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quinta-feira, 13 de março de 2014

Vida social na década de 60

Foto reproduzida do Blog Antiguidade Coleções e Artes de Waldemar Neto.

Vida social na década de 60

Quando eu era adolescente existiam costumes bem diferentes na minha cidade.

A primeira sessão do Cinema Palace as 14 h do domingo era o máximo entre os jovens. Ali as paqueras aconteciam e os namoros também. Faltar a uma sessão do cinema Palace era um sacrilégio.

Quando eu aprontava alguma durante a semana e o castigo era não ir à primeira sessão do Palace, era o mesmo que dizer que o mundo ia se acabar. Como todo adolescente, eu dramatizava e ficava para morrer...

As moças passavam a semana esperando a chegada do domingo para poder ver os rapazes que ficavam no saguão esperando a chegada delas. Tínhamos que entrar no cinema através desse saguão e fatalmente acontecia um desfile, embora que involuntário, de todas as moças que iam ao cinema naquele dia.

Após a sessão do cinema, acontecia a matinê dançante da Associação Atlética de Sergipe, onde rapazes e moças se reuniam para dançar até as 18 h. Ali também, aconteciam as paqueras e os namoros.

O salão era bem iluminado, as moças ficavam sentadas às mesas e os rapazes, em blocos, ficavam em pé na borda do salão. Reconheço que era preciso coragem para um rapaz atravessar o salão e tirar uma moça para dançar. Na minha família era proibido, a qualquer uma de nós, recusarmos uma dança a um rapaz. Querendo ou não, tínhamos que levantar e dar, pelo menos, uma volta no salão com o rapaz que por acaso se aventurasse a nos tirar para dançar.

Ah! E para encerrar o domingo com chave de ouro, à noite tinha a retreta da Praça Fausto Cardoso. Era um desfilar sem fim de moças para lá e para cá. Saíamos andando da Praça Fausto Cardoso e íamos pela Rua João Pessoa, até a esquina da Rua São Cristóvão, olhando as vitrines das lojas, que os comerciantes as arrumavam especialmente com esse fim. Eu, particularmente, estava mais interessada em olhar os rapazes do que ver vitrines. Se me perguntassem o que vi de bonito nas vitrines pouco saberia dizer. Mas, cumpria aquele ritual todos os domingos. Fico pensando, se todo mundo sentia o mesmo que eu... Porque se sentiam, coitados dos comerciantes!

Tudo, em Aracaju, tinha hora para começar e para terminar. Às 21h acabava a retreta e todos iam para casa para ficar a espera de mais um domingo para começar tudo de novo.

Olhando para trás, vejo que eram programas bobos, mas que faziam a nossa alegria.

Sei de namoros que começaram aí nesses lugares, transformando-se em noivados e depois em casamentos que perduram até os dias de hoje. Como, por exemplo, posso citar o de meu irmão Guerrinha com Tetê. Foi numa retreta da Praça Fausto Cardoso que ele me mostrou Tetê e me disse que ia namorá-la. Ela era uma das moças mais bonitas de Aracaju. E eu, romântica toda, dei a maior força e fiquei torcendo por eles.

Nesses lugares também foram iniciadas pequenas amizades, que com o passar do tempo, transformaram-se em grandes amizades. Amizades essas que foram capazes de atravessar anos a fio sem sofrer um arranhão sequer na confiança conquistada.

Nessa época aconteciam festas tradicionais que eram realizadas todos os anos: o baile das News Faces e o baile das Debutantes. Bailes de gala que aconteciam nos salões de festa do Iate Clube de Aracaju ou da Associação Atlética de Sergipe.

O baile das News Faces era uma pré-apresentação das moças que iam adentrar na sociedade aracajuana. Eu participei de um desses bailes... Fui uma New Face... Interessante esse costume... Naquela época todo mundo conhecia todo mundo, mas as moças tinham que ser formalmente apresentadas à sociedade. Pensando bem, era muito estranho esse costume.

O baile que participei foi na Associação Atlética de Sergipe. Tivemos que cumprir um ritual de ensaios chatos e cansativos. Ainda lembro-me do meu vestido: era de organdi cor de rosa (a cor que as News Faces podiam vestir) todo bordado em caminho sem fim com fitas e com pérolas. Um luxo! Mas que vestidinho incômodo... O organdi me espetou a noite toda e as pérolas na hora que sentava... Um suplício que tive de suportar a noite toda. Também foi a única vez que vesti aquele vestido.

As moças abriam o baile dançando a primeira valsa com os pais. Ah! Foi o momento que mais gostei... Papai era um pé de valsa maravilhoso e eu adorava dançar com ele. Éramos um par perfeito de dançarinos, saímos deslizando pelo salão como se tivéssemos asas nos pés e eu me sentia nas nuvens toda vez que dançávamos. Também, ele foi meu professor de dança e tínhamos um ritmo igual. E sei que papai também se sentia assim, pois certa feita, anos mais tarde, ele me disse que eu era leve como uma pluma e que gostava de dançar comigo. Oh! Papai... Que saudade!
Dancei a segunda valsa com meu herói... Meu irmão Guerrinha que é um excelente dançarino também. E a partir daí, as News Faces podiam dançar com todos os que as tirassem para dançar.

Já o baile das Debutantes, não quis mais participar... Para mim bastou o suplicio do baile das News Faces, era um baile mais pomposo, mais luxuoso e mais cheio de frescuras. Até catalogo com fotos das moças que participavam era confeccionado e distribuído na hora do baile. Agradeço a Deus o fato de meus pais terem aceitado a minha decisão de não querer participar.

Tinham também as festas de quinze anos nas casas das famílias. As moças que não participavam dos bailes de apresentação, geralmente, realizavam essas festas particulares. Duas me marcaram e lembro muito bem delas... A de Gilza Calumbi, pois fui uma das quatorze moças que dançaram a valsa com ela. Engraçado... Não consigo lembrar quem foi meu par. Todas estavam de vestidos cor de rosa... De novo! Eita corzinha mais sem expressão. Não sei quem inventou que a cor de rosa era a cor oficial das moças de Aracaju.

Mas, a que mais me marcou foi a festa de quinze anos de Leda Ramalho, no dia 04 de dezembro de 1965. Foi lá que meu namoro com Tadeu começou... Namoro esse que se transformou em noivado e depois em casamento e que me rendeu dois grandes tesouros, meus filhos Vinicius e Breno.

E os desfiles de modas? Participei de um desfile da Fabrica de Tecidos Confiança que foi realizado no salão de festas do Iate Clube de Aracaju. Desfilei com dois modelos: um era branco com listas fininhas azuis e com um peitilho bordado em vermelho e o outro era de alças, a parte de cima branca e a saia de babados coloridos em cores bem fortes. Foi uma experiência e como tal valeu, mas não gostei de enfrentar a passarela com todo mundo me olhando e se encerrou aí a minha vida de manequim.

Uma coisa que não posso deixar de falar: nas festas do Iate era terminantemente proibido a uma moça chegar à balaustrada do clube que dá para o rio Sergipe. O nosso limite eram as portas envidraçadas que davam para as varandas. Mesmo que estivéssemos morrendo de calor, tínhamos de ficar no salão, pois moça de família não podia ir à balaustrada. É... Tempos estranhos aqueles... Fico me perguntando que mal haveria em uma moça chegar à balaustrada para sentir a brisa do vento no rosto? Mas, naquela época era um costume e os costumes eram feitos para serem respeitados.

Quero abrir aqui um parêntesis para falar de um costume da época. O laquê. Meu Deus, que coisa mais horrorosa. Quando participávamos de qualquer evento de gala e íamos aos salões de beleza para arrumar os cabelos, os profissionais faziam uns penteados rebuscados e enchiam a nossa cabeça de laquê. Parecia uma cola líquida com um cheiro forte e que dava um trabalho enorme para tirar no outro dia. Coitados dos rapazes que dançavam conosco, tinham que sentir aquele cheiro forte. Não sei como não ficavam embriagados. E nós ficávamos com os cabelos parecidos com os cabelos dos manequins de vitrine, duros... Que costume mais besta aquele... Ficávamos parecendo que estávamos com umas couraças nas cabeças. Eu, particularmente, detestava, mas não podia fazer nada, pois naquela época essas coisas eram decididas por minha mãe e eu tinha de aceitar, achar bom e ainda colocar um sorriso no rosto. Legal, isso não? Mesmo que estivesse me sentindo um astronauta em pleno baile. Mas, justiça seja feita, das mães da época, minha mãe era a mais compreensiva e mais amiga das filhas do que muitas que conheci e conheço.

Confesso que para mim, uma aquariana legítima, amante da liberdade e da independência, foi bem difícil viver naquela época. Mas, ao fazer o balanço de perdas e ganhos, vi que meu saldo de ganhos foi positivo e o das perdas negativo.

O legal disso tudo, é que, hoje, ao escrever essa crônica dei muita risada sozinha, lembrando desse tempo que vivi e que adorei tê-lo vivido.

Tudo isso aconteceu na década de 60... Os nossos anos dourados!

Ah! Que saudade daquele tempo. Um tempo de grandes transformações e fomos co-participantes dessas transformações. Cobaias de um novo tempo.

Algum dia, ainda, escreverei sobre essas transformações.

Aracaju, 09 de novembro de 2008.

Fernanda.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGPE, de 28 de dezembro de 2011.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Feirinhas de Natal

Foto: acervo Jaime Gomes Junior

Feirinhas de Natal
Por Fernanda Cabral Guerra.

Desde que me entendo por gente, que as festas natalinas em Aracaju eram comemoradas no Parque Teófilo Dantas, mais conhecido como o parque da Catedral. A Prefeitura se encarregava da decoração com enfeites natalinos e com a iluminação. O parque ficava feericamente iluminado, conferindo-lhe uma beleza deslumbrante. Era uma beleza tão aguda, tão espantosa que emprestava uma suntuosidade perturbadora às árvores cobertas de luzes coloridas.

Era isso que havia de admirável nas feirinhas de Natal – era um desfile de humanidade, como se uma espécie de democracia brotasse entre as várias classes sociais.

O que me aquecia a alma era justamente essa multidão de pessoas, todas amontoadas, todas se encostando de leve, uma massa de corpos em busca de calor, proximidade e refúgio uns nos outros. A multidão era formada por pessoas de todas as raças e cores, de todas as classes sociais, tanto assim que homens de ternos elegantes trocavam pilhérias com os menos afortunados, homens de sapatos furados.

As famílias mais tradicionais tinham um banco com o nome da família gravado nele. Lembro do banco da nossa família que tinha pintado nele em letras grandes: Família Cabral. E me perguntava... E os menos afortunados, sentam aonde?

Mas o que me encantava era a profusão de cores. Uma explosão de verde, amarelo, vermelho, azul, lilás, rosa... Um verdadeiro arco-íris compondo assim os matizes formados pelas lâmpadas coloridas que enfeitavam as árvores, pelas roupas alegres das senhoras e das crianças e pelas centenas de balões que os vendedores vendiam.

Porém, para a criançada o ponto alto dessas feirinhas era o Carrossel de Tobias com seus cavalinhos pretos, brancos e marrons. Tobias era um boneco negro, em tamanho natural que ficava no centro do carrossel. Usava um chapéu, e se não me falha a memória, segurava em uma das mãos um caneco de chopp. Quando o carrossel estava para começar sua corrida desabalada, o homem que o manobrava apertava um botão e um apito estridente se ouvia no parque inteiro.

Eu adorava andar nos cavalinhos brancos. Então me sentia a própria mocinha de filme de faroeste. A minha imaginação fértil criava uma porção de perigos e sempre aparecia um mocinho para me salvar daqueles perigos imaginários. Que delícia era ser criança!

Por trás do carrossel, ficavam as barraquinhas de roletas, de jogos de argolas, enfim dos jogos proibidos para a criançada, pois eram jogos em que entrava dinheiro nas apostas.

Do outro lado da Catedral, ficava a roda gigante. Também muito disputada pela criançada. Como era gostoso quando a roda girava e o banco onde estava sentada ficava parado no alto. Era como se quase pudesse tocar o céu com as mãos. As nuvens ficavam pertinho e nas nuvens me sentia como se estivesse no colo de Deus.

Então, eu sonhava... Os sonhos são como vento, você os sente, mas não sabe de onde eles vieram e nem para onde vão. Eles inspiram o poeta, animam o escritor, arrebatam o estudante, abrem a inteligência do cientista, dão ousadia ao líder. Eles nascem como flores nos terrenos da inteligência e crescem nos vales secretos da mente humana, um lugar que poucos exploram e compreendem.

Não posso deixar de citar o cachorro quente de “Seu” João. Era feito de pão de sal com um molho onde entrava tudo, menos salsicha. Mesmo assim era disputadíssimo o ano inteiro. E ele colocava por cima alface cortada bem fininha. Nossa! Ainda lembro-me do cheiro e do gosto.

Ao terminarem os festejos natalinos, o parque voltava a ser o que era antes: apenas uma praça com árvores. Ele despia a beleza natalina que ficava guardada esperando por um novo Natal, onde a crença das crianças em Papai Noel seria renovada.

Aracaju, 02 de março de 2009.

Texto reproduzido de e-mail de Fernanda Cabral.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, em 17 de setembro de 2013.

sábado, 14 de abril de 2012

A Balsa


Foto: arquivo Fernanda Cabral.

Era um Pontiac (carro da G.M.), ano 1948, hidramático, ou seja, tinha uma caixa de marcha automática.
Só tinha dois pedais, um do acelerador, outro do freio.
Na coluna de direção a alavanca de marchas, com Ponto Morto, Drive com 1ª, 2ª, 3ª e 4ª marchas normais, L.O. com 1ª e 2ª marchas reduzidas e ré.
Hoje, é comum, mas em sua época, uma raridade.
Como as marchas de força engatavam bem e sem tranco, eram muito úteis quando faltava freio, ou na hora de dar “cavalo de pau”.
Era grande, imponente, grande grade cromada na frente, com pára-choques em aço inox escovados, faixas brancas nos pneus e em cima do capô a imagem do cacique Pontiac, chefe otawa que liderou importante insurreição na América do Norte ocupada por ingleses.
Olhado à distância parecia preto, mas de perto, com luz forte, percebia-se sua rara cor Azul Noite.
Só tinha dois no Estado, um do pai de Decinho Garcez, o outro a Balsa, adquirido por meu pai ao pai de Zé Goiamum (Zé Garcez), se não me engano.
Depois de anos de uso, a caixa automática pifou e foi preciso importar uma.
Demorou muito e, meu pai aproveitou para fazer um serviço geral de pintura e estofamento.
Quando ficou pronta, meu pai já tinha adquirido um Jeep Willys todo maceteado e a Balsa foi ficando na oficina, a ponto de não se identificar sua cor, de tanta poeira.
Tinha eu, na época, uns 18 anos e, fui ao meu pai e pedi o carro para mim.
Depois de alguma dúvida, concordou, mas com a condição de mantê-lo com minha mesada.
Sai aos pulos de alegria, mas logo cai na realidade, pois a bateria já tinha pifado.
Após muita negociação, ele pagou uma bateria nova e pude finalmente, trazer MEU CARRO, para casa.
Foi meu grande companheiro nas primeiras farras, primeiras aventuras sexuais e namoros.
Era pau para toda obra, chegando a fazer verdadeiros rallys com ele.
As outras turmas morriam de inveja, pois só os “Balseiros” tinham um carro.
Como consumia muito, meu pai trocou o carburador original, pelo famoso carburador “Pé preto” Chevrolet, mais econômico.
Mesmo assim, a despesa era demais para mim, que às vezes o deixava parado em qualquer lugar, por falta de gasolina e de dinheiro para comprá-la e, ficava usando minha Lambreta, até conseguir dinheiro.
Nos fins de semana, fazíamos uma vaquinha para a gasolina e ai, íamos para as festas na Balsa, que chegou a levar ate 18 pessoas, gente até na mala.
A minha avó Mariazinha, também me salvou muitas vezes, financiando a gasolina.
Quando estourava um pneu ou quando quebrava, era um problema ainda maior.
Minha salvação?
Torneirinho, mecânico amigo de meu pai, que condoído pela minha quebradeira, não trocava peças, e sim, dava um jeito e, não cobrava. Nunca o vi trocando peças.
Como pagava?
Quando me sobrava algum dinheiro, inventava algum conserto e ia à oficina aos sábados, ficava esperando até fechar e ia com ele ao bar da esquina beber cerveja e comer um torresmo especial que o dono do bar fazia.
Quanto aos pneus, eram aro16, raro de encontrar usado. Novo, nem pensar em comprar e de Jeep, também aro 16, era uma afronta usar.
A Balsa me fez passar por algumas situações inusitadas:
1ª – Como andava carregada, as molas traseiras cansaram e foi preciso arqueá-las. Ficou com a traseira muito alta e, não tinha condições para mandar corrigir.
Solução?
Uma noite na volta de uma festa, vimos um monte de pedras de construção com uma delas enorme. Foi preciso quatro de nós, para colocá-la na mala. Ganhou o apelido de carinhoso de “O Cisco”.
A Balsa ficou uma beleza, com a altura certinha.
Problema?
Quando fazíamos uma curva em velocidade, daquelas que ficava todo mundo olhando para trás, para ver se tinha arrancado uma faixa branca (era suposta), “O Cisco” corria para um lado e a Balsa ficava toda torta.
Solução?
Trocamos o dito cujo, por três sacos cheios de areia.
2ª – Só colocava gasolina aos poucos.
Certo dia, ganhei um dinheiro a mais e, todo prosa, parei no posto de Miraldo, na Praça do Palácio, e com a boca cheia, ordenei: Encha! Era a primeira vez que o fazia.
Saí da Praça do Palácio e ao chegar à esquina da Barão de Maruim, o tanque caiu, para meu total desespero, vendo toda aquela gasolina derramar.
3ª – No Tecarmo, a Petrobras estava fazendo o oleoduto, com uns tratores enormes entrando mar adentro, levando os tubulões que os rebocadores puxavam à medida que iam sendo soldados.
Distraídos, ficamos apreciando e, a maré enchendo.
Querendo vir embora, dei partida e a Balsa, não pegou.
Problema?
A Balsa por ser hidramática, só pegava “no empurrão” depois de atingir 40 Km/h.
Pedimos ao engenheiro, para um trator rebocar a Balsa, mas ele disse que só quando terminasse o serviço. Na última hora, a água quase chegando ao carro, ele autorizou, o trator rebocou o carro, que pegou e conseguimos nos safar.
4ª – Quando ficou mais velha, apareceu um buraco no piso, que nos dias de chuva molhava quem ia no banco da frente.
Resultado?
Com chuva, todo mundo queria ir no banco traseiro.
5ª – Saímos para caçar eu e Milton Barreto.
Na volta da caçada, um pneu furado.
Problema?
A Balsa não tinha macaco.
Escoramos o eixo traseiro com uma pedra, cavamos um buraco debaixo do pneu, fizemos a troca e depois penamos para tirar a Balsa de cima da pedra e de dentro do buraco.
6ª – Um dia vinha descendo a Barão de Maruim, e no trecho entre Lagarto e Arauá, ouvi o barulho de um ferro tilintar (blem, belém, bem, bem ,bem). Achei que tinha pisado em algum pedaço de ferro.
Qual nada. Ao fazer a curva para entrar na Rua da Frente, a Balsa desabou de um lado.
Peguei a Lambreta e fui procurar Torneirinho.
Diagnóstico?
A Balsa tinha na dianteira, um amortecedor, tipo relógio, que ficava em cima do chassis e desciam dois braços para a manga de eixo.
Pois bem, um desses braços tinha partido e causado o problema.
Perguntou Torneirinho: Não ouviu nenhum pedaço de ferro cair?
Lembrei do ferro tilintando seis trechos atrás e fomos procurar.
Depois, foi só desarmar, soldar e montar.
7ª- Fomos a uma festa na Rua de Frei Paulo, na casa de Sonia Centurion.
A rua não era calçada e, lá chegando, ao procurar estacionar no escuro, vi o que parecia ser uma graminha. Que nada, era uma vala enorme com um capinzinho enganador. A Balsa caiu dentro, ficando com uma roda traseira no ar.
A partir daí, apareceram uns estalos estranhos. Tinha partido o chassi e a lataria, tão forte, agüentou vários dias até que descobríssemos a origem dos estalos.
Já cursando a Faculdade de Medicina, ainda no tempo das Kombis de passageiro, era um abuso total, pois só andavam pelo meio da Avenida Barão de Maruim, porque não tinha buracos, expulsando todos os carros e, só respeitavam a Balsa, pois eu também só andava pelo meio da avenida e não abria para ninguém.
A concertista Maria Lívia São Marcos quando por aqui esteve para uma apresentação no Teatro Atheneu, tomou-se de amores por Sergio Garcia.
A Balsa era o meio de transporte para a farra, a concertista tocando bossa nova ao violão, e Célia (cantora paulista) cantando, para o nosso deleite.
Certo dia bateu o motor. Foi para uma oficina na Praça do Cemitério Santa Izabel, onde ficou alguns anos sem que eu conseguisse conserta-la.
Foi vendida e, nunca mais a vi.
Foi a responsável, entre outros motivos, pela união da nossa turma, sendo citada juntamente com os Balseiros, por diversas vezes, nas colunas sociais. Nunca vi isso, em lugar nenhum.
Os Balseiros:
Rapazes: Eu, Paixão, Duílio, Curvelinho, Chico Fontes Lima, Tadeu, Pedrito Barreto, Theobaldo, Tonho Rezende, Roberto Botelho, Roberto Paulista, Sergio e Renato Garcia, Toinho Barbulino, Tidê, Raul Rollemberg, Serjão, Virgilio, Douglas, Wilson Bolinha e Ivan.
Garotas: Tetê, Beth, Ângela, Fernanda, Nilva, Sandra, Nize e Soninha, Vivian, Eliana Chocolate, Ailse, Miriam e Júlia Garangau e Kátia Veloso.
A turma variava muito, pois alguns andavam conosco uma época, depois sumiam, voltavam e assim íamos levando.
Caso tenha esquecido de alguém, favor me lembrar.
Aracaju, 02/06/08
Guerrinha

Postagem original na página do Facebook em 6 de janeiro de 2012.

sábado, 17 de março de 2012

"Rua Vila Cristina n. 68"


"Rua Vila Cristina, nº 68
Esse passou a ser o nosso endereço, alguns anos após a morte de vovô Cabral. Saímos de sua casa, a Vila Cabral, e viemos para a Rua Vila Cristina. Em parte pela sua aparente ausência, mas principalmente, pela constante presença através das lembranças e da saudade... Eu começava a entender que, quando a gente está de luto, não é só pela perda do ser amado, mas também pela parte de nós que se perde com ele. A vida estava começando a me colocar em contato com sua dura realidade.
Anos depois vimos que essa mudança foi uma benção para todos nós. Chegamos à Rua Vila Cristina no ano de 1962. Eu tinha exatamente 11 anos de idade. Era uma criança e pensava e agia como tal. Minha primeira amiga na nova rua foi Cecília Martins. Depois vieram Vivian Lima e Ana Beatriz Buarque.
Nessa época conheci Laura Cecília. Mais nova do que eu, tinha 08 anos apenas, mas isso não foi impecilho para que ficássemos amigas e que ela se tornasse uma espécie de mascote da nossa turma. Ela era viva, curiosa, inteligente. Estava sempre onde eu estava e teve até direito a um apelido carinhoso colocado por Renato Conde Garcia: a Garota de Liverpool. Apelido colocado por causa das roupas transadas que Dinha trazia para ela do Rio de Janeiro. E como nossos pais eram muito amigos ela sempre estava lá em casa.
Foi aí que a vida de todos mudou... Guerrinha foi estudar no Ginásio de Aplicação, Beth e Ângela no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e eu fui para um educandário (não me lembro do nome) na Rua Santa Luzia e cuja proprietária era D. Julia (tia de Geraldão). Foi nesse educandário que fui preparada para o exame de departamento realizado pela Secretaria de Educação. Naquela época só fazia o exame de admissão quem passasse nesse exame. A nota máxima era 10 e eu passei com média 9,9. Ainda tenho esse certificado. Logo fiz o exame de admissão para o Ginásio de Aplicação e passei também. Lembro que foi dificílimo. Era composto de prova escrita e prova oral com dois examinadores. Para mim foi complicado, pois estava com escorbuto. Imaginem uma filha de médico com falta de vitamina C no organismo. Uma doença já erradicada. Fato que deixou papai bastante chateado.
Guerrinha ao acabar o ginásio passou para o Ateneu e as meninas também.
Mas deixa-me falar como era o nosso trecho de rua. Na esquina com a frente para a Praça Camerino era a casa de D. Marita Sobral, mãe de Geraldo e José. Vizinho a ela era a nossa casa, depois a dos Fonseca (Sr. Eduardo Fonseca e D. Aidil, pais de Silvinha, Aidil e o filho homem), depois vinha a casa dos Martins (Sr. Nelson, D. Deruchete, Cecília e Nelsinho), a casa de Dr. Olavo (pai de Amelinha e da irmã), a casa dos Amado ( Sr. Paulo, D. Mercedes, Tonho Amado, Zé Amado, Doda, Dudu e Paulinho) e na esquina com a Rua Senador Rolemberg era a casa de D. Ester. Anos depois a casa de Sr. Eduardo Fonseca foi vendida à família Lima (Sr. Rodrigo, D. Alice, Rita, Douglas, Vivian, Rodriguinho e Popô).
Do outro lado da rua, da Rua Senador Rolemberg para a Praça Camerino, ficava a Associação Atlética de Sergipe, um terreno baldio que depois virou um campo de futebol do clube, a fábrica de gelo, a casa de Senhor Batalha, D. Elzinha, Licia e os irmãos. Anos depois essa casa virou a Clínica de Acidentados, e na esquina com a Praça Camerino era a casa de D. Zulnara, avó de Zulmira.
Ah! Foi na Rua Vila Cristina que um mundo novo passou a se descortinar para mim. Despi o manto de inocência da infância e vesti o das descobertas da adolescência. Descobri coisas que nem sabia que existiam (a descoberta do meu corpo e de sentimentos como o amor, a ternura e a amizade verdadeira). Despertei, então, para as paqueras. Os namorados naquela época nem pegavam nas mãos. Braço no ombro nem pensar e o beijo era um sacrilégio. Tive algumas paqueras antes de namorar com aquele que seria o meu marido.
A varanda da nossa casa era privilegiada, pois dali víamos passar os estudantes do Ateneu e do G.A.. Era um desfile diário de estudantes para lá e para cá.
A década de 60 foi mágica... Época de mudanças no estilo de vestir, nas danças (rock e twist) e no comportamento também. Época dos Beatles e da Jovem Guarda. Passei a ter consciência dessas mudanças e comecei a desfrutar das coisas boas que a vida me dava. Papai passou a dar a chave da porta, mas só podíamos usar quando saíamos a três irmãs juntas. Foi quando passamos a sair acompanhadas por Guerrinha. Papai que sempre foi um homem festeiro de repente se afastou e passou a responsabilidade para os ombros de meu irmão. Guerrinha era de uma rigidez a toda prova e ai da irmã que o desobedecesse... Ele seria capaz de tirá-la da festa na mesma hora.
A nossa casa era o ponto de encontro dos amigos: Max Rolemberg, Milton Barreto, Raul Rolemberg, Josilávio Araujo e Marcelo Marinho (colegas de Guerrinha na Faculdade de Medicina), Paixão, Ivan, Pedrito Barreto, Teobaldo, Duílio, Pedrão, Betinho, Tidê, Toinho Barbulino, José Francisco Fontes Lima, João Aragão, Aurinha, Antônio Sérgio dos Anjos, João Monteiro, Laura Cecília, Nilva, Bárbara, Eliana Chocolate, Licia, Jussara Maynard, Kátia Veloso, Vivian, Cecilia, Douglas, Elygio, Tadeu, Roberto Botelho, Tonho Rezende, Mané e Guila Rezende, Sergio e Renato Garcia, Pedro Marcelo, Lili e Bete Prado e Ana Beatriz Buarque. Sempre tinha um violão tocando e alguém cantando. Será que esqueci alguém?
Em Aracaju naquela época existiam algumas bandas formadas por amigos: The Tops por Pascoal Maynard na bateria, Marcelo Brito de Melo na guitarra solo, Marcos na guitarra base, Pithiu no contra baixo, e Rubinho no órgão eletrônico. Esta foi a formação inicial. Depois vieram: Tonho Baixinho, Wellington Menezes Barbosa, John Manush (um americano que aportou por aqui), as Moendas (Lina e Adi) – vocais, Nandika na guitarra e Marquinhos na bateria.
Os Top Caps, na sua primeira formação, era composta por: Edgarzinho no teclado, Paulo Amilcar na bateria, Zé de Otília e Hermercílio nas guitarras, Marcos e Tonho Baixinho - vocais. Na sua segunda formação tinha: Edgarzinho no teclado e guitarra, Sérgio Garcia e Lobinho nos violões e vocais, Anchieta vocal, Paulo Amilcar na bateria, Marco e Orlando nas guitarras e Pedrão, eventualmente, na gaita. Lembro de alguns ensaios no local onde era a boate Segredo na Atlética. Os mesmos eram à tarde e os amigos participavam. E virava uma festa improvisada.
Os Águias banda que foi incentivada por Tenisson Freire, comodoro do Iate Clube de Aracaju, e que ensaiava no barracão dos barcos do clube era composta por: Toninho na guitarra solo, Beno na bateria, Luiz Mário no baixo, Tosca (depois Orlando) na guitarra e Zenóbio no teclado.
Os Nômades, banda originária da cidade de Itabaiana, na sua primeira formação, era composta por: Anatólio na bateria, Jorge Roberto Silveira e Luiz nas guitarras, Airton no contrabaixo e vocal de Chico. Já na sua segunda formação contava com: Jorge Roberto Silveira na guitarra, Anatólio na bateria, Lisboa vocal, Edgarzinho no teclado e Airton contrabaixo.
Os meninos da turma tinham mania de fazer serenata na porta lá de casa, o que deixava papai possesso. Ele sempre perguntava a mamãe se eles não tinham o que fazer.
Na década de 60 começaram a surgir as boates. Foi inaugurada a boate Catavento na Associação Atlética de Sergipe. A Top Som embaixo do Hotel Palace e cujos proprietários eram Antonio Manoel, Wilson do Gavetão e Gilberto Vilanova.
A boate Stallo, no Atalaia Clube, cujos proprietários eram Edgarzinho e Beto Silveira tendo como “assessores”: Renato Conde Garcia e Carlos Manoel Burgos. Lembro de ter ido a uma festa de reveillon lá. Só não lembro o ano. Começavam, assim, “os embalos de sábado à noite”.
A boate Oxente, no Cotinguiba, cujo proprietário era Alfredinho. Se não me engano, essa última já na década de 70.
Foi a época das festas em casas de amigos, na Associação Atlética de Sergipe, no Iate Clube de Aracaju e no Clube dos Médicos, de idas à praia de Atalaia, dos banhos de piscina na Atlética, dos torneios de buraco, aliás, tudo era motivo de uma festa.
A festa do Havaí no Clube dos Médicos que colocaram um estrado na piscina e a orquestra de Medeiros tocando nele. Final da festa Medeiros e sua orquestra acabaram tomando banho de piscina porque foram jogados nela.
Nas tardes de sábado papai ia jogar tênis com seus amigos Blanar, Ascanio, Bragancinha, Anquizes e o prof. Candido. Gostava de vê-los jogar. Eles participavam de torneios em Propriá e em Penedo. Papai tinha uns amigos lá da família Peixoto Gonçalves. Guerrinha às vezes acompanhava papai nessas viagens.
Com a inauguração da piscina da Atlética passávamos os dias de férias nela. Nessa época existia um maitre estrangeiro que se chamava Thomas Van Dick. Papai caiu na besteira de autorizar a ele que nos atendesse no que pedíssemos e que depois a conta seria por ele acertada. Todo dia de tarde tinha uma conta de daiquiris nevados tomados por nós para papai pagar.
Lembro ainda de algumas pessoas que trabalhavam lá: Bispo sempre calmo e com um sorriso nos lábios, Tertulino (o cobrador), Frances (que ficava na sorveteria), Amor (cozinheira) e que sempre me dava uns petiscos, Bota fogo (eletricista), Sr. Pedro, o garçon Pelé e Izaildes que trabalhava na secretaria.
Nos carnavais, durante o dia, era na Atlética que a turma brincava.
A Associação Atlética de Sergipe era um clube acolhedor e na década de 60 foi quase que uma extensão da nossa casa. Um crime o que fizeram com o clube. Vendê-lo numa transação mal explicada e depredá-lo do jeito que fizeram. Hoje ao passar na Rua Vila Cristina meu coração se aperta de tristeza ao ver um patrimônio como aquele no estado que ficou.
Ainda na década de 60, Guerrinha estava na faculdade de Medicina, Beth na Faculdade de Direito, Ângela na Faculdade de Medicina em Salvador e eu noiva esperando a data do casamento.
Abdiquei do sonho de ser médica, para casar e constituir família. Casei no ano de 1970, mas estava diariamente, à tarde, na Rua Vila Cristina, 68. Para sempre estava ligada àquele endereço até o dia que vovó vendeu a casa para a Construtora Norcon que construiu no lugar dela o Edifício Vila Cristina.
Interessante, achava que tinha passado mais anos na Rua Vila Cristina. De 1962 a 1970 quando casei. Os anos que vivemos ali foram tão bons que contaram cada um como dois ou três. Como se isso fosse possível. Naqueles anos o romantismo foi vivido e cantado em versos e prosa e por isso eles serão sempre os nossos anos dourados".

(Fernanda - Aracaju, 2009/2012)

Postagem original na página do Facebook em 12 de janeiro de 2012.