segunda-feira, 12 de agosto de 2013

João Bebe-Água, um Dom Quixote.

Charge de Raí Ramos, 2005

Mudança da Capital e a Lição de João Bebe-Água*

João Bebe-Água, um Dom Quixote.
Por Thiago Fragata**

A Resolução Provicial N. 413, de 17/03/1855, chancelou a Mudança da Capital de São Cristóvão para vila de pescadores de Santo Antônio de Aracaju. Ela foi assinada pelo então Presidente da Província de Sergipe Del Rey, Inácio Joaquim Barbosa. Adiante veremos que o ato teve implicações políticas e econômicas locais além de respaldo externo.

Cenário Político - Na época dois partidos políticos dividiam e defendiam os interesses dos seus respectivos agrupamentos: o Partido Liberal, no poder durante toda a primeira metade do século XIX, defendia a economia da região do Vaza-Barris (São Cristóvão e Itaporanga); já o Partido Conservador, por sua vez, defendia a economia do Vale do Cotinguiba (Maruim, Japaratuba, Santo Amaro e Laranjeiras).

FATORES INTERNOS QUE FAVORECERAM A MUDANÇA:

Político - Em 1853 o Partido Conservador vence as eleições, toma posse Inácio Joaquim Barbosa. Esse partido sempre defendeu a Mudança da Capital. Inácio Joaquim Barbosa contribuiu para a emancipação de Itaporanga, em 1854, o que enfraqueceu o poder econômico de São Cristóvão e dividiu o Partido Liberal. Pertinente lembrar que a grande liderança desse partido, Sebastião Gaspar de Almeida Botto, fora acusado de assassinato, o que fragilizou ainda mais o partido.

Infra-estrutura - Alegando a dificuldade de escoamento da cana-de-açúçar produzida na região do Vaza-Barris uma vez que o rio Paramopama era raso e não permitia navegação de embarcações de grande porte; alegando também a dificuldade de transporte, pois a distância entre o Porto das Pedreiras e a Mesa de Rendas era de 9 KM, o que encarecia o produto, Inácio passou a defender a Mudança da Capital.

Econômico - Os investimentos se concentraram na região do Cotinguiba. Em 1855, a produção canavieira do Vale do Cotinguiba era maior do que a produção do Vaza-Barris, realidade que legitimou o plano dos conservadores.

FATORES EXTERNOS QUE FAVORECERAM A MUDANÇA:

Político - No cenário político brasileiro, com representação na corte (Rio de Janeiro), registrava-se um momento de conciliação dos ministérios e da base dos partidos. Não adiantou os liberais sergipanos apelar para os liberais da corte.

Econômico – Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, foi um empreendedor responsável pela modernização do Brasil. Por sua iniciativa ocorreu a implantação das primeiras ferrovias e a navegação a vapor. Assim, a economia brasileira vivenciou na Era Mauá uma re-estruturação. A tendência da antiga cidade-fortaleza, concebida no interior ou em cima de morros, era mudar para cidade-porto. Nesse sentido, Alagoas mudou sua sede de Marechal Deodoro para Maceió, o mesmo se deu no Piauí e em Sergipe.[1]

CONSEQÜÊNCIAS DA MUDANÇA DA CAPITAL.

Com a Mudança da Capital deu-se a falência da economia sancristovense uma vez a maioria dos negócios dependia da elite burocrática. O êxodo para a Aracaju foi a única alternativa para muitos. A insatisfação popular não se transformou em revolta nem foi traduzida em mortes.
A Câmara de Vereadores chegou a escrever um protesto ao Imperador D. Pedro II, que visitou a cidade em janeiro de 1860, sem efeito. O comerciante João Nepomuceno Borges, conhecido como João Bebe-Água, dizem ter juntado voluntários para impedir o traslado dos cofres públicos, viu seu plano esvaziado, foi ridicularizado como patriota louco e maltrapilho pelos agentes da manobra política.

Para Sergipe, a conseqüência positiva foi a emancipação econômica dos portos baianos e a possibilidade de estabelecer comercio diretamente com a Europa.

JOÃO BEBE-ÁGUA: LIÇÃO DE SANCRISTOVIDADE

João Nepomuceno Borges nasceu em São Cristóvão, no ano de 1823. Era filho do capitão Francisco Borges da Cruz e teve um irmão de nome Silvério da Costa Borges.

Nada sabemos da sua formação escolar. Foi escrivão interino da Alfândega e Mesa de Rendas, de Santo Amaro, a partir de 7 de março de 1836. Com a transferência dessa Mesa de Rendas para Laranjeiras, em 11 de janeiro de 1837, foi nomeado amanuense interino, sendo demitido em 4 de outubro desse ano. Logo foi promovido ao cargo de “patrão-mor” da Mesa de Rendas da Barra da Cidade, hoje Barra dos Coqueiros.[2]

Em 1847, o cidadão João Nepomuceno Borges morava em São Cristóvão, no ‘quarteirão n. 19’, mais precisamente na atual rua João Bebe-Água. Essa rua chamava-se rua do Varadouro até o advento da República (15/11/1889), quando foi rebatizada “rua da Nova Constituição”. Na data da Mudança da Capital (17/03/1855), João Bebe-Água era proprietário de quitanda.

Otimista, João Bebe-Água mudou de ocupação depois da falência nos negócios. Trabalhou como fiscal da Câmara de Vereadores de São Cristóvão, por volta de 1872 [3], e arrendou terras de um sítio nos arredores do povoado Caípe.

Durante os anos que sucederam à transferência da capital, o jacobino sancristovense manteve o juramento de não pisar em Aracaju, período que observou piamente suas obrigações religiosas. João Nepomuceno Borges era membro da Irmandade do Amparo dos Homens Pardos, freqüentando a igreja do orago regularmente. Nessa irmandade ele desempenhou quase todas as funções: foi sineiro, zelador, sacristão, tesoureiro, avalista e procurador.

O homem simples gozava de prestígio na sociedade sancristovense. Era vereador em 1864, cargo não-remunerado na época. O termo de sua posse (29/09) revela que o membro do Partido Liberal era vereador re-eleito.[4]

João Nepomuceno Borges atuava como juiz de paz em 1893. Manuel dos Passos de Oliveira Teles, juiz de órfãos de São Cristóvão, na época, afirmou ter conhecido João Bebe-Água e garante que ele “não foi louco, não foi um mendigo, era um resignado”.[5]

Tais evidências levam a refletir o quanto a imagem depreciativa de João Bebe-Água veiculada pelos seus adversários políticos deve ser ponderada. Independente de tudo e de todos, no mínimo, sua inconformidade merece admiração e o reconhecimento póstumo.

O símbolo maior da sancristovidade (amor a São Cristóvão) faleceu em 1895.

* Palestra concedida na primeira edição do CICLO DE PALESTRAS CONHECENDO NOSSA HISTÓRIA.
** Thiago Fragata é coordenador da Comissão Pró-candidatura da Praça São Francisco, de São Cristóvão, a Patrimônio da Humanidade; pós-graduando em História Cultural (UFS) e membro da ong Sociedade para o Avanço Humano e Desenvolvimento Ecosófico (SAHUDE). E-mail: thiagofragata@gmail.com

REFERÊNCIAS DE PESQUISA:
1 – SILVA, José Calasans Brandão da. Aracaju e outros temas sergipanos. Aracaju: Fundesc, 1990.
2 - SOBRINHO, Sebrão. Fragmentos da História de Sergipe. Aracaju: Liv. Regina, 1972, p. 97.
3 - FRANCO, Augusto Pereira. Compilações das leis provinciais de Sergipe – 1835 a 1880. Aracaju: Typ. de Francisco das Chagas Lima, s/d, vol. II, p. 301.
4 - Arquivo da Prefeitura Municipal de São Cristóvão. Livro de Eleição do Câmara Municipal - 1848/1893. Manuscrito.
5 - TELES, Manuel dos Passos de Oliveira. João Bebe-Água. In: __. Sergipenses. Aracaju: Typ. d’O Estado de Sergipe, 1896, p. 61.

Texto e ilustração reproduzidos de postagem feita
por Thiago Fragata no blog thiagofragata.blogspot.com.br

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Tô Te Ajeitando" em Seu Traje Típico.




"Tô te ajeitando" em seu traje típico.
MELINS, Murillo. Aracaju romântica que vi e vivi. Anos 40 e 50. 3ed. Aracaju:Unit, 2007.

Geralmente em cada cidade, por maior ou menor que ela seja, existe um ou mais tipos populares. Em Aracaju não foi diferente. Vários existiram, porém, um em especial chamou atenção por ser bastante conhecido e querido: Tô te ajeitando, cujo nome de batismo era Domingos Correia da Silva, nascido no dia 15 de maio de 1907, em Alagoas. Segundo Murillo Melins, ele tinha baixa estatura, branco, raquítico, olhos azuis, rosto esquálido e sempre trajando paletó, gravata e camisa de cores berrantes. Vivia por conta própria, fazendo propaganda de casas comerciais ou vendendo bilhetes da Loteria Federal, expostos em uma pequena vitrine, segura por correia presa ao próprio ombro. Ainda segundo Murillo Melins, Tô te ajeitando morava sozinho e não contava nada de sua vida. Nos últimos anos de sua vida, pouco enxergava.

Para o Pesquisador e Jornalista Luís Antônio Barreto, "Tô te ajeitando" sempre foi um homem de mistério. Um desafortunado que vendia sorte, vendia loteria. Um tipo popular útil à sociedade, com seu ponto comercial. Segundo Osmário Santos, no seu livro "Oxente! essa é a nossa gente", consta que Luís Antonio Barreto e Marcos Prado Dias chegaram a documentar a vida de "Tô te ajeitando" em filme.

Mas e o apelido, veio de onde? Segundo entrevista do próprio "Tô te ajeitando", concedida a Jorge Lins de Carvalho, no Jornal Gazeta de Sergipe nr. 7.090 de 23/24/05/1982, o apelido veio de uma moça que ele paquerava nas Festinhas de Natal no Parque Teófilo Dantas, e que trabalhava em um dos bares que lá existia. Quando perguntavam para ele se já tinha conseguido namorar a tal moça , ele respondia tô ajeitando, tô ajeitando. Ele tinha outro apelido que não gostava, que era o "Macaca de Maiô".

À época desta entrevista, "Tô te ajeitando" morava em uma casa na Avenida Desembargador Maynard.

Texto e fotos reproduzidos de postagem feita por:
José de Oliveira B. Filho em seu blog aracajuantigga.blogspot.com.br

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A Historiadora Maria Thétis Nunes




A Historiadora Maria Thétis Nunes.
Por GILFRANCISCO *

“Já, estou aposentada pela Universidade Federal de Sergipe há mais de oito anos. depois de ter ensinado durante quarenta e sete. De certa forma ultrapassei um pouco o tempo estipulado para que um trabalhador aposente-se. Só me aposentei porque todo mundo se aposenta um dia e também por causa das determinações que foram realizadas para que eu me aposentasse. Mas isso não fez com que ficasse parada, sempre participo de debates como palestrante sou presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e faço parte do Conselho de Cultura do Estado”. (Maria Thétis Nunes).

Os pesquisadores da historiografia brasileira são pessoas possuidoras de um tipo especial de obstinação. A vista das circunstâncias, elas vão de fungos e cupins, de reformas e demolições, até a falta de compreensão dos dirigentes de instituições que possuem documentos importantes em seus arquivos.

Em Maria Thétis Nunes reuniram-se algumas das mais altas, puras e nobres características a que uma pesquisadora pode aspirar: a retidão e firmeza de caráter, a exemplar coerência de pensamento e aguda capacidade de interpretação. Ou seja, Thétis é, de fato, uma historiadora que alia à pesquisa cuidadosa uma forma correta de escrever sobre o tema escolhido. Por certo, essa sua personalidade foi fator determinante para torná-la numa das primeiras historiadoras sergipanas a consignar a seu nome uma dimensão pública.

Ao aliar talento, rigor profissional e capacidade de trabalho, a professora Thétis possui hoje uma bibliografia formada por mais de dez títulos, entre os quais Os Árabes: Sua Contribuição à Civilização Ocidental, 1945; Ensino Secundário e Sociedade Brasileira, 1962; Sergipe no Processo da Independência do Brasil, 1973; Sílvio Romero e Manuel Bonfim: Pioneiros de uma Ideologia Nacional, 1976, Ocupação Territorial da Vila de Itabaiana: a Disputa entre Lavradores e Criadores, 1976, História de Sergipe a partir de 1820,1978; Geografia, Antropologia e História em José Américo, 1982, juntamente com Manuel Correia de Andrade e José Otávio Melo; A Política Educacional de Pombal e sua Repercussão no Brasil-Colônia, 1983; História da Educação em Sergipe, 1984; Sergipe Colonial I, 1989; Sergipe Colonial II, 1996.

Com a publicação de textos em vários periódicos do país, chegando a mais de duas centenas de artigos e ensaios – isso, de 1948 até 1999 – a maioria deles sobre temas sergipanos, alcançamos os objetos obsessivamente perseguidos e trabalhados pela autora na lapidação de suas questões fundamentais e inaugurando uma perspectiva historiográfica nova. Ou seja, tudo isso ajuda a compreender melhor o sentido de sua reflexão sobre a história do nosso Estado.

A postura, o fazer e a sua interpretação como pensadora da cultura brasileira acentua o relevo de sua obra, mais do que isso, a sua visão arguta do espaço histórico é algo impossível de não se reconhecer no seu trabalho, aliás, como o faz nas contribuições modelares, Ensino Secundário e Sociedade Brasileira e A Política Educacional de Pombal e sua Repercussão no Brasil-Colônia.

Criadora de uma obra séria, erudita, que traz elementos novos à compreensão da historiografia brasileira, provando que a historiadora se afirma pela descoberta feita nos arquivos, antes, de mais nada; e pelo conhecimento de fontes numerosas nem sempre fáceis de serem encontradas.

Pesquisadora arguta e incansável, Maria Thétis Nunes busca novos caminhos, novos objetos e novas interpretações no quadro da História do Brasil. Algumas de suas obras já se tornaram leitura obrigatória para quem quer ter uma visão não acadêmica, não tradicional, de fatos tão marcantes de nosso passado. Sem falar na importante contribuição à vida cultural brasileira com a autora comentando obras de terceiros, responsável muitas vezes pelo enriquecimento de algumas delas ou pelo impulso que deu a alguns autores estreantes, ou contribuindo para edições póstumas de autores consagrados.

Suas pesquisas sempre provocam amplo debate sobe o tema, abordado, visto que suas análises não ficam nas “meias palavras”. Ataca frontalmente, batendo duro no resgate do passado “maquiado” pela historiografia “oficial e comprometida”. Sua obra encontra-se ao alcance de professores e estudiosos da nossa historiografia, consulta obrigatória para qualquer brasileiro culto.

Por isso, não pode deixar de ser lida sob pena de incorrer-se em distorções e omissões. Seus estudos representam um momento culminante em nossas letras quer na avaliação dos contemporâneos, quer na análise de obras do passado, de um João Ribeiro, Tobias Barreto, Felisbelo Freire e inúmeros outros os quais se pronunciou Maria Thétis Nunes com acerto.

Portanto, o seu nome é um dos mais importantes no campo da divulgação do pensamento dos grandes de nosso passado, destacando-se pela posição pioneira que ocupa em nossas letras.

Nota
A professora Maria Thétis Nunes, faleceu em Aracaju, a 25 de outubro de 2009, aos 86 anos.

Aracaju. Jornal da Cidade, 20 de setembro de 2000.

*GILFRANCISCO: jornalista, professor da Faculdade São Luís e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe. gilfrancisco.santos@gmail.com

Texto e fotos reproduzidos do blog: sergipeeducacaoecultura.blogspot.com.br

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E Tanto Dizem Que o Mundo é Pequeno

 Ivan Valença.

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Vilder Santos.

E Tanto Dizem Que o Mundo é Pequeno.
Por Luíz Eduardo Costa.

Ivan Valença, jornalista que ainda não é o decano, mas disso se aproxima, foi, em 1969, o primeiro jornalista sergipano a fazer turismo na Europa. Ganhava pouco na Gazeta, como pouco ainda ganham hoje todos os jornalistas desta província, era também servidor público federal, de instituto que remunerava sofrivelmente, mas, entrou na trilha dos suplementos comemorativos de alguma coisa, que fora aberta por Nazário Pimentel logo quando aqui chegou em 1966. Nazário acabou as agruras financeiras dele próprio e do jornal Diário de Aracaju, dos Diários Associados, quando resolveu fazer um Suplemento comemorativo do terceiro aniversário da ¨Gloriosa Revolução de 31 de Março ¨. Com uma apresentação, quase uma ordem, do Comandante do 28 Batalhão de Caçadores, não havia empresário ou prefeito que não se dispusesse a pagar , todos, aliás, insistiam em comprar páginas inteiras. A coisa cresceu tanto que um jornalista, demitido pela truculência da ¨Revolução brasileira que livrava o Brasil dos maus brasileiros ¨ sobrevivendo no Diário de Aracaju, viu chegar a sua oportunidade, e escreveu dia e noite, afanosamente, centenas de mensagens laudatórias ao golpe, assim, finalmente, ganhando dinheiro à custa da ¨Gloriosa ¨. O Suplemento da Gazeta, bolado por Ivan, foi comemorativo da descoberta do petróleo no mar em Sergipe, a primeira no Brasil. Com a comissão maior, de 30 % , combinada com o dono do jornal, o jornalista Orlando Dantas, Ivan fez o seu tour europeu com certa folga. Viajar ao exterior naquela época não era fácil. Contavam-se aos dedos até entre os mais endinheirados, aqueles que já haviam viajado a Europa. Quando os turistas eram intelectuais, passavam meses fazendo palestras sobre a viagem, ou escreviam livros.

No mesmo período em que Ivan viajou a Europa, para lá também foi um outro sergipano, o recém diplomado professor, Vilder Santos. Ele também acabara de ser aprovado no vestibular da Faculdade de Direito e o seu pai, o mecânico gráfico, professor da escola Técnica, e eficiente vereador de Aracaju, Milton Santos, resolveu, com certo sacrifício, presentear o filho estudioso com uma excursão à Europa . Com Vilder, viajou, o funcionário da Energipe, Ubaldo Torres. Em Frankfurt, Alemanha, o ônibus da operadora levou todo o grupo a fazer compras numa feira de produtos eletrônicos. Vilder, Ubaldo, e mais um paulista e um gaúcho que estavam com eles , resolveram demorar mais um pouco, e dispensaram o ônibus, que levou o resto do grupo ao hotel . Quando quiseram voltar, descobriram que nenhum deles tinha o endereço, e nem sequer sabiam o nome do hotel onde estavam hospedados. Marinheiros de primeira viagem, estavam bem perto de entrar em pânico, quando Vilder avistou em frente um hotel, e sugeriu que para lá se dirigissem, tentando pedir ajuda. Ubaldo conseguia se expressar com muita dificuldade em inglês, e foi tentando narrar a desdita em que estavam, a uma gentil recepcionista. Ela então perguntou se algum dos desavisados e imprevidentes turistas, poderia lembrar-se de um detalhe do hotel onde estavam, ou da rua. Foi então que Vilder disse que na frente do hotel havia um grande mapa da Europa. Logo, a recepcionista identificou o local, comunicou-se com o hotel e passou o endereço aos que já se imaginavam perdidos no meio do mundo. Ao saíram, todos sorridentes, Vilder avista, bem próximo, sentado num sofá da recepção, ninguém mais ninguém menos do que o seu amigo Ivan Valença. Em Aracaju, tão pequena, não se viam há mais de dois anos.

Texto reproduzido do blog luizeduardocosta.blogspot.com.br
Fotos: Google.

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Notas Iniciais Sobre a Boemia Sergipana



Notas iniciais sobre a boemia sergipana (1)
Dilton Maynard

A boêmia sergipana ainda não foi estudada. À exceção de alguns memorialistas, pouco se falou da vida fértil, do clima quente dos bares, praças, prostíbulos e becos do Aracaju. Pouco se falou das manifestações sergipanas na música noturna, radiofônica. Das serestas e baforadas de cigarros. Porém, é possível que isto não tarde a acontecer. As mudanças crescentes na historiografia sergipana podem, provavelmente, levar algum estudante a tropeçar na noite sergipana. Quando isto ocorrer, é possível que dois nomes venham à tona: João Lourenço de Paiva Melo e Ursino Fontes de Gois, o Carnera. Dois artistas fundamentais à história da música, do rádio e da boêmia em Sergipe.

Entre estes, há aproximações e distanciamentos satisfatórios para que o pesquisador possa observar os caminhos que a vida artística sergipana oferece. Tais aproximações e afastamentos, também permitem falar deles juntos e, ao mesmo tempo, em separado.

As semelhanças existentes entre Carnera e João Melo são facilmente perceptíveis. Os dois nasceram na década de 20, até o fim dos anos 40 moraram nas mesmas cidades (Boquim, Aracaju). Carnera foi professor de violão de João Melo. Ambos foram alunos do Atheneu Sergipense. Da mesma forma, participaram juntos das experiências iniciais da radiodifusão em Sergipe.

Mas os distanciamentos entre os dois também não são poucos. João Melo fixou-se no Sudeste do país, só voltando a Sergipe após quase 40 anos, Carnera não resistiu a mais de um ano fora. Embora tenham sido parceiros em composições felizes, acabaram com estilos diferentes.

Carnera permaneceu fiel à seresta. João, por sua vez, deixou-se levar pela bossa nova, apresentando uma maior variedade no seu repertório. Enquanto João Melo manteve-se ativo. Gravou um novo CD há pouco tempo, apresentou um programa semanal de televisão por anos e escreveu suas memórias. Carnera, ao contrário, ficou cada vez mais recluso. Em seus últimos anos de vida, pouco saía de casa, acometido por enfermidades.

Dois sergipanos profissionais da arte. Personagens influentes na radiofonia e na boemia. Através destas duas biografias, algumas questões sobre os percursos da cultura local podem ser levantadas. Dois homens cujas histórias de vida não podem ser escritas sem que a amizade entre eles seja mencionada.

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Notas sobre a boemia sergipana (2)
Um certo João Melo

João Lourenço de Paiva melo nasceu no dia 24 de junho de 1921, em Salvador, Bahia. Seu pai, José Maria de Carvalho, médico recém-formado, seguiu o caminho de tantos outros egressos da Faculdades de Medicina: embrenhou-se à procura de clientes nas pequenas cidades. Em 1923 parou em Boquim. De lá, veio para a capital sergipana no anos 30. Em Aracaju, pouco tempo depois, seu filho se tornaria o primeiro cantor de rádio sergipano. Uma história iniciada no Atheneu Sergipense dos anos 1930.
Os anos 30 assistem à consolidação do cinema falado. Cada ano que passava apresentava um número crescente de filmes falados, principalmente de Hollywood. Outro veículo de comunicação mostrava, no mesmo período, uma ousadia crescente – o rádio.

Era o tempo das big bands, como a de Glenn Miller. Vivia-se a época de grandes programas de rádio, como A Voz da Profecia, O Sombra, além dos programas nacionais. Nascia a Hora do Brasil, programa de rádio essencial na propaganda das idéias varguistas. E, em meio a isso, a família Melo comemorava a entrada de João Lourenço para o Atheneu. Um novo médico não tardaria chegar, pensavam amigos e parentes do casal.

Mas isto não ocorreu. O ambiente do Atheneu colocou o jovem João Melo em contato com um universo diferente, com uma vida dessemelhante daquela esperada de um aluno exemplar.

Não que João Melo fosse um péssimo aluno. Longe disto. O problema é que a cabeça do rapaz estava voltada para outras coisas. Ou melhor, para outra coisa: a música.
Naqueles dias, um outro aluno do Atheneu tornou-se amigo de João Melo. Era um moço magro, raquítico e, irritadiço. A aparência frágil valeu-lhe o apelido mais irônico que alguém com o seu tipo físico poderia ter: Carnera, uma irônica “homenagem” ao boxeador Primo Carnera (1906-1967), campeão dos pesos pesados na época.

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Notas sobre a boemia sergipana (3)
Carnera, um discreto mestre seresteiro

Carnera tocava violão. E tocava bem. Tão bem, que encantou João Melo. Do encontro com Carnera e seu violão brotou a idéia. João Melo queria aprender a tocar o instrumento.Foi até Carnera e revelou a vontade. O pugilista de viola ofereceu-se para ensinar. Mas advertiu sobre a necessidade de um violão, essencial à prática.

João Melo teve que providenciar. Naquele tempo, a Casa de Detenção sergipana oferecia, a preço de custo, diversos utensílios feitos por seus músicos. Dentre tais ofertas, era possível obter um violão.

Verdade seja dita, não eram os melhores instrumentos. Mas eram os únicos que a mesada acumulada de João Melo conseguiria comprar. E, para um principiante, um violão ruim não era algo tão catastrófico assim.

Comprado o violão, vieram as aulas. Carnera explicava pacientemente. Muitas vezes, com o cigarro no canto da boca, prendendo-o entre os lábios. Às vezes tomava água de coco e uísque. João não demorou a aprender. Aprendeu a fumar, a beber e, finalmente, a tocar violão com Carnera. Problema mesmo houve em casa. Descoberto o violão, não demorou para que ele fosse ao lixo. À época, tocar violão era concebido como coisa de malandro. Coisa de quem não queria nada sério com a vida.

Assim sendo, foi grande o rebuliço na casa dos Melo. Mas nem isso deteve João Lourenço. Os ensaios com Carnera continuaram. Ela já arriscava tocar para o amigo. Os incentivos deste último parecem ter sido fundamentais ao moço. Foi Carnera quem, após ouvir uma canção executada por seu “aluno”, observou a boa entonação do rapaz. E o convidou para uma empreitada da qual iria participar.

Ocorre que o Carro de Propaganda Guarany estava com suas caixas instaladas num prédio da Praça Fausto Cardoso, centro aracajuano. A ideia de Carnera era de que ele e João Melo, levando o violão, entoassem algumas canções dali.

Ambos começavam, sem saber, um importante capítulo da história do rádio em Sergipe.

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Notas iniciais sobre a boemia sergipana (4)
Primeiros acordes, primeiros cabarés

Foi do Carro de Propaganda Guarany que João Melo e Carnera cantaram juntos para grande público pela primeira vez. Dono de potentes alto- falantes, o Carro pertencia a Augusto Luz. Figura conhecida na cidade, Luz era dono de diversos estabelecimentos. Entre eles estavam o cinema Guarany e até mesmo uma farmácia.

No empreendimento de propaganda, o empresário tinha como sócio Cláudio Silva, que participava do negócio como locutor. A aparelhagem, vinda de Ohio (USA), era única em Sergipe.

Os dois rapazes não deixaram a desejar. Tudo indica que agradaram. João Melo, por exemplo, recebeu o convite para uma pequena temporada. Mas, o que aparentemente atestaria o seu potencial artístico, só alimentou o descontentamento e a preocupação dos seus pais. O convite foi para cantar num cabaré.

Uma coisa não se pode negar. Ao menos o estabelecimento tinha um nome pomposo: “Cabaré Imperial”, também conhecido como “Cabaré de Oliveira Martins”. Era uma construção simples, na zona Norte da cidade. A proposta, feita por um certo Carlos Rubens, era para exibições acompanhadas ao piano e módicos cachês.

Atualmente não se começa por um prostíbulo uma carreira de sucesso no universo fonográfico. Ao menos, não é este o caminho mais comum. Os acordos entre empresários e gravadoras, rádios e programas de televisão fazem com que desconhecidos tornem-se, da noite para o dia, os mais tocados. Vivemos tempos de celebridades instantâneas. Porém, nos anos 1930 e 1940 a coisa era diferente. Muitos cantores começaram pelo cabaré. João Melo foi um deles.

Algo compreensível. Um prostíbulo, sobretudo em cidades pequenas, cumpriu (e ainda cumpre em muitos cantos do mundo) papéis fundamentais à sociedade. Mais que um mero “entreposto” de orgias o cabaré era, entre outras coisas, uma das principais opções de lazer na Aracaju em fins da década de 30. Reunia gente de todo tipo. Era, portanto, espaço privilegiado para a divulgação de um novo cantor. João Melo, ainda menor de idade, era obrigado a “dribles” quando a fiscalização batia às portas. Pelo menos quando a cerveja gratuita e uma menina ao colo não acalmavam os zelosos fiscais da moral e dos bons costumes.

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Notas iniciais sobre a boemia sergipana (5)
Chega o rádio

Nova fase na vida de João Melo. O filho de médico, aluno do respeitável Atheneu, agora era atração de cabaré. Por essa época, já é possível apresentar um grupo de boêmios em que João Melo estava envolvido. Eis apenas alguns: Macepa, João Lopes, Argolo, Carnera, João Moreira. Todos envolvidos com música. Assim, a cada dia os estudos ficavam mais distantes. Estudos mesmo, só dos acordes do violão e falsetes dos cantores do rádio que a estática ameaçava omitir. A inexistência de uma rádio difusora em Sergipe dificultava um melhor sinal nas transmissões. Mas em 1939 este quadro mudou.

O Governo do Estado estava decidido a implantar uma radiodifusora. Após uma batalha jurídica, a concessão foi obtida. Contudo, os profissionais eram poucos. Por isto, era preciso treinar os futuros nomes do rádio sergipano. Era preciso que alguém ensinasse aos cantores locais a usar melhor os microfones, como superar certos percalços.

Quando se iniciaram as primeiras experiências da rádio local, foram convidados. E tiveram um professor ilustre. Conta João Melo: “Sílvio Caldas estava aqui fazendo uma temporada, foi quem nos orientou como cantor: você dá um agudo, puxa um pouco, você faz um grave chega mais perto”.

Desta experiência, surgiu um bom relacionamento de João com Sílvio Caldas e o convite inesperado para tentar programas na Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. Desafio que o rapaz aceitou. Deixava para trás o Atheneu. Acabaram-se, ao menos temporariamente, as noites de serenatas junto ao rio Sergipe.

Texto e fotos reproduzidos do blog: diltonmaynard.blogspot.com.br

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, em 12 de agosto de 2013.

domingo, 11 de agosto de 2013

História do mercado central mostra evolução urbana

Jornalista e historiador Luiz Antônio Barreto
Foto: Alejandro Zambrana

História do mercado central mostra evolução urbana. *
Por Najara Lima (26/07/2010)

A primeira ideia do engenheiro Sebastião Basílio Pirro, por volta de 1920, era construir um mercado onde hoje está localizada a praça Fausto Cardoso. Não foi isso o que aconteceu. O lugar escolhido para receber a obra acabou sendo a esquina da rua Laranjeiras com a avenida Rio Branco. Foi assim que nasceu o primeiro mercado público de Aracaju, também conhecido na época como mercado modelo.

A obra foi chamada de Mercado Antônio Franco, nome do empresário que investiu em sua construção. De acordo com o jornalista e historiador Luiz Antônio Barreto, o prédio era bastante imponente para a época. "Havia um conjunto de lojas nas quatro faces do prédio, com um pátio útil, versátil. Lembrava os grandes mercados do mundo", conta ele. Na mesma área, foram edificadas outras obras, como a Associação Comercial de Sergipe e o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, consolidando o crescimento da zona norte da cidade.

O mercado era, em princípio, um lugar de varejo popular, onde eram comercializados não apenas produtos industrializados, como também carnes, queijos, doces, mandioca, ervas e produtos relacionados aos cultos afrobrasileiros. Dessa forma, o mercado atendia satisfatoriamente à população aracajuana, sendo apenas auxiliado por mercearias localizadas em ruas próximas a ele, até a década de 40.

Em 1948, foi construído o mercado auxiliar, chamado de mercado novo, que recebeu o nome do famoso industriário Thales Ferraz e tinha linhas arquitetônicas bastante semelhantes às do mercado anterior. Só no final do século XX, com o projeto de revitalização proposto pela Prefeitura Municipal de Aracaju (PMA) em parceria com o Governo do Estado para o Centro da cidade, foi construído o Mercado Albano Franco, já com uma arquitetura bastante diferente dos outros dois.

"Uma das grandes vantagens desse mercado é a sua extensa área para estacionamento de veículos, porque as ruas localizadas ao redor dos antigos mercados já estavam estranguladas", afirma Luiz Antônio Barreto.

Entorno

Segundo o historiador, atualmente é possível notar as diferentes finalidades de cada um dos mercados centrais. "O mais antigo, Antônio Franco, serve como um Centro comercial popular para fins turísticos. Já o Thales Ferraz mantém a riqueza gastronômica da cidade com a venda de mel, queijos, castanha, enquanto o Albano Franco é dedicado ao ramo de hortifrutigranjeiros", relata.

Para Barreto, os mercados não são apenas parte do corpo da cidade. Ele defende que é importante lembrar que eles estão localizados onde antes ficava o porto de Aracaju, lugar de saída e chegada de barcos e saveiros que iam e vinham do interior do estado com passageiros e mercadorias. "Naquele local também ficavam estacionados os caminhões de feirantes, parte dos ônibus e marinetes", conta.

Boemia

O historiador conta que, além do importante movimento de transporte de passageiros e mercadorias existente no local, havia também um forte clima de boemia envolvendo aquele ambiente. "A vida social em torno dos mercados era bastante intensa. Na parte de baixo funcionavam mercearias durante o dia. Em cima, à noite, eram revelados os cabarés e as boates", revela Luiz Antônio Barreto.

Ele conta que a área localizada ao redor dos mercados centrais de Aracaju, região que compreende a Avenida Otoniel Dórea, o Beco dos Cocos e as ruas Santa Rosa e Florentino Menezes, era mais conhecida como Vaticano. "Era uma ironia do povo com relação à santidade do que acontecia naquele local durante as noites", diz.

A partir da década de 1970, quando a prostituição começou a ser reprimida na área, a região continuou a ser um importante pólo cultural da cidade, com constantes apresentações de diversos músicos locais.

Comércio

Luiz conta que um dado que precisa ser considerado quando se fala sobre os mercados centrais de Aracaju é que dali saíram importantes nomes do comércio nacional. Entre eles, destacam-se Mamede Paes Mendonça e Pedro Paes Mendonça, que possuíam mercearias no local.

"Mamede fundou, mais tarde, a rede Paes Mendonça, enquanto Pedro criou a rede Bompreço. Duas das mais importantes redes regionais de supermercados surgiram dos mercados centrais", conta o historiador. Ele cita ainda o GBarbosa como uma importante rede que também tem sua origem intimamente ligada àquela região.

De acordo com Luiz Antônio Barreto, os mercados Antônio Franco, Thales Ferraz e Albano Franco são de extrema importância, tanto para o crescimento econômico de Aracaju quanto para a vida social local. "Depois de um tempo, foram surgindo os mercados setoriais, como os do Augusto Franco, Bugio, Santos Dumont, Atalaia e Siqueira Campos. Mas o mercado tem resistido e ainda é, com certeza, uma boa opção para a população aracajuana", declara ele.

* Texto e foto reproduzido aqui do site aracaju.se.gov

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, em 11 de agosto de 2013.

Algumas recordações do m/pai Liminha a Jorge Carvalho

 Liminha, no casamento da nossa irmã Lucia Rosalina Cavalcante Rosalina

(Algumas recordações do meu pai Liminha, em entrevista a Jorge Carvalho do Nascimento).

Jorge Carvalho - Na sua memória, quais eram os momentos mais marcantes na sua família?

Amaral Cavalcante – Nossa casa era bastante frequentada. Minha mãe jogava ”buraco” muito bem e era conhecida pelas espertezas que, quando descobertas, rendiam acaloradas discussões. Meu pai era divertido e sociável, embora gostasse de botar apelidos nas pessoas, o que, vez por outra, lhe rendia algumas mal querenças. Era divertido vê-lo se esconder por detrás da portada para insultar os doidos que esmolavam na rua:
- “Sá Tabaquinha, cadê Farinha Seca? Nanâ Pum Pum, tá procurando o rastro? Depois, aparecia grave e circunspecto, a pedir desculpas pela mal educação das crianças. Competia-nos correr da ira dos malucos, enquanto ele ia lá dentro, buscar uma esmola para eles.

Liminha fabricava os licores servidos por Corina nos dias de festa, atração até para desconhecidos, que davam uma passadinha para bebericar e comer dos quitutes da pensão. Nos festejos juninos, as duas grandes mesas se enchiam de manauê, canjica, cocadas de todo tipo, pés de moleque, beijus e outras guloseimas do cardápio junino, alem da profusão de licores de diversos sabores, alguns experimentais e insuportáveis como o de tomate e outros, como os de jenipapo e araçá, que tomávamos revirando os zoinhos. No São João, também era de lá de casa que saía o batalhão da Praça Barão de Santa Rosa para a tradicional guerra de buscapés que se passava a cem metros dali, na Ladeira de Roque Boca Preta. Era a turma da Praça contra a patuleia do Bonfim, ambas municiadas com sacas de pitus, cestos de limalha, bombas de breu e até apetrechos mais inofensivos como o traque “peido de velha” e o “dicuri doido”, usados para aumentar o furdunço. O maior feito de coragem era descer a ladeira e soltar os fogos cada vez mais perto do inimigo. Liminha, o destemido, uma vez conseguiu tocar fogo numa saca de pitus imprudentemente largada no pé da ladeira, sagrando-se o imbatível campeão daquela contenda.

Vejo agora, ao rememorar estes tempos, o quanto éramos felizes. Nós não éramos ricos, mas naquele tempo a pobreza digna trazia um prestígio considerável, de grande valor social. Morávamos muito bem e minha mãe, caprichosa, sempre sacrificou outros confortos para nos vestir condignamente, tendo como parâmetro a moda de Aracaju. Para minhas irmãs ela não regateava ao encomendar vestidos de cambraia bocada com fitilhos cor-de-rosa, sapatilhas de cetim, truces delicadas... e para nós, os meninos, casacos de frio com feche éclair, usados pelos cauboys americanos, calças Levis e camisas Ban Lom, comprados em Aracaju na loja “Dernier Cri” do conterrâneo Zé Rico, templo da moda na Rua João Pessoa, onde ela mantinha uma elegante caderneta de compras.
Uma vez Corina voltou de Aracaju com um chinelo Havaiano, azul celeste, que eu lhe encomendara “pelo amor de Deus” e que provocou a ira de Liminha: - - Filho meu não sai por ai com esta sandalhinha efeminada”. E eu só pude usá-la depois que toda a cidade já a usava.

Então, os momentos memoráveis são tantos... mas você quer saber de uma coisa? Os meus melhores momentos naquela casa foram quando, detardinha, sentado na soleira de ardósia da porta principal, eu lia os poemas de Acenso Ferreira, as aventuras de Pedro Malazarte e os amores da princesa Theodora com o príncipe Percival, as aventuras do guerreiro Carlos Magno no sertão do Cariri, a História da Mulher que Virou Cachorro, as pelejas do Cego Aderaldo, enquanto nas palmeiras da praça o canto das cigarras me embalava com o seu gemido cortante. Essa doce melancolia me fez poeta.

Jorge Carvalho - Quem é que tinha mais autoridade na sua família, era o seu pai ou a sua mãe?

Amaral Cavalcante – Meu pai era o chefe da família e disso não havia dúvida, mas ele não era excessivamente rígido. Minha mãe também exercia uma grande autoridade, mas o meu pai era quem dava a última palavra, quem encerrava o assunto e quem administrava as severas lapadas de cinturão em nosso lombo. Apanhei muito, mas vou logo dizendo que não me ficou nenhuma sequela disso. As surras de Liminha eram justas e corretivas, não havia no semblante dele nenhum laivo de prazer em nos bater. Para mim sempre foi muito simples: se eu merecesse apanhar, apanhava, e a vontade de assassiná-lo com chumbinho e ir-me embora de casa, não durava mais que quinze minutos. Na hora da surra eu ficava sem saber se chorava ou se aguentava solenemente a vergonha, depois descobri que era melhor chorar, senão ele dava mais lapadas. Corina, por sua vez, exercia a sua soberania com perspicácia e artimanhas, de modo que, ao final das contas, era a vontade dela que prevalecia. Quando enfezada, virava uma megera indomada e tanto fazia, tanto subvertia a paz doméstica que acabava atendida em sua doce vingança. Nesta parte, acho que tirei a ela.

Jorge Carvalho - Se você fosse descrever seu pai, qual a descrição que faria?

Amaral Cavalcante – Era um grande companheiro, um irmão mais velho. bonachão e solidário. O que meu pai mais gostava era de sair conosco para pegar caju no sítio dos amigos, tomar banho na represa de não sei quem, ou comer uma fatada na malhada de gente simples, a quem ele dedicava grande consideração. Geralmente, aos domingos, saíamos cedo à caminho das matas, carregando panelas e mochilas para trazer frutas. Ele na frente, assoviando, e nós atrás pegando catende de laço, fazendo apito com talos de taioba, desmanchado casa de cupim, baleando arapuás nos pés de velame. Uma cambada em festa! Minha mãe não tinha conosco a intimidade que ele tinha. Liminha era mais afetuoso, embora, nem ele nem Corina fossem dados a grandes demonstrações de afeto. Fomos, e hoje ainda somos, uma família sertaneja sem beijos melados nem grandes abraços.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, em 11 de agosto de 2013.

Benilde Vieira de Araújo


"Hoje quero fazer uma mega homenagem a um HOMEM - nosso avô BENILDE VIEIRA DE ARAUJO, o BVA, como era carinhosamente chamado pelos seus amigos, familiares e empregados (nos dias atuais, colaboradores).

Nasceu na cidade de Itabi – Se, em 23/11/1902, filho de família humilde de lavradores. Seu pai era português e a sua mãe, uma cabrocha sergipana, conhecida como Mãe Senhorinha. Estudou somente as primeiras letras, numa escola de sua cidade. Emigrou para o Rio de Janeiro aos 18 anos em busca de uma vida melhor. Dez anos se passaram. Retornou para Aracaju em 1930, casou-se em primeiras núpcias com Elisa Sobral, com quem teve uma filha - Arinda Araujo. Viuvo, casou-se com Emérita Mendonça, de raízes Itabaianenses, filha do Coronel Honório Mendonça e dona Benzinha. Teve com Emérita uma filha: Gicélia Mendonça de Araujo, mais tarde Gicélia de Araujo Torres, pelo casamento com Antônio Torres Júnior. Estabelecido na rua de Santa Rosa nº 149, onde instalou a Refinaria JASPE, ao lado de grandes nomes do comércio sergipano, como: Leovegildo Correa, Cantídio Lino Dias, Antônio Pádua Melo. os irmãos Antônio e José Ferreira Lima e os igualmente irmãos Antônio e Américo proprietários do Moinho Garça. Proprietário de salinas e viveiros. Dedicava-se não só à atividade de industrializar o sal que produzia, mas de comprar de outros produtores para, após o processo de moagem e refinação, distribuir no comércio local e exportar. Aglutinador, bonachão, popular, sem preconceitos, amigo. A escola da vida foi a sua grande mestra. Proseador amava a literatura de cordel, que muito incentivou. Chamava seus empregados por apelidos pitorescos: Salomão, Senador, Lord, dentre outros. Às sextas-feiras, reunia todos para fazer o pagamento semanal aos seus operários e para lavar o armazém. Todos juntos, chamava cada um, fazia o pagamento e perguntava para os casados – “Seu filho está estudando?” E aos solteiros – “como estão seus pais?” Presenciei todos esses momentos. Meu velho e amigo, o qual nos deu suporte, nas situações mais graves da nossa vida. Tinha o sonho de ver sua filha Gicélia diplomada. Realmente ela se tornou Bacharel em Direito. Militou no Direito, tornando-se mais tarde Juíza, tornando realidade o sonho do seu pai. BVA batia no peito e exclamava: “A MAIOR FORMATURA DO MUNDO É A DE BACHAREL EM DIREITO". Deixou-nos deste mundo físico em 12/12/1978. Restaram seus ensinamentos e seu legado de virtudes a seguir. Meu amigo, meu velho, nosso porto! Onde está? Na memória e no coração dos seus pósteros. Receba, com carinho, meu abraço bem apertado, neste dia dos pais, O seu neto João Redondo, Beto Rockfeler, como o senhor me chamava tão carinhosamente.

Ângelo Maurício de Araujo Torres.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, em 11 de agosto de 2013.

sábado, 10 de agosto de 2013

A Guerra e o Amor no Mar de Sergipe

O navio Baependy.

Infonet - Blog Luíz A. Barreto - 07/10/2011

A Guerra e o Amor no Mar de Sergipe.
À memória de Alaíde Lemos Lins Cavalcanti e Francisco Alves Pereira.
Por Luíz Antônio Barreto

O mar sergipano, que recebe o contributo das águas que descem em rios que são da história – São Francisco, Japaratuba, Sergipe, Cotinguiba, Vaza-barrís, Piaui e Real - foram tinturadas de sangue, no fatídico agosto de 1942. Muitos mortos, feridos, náufragos dos torpedeamentos alemão, vítimas de uma agressão sem precedentes, que parece ter contado com a colaboração de súditos estrangeiros e de simpatizantes do nipo-nazi-facismo. As barras dos rios, antes conhecidas pelos naufrágios de barcos famosos, que sustetavam os planos de colonização do Brasil, como o Grifo Dourado, do capitalista Gabriel Soares de Souza, arrebentado pelas ondas na foz do rio Vaza-barrís, se transformaram em palco dantesco, de destruição, vitimando pessoas inocentes, que cumpriam viagens pela costa nordestina. Crianças, adultos, famílias inteiras, soldados, todos desfilaram suas dores, suas agonias.

AÇÃO DE GUERRA

A II Guerra Mundial, iniciada, por motivos obscuros, na distante Europa, em 1939, provocava manifestações em grande parte do mundo. O Brasil ficava neutro, embora cultivasse amizades com países do Eixo e outros participantes do conflito. A neutralidade brasileira era fragilmente garantida pelos pequenos navios da Marinha de Guerra, que patrulhavam as costas. Na verdade, as autoridades do Brasil confiavam no respeito aos tratados internacionais e aos princípios que regiam o relacionamento entre as Nações. Os serviços de informações da guerra, em meio a boatos, apontava para a tática alemã de afundar navios e minar as saídas, principalmente na costa do nordeste e especificamente nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro. Para isto o submarino U-507 partiu de Bordéus, na França, em princípios de junho de 1942, comandado pelo Capitão de Corveta Harro Schacht, alemão nascido em Hamburgo. O plano foi abortado, tendo os estrategistas da guerra preferido esperar a vez de atacar, em segurança, as posições brasileiras.

Ainda no dia 15 de agosto de 1942, já ao fim da tarde, o periscópio do submarino avistou um navio, e logo deu início a armação traiçoeira, esperando o momento propício ao ataque. Aos 12 minutos do dia 16 de agosto de 1942, o navio BAEPENDY foi sacudido, violentamente, pelo fogo do Submarino alemão U-507. O sucesso germânico foi total. O submarino permaneceu na zona do ataque, a espera de outros barcos que estavam em viagem na área. Ainda na mesma madrugada de 16 de agosto, o navio ARARAQUARA foi avistado e torpedeado, inflando o sucesso do capitão Harro Schacht na guerra. De pouco adiantava aos navios brasileiros navegar com as luzes acesas, indicando a neutralidade do País, cuja bandeira tremulava como identificação. Fechando o dia 16 foi torpedeado o navio ANIBAL BENÉVOLO. No dia seguinte, 17, as 15:49 o navio atingido era o ITAGIBA, seguindo-se, as 18 horas o ARARÁ e, as 23:37 um cargueiro, sem identificação, mas que pareceu ser o S.S. CLYMER, pois uma sua baleeira apareceu na costa da Barra dos Coqueiros. No dia 18, para corrigir uma avaria, o U-507 emergiu e foi atingido, sem conseqüências, por um avião Consolidated, dos Estados Unidos. No dia 19, encerrando suas agressões, o submarino alemão torpedeou o cargueiro, a vela, JACIRA. No dia 23 de agosto retornou à base, não sem antes liquidar com fogo de artilharia e 4 torpedos o navio mercante HAMAREN, de bandeira sueca.

O torpedeamento do S.S. CLYMER nas águas sergipanas parece ter dado o mote para que circulasse a versão de que as agressões aos navios brasileiros partiram dos Estados Unidos, para forçar a que o Brasil deixasse de ser neutro e entrasse na guerra. A tese prosperou, na medida em que alguns súditos estrangeiros passavam o constrangimento da suspeição, fossem presos e revistados e tivessem suas casas e bens atingidos pela violência produzida pela revolta popular, que desde o dia 16 de agosto tomou as ruas de Aracaju e de Estância, principalmente. Sergipe viveu, então, entre dois caminhos: o da dor e do sofrimento pelos mortos e feridos, que exigia socorro e solidariedade, e a revolta pela traição. Era tempo de prosperar toda a boataria, suspeita, não faltando injustiças cometidas contra pessoas de estrangeiros e suas famílias. Há quem diga, ainda hoje, por exemplo, que o submarino alemão tinha comunicação com o italiano Nicola Mandarino,proprietário de uma fazenda cortada pelo rio Vaza-barrís.

Em meio aos fatos, levantaram-se vozes lúcidas, emocionadas, condenando o ato de guerra e exigindo das autoridades brasileiras o fim da neutralidade e a entrada no conflito, que se alastrava. Em Estância, cenário dos horrores, Renato Cantidiano, no jornal A Razão, clonclamava as massas esclarecidas para o protesto contra a agressão alemã, que feria todos os fóruns de civilidade. O mote das ruas, que alcançava alto volume em Aracaju, era a quebra da neutralidade, a reação brasileira, a declaração de guerra contra o Eixo. Rapazes dispostos, interrompiam seus estudos e ofereciam suas forças para honrar a pátria e a terra feridas. Era preciso, no entanto, conter os excessos e impedir, por exemplo, que pessoas sem escrúpulos chegassem a cortar os dedos dos náufragos, para tomar posse de anéis, alianças, expropiando o que restou da tragédia.

A AJUDA QUE VEM DO AR

O Aero Clube de Sergipe, fundado em 1939, e apoiado pelo Governo da Intendência Federal e por setores empresariais, mantinham seus pequenos aviões, destinados a aulas de pilotagem e as tarefas extraordinárias, que pudessem surgir em Sergipe. Por isto o Aero Clube utilizava uma de suas aeronaves para fazer patrulha, entre Alagoas e Bahia, cobrindo integralmente a costa sergipana. Foi cumprindo uma rotina, que no dia 16 de agosto de 1942 o pequeno avião do Aero Clube, pilotado por Walter Baptista e Lourival Bonfim, mais tarde engenheiro e industrial, médico e cientista, avistou um homem, fazendo esforço para sair do mar. Era na altura do Mangue Seco, terras da Bahia. Descendo para oferecer socorro ao náufrago, os dois jovens pilotos tomaram conhecimento do ocorrido e identificado a vítima como um cozinheiro de um dos navios torpedeados, transferiram-na para o Crasto, no lado praieiro sergipano.

Foram os pilotos do Aero Clube que trouxeram à sua base, em Aracaju, a notícia dos fatos, informando ao Interventor Federal, que por sua vez comunicou ao Governo Central, no Rio de Janeiro, desencadeando uma mobilização que ganhou as praças e ruas do Brasil, gritando em uníssono para que as autoridades brasileiras declarassem guerra aos nazistas e seus colaboradores. Aracaju comovia-se com o drama das famílias das vítimas dos torpedeamentos. Casas de família recebiam doentes, abrigavam parentes, socorriam a todos, no transe difícil da tragédia inusitada. Na mesma proporção da solidariedade, surgiam os protestos, os atos de vandalismo, a demonstração da antipatia pelos estrangeiros residentes em Sergipe, alguns dos quais influentes empresários.

Dias e meses de um trauma que nunca sarou. O Brasil desceu do muro e negociou sua entrada na guerra, organizando, mais adiante, a Força Expedicionária Brasileira – FEB, que lutou nos campos de batalha da Italia e honrou a farda com o patriotismo que dava resposta à agressão. Vários sergipanos, incluindo mulheres que serviram como enfermeiras, a exemplo de Lealda Campos, vestiram o uniforme da FEB, com orgulho e patriotismo, como a vingar os torpedeamentos covardes que vitimam centenas de pessoas e deixaram na alma sergipana um sentimento de tristeza e de amargura, que jamais se apagou da memória sergipana.

O militar alemão Harro Schacht tinha planos de voltar à costa sergipana. Em 8 de janeiro de 1943, à altura das Guianas, na sua viagem de regresso ao Brasil, torpedeou o navio inglês YORKWOOD. No dia 9 do mesmo mês e ano, na altura do Pará, bombas de profundidade encerraram a carreira do Capitão, então com 35 anos e destroçaram o submarino U-507. O militar recebeu, então, do Governo da Alemanha promoção pós morte, e a homenagem da Ritter Kreuz dês Eisernem Kreuzes, pelos seus atos considerados de heroísmo pelo seu País.

OS NÁUFRAGOS

Por toda a extensão da praia sergipana apareceram os cadáveres e os restos dos navios torpedeados. A costa do Saco, da Caueira, em Estância, do Mosqueiro, da Barra dos Coqueiros, ilha em frente a Aracaju, receberam os corpos e restos de corpos, juntamente com escaleres, baleeiras e tábuas, resultado da operação de guerra alemã. A grande mobilização social visava condenar, nas ruas, a agressão surpreendente e mortal do submarino U-507, apupando os colaboradores, apontados como responsáveis pelas informações sobre os navios que cumpriam linhas regulares na costa brasileira do nordeste. No mais, era acolher os náufragos, salvar restos de vida, sepultar os mortos, cobrir com a solidariedade a dor, o luto, o sofrimento.

Alguns estrangeiros, suspeitos de colaboração, responderam a Inquéritos, sob a responsabilidade do então Chefe de Polícia, o magistrado Enock Santiago. Casas, móveis e outros pertences foram retirados das casas dos estrangeiros, jogados na rua, queimados, quebrados, como uma vingança desesperada, no transe agressivo que mutilou a sociedade sergipana. Foi de Sergipe que saiu o grito de revolta, que ecoou por todo o Brasil, mobilizando nas capitais do País as forças esclarecidas, os jovens dos dois sexos, os estudantes, todos os patriotas inconformados com a traiçoeira ação de guerra dos alemães e seus parceiros na guerra.

Parte dos mortos foi sepultada na própria praia, pelo movimento das marés ou nos areais entre a foz do rio Sergipe e a foz do rio Vaza-barrís, onde foi feito o Cemitério dos Náufragos. Outros foram sepultados, como se fossem todos indigentes, sem parentes, no Cemitério dos Cambuís, mais tarde Cemitério da Cruz Vermelha, vizinho ao Cemitério Israelita, na zona oeste da capital sergipana. Entre os mortos, as famílias identificavam seus entes queridos, como o Capitão Aduaneiro Antonio Fernandes Neto, casado na família Matos Teles, que viajava no ANIBAL BENÉVOLO e deixou duas filhas: Ilma Teles Fernandes e Maria Amélia Teles Fernandes de Luca.

Em 21 de novembro de 1980, com a presença do General João Figueiredo, Presidente da República, o Governo do Estado de Sergipe (Augusto Franco, governador) inaugurou com o nome de Rodovia dos Náufragos a estrada, asfaltada, entre os bairros de Atalaia e Mosqueiro. Vários sobreviventes dos torpedeamentos no Brasil, sergipanos de origem, foram homenageados, dentre eles: Francisco Avelino dos Santos, nascido no povoado Areias, município de Santo Amaro das Brotas, tripulante (Moço de Convés) do navio mercante COMANDANTE LIRA, torpedeado na costa brasileira, entre os Estados de Pernambuco e Ceará; Diógenes Lima Carvalho, natural de Itabaiana, maquinista do navio auxiliar VITAL DE OLIVEIRA, torpedeado próximo a Cabo Frio, no Rio de Janeiro.

UMA HISTÓRIA DE AMOR

No bojo da tragédia, uma história de amor marcou a vida de Alaíde Lemos Lins Cavalcanti, passageira do ARARAQUARA, que viajava com seu marido, o Sub-Tenente Antonio Lins Cavalcanti e com três filhos. Salvando-se graças a uma grande bolha de ar, formada na baleeira emborcada e juntamente com alguns companheiros chegou a praia de Estância, vindo depois para Aracaju, sendo medicada e tomando, como hóspede, o Rubina Hotel, situado na praça Fausto Cardoso, no centro de Aracaju (onde hoje está o Palácio Tobias Barreto, sede do Tribunal de Justiça do Estado. Posteriormente foi abrigada na casa do Dr. Alfredo Aranha. Além do esposo e dos seus três filhos, Alaíde Lemos Lins Cavalcanti perdeu seu irmão, o Sargento Valdemar Figueiredo Lemos.

Francisco Alves Pereira, cearense de Baturité, Sub-Tenente do Exército, esperava em Campina Grande a chegada do ARARAQUARA, no qual viajavam sua mulher – Amélia Figueiredo Pereira - e seus três filhos. Ao saber da notícia dos torpedeamentos, desloca-se para o Recife e depois para Aracaju, onde fica sabendo, justamente pelo depoimento de Alaíde Lemos Lins Cavalcanti, que todos estavam mortos. Ele retorna a Recife, alista-se como voluntário para lutar na guerra, vai ao front e, quando retorna, reencontra Alaíde em 1945, e logo em 1º de janeiro de 1946 casa-se com ela, vindo morar em Aracaju a partir de 1950, definitivamente.

Firmando, provavelmente, um pacto de não ter filhos, Alaíde, que passou a assinar Alaíde Lemos Pereira e Francisco Alves Pereira selaram um compromisso até a morte. Vivendo em Aracaju, com casa na Rua Terêncio Sampaio, 80, no bairro Salgado Filho, ele morreu, em 13 de outubro de 1983, no Hospital São Lucas, aos 76 anos, vitimado por Broncopneumonia, AVC e outras doenças, sendo sepultado no Cemitério de Santa Isabel, no jazigo comprado por ela, em 17 de outubro do mesmo ano. Ela, das prendas do lar, enviuvou e sobreviveu, sem que sua vida fosse acompanhada mais do que pelos vizinhos. Ele, militar reformado como Capitão, ocupou cargos públicos na antiga SUNAB. Retraídos, de certo modo tristes, viveram em Aracaju por mais de trinta anos, participaram, e foram homenageados, em 1980, quando da inauguração da Rodovia dos Náufragos e embora evitassem falar sobre a história de amor que sufocava a tragédia, pareciam serenos no solidário amor que os uniu, nos tempos difíceis da guerra.

Texto: reproduzido do site infonet.com.br/luisantoniobarreto
Foto: reproduzida do site brasilmergulho.com.br

Postagem originária da página Facebook/MTéSERGIPE, em 10 de agosto de 2013.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Aracaju: Rua da Frente e Flor


Publicado no Portal Infonet, em 17/03/2012.

Aracaju: Rua da Frente e Flor.
Por Araripe Coutinho.

Abraçado à balaustrada da rua da frente, vejo desmoronar meu sonho de infância, pré-adolescente recém chegado na cidade pela rodoviária Luiz Garcia, em 79, quando, indo morar na rua Santo Amaro, 59, num palacete que ia até a rua Capela e chorava querendo decifrar e já os enigmas do relógio da catedral, que de meia em meia hora tocava. Tudo era colonial, cristaleira de chipandelle, palmeiras de folhas recortadas nunca vistas pelas beira do RJ e um piso secular que desenhava nos ladrilhos a história de minha tia Donana Araújo. Acrescido de muita história, fui para o colégio Lourival Baptista, depois Jackson de Figueiredo e depois o famoso GA – Ginásio de Aplicação da UFS.

Com o passar do tempo fui vendo o meu sonho desmoronar. Eu que tanto amei o centro de Aracaju, ainda peguei o Cine Vitória, o Aracaju e o Palace, sem falar do Rio Branco que era uma história à parte. Pude me perder, como tantos, no cabaré de Maria Augusta, uma espécie de pousada entre o Maria Feliciana e o bar do meio e namorar um guarda do Banorte, um banco no calçadão, que me deu tantas alegrias.

Apaixonado por Aracaju, fui me embrenhando pelos personagens da cidade, e lá se vão incontáveis nomes como J.Inacio, Muirlo Mellins, Junot Silveira que escreveu a crônica mais bonita que já li sobre a cidade, dona Celina Rollemberg, dona Marocas Caldas, dona Quinha, dona Acácia Cruz e Maria Ezequiel e monsenhor Claudionor Fontes, dom Luciano Duarte, Clara Angélica Porto que me convidou para escrever no “O Que” de Luiz Eduardo Costa. Depois fui descobrir Nubia Marques, Carmelita Fontes e Giselda Moraes em “Verde Outono”, depois veio o convite de Antonio Garcia Filho para entrar como emérito no Mac da Academia Sergipana de Letras. E depois veio a minha irmã querida Amorosa, Paulo Lobo, Joésia Ramos, Lânia Duarte, Pedrito Barreto, Ester Jacob e Vieira Neto. Foram vindo depois os irmãos João de Barros, Augustinho Maynard, Cristina Souza, Roberto Batista, João Barreto Neto, meu eterno gente gentíssima ,e Karmen Mesquita e Amilton Andrade. Depois na UFS, veio Clodoaldo Alencar, Aloísio Campos, Gilson Cajueiro de Holanda, professor José Paulino da Silva, José Roberto Torres Gomes,Cezar Britto, Pafôncio Barros Neto, Lisboa, John Kennedy Azevedo by colunista social , Alberto Falk e Eugênia Ribeiro, Artur , Wagner e Marcelo e ainda Carlos Ayres Britto pelos corredores escuros das didáticas com Fernando Lins dando aulas magistrais e eu escondido ouvindo atrás da porta e Conceição Ouro Reis, Lígia Pina, José Jefferson Euzébio Ribeiro, Laranjeiras, Caetano Quaranta, Arinaldo Silva Andrade, Magaly Santos Pinto, Selma Duarte, Euza Missano, Iolanda Guimarães, Ana de Cássia Martins, Claudio e Celio Nunes, Antonio Francisco de Jesus, nosso saracura, Rui Pinheiro, Augusto Cesar Lobão Moreira, Padre Iranilton, Jaci Rosa Cruz, Adriana Hagenbeck, Sayonara Viana,Suzana Prado de Oliveira, Clemildes Maria Barbosa, Iara Mendes Freire, Augusto Redin e tantos mestres. Depois veio Fátima Ribeiro, a mais amada filha de José da Silva Ribeiro, com ela aprendi a chorar em silêncio e ter um colo pra morrer no Portão do Mar, palco de tantos risos e jantares. Fui descobrir a grandeza de Luciano Barreto, o humor de Ismar Barreto, Lindolfo Amaral, Jorge Lins, Zé Peixe e a poesia do meu eterno instante amarelo Amaral Cavalcante e Hunald Alencar.

Na comunicação fui encontrar a força e maestria de Albano Franco, sempre presente em minha vida, Antonio Carlos Franco e Walter, além da gloriosa Tereza Franco, símbolo da coragem e da força feminina, Hugo Costa, Roberto Batista e Margarete Abreu Mendes,minha madrinha, além dos meus médicos Fábio Moraes, Joel Carvalhal, Fedro Portugal, Mario Vidal, Jeronimo Silva, Fabio Ribas e meus colegas de GA, Fabiano Oliveira e Waldoilson Leite. E meus queridos Laurinho Menezes, Gustavo Faro, Hulda e Jair Araujo e Laércio Oliveira e Edivan e Eduardo Amorim.

Amordaçado agora, abraço a balaustrada da rua da frente, e vejo o meu sonho de menino ainda desvirginar minha esperança última. As casas que amava viraram estacionamentos, o prédio da Assembléia Legislativa é uma caixa de pandora, o Trópicos Hotel de Rubens Chaves virou hospital dos Rins, a casa dos Leite virou Caixa Econômica e as da avenida Barão de Maruim, foram sumindo, aos poucos, a olhos nus.


Avanço prolongadamente pela rua da frente, onde amparo meu último andor de Bom Jesus dos Navegantes, de seu Djalma, e lembro de Rosa Faria me recebendo todos os domingos para o café com cuscuz em xícara assinada por ela. Aos domingos líamos o “Arte e Literatura” de José Abud e eu já metido a estrela, brilhava na Gazeta de Sergipe em poemas citados por Clodoaldo Alencar de “Caleidoscópio”.

Ai, como eu morri de lá pra cá. E tanto! Como renasci das cinzas e nem sei como estou ainda vivo! Fui coroinha da catedral, fui sacristão, fui seminarista, fazia hóstias – imagine! - lá em cima perto do órgão de tubo, doação do Barão de Maruim. Ainda tem minha letra no livro dos proclamas e dos batistérios!

Assim, abraçado à balaustrada da rua da frente, sob o rio Sergipe, mirando as ondas do mar de Paulo Miguel, vou arrastando o meu andor de sangue, rosas e alegrias pela cidade esvaziada de sentidos e com todos eles. Vago rasteiramente pelas mangabas do mercado e vejo Magnólia ainda vendendo meias e calcinhas – não pode haver maior riqueza! Solto agora para a veneziana do meu encosto último e fui morar exatamente de frente para o rio, na General Calazans, do bairro Industrial, a Orlinha que Dedinha, no dizer carinhoso de Dilma, fez.

Assim, em lágrimas, suprimido de qualquer arrependimento , vou debruçado pela balaustrada da rua da frente, onde mora Ilma Fontes e onde o carro do tempo, foi conduzido no botão de bananeira de J.Inacio, Joubert Moraes, Tintiliano, Lucio Telles,Wellington, Lineu Lins, o mago da fotografia, Zeus, Caã , Eurico Luiz, Adauto, Hortência, Ana Medina, Luiz Antonio Barreto, Eugenio Nascimento, Cauê, Marcos Cardoso, Ivan para sempre Valença,Acácia Trindade, Denisson Santana, Gilvan Manoel, Eugênio Nascimento,Marcio Lyncoln, Jackson Barreto, Max Augusto, minha musa Sacuntala Guimarães, Thais Bezerra, Cesar Gama, Yara Belchior, Pires Winni, Mario Cabral, Ariosvaldo Figueiredo,Ivo Adnil, Zenóbio Alfano, Gelio Albuquerque, Maria Nely Santos, João Oliva, Terezinha Oliva e Beto Pezão e Lu Spinelli, Dorinha Teixeira, Benjamin Teixeira, Anderson Kundalê, Mucio Miranda,Iracema Maynard e Paulo e Simone Gusmão, Luiz Eduardo Oliva, Clovis Barbosa, Laete Fraga, Oliveira Jr, Claudio Regis, Jaime da Line e Stenio Andrade e todos os que passei a amar neste tratado de amoraju.

Como se não bastassem minhas lágrimas , abraço-me à balaustrada da rua da frente e espero a primeira cesta de beiju e mal casado passar gritando a única frase da minha vida: quem quer mal casado, quem quer beiju?

Foto: reproduzida do Facebook/Aracaju Antiga Minha Terra Serigy.
Texto reproduzido do site: infonet.com.br/araripe

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, em 7 de agosto de 2013.