoada, que poucos ousavam escalar. Fim de mundo só permitido a quem sabia onde a curtição se escondia e esse era o nosso caso.

Digo, da nossa turma ligada na era de aquárius, os macrobióticos empanturrados de arroz integral e grão de bico, mas ainda ligados no cuba-libre e na canabis que nos que nos expandia a consciência. Os malucos parávamos por lá, uma parada que se nos prestava muito bem naqueles confusos idos, quando bastava um público qualquer e um tiquinho só de carinho para a satisfação do nosso ego.

A casa tinha muro de cobrogós delimitando o pedaço, mas eram baixinhos, facilmente galgáveis por quem não contava com o larjam para o ingresso. Jardins extensos e avarandados nos quatro lados, cheios de mesas e caqueiros para acomodar a moçada moderna, o público pagante que adorava conviver com os alternativos. Os alternativos éramos nós, os artistas - a mais interessante maluquice dos Aracajus, nos anos oitenta.

Era um lugar chic onde dava gosto levar artistas visitantes para surpreende-los com o nível de civilidade da nossa província antenada com o mundo, mas era lá também que um quebrado qualquer, trepado no muro com uma cerveja quente e sequer algum dinheiro pra repeti-la, tinha permissão de ficar enfeitando a casa, como atração.

O barato da Atalaia já não era o coqueiro postal, nem os coloridos casebres dos pescadores, nem caranguejos descomunais com garras enormes quebradas por turistas nos bares da orla. Era o folclore cedendo moda aos estranhos poetas que intrigavam a cidade. Cabeleiras ao vento, panos mínimas cobrindo excitações explícitas, um circo de possibilidades estéticas e permissividades afetivas. Belas crianças loucas anunciando a maravilhosa era de Aquárius. Muito doidos, pois sim, como costumávamos ser os poetas de então.

Curtimos uma maluquice engraçada trepados no muro do Lumiar.

Então apareceu o Cio da Terra, já bem pra cá, perto do mar.
O Cio da Terra era mais a nossa cara!

Lá estavam Erê em libertárias performances, Joubert, o artista mais completo da nossa geração, Ilma Fontes - mãezona de todos nós - e os melhores fotógrafos, poetas, dançarinos, atores sem palco, as mais belas figuras que Aracaju tinha a oferecer.

No Cio da Terra consultávamos o I Chig declamando Omar Kayan e ouvíamos Ravi Shankar em posição de Lótus. Caetano e Gil, Ednardo e Belchior, Raul Seixas nem se fala, mas era Iansã que nos perfumava a noite e meu pai Oxalá o nosso guia.

O Cio da Terra retornou à aldeia um certo sincretismo perdido que essa geração restaurou. A moda e os modos orientalistas potencializados pelo chá de cogumelo e pela maconha da boa nos levavam ao Nirvana, mostrando-nos que o mundo era mesmo redondo e que a nossa consciência podia nos levar além das geografias.

A luz no Cio era pouquinha que o brilho maior teria que ser o nosso. Os freqüentes - que já chegavam ligados – eram somente os permitidos. E o papo, ora meu Deus, sempre em torno da mais interessante novidade: de Andy Warhol a Debret, de Oscar Wilde a Jean Genet, e, se faltasse viagem, Jean Paul Sarte na veia. No Cio da Terra estávamos expostos a um turbilhão de possibilidades estéticas e a arte era moeda corrente.

A preciosa maluquice, também.

Descrevo uma noitada no Cio da Terra: em homenagem a Eric Clapton, o bailarino Erê resolveu aparecer envolto em parcas peles encarnando um majestoso Guaxinim, decidido a incluir na programação do bar o blues reinante em nosso quintal particular. Inaugurava Erê uma coreografia felina, refazendo-se em formas e lubricidade, ora gemendo um coito ora acendendo estrelas, sempre excitante e belo, até que o bar se desfez numa madrugada improvável, todos roendo a parede do vizinho, os olhos cheios de noturnidades.

Acabamos no mar.
Lindos, bêbados e nus.

(Fotos devem ser cobradas a Ricardo Sampaio Nunes).

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 22 de junho de 2014.
https://www.facebook.com/groups/259696634059007/permalink/871037396258258/

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O Panela da Arte.

A atalaia era uma maré verde que se estendia a perder de vista. o matagal brincando de tanger o mar de volta à imensidão.
Depois da Boate Tio Zé os caminhos respeitáveis se acabavam. Mais além, só os guauçás convivendo entre trilhas abertas por pescadores afoitos e amantes em busca de esconderijo para o bem-bom do amor sem testemunhas. Aquele “Motel das Estrelas”era o nosso providencial abrigo para fodelanças baratas. Era fácil tanger a conquista amorosa para o meio do matagal, e, sob um teto de estrelas gozar, até que a madrugada dissesse basta ou um grauçá enxerido nos mordesse as partes.

Foi então que Ricardo Batata abriu naquelas lonjuras o bar “Panela da Arte”. Ficava a não sei quantos metros da fronteira permitida, lá dentro do maravilhoso matagal onde só ia quem tinha negócio. O “Panela” foi o lugar onde curtíamos os mistérios que tornaram transcendentes a nossa libertária juventude.

Muito jererê, o bode amarrado em viagens siderais, nóias particulares aos trancos e barrancos postas de pé pela necessidade de transgredir. De vez em quando um “Sunchine” – gota lisérgica transportada das ilhas britânicas para cá- remetia a maluquice sergipana à onda universal do auto conhecimento, ao escancaro mental que o LSD proporcionava às jovens cabeças de então. Tomei vários ácidos e não me arrependo disto, embora não o prescreva, hoje, para ninguém.
Adorávamos ficar de bobeira, rindo das florezinhas na estrada, da felicidade que nos vinha em cores, o mundo muito mais belo e solidário percebido além da realidade. Estávamos bem, compartilhando entre nós a alegria de sensações universais.

O “Panela” consistia em dezenas de almofadas no chão iluminado por lâmpadas “estreboscópicas” que nos remetia a universos de luz inusitados, um som pauleira pulsando a casa inteira e nos tomando do pés à cabeça enquanto escorregávamos o universo entre os dedos. Viajávamos os territórios psicodélicos da alma em busca das prometidas trilhas da era de Aquárius.

Lá, acendíamos fogueiras à melhor arte de então: das artes plásticas à literatura, de Yonesco a Pirandello, do balé russo às invenções de Alvin Ailey, e finalmente à liberação do corpo incentivada por filmes como “Hair” e “Jesus Cristo Superstar” exibidos pelo querido Cézar Macieira no quintal da casa.

Na hora de pagar a conta cada um avaliava a sua e o pagamento podia ser agora ou depois. Servir-se de um rango qualquer era liberado: tinha almôndegas de caixa para quem quisesse fritá-las e iscas de fígado, mas o maluco que as quisesse que fosse para o fogão preparar o seu repasto. O dono do bar, Ricardo Batata, estaria ali ou alhures - talvez nas praças de Amsterdam - um dono de bar sem conta para apresentar, mas feliz da vida por nos conceder maravilhas.

Nunca um bar mereceu tanto a memória da nossa geração quanto o “Panela da Arte”.

Amaral Cavalcante – julho/2009

Postagem originaria da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 25 de junho de 2014.

sábado, 21 de junho de 2014

20 de Julho! João Sapateiro completaria 95 anos


20 de Julho! João Sapateiro completaria 95 anos.
Por Neu Fontes.

Retiramos parte de um texto do Luiz Antonio Barreto sobre João Sapateiro:

João Silva Franco trabalhou duro para sobreviver. Negro, quase dois metros de altura, teve a vida marcada pelo sobrenome postiço.

Profissionalizou-se como sapateiro, remendando o couro, trocando o salto, pondo meia sola nos sapatos da população, independentemente do poder aquisitivo de cada pessoa. Quem podia, é claro, comprava sapato novo, em Aracaju, ou em outra qualquer cidade do País. Mas, quem tinha dinheiro curto, e queria fazer bonito na festa de São Benedito, que é colada na festa de Santos Reis, encerrando o ciclo natalino, entregava seu sapato velho a João Sapateiro, estabelecido nas cercanias do Mercado Municipal. Discreto, mas de boa conversa, o sapateiro exibia na sua oficina de trabalho, folhas de papel pautado, repletas de palavras escritas em letras de forma, fixadas nas paredes e nos poucos móveis do seu canto laboral. Eram trovas, pequenos e longos poemas, que surpreendiam a freguesia. João Silva Franco passou a ser conhecido como João Sapateiro, e reconhecido como o sapateiro poeta.

O pequeno espaço de trabalho de João sapateiro foi, em Laranjeiras, um ponto de encontro, um daqueles lugares que reúne as pessoas para uma conversa animada. Farmácia e barbearia, no interior, terminam sendo locais atrativos, onde são formados grupos para as conversas, passando em revista os assuntos dominantes da cidade. Em Laranjeiras o Cartório de Antonio Gomes, a alfaitaria de Graquinho, e a oficina de João Silva Franco, ao lado da farmácia de Antonio Rollemberg, se constituíram em locais especiais, que assitiram a decadência econômica e cultural da cidade, sentindo o êxodo dos mais novos, que saíam para estudar, e o desaparecimento dos mais velhos, arrancados da vida. Quando morreu Bilina, Laranjeiras chorou e o toque do Patrão da Taeira silenciou, até que Maria de Lourdes, também já morta, foi buscar o ritmo, as cores e a coreografia para continuar cantando: “Meu São Benedito, eu não quero mais c’roa, quero uma toalha, enfeitada em Lisboa.” Quando morreu Alexandre, os fiéis do culto negro tomaram nos braços o seu caixão e desfilaram pelas ruas laranjeirenses, elevando e baixando a urna funerária, num gesto simbólico da religiosidade dos afrodescendentes.

Foto e texto reproduzidos do Facebook/Neu Fontes.
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“QUEM NÃO TRABALHA NÃO COME
É CONVERSA MUITO FALHA,
PORQUE SÓ VEMOS COM FOME
O POVO QUE MAIS TRABALHA.”

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 20 de junho de 2014.

O Gosto Gostoso







Fotos de Fernando Magalhães.

O Gosto Gostoso.

Era o bar da guerrilha citadina nos anos 80, o aparelho dos descontentes, o bar dos descolados. Bar de ativista político sabe-se como é: ele pega pela consciência e sai juntando tudo num mesmo paladar, numa irmandade gustativa e solidaria onde se misturam sonhos de justiça e palavras de ordem, onde amores revolucionários se encontram e expectativas político/eleitorais engatinham.

Ia-se ao Gosto Gostoso porque era lá que a subversão funcionava, onde se controvertia os decretos e, sem pudores burgueses dava-se um jeito no mundo, mandava-se às favas a a opressão, resistia-se bebendo e vociferando contra a ditadura, até o nascer do sol.

Pois bem... o mundo cruel retornava de madrugada nos rabiscos da conta, no bocejo do garçom, na traição do sol clareando tudo. Tínhamos que voltar pra casa sem tantos heroísmos revolucionários porque os nossos vizinhos não nos conheciam assim, tão diferentes deles.

- Corina tem um filho comunista, coitada! E além disto, ele fuma maconha!

Pois não é que virou obrigação a quem se quisesse engajado freqüentar o Gosto Gostoso? Ficava no Bairro Grageru, fim da cidade porque dali não se ia mais a lugar nenhum que não havia rua. O fim de linha estava a cem metros do Bar, no Conjunto Habitacional “Cidade dos Funcionários” construído na década de sessenta pelo governador Seixas Dórea. Era uma novidade urbanística de forma circular, com ruas paralelas e concêntricas circundando uma pracinha de capim. Casinhas de pombo em formato igual, paredes frágeis e teto de amianto, certamente planejadas por um engenheiro modernoso, metido a inovador.

Na primeira vez em que eu fui l naquele concêntrico conjunto habitacional, me senti como o zonzo “preá de bazar” das feirinhas de natal onde apostávamos em casa ele entraria entre as que o rodeavam.

Depois dali era só um imenso quintal de manjelões, goiabas e cajus de graça, terra de fogo-pagôs e riachinhos bestas na fronteira final da cidade.

Voltemos ao Gosto Gostoso.
Principalmente às quartas-feiras, o bar se estendia pelo asfalto com mesinhas de ferro atravancando a rua. Uma multidão barulhenta catando mesa, não dava para quem queria.

Comia-se bem no Bar do Fernandinho. A delícia principal era a Maniçoba, manjar pra macho enfrentar sem titubeio, feito de folhas de Manaíba, venenosas se não fossem tratadas com os centenários cuidados que só o povo de Lagarto guardara, vindo de ancestrais culinárias indígenas.

Fernandinho, lagartense, responsabilizava-se: - “O veneno a gente tira numa boa!”. Mas tinha também tripa se porco torrada, frango a passarinho e um supremo Sarapatel servido com fartura que dava pra três. Afinal, os proprietários tinham aquilo muito mais como um aparelho político do que como um meio de vida.

Fotografemos o bar: um mar de cavanhaques trotskanos, barbudos pálidos e monossilábicos, senhores graves plenos de sabedoria e adolescentes imberbes se chegando à causa com ouvidos complacentes, ávidos de justiça e festa.

Notável também eram as bolsas de coro cru a tiracolo. Cada quem carregava nelas o seu arsenal bélico: folhas soltas com desenhos malucos, doutrinas, diários guevarianos, manifestos, a última edição de Carlos Zéfiro e, lá no fundo perfumando tudo o providencial baseado - que ninguém é de ferro!

O barato da maconha era a sustança da guerra!

Vida, esperança de justiça e sofreguidão. acho que éramos todos assim belos e revolucionários, naquele tempo do Gosto Gostoso.

Sem ele, a nossa história política seria outra.

Amaral Cavalcante – 27/03/2009

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 20 de junho de 2014.