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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Clodoaldo de Alencar Filho



Clodoaldo de Alencar Filho

Devemos ao Prof. Clodoaldo de Alencar Filho, o nosso Alencarzinho, não somente a introdução da ação cultural em programas institucionais do poder público, em Sergipe, como também a criação de projetos pioneiros na área, num tempo em que destinar recursos públicos para a Cultura era uma novidade administrativa com pouco crédito entre os administradores locais.

Na gestão do prefeito Godofredo Diniz , Alencar convenceu o prefeito a mandar construir a nossa primeira Galeria de Artes oficial, a Álvaro Santos, liderando um grupo de artistas locais onde estavam, entre outros, os pintores Otaviano Canuto, Florival Santos e Leonardo Alencar, além do arquiteto Rubens Chaves.

Depois, na administração Aloísio de Campos -1976 a 1980- incentivou a criação e foi o primeiro diretor do Departamento de Cultura e Turismo municipal, que me parece ter sido a primeira instituição pública, em Sergipe, a cuidar, especificamente, desses assuntos.Nessa gestão a municipalidade construiiu o Bar Meu Refúgio onde o proprietário Gerson servia um inusitado cardápio de caças e carne de animais como giboias e tatús,oferta hoje condenadas pela correção, mas, naquele tempo, uma estripólia capaz de atrair turistas..

A Galeria Álvaro Santos tornou-se o espaço cultural mais prestigiado da cidade onde interagiam os artistas plásticos e a nata social potencialmente compradora, inaugurando o mercado de artes em Aracaju. Nos anos 1970/1980 era na Àlvaro Santos, também, onde se reuniam os resistentes à ditadura militar, uma espécie de aparelho boêmio onde se tramavam desde a queda do regime aos amores fortuitos que resultaram em casamentos, como o de Mario Jorge com Marinice e Joao Gama com Aparecida Gama, além de romances tórridos como o de Luiz Antonio Barreto com a bela Zènia que largou um senador pelo bardo Luiz e sua poesia revolucionária.

Na Universidade Federal de Sergipe, onde chegou a ocupar o cargo de Reitor,. Alencarzinho e a Madre Albertina criaram o Festival de Artes de São Cristóvão que ainda pode ser considerado o maior evento cultural realizado em Sergipe, algo grandioso para o amadurecimento da produção artística sergipana e cujos efeitos ainda influenciam a cultura local.

Pois bem! Este relato movido pela gratidão pessoal à atenção que sempre me prestou o Prof.Alencar, mantendo-me como um seu colaborador assalariado em vários cargos que ocupou, pode carecer de exatidão histórica e, certamente, não alcança a dimensão enorme do homenageado, mas poderá servir para que não nos esqueçamos dos seus feitos.

Amaral Cavalcante- 02/2016.

Postagem originária do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 14 de fevereiro de 2016.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Visitei um fauno



Vale relembrar:

Visitei um fauno

Cleomar Brandi mora num prédio antigo, ao lado do Hiper G.Barbosa, numa ruinha opcional para quem trafega pela área e quer se livrar do burburinho da Av. Francisco Porto. Estacionei (sempre tem vaga em frente, como num oásis) e entrei na ampla área de lazer do prédio, andando cuidadoso entre velocípedes desgovernados, babás bundudas de olhar pidão e um senhor semimalhado de tênis caros e meias soquetes, rumo à caminhada das quatro no calçadão da 13. Pernocas cinquentonas à mostra, algumas varizes, camiseta regata Surf Bording atalhando a barriquinha teimosa, calção curto lascadinho de lado. Uma figura plena de si locomovendo-se com a graça de Deus, tão lépido quanto caricatural. Fiz que não vi. Afinal, fora visitar o sem pernas cadeirante, um marombeiro cultural que mora ali e faz daquele átrio tão cheio de caminhantes a ante-sala da sua perseverança.

Acolheu-me uma mãe heráldica: minúsculas manchas cinzas no rosto –sol de antigas praias - cabelos brancos em coque elegante, olhar percuto e postura juvenil.

-Cleomar se acordou agora, mas ainda não quis sair da cama...

Saquei na hora: nesta tarde modorrenta de sexta-feira, Cleomar mandara tudo à puta que o pariu e recolhera-se à lascívia dos lençóis, curtindo o cheiro do seu próprio corpo nu, desobrigado do fastio das “boas tardes” protocolares e do cafezinho insosso na repartição.

E foi no quarto onde eu o encontrei cercado de sobrevivências. O monstro sagrado no seu cenário quotidiano, rindo entre guarda-roupas e consoles, cercado de patuás e berimbaus da infância, com um livro aberto cheirando a sono, indícios de sonhos revividos, bilhetes de amigos lhe chamando à farra e uma meiota de Conhaque à mão.

Vejo os cartões postais de terras que Cleomar não nunca visitou. Ele se acostumara a passear horizontes mais vastos, no universo do seu próprio coração. Vejo, no espelho do guarda roupas, retratos de antigos amores.. O olhar satisfeito de belas mulheres derramando o bálsamo do amor sobre o corpo mutilado do velho lobo. Entendi que o que nos intriga nele é o esfuziante amor pela plenitude da vida e a magnitude da sua doação ao amor de nós outros.

A visita foi curta, mas vi o que me interessava ver: um fauno saltitante em sua relva memorial, soprando na flauta a canção do seu destino.

Absolutamente pagão e belo.

Amaral Cavalcanti - agosto/2006.

Postagem originária do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 19 de janeiro de 2016.

Joel Silveira: Da Eternidade a Víbora Manda Lembranças




Joel Silveira: Da Eternidade a Víbora Manda Lembranças. 
Por Luiz Eduardo Oliva/Facebook.

Leio no Twitter do jornalista Genetom Moraes Neto (@genetonmneto) a notícia de que a GLOBONEWS exibirá no sábado,dia 2 de fevereiro às 20:30 o documentário "GARRAFAS AO MAR:A VÍBORA MANDA LEMBRANÇAS" sobre o nosso Joel Silveira,o sergipano que se transformou no maior repórter do Brasil.

Será o resultado de material em audio e vídeo colhido pelo Genetom durante 20 anos de convivência com Joel,convivência que ele considerou equivalente a um prêmio na Loteria do Jornalismo. O documentário tem a participação dos atores Othon Bastos e Carlos Vereza que interpretam textos de Joel.

Genetom diz que percebeu que já era hora de passar adiante o que viu e ouviu do velho repórter, que fazia um jornalismo literário de altíssimo nível mas que hoje, para ele, "o barco afundou" porque a sua impressão,depois de mergulhar no que chamou de "Planeta Joel", é a de que, em nome da objetividade o jornalismo brasileiro soterrou jornalistas com marca pessoal. Joel era tudo isso e mais um pouco. Foi considerado "a víbora" por sua língua afiada e a forma como descrevia a sociedade de sua época,com irônica realidade. Notabilizou-se como repórter da 2a Guerra Mundial e creio que foi uma espécie de Ernest Hemingway brasileiro.

Foi Secretário de Cultura de Sergipe durante o Governo Valadares, terra que amou e referenciou sempre. Durante aquele governo tive pouquíssimo contato com Joel em duas ou três ocasiões,mas sempre muito rápido,porque eu morava em Florianópolis fazendo Mestrado e pouco vinha a Aracaju. Uma vez,durante uma das minhas férias do mestrado,Fernando Sávio,outro grande jornalista falecido,chamou-me para ir com ele tomar "uns goles" com Joel. Preferi ficar na paquera que corria solta no Bar do China, e este é um dos poucos arrependimentos que guardo,perdi a oportunidade duma boa noitada com dois gênios do jornalismo e do bom papo,duas fontes da sabedoria da vida e da imprensa. Seu retorno a Sergipe para ser Secretário de Cultura rendeu muitas histórias pitorescas,algumas até "folclóricas", criou ciumeiras, possessões,intrigas, mas também boas lições, visão de cultura, muito humor,bom papo regado ao indefectível uísque.

Amaral Cavalcante e Clara Angelica Porto que tiveram o privilégio de conviver com o gênio de Joel naquele período, poderiam muito bem nos brindar com histórias da sua passagem por Sergipe na segunda metade dos anos 80. São dois exímios contadores de histórias e podem muito bem nos legar o que representou aqueles tempos e como foi conviver com a "víbora" da imprensa brasileira,o repórter implacável,a língua sempre afiada, o aguçado observador dos costumes, o homem que impressionou o lendário Assis Chateaubriant já no primeiro encontro a ponto de contratá-lo para cobrir a Segunda Guerra para "O Cruzeiro"com a conhecida recomendação do "vá mas não me morra!". A exemplo do que fez Genetom Neto, Amaral e Clara,dois frequentadores assíduos deste Face, bem que poderiam nos legar com a memória daqueles tempos,daquela passagem,do homem Joel e do mito.

Post da Linha do Tempo/Perfil do Facebook/Luiz Eduardo Oliva, compartilhado por Amaral 
Cavalcante no Facebook/Grupo Minha Terra é SERGIPE, em 20 de janeiro de 2016.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sobre a velhice, num momento depressivo:


Sobre a velhice, num momento depressivo:

RECORDAÇÃO DE 2013:

Quem fala?

Num dia o telefone toca entre a sesta e o resto da tarde.
Entre as frutas do lanche e o comprimido das seis, naquele seu momento feliz pelas coisas que você conseguiu fazer numa produtiva manhã de segunda-feira. Trabalhou... trabalhou, fez por onde levar adiante uma vida produtiva, deu bom dia aos transeuntes, sorriu para a cidade, cometeu algumas asneiras permitidas a quem erra por estar vivo, mas, no fundo, você saiu-se bem naquela segunda feira.

Quem será ao telefone?
É uma voz amiga anunciando que alguém que você ama foi-se da vida para nunca mais.

Então, o chinelo pesa arrastando-se atônito pelas trilhas da casa, os degraus se agigantam, o quintal perde a graça, sua casa já não lhe reconhece. A morte do amigo lhe apequena que você era maior com ele ao seu lado.
Falta-lhe direção ao passo.

É melhor voltar a dormir.
Mas esconder-se sob os lençóis não basta que a velhice lhe alcança a cobrar dividendos. e uma dor que nem chega a doer se aloja em suas entranhas como uma cicatriz que se desenha de repente.

Sua próxima manhã será mais pobre e menos produtiva, seu bom dia catarrento haverá de denunciar a podridão que se escondida em seu velho corpo. Bate o cansaço de continuar andando por ai como uma parábola, o resto do que foi a sua vida entre os seus.
E a tristeza finalmente lhe alcança, inexorável, anunciando o fim dos seus dias.

Quem fala?
- É a velhice chegando.

Amaral Cavalcante 30/09/2013.

Postagem originária  do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 1 de outubro de 2015.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Os eleitos de Deus

Amaral Cavalcante.

Os eleitos de Deus
Por Amaral Cavalcante.

Botei meu tênis de caminhada e fui passear na orla, para desentravar as juntas e queimar a carga de carboidratos que acumulei nesses três dias de feriado.

Andei até os arcos, cumprimentando a todos com um leve sinal de cabeça, gozando da respeitável comiseração que têm os desconhecidos transeuntes, por um velho senhor de cabelos brancos a caminhar tão faceiro entre eles. Acompanhava-me o último livro de contos do amigo Antonio Carlos Viana que eu venho lendo devagarinho, a cada página me surpreendendo com a simplicidade do seu estilo. Sentamo-nos num banco sombreado ao lado do pensador Manuel Bonfim que ressonava impassível na sua pose brônzea, indiferente aos meus encantos com a literatura de Viana.

Na volta, como já era meio dia, resolvi almoçar no velho bar Santo Antonio, um dos três últimos restaurantes “nativos” que sobraram na orla e onde ainda se come um peixe fresco torrado no caco, de especial crocância e sabor ancestral. Os outros dois reminiscentes dos velhos tempos são a Bar do Joel e a Toca do Pinto, do Cabo Duda, no fim do calçadão, onde se pode encomendar um repasto dos deuses e encontrar, vez por outra, os fantasmas de antigos moradores da Atalaia contando potoca.

No “Santo Antonio” encontrei o mestre João Oliva com sua indefectível bengala, acompanhado de familiares. Pois bem, do encontro deste setentão com o octogenário João Oliva resultou uma gostosa conversa, testemunhos de alguns momentos gloriosos e de desastres históricos, hilários e estapafúrdios, na vida sergipana.

Mas o que mais me impressionou foi a inteireza física do velho jornalista, sua prodigiosa memória e a graça com que arquiteta futuras aventuras, lépidas viagens que pretende fazer para rever o mundo, como uma ida próxima a Buenos Ayres para tomar um bom vinho nos cabarés portenhos ao som de tangos, enquanto uma ragazza esbanja sensualidade nos braços do seu partner.

Foi um belo encontro numa mesa temperada com mútua admiração. Ao sair de lá comentei com meus botões: ah! se Deus me quisesse tanto bem...

AC., em 07/09/2015.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 8 de setembro de 2015.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Condado de Itaporanga

Amaral Cavalcante

(Senta que lá vem memórias)

O Condado de Itaporanga

Dora Garcez, minha vizinha em Itaporanga d’Ajuda, tinha poucos aninhos. Só sabia de si e das suas bonecas. De vez em quando Dora comparecia ao aniversário de Emanoel Sobral, filho de Manoel Conde Sobral e D. Alzira, neto do velho Maneca.
O comparecimento de Dona Clélia, mãe de Dora, era um acontecimento social de relevante significado: a elegância da festa estava garantida, bem como certa ordem nas traquinagens infantis, que ninguém ousava desobedecer a um “pito” de D.Clélia, dito com sobriedade, mas definitivamente severo.

Já eu, cria da veneranda professora Emiliana Nery, aguardava a festa como se fora um acontecimento sacrossanto. Sonhava com o enorme bolo confeitado no centro da mesa, uma maravilha rodeada de canapés e olhos de sogra, de balas enroladas em cacheados celofanes desfiados, cocadinhas de cravo enfiado, sanduíches de kitut Swift, patês de sardinha, deliciosos salgadinhos de fino lavor e a suprema atração da festa, o gostoso chocolate quente servido em copos de papel com motivos infantis estampados. Tia Emiliana, com seus quilos e quilos, pendurava os berloques sobre o discreto decote no festivo vestido de surah estampado e fazia o sacrifício de caminhar até a praça da igreja, onde moravam os Conde Sobral, para me levar à festa. Saudosa Dindinha.

A casa senhorial com todos os seus cômodos excepcionalmente abertos à curiosidade das crianças, era um universo de novidades. Ante os móveis negros, reluzentes e circunspectos, minha atenção se voltava para a maciez das almofadas de seda na sala de visitas, para a asseada organização das panelas na cozinha, para os quartos com seus estufados colchões e os enormes gavetões das cômodas com seus segredos domésticos: sedas de afago sutil, porta jóias coruscantes, caixinhas de rapé, fitilhos e sianinhas, cartões postais de Águas de Lindóia - sinais da vida elegante que eu sonhava ter.

Eu morava numa casa simples de quatro janelas abertas para a rua principal, de onde eu via os dois sobrados ancestrais que dominavam a cidade: o de Dona Zazá, a matriarca dos Sobral, e o de Dona Pombinha, mãe dos Garcez. O térreo do sobrado Garcez era um estábulo de ordenha onde, toda manhã, eu ia com uma caneca de ágata tomar leite espumante e fresco, tirado na hora do peito da vaca - o inesquecível sabor de vida saudável que marcou a minha infância em Itaporanga.

Já no sobrado de Dona Zazá eu costumava ganhar notas de cruzeiro estalando de novas, sempre que a visitava. Menino conversador e escolado pela Tia-Avó poeta, eu era posto sobre um tamborete para declamar, ao custo de alguns trocados, os textos que minha tia Duzanjos guardara em seu baú ministerial. Entre livros de literatura clássica e fotos esmaecidas de paradas estudantis de eras passadas, poemas e discursos escritos com letra de roseiral em tiras de papel pautado, celebrando datas cívicas.

É dai que eu venho.

Amaral Cavalcante - 2012.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 6 de agosto de 2015.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Façamos de Murilo Melins um imortal!


Façamos de Murilo Melins um imortal!

Senhores imortais da Academia Sergipana de Letras, temos a oportunidade de trazer para o nosso convívio um dos maiores memorialistas sergipanos, Murilo Mellins..

O reconhecimento da imortalidade da sua obra para as letras sergipanas é uma dívida da Academia e um desejo da sociedade, que bem conhece os seus feitos.
Não é que a sua concorrente não mereça o nosso respeito, mas nos parece que, agora, é a vez de Murilo.

A eleição é na próxima segunda-feira, na sede da Academia, durante todo o dia.

Amaral Cavalcante.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 8 de maio de 2015.

domingo, 3 de maio de 2015

Em uma festa lá em casa, Joel Silveira cumprimenta...

Em uma festa lá em casa, Joel Silveira cumprimenta seu Correia, pai do indócil Luciano Correia. A nossa casa na Rua Luiz Chagas, na Atalaia da década de 70, 
era território livre para a integração entre gerações.e muita história se fez ali. 
Era um tempo em que misturavamos a intrepidez da novidade
 e o respeito ao legado dos mais velhos.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 30 de abril de 2015.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Memória de Post da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE

Amaral Cavalcante.

(Crônica antiga, com intervenções de Marcelo Déda e Jozailto Lima)

O jornalista Zeca Déda

. Ele publicou no seu jornal “A Semana” o meu primeiro poema, “Elegia a Cristina”, dedicado a uma menina fatalmente morta pelo irmão que brincava com uma espingarda. Doloroso poema juvenil meio que plagiado dos grandes sonetistas que nutriam minha incipiente criatividade, numa antologia de cabeceira. Era a coletânia “Os mais Belos poemas de Amor” organizada por J.G. de Araújo Jorge que me fora presenteada, aos 16 anos, por mamãe Corina. Foi o meu primeiro sucesso literário.

O jornal “A semana” saía aos sábados. Cândida Candhão, arauto das fofocas municipais, chegou lá em casa de manhã com o jornal já recortado, transtornada e tilintando os berloques de ouro 14 nos peitões descomunais: - minha fia, que coisa linda! E toca a declamar pra Corina o trágico soneto que o filho dela, eu, tinha publicado no jornal, sobre a morte da menina, filha do prefeito Nelson Pinto.

Candhão viciou-me no aplauso e me consagrou poeta na freguesia de Simão Dias.

Mas pensa que foi fácil publicar no “A Semana”? Não com o casmurro Zeca Déda. Tinha oficina e escritório na Rua do Comércio, onde se abriam três portas. Minto! Uma delas, a do seu birô de chefe político estava sempre fechada. Quem quisesse entrar que arrodeasse. Lá dentro, um mundo incompreensível, mas fascinante: caixas tipográficas, a monstruosa prensa em seus claps claps , uma temerária guilhotina encostada na parede frontal e papéis, papéis derramados pelo chão. Eu costumava chegar de mansinho, moleque invisível, e ali ficava sem ser percebido, vendo aquele homem de faina diferente - o terno cáqui manchado de tinta - a comandar as doidas engrenagens. Não me via, nem nunca conversava comigo.
Um dia cheguei com o poema manuscrito e ele me disse:
- Vou publicar

Conquistar a aprovação daquele monstro sagrado, foi , para o menino encabulado que eu era, o maior incentivo que eu já encontrai na vida, afinal, o jornalista Zeca Déda era a maior expressão de cultura e dignidade intelectual da minha cidade.

O Grêmio Estudantil “Padre Mário Reis” do Ginásio Carvalho Neto, promoveu um Júri Simulado sobre Calabar e o Dr. Zeca Déda, indicou o filho, Arthur Oscar, recém formado bacharel, como seu opositor na tribuna. Era o velho rábula debicando da Academia.

Zeca Déda acusava o réu com brilhante e convincente oratória, justificada na história oficial, aqueles argumentos de traição à Coroa portuguesa dos compêndios escolares, enquanto Arthur Oscar defendia a opção política do Réu pela colonização holandesa.
Durou dois dias este embate entre aqueles titãns da oratória, mas Arthur tornou-se logo o ídolo da meninada descrente da história colegial e Calabar foi absolvido!

Eventos como este fizeram de Simão Dias um celeiro de inteligência.

Amaral Cavalcante- 2008

ADENDO:

Relendo “Retrato Diverso”, livro do poeta Jozailto Lima publicado em 2004, achei o poema “Litania Para um Avô Alheio”tratando do velho Zeca Déda, e bem melhor do que eu.
O danado do Jozailto recorreu à poesia – esta linguagem divina que eu persigo tanto – para revelar o avô cheirando a mato, o taciturno sertanejo que caçava tatus, conduzido por artes da política aos vórtices do poder, em Aracaju, onde fez história como Deputado Estadual.
É ler pra crer.

Litania para um avô alheio
Jozailto Lima
P/Marcelo Déda

Aracaju era longe, o fim do mundo.
Distância para Rural e Homens Grandes
Ousados, destemidos, capazes de enfrentar
Os dias, a fúria da lama e das tempestades.
Aracaju era longe, uma trilha para tropas e tropeiros.
Aracaju era uma marca na ansiedade da infância.

Aracaju era coisa pro avô enorme, sisudo,
Vindo da mata adentro de Paripiranga,
Que desafiava o pensamento, as montarias,
Que domava palavras, amava os livros, limava linotipos
E enfileirava informações do mundo vasto e distante.
Aracaju era coisa pro avô.
Que lavrava madeira e esculpia o universo em xilogravuras
Que envergava chapéu de feltro, capa preta
Era farto em afetos, na palavra, no nó do compromisso
Mas que escasseava em sorrisos e cumprimentos estranhos
-“Oh dona Martinha. Eu lhe dei boa tarde? Então desconsidere”-

Aracaju era uma coisa pro avô-coragem
Aracaju era coisa pro avô que se perdia
No mato ermo, na flora esconsa, na caça demorada
Que abatia os veados e destranhava os tatus
Num tempo em que abater veados e tatus
Não tinha correlação nenhuma com o politicamente incorreto.

Aracaju, uma pradaria do avô que distribuía tinta e papel
E premiava com afagos às cabeças netos que produzissem
O desenho e a caricatura mais exata na desaproximação.
Toda esta distância, toda a ansiedade de Aracaju encurtava
Na seda azul do papel e no cheiro da maçã que ainda
Hoje inunda toda Simão Dias e esta infância que insiste
Em não passar, como aquele avô vindo das matas
Paripiranguenses com o sobrenome dos Carvalhos.

Hoje Aracaju é tão perto, tão âmago do mundo,
Como aquele avô alheio que tantos trazem dentro de si.

Rerpáros de Marcelo Déda:

Rua Joviniano de Carvalho, também conhecida como Rua do Comércio, aquela que começava nos oitões do Cine Brasil e do Banco do Nordeste e terminava na Rua da Feira, na esquina guardada, de um lado pela gentil agiotagem de Elisa Montalvão e, do outro, pelos panos da loja de tecidos do seu Inocêncio, pai de Lauro, advogado que gostava de política e admirava meninos... A mesma do cartório do tio Sininho, onde Dadinha reinava entre certidões e processos. A rua do escritório de Dorinha, da funerária de seu Tota e da farmácia de Dr. Aguiar.
A famosa artéria onde, ao lado do escritório de Papai Zeca (era assim que os netos o chamavam), estava instalada uma das mais misteriosas casas da minha vida, a tenda de Tio João Déda, repleta de selas, arreios, rebenques e gibões; cheia de salas misteriosas onde o couro fedia e a cola de sapateiro impregnava o ambiente. Martelos, pregos, facas amoladíssimas e outros misteriosos apetrechos faziam companhia à figura hierática de do tio João - sempre vestido em mescla azul ou uniforme caqui, dono de malhada, montador cuja perícia na condução dos chamados "cavalos-de-passada", enchiam meus olhos de admiração.

Mesma rua onde fazia negócios com relógios e jóias o único estrangeiro de Simão Dias, o italiano Cezário, onde minha tia Didi comprou, em longuíssimas prestações, o meu primeiro relógio. Também nela a loja "Três Américas", magazin sortido de um tudo, pertencente ao seu Cícero Guerra, de balcões envidraçados e uma gravura, quase um pôster, pendurado em estratégica posição, reproduzindo todas as bandeiras do continente americano, cravadas no globo terrestre sob a consigna - As três Américas, unidas, vencerão!

Perto do escritório do velho Zeca, o "bunker" do PSD, partido que abrigava os seus correligionários sob as espirais de fumo holandês produzidas pelo cachimbo de Dr. Celso. No centro, pendurado às vigas do telhado, pendia um jacaré empalhado, réptil que traduzia no seu nome o batismo singular e endêmico dos partidários do Barão do Mercador (a maldade dos crocodilos liderados pelos Valadares, preferia chamá-lo de "Pavão" do Mercador).
Ainda, neste milagroso logradouro o armarinho de Edileuza, cujo nome me esqueço, onde comprava brinquedos e o bar do seu Abel, famoso alfaiate e também prefeito, que deputado ao meu lado nos anos 80, cuja tenda - era assim que se chamavam os estúdios e oficinas no meu tempo simãodiense - funcionava nos fundos.

E - como posso me esquecer? - nessa mesma rua, o açougue, construído nos anos 30, na operosa administração de Zeca Déda como Interventor da Cidade de Simão Dias. Pertinho dali, no mesmo lado da rua, o bar Vezúvio, pertencente a Nadinho, de comida farta e cheirosa trazida pela sua esposa, anjo de beleza rara que impunha respeito aos fregueses e ao lado dos filhos deixava claro que o ambiente era familiar. No mesmo local, antes, funcionara um frigorífico que me entusiasmava pela inovação mercadológica: peixes em amplos freezers - pertencia a Netônio de Quincas.

Pronto! É vocé puxar o fio que o novelo da minha infância se atira embriagado nos braços da minha memória de quase velho...

Marcelo Déda.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 21 de abril de 2015.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Jaime da Line


Jaime da Line

Aquele rapaz baforando num cachimbo o perfume aristocrático de um Half and Half no Bar do Vaqueiro, na Atalaia, década de setenta, era todo elegância e distinção. A fumaça achocolatada impunha-se ao cheiro dos escabeches, às caçarolas de siri mole, ao desodorante vencido dos garçons, e, sobretudo, aos detestáveis Avon da família ao lado.
Puf, puf... que odor classudo o carioca Jaime Costa nos trouxe, em sua primeira noite sergipana!

Fui eu quem o viu e, condoído da sua solidão inaugural, chamei-o para a nossa mesa.
Estávamos com o maestro Sérgio Boto comendo um aristocrático Parmegiane: eu, o imensurável Clinio Carvalho Guimarães com sua natural simpatia, o doce Tabaréu dedilhando nuvens e mais Rezende, dono da segunda voz. Tratava-se do “Quarteto Nossa Senhora do Perpétuo Socorro”, finesse da MPB local, prestigiadíssimo nas tertúlias litero musicais de então.

Jaime não se fez de rogado e atacou de Vinicius num terno vozeirão de seresta chic e, como se não bastasse, emendou com “Casa no Campo” de Sá e Guarabira, revelando-nos, então, sua bem nascida identidade e correto CPF musical. O cabra era dos nossos e isto bastou para que se chegasse.

Ele foi cuidar da vida com altiva responsabilidade, muito trabalho e ativa inteligência, dedicando-se á implantação da modernidade na área da publicidade, onde chegou a comandar uma das principais agências, a Line, com invejável portfólio de prêmios e importantes clientes. Casou-se com Mamália - uma bela mulher com aquele porte heráldico de condessa - sem nunca deixar de dedilhar o seu boêmio violão e de nos deleitar com o seu abençoado vozeirão.

Jaime da Line foi ficando por aqui, para a glória da nossa boemia saudável e a alegria dos que tinham bom gosto musical, colocando-se na história dessa Aracaju como um querido das gentes e cantando, como ninguém, as mais belas canções do nosso tempo.

Jaime sempre bebeu bem, mas só bebia em boas companhias. Sobre ele contam-se histórias fantásticas, umas reais, outras inventadas, e todas elas nascidas do prazer que as suas peripécias etílicas nos causava. Aqui ele moveu a roda da fortuna para cima e para baixo, mas nunca deixou de ser o tocador de “Casa no Campo”, seu primeiro apelido, concedido por nós naquela sua primeira noite sergipana, no saudoso Vaqueiro.

Dia desses eu me encontrei com ele. Ambos desesperadamente sóbrios e ele sem o seu precioso violão.

Mas eita, querido Jaime, que abraço bom!

Amaral Cavalcante – maio/2008.

Postagem originária da página do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 7 de abril de 2015.

sábado, 28 de março de 2015

Memória de Post do Facebook/GrupoMTéSERGIPE

Amaral Cavalcante.

(Enquanto os romancistas e os contistas mentem o tempo todo, o cronista mente só um pouquinho)

A saga de Wanderley

Eis aqui Wanderley, o sarará enferrujado: cabelo pixaim dourado, crespa cocada-puxa cercando a cara desbotada; a barriga extrapolando o cós da calça, os bagos dele, apertados numa protuberância imoral, sobravam-lhe muito abaixo da braguilha, arrumados na calça de linho, geralmente amassada.
O cinturão acima do umbigo um palmo, dava-lhe a aparência de corno manso, reforçada pela bunda de mochila que exibia indolente, a costura da calça lhe invadindo as papadas.

Não era de se respeitar àquele metro e pouco de gente, capaz de duas léguas de encrenca! Wanderley era desses que se põem na ponta dos pés com o dedo em riste, retesando as orelhas em assertivas e perorações.
Parranceiro, dizia-se bom de cachaça, mas com três milones bem servidos perdia o pescoço como um galo mutuca em rinha de campeões.

Acontece que nos mais entocados botecos de Simão Dias desgraçava-se o valente Wanderley, grunhindo sextilhas incompreensíveis, decassílabos em pé quebrado, numa conversa empinada que ninguém entendia, até que um condoído o devolvesse à família.
Era quando o o pai, abrindo a porta, agradecia com xingamentos guturais o favor dos amigos:
- Fi duma égua, esse menino me trai a descendência!
Ao que Dona Mariinha desgrenhada de sono, um fifó lhe iluminando a cara de matrona excelsa, quase enfartava:
- E a égua sou eu, né, seu porco gazo!
Ai então cabia ao ilustre bêbado, fazendo beiço de mimo, retrucar:

- Ta vendo, mãe?

A fascinante bodega de Nicanor, na ladeira do Cine Ypiranga, era o Centro Social dos cachaceiros e afins, para onde peregrinava desde as sete da manhã, uma horda de aferrados biriteiros. Vinham às duras penas e tremosos passos, dos quatro cantos da cidade. Chegavam se desculpando:
- Ia passando e só entrei pra ver se fulano já estava aqui. Mas num sussurro, confessando às prateleiras o imperioso vício que o trouxera ali, capitulavam:-
Bote uma!
Só Fabrício os ouvia, em atenta diligencia, ao passar e repassar um farrapo lodento no balcão.

Wanderley tinha modos. Chegava tomado banho, a fragrância Liferboy se sobrepondo aos cheiros da bodega, uma mistura de bacalhau e querosene perpassada sutilmente pelo perfume incompreensível do sabão pintado que Fabrício, sem cerimônias higiênicas, partia e embrulhava sempre no mesmo lugar do balcão em que cortava um naco de mortadela.
Nada mal, o cheiro de qualquer bodega é esse mesmo.

Meia hora depois era batata: Wanderley citava Homero - tio avô do seu pai - um cabra viciado em ninfas e principescas glórias, que aprendera a ser macho nas galeras com Ben-Hur e que defendera em outras circunstâncias os delicados miosótis de Nabucodunosor quando as hostes de Roma, com seus meganhas civilizatórios, os atacaram em nome da vida-merda ocidental.
-Onde um jardim era merda” ele dizia, pondo-se na ponta dos pés e ajeitando agoniado a frouxidão da calça.

Meu amigo finou-se morador de um quartinho mal cheiroso no Beco de Miné, tentando nos convencer da sua glória familiar.
Ia do parentesco com a Princesa Theodora às cavalgadas do Rei Arthur pelas praias de Avalon.
Com o olho triste, declamava empertigado a saga do seu tio Menelau, dono de um jazigo perpétuo nos Campos Elíseos, para onde deveria a municipalidade enviar os seus restos mortais.

Foi enterrado numa cova de chão no cemitério de Simão Dias, com o seu nome grafado na cruz sem o honorífico ipisilone, único indicativo de nobreza do pobre Walderley.

Amaral Cavalcante.

Postagem originária do Facebook/GrupoMTéSERGIPE, de 26 de março de 2015.

terça-feira, 24 de março de 2015

Memória de Post do MTéSERGIPE, de 21/03/2015

Amaral Cavalcante

Hernane, o performático

O ator Hernane Freire era tudo o que queria ser.

Hunfrey Bogart de capote e chapéu panamá na porta do Cine Brasil, em Simão Dias; Elvis Presley requebrando a novidade do Rock in Rooll no coreto da praça - o precário pimpão desabando na testa; era também um furibundo Fausto dos infernos danando-se nos becos, o esmoler de Gogol, a Cantora Careca de Yonesco, o príncipe da Dinamarca enfiando os dedos na caveira do papai.

Hernane era um pachá declamando o Rubaiyat, era Alice no país das maravilhas – o sapatinho de cetim atolado na sarjeta, a profusão dos babados espargindo arte nas calçadas da cidade.

Hernane foi o primeiro ator performático que eu conheci, ainda nos anos 1950, vivendo a louca ilusão da glória que inventara para si, depois de atuar como figurante numa ocasional filmagem na Bahia. Consta que ao voltar para Simão Dias a cidade não entendeu a extensão do seu grande feito artístico e isto o levou ao desvario.

Aos sábados ele armava uma Broadway na porta do seu cafofo, situado num beco de pedras lavadas a caminho da feira. Escancarava o janelão ao distinto público - geralmente meninos de carrego empurrando carinhos de rolimãs em busca de trocados - e impunha ao crestado olhar dos circunstantes, a maravilha dos seus brilhos rebordados, a fantástica ilusão do seu guarda roupa Hollywoodiano. Num dia era Poseidon, o colosso de Rhodes ricamente vestido e noutro, era Quasimodo aos farrapos, saltando divertido entre gárgulas.

Hernane era o que queria ser!

Adotara o pseudônimo de Terry Dymm, seu nome artístico venerado na distante Hollywood, jurava ele. Aguardava um telegrama a qualquer momento, chamando-o ao set. Tinha deixado em Bel Air, na Califórnia, a cinematográfica mansão que nos mostrava, em foto, numa velha Revista Variety caindo aos pedaços. Ficara em Simão Dias por condescendência à família, aguardando o chamado do seu agente, um feitor de talentos nos estúdios Paramount, que acertaria, à custa de propinas e jantares, o seu definitivo estrelato num filme produzido em CinemaScope, onde ele haveria de demonstrar a Simão Dias e ao mundo o seu irrefutável talento.

Enquanto o telegrama não vinha, gozando férias que durariam toda a minha infância, ele colhia parcos aplausos nos becos de Simão Dias e só tinha por si um fã esperançoso e devotado, que era eu.

Enfiando a cabeça pela janela, eu via extasiado o fantasioso mundo de Hernane. Estava tudo lá em calhamaços de papel almaço, tim-tim por tim-tim, escritos à mão: roteiros inacabados, skets, cenografias em croquis a crayon e lápis cera, figurinos rebuscados, cópia de contratos legais parecendo autênticos, consignações e arrazoados, tudo doidamente real e tão convincente que bastaram para conquistar minha devoção.

Hernane Freire foi o mais fulgurante astro da minha meninice.

Amaral Cavalcante – abril/2010.


Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 21 de março de 2015.

quinta-feira, 12 de março de 2015

No Scoobydoo

Paulo Parron do bar e lanchonete Scooby Doo.
Foto reproduzida do blog magnopapagaio.blogspot.com.br


(Memórias de bar, com adendo de Marcelo Déda) #‎DedaPresente

No Scoobydoo

O bar de Paulo Parron, o Scoobydoo, era um exíguo balcão entre quatro paredes, banhado por uma caudalosa sarjeta ao rés da calçada, na esquina de Arauá com a Senador Rollemberg. Ele foi, ao final dos anos setenta, uma espécie de casamata da cidadania. Muitos de nós, anda meio zonzos graças ao eflúvios da revolução hippie, pouco nos importávamos com o engajamento partidário. Éramos guerreiros cochilando sobre o botim da última batalha, curtindo a vida numa naice: um cantinho e um violão, uma casa no campo, um tapa na coisa e a pelada aos domingos.

Mas as veias da cidade tratavam de intumescer. Algo havia que nos despertar! A meninada indócil começava espalhar novas palavras de ordem nas mesas malcuidadas do Scubydoo. A tomada de consciência político-partidária dessa nova geração “engajada” custou, à maluquice da minha, certa desilusão: bateu-nos a preguiçosa letargia de quem encarou o barato como militância, nos anos sessenta.
E porque não? Éramos a geração lisérgica, veteranos de grandes embates por posições milimétricas: uma camisa florida, o cabelão desgrenhado, a paz carburada num fininho decente, o amor livre como militância e, principalmente, o direito de encarar a história dos novos tempos com tesão visionária.

O Scuby era um lugar baratinho no centro de Aracaju para onde convergia a resistência intelectual da cidade, a inquietação da moçada “cabeça”. O Scooby atraia a rebeldia gregária da juventude com sandubas irresistíveis, muita zoada e um clima esfumaçado onde se misturavam o cheiro gorduroso do hambúrguer e a fragrância viciosa do Patchouli.

Arrastando alpercatas de couro cru - as desconfortáveis galinh’ovos - estávamos religiosamente lá. De cascão no pé, mas floridos e felizes e empanturrados de literatura. Jean Paul Sartre - o olho vesgo do existencialismo - nos justificava. Thiago de Melo, João Cabral, Ferreira Gulart, Torquato, Leminski, eram os poetas da vez. Os beats Kerroach, Gisnberg, Burroughs e ainda um certo Maiakosvki andavam por lá. Íamos de Bertrand Russell ao gemido underground de Jean Genet, meu ídolo de então: um poeta homossexual egresso dos esgotos parisienses a quem Sartre e a Academia Francesa homenagearam com um jantar chique e tiveram, pelo bardo e seus amantes, a prataria roubada.

Víamos Gauber Rocha suando para inventar um cinema nosso, Jean Luc Godart em closes enfadonhos discursando ideologias, os engraçados/desesperados Fellini, os complicados filmes de Buñuel, os parangolés de Oiticica, as esculturas de Lígia Clark, a desesperada luz vangouguiana de Ignácio Ventura, aqui mesmo na Rua de Laranjeiras, explodindo em esculhambação e arte.

O Scoobydoo ficava numa esquina complicada! Até a aventura acrobática de transar num Fusca, ou mesmo no supra-sumo conforto do Simca Chambord estacionado no escurinho da rua era contida pela austeridade respeitável do visinho em frente, a veneranda família Oliva, católica praticante e ainda mais, engajada nas benfazejas teorias da igreja progressista.
João Oliva, o respeitável patriarca, de vez em quando assomava à varanda perscrutando o ambiente em frente, a ver se os seus rebentos, alguns deles já engajados na secular permissividade do bar, mantinham-se comportados como requeria a moral cristã.
Era de se respeitar... mas só até determinada hora. Meia noite e tanto o bar fremia em rugidos esquisitos, alguém gritava aos berros “Faz Escuro mais eu Canto” enquanto, nos estofados dos carros, compartilhávamos o amor periclitante das conquistas casuais.
Era assim, e era bom demais.

Gosto de lembrar ali, no Scoobydoo, o enclave onde se encontraram os malandros do Parque Teófilo Dantas, os desvalidos dos cabarés e os mofinos, os revolucionários, tudo... e mais o front político dos heróicos PCB’s, o movimento estudantil, tudo num caldeirão fumegante (e bote fumaça nisso!) onde fremia uma geração capaz de alimentar o futuro.
Era o bar das escolhas, das contradições políticas e da permissividade. Cada quem com suas possibilidades ideológicas, cada um comprometido com o sonho de mudança.

Tive saudades do Sccuby outro dia, bebendo com antigos companheiros na assepsia do Bar Ferreiro, no Shopping, onde reinauguramos a fluência dos papos cooptando referencias literárias e (in) coerências políticas, identidades de vida, papos imorredouros. Sempre, com a saudade de quem reencontra a memória e descobre, nos eflúvios de dez chopes bem tirados, que nada foi em vão.

Ainda bebemos bem.

Amaral Cavalcante.

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Foto reproduzida do Facebook/Amaral Cavalcante.

Amaral,

Talvez o mais belo dos discursos messiânicos registrados nos evangelhos seja o das bem-aventuranças. Desde menino, coroinha na Igreja Matriz de Santana, na nossa Simão Dias, o Sermão da Montanha ecoa nos meus ouvidos e clareia minha alma - síntese da ética cristã autêntica, dita pelos lábios de um homem jovem de 33 anos disposto a opor a paz e o amor às armas do império e ao conservadorismo do templo. Se me coubesse incluir um item naquelas bem aventuranças eu escreveria: Bem aventurados os que são tolerantes, pois, para estes, a amizade abandonará o conforto do vernáculo e habitará os alpendres da vida!

O nosso reencontro foi plural. Plural pelas experiências distintas, pelos gostos conflitantes, pelos times rivais, pela raivas guardadas, pelas alegrias vividas, pelas divergências guerreadas e por tanta coisa mais...Mas, não há dúvida que também foi singular: redescobrimos a nossa estrada comum, revisitamos as esquinas antigas onde sonhávamos juntos e nos ensinávamos mutuamente - diferentes gerações compartilhando a vida com uma urgência desatinada e uma generosidade que não conhecia limites.

Seguimos a receita do velho Horácio (o poeta latino, não o bom e velho artilheiro do Itabaiana), nos aconselhando que quanto menos certeza tivéssemos sobre o dia de amanhã, mas firme fosse a nossa decisão de viver integralmente o dia de hoje. - "Carpe diem", dizia ele em sua famosa ode.

Protegidos pelo porto das recordações comuns, chorando nossos mortos, mas rindo da vida que eles ajudaram a fazer mais bela, decidimos abrir as páginas da velha "Folha da Praia" como velas e singrar um oceano de conversa boa, provocações marotas, ousadias filosóficas, discussões sobre estética, opiniões sobre a arte, discordâncias da política. Sem tempestades, até porque o nosso Netuno de Itabaiana tinha guardado o tridente, que brandido sobre a terra, desata terremotos e libera a violência dos mares (naquela noite ele mostrou o que a sua sovinice emocional tantas vezes nos priva: o seu capital de simpatia. Ainda que , no final, para não perder o costume... mas, isso já é outra história.)

Com as luzes do Ferreiro radicalizando o brilho de algumas cabeleiras brancas, ignoramos a sofisticação do ambiente, o bom gosto da decoração e nos transportamos para o Scubydoo, do velho Paulo Parrom. Ali, felizes e impunes, por pelo menos duas horas, celebramos a vida como arte do encontro, embora, como dizia o poetinha, "haja tantos desencontros pela vida". Além de tudo, como você registra no seu belo texto que me provocou essa resposta, bebemos bem!

Um grande abraço do amigo, admirador e conterrâneo,

Marcelo Déda.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 11 de março de 2015.

sexta-feira, 6 de março de 2015

As compoteiras


(Senta que lá vem crônica)

As compoteiras

Decido espanar o pó da memória nos armários da cozinha.
Rever o sorriso apatetado do biscuit,
polir a esbelta compoteira até que surja,
translúcida,
a lembrança dos doces guardados.

Cheio de trecos inúteis, o armário da cozinha era o tesouro da família. Uma peça delicada com pés de pantera e detalhes floridos, toda envidraçada. Nas portas, uma lâmina de cristal levemente bordada e ao fundo um espelho já carcomido, onde a umidade desenhava impinges.
Lá, a salvo da danação das crianças, estava em louça e quinquilharias a genealogia matriarcal da casa: uma xícara de Macau (sem asa), cumbucas de louça inglesa com algumas rachaduras, bonequinhos de alabastro namorando no jardim, um incompreensível jarro de galalite, saleiros de cristal e prata, talheres de fino lavor e belas, maravilhosas compoteiras.

A majestade delas se erguia altaneira em meio à nostalgia e a decadência da prateleira.
Sobressaiam-se, como incorruptíveis damas de honra do passado, empertigadas cortesãs de um reino carcomido.
Eram as nobres guardiãs dos doces caseiros,
eram, no final das contas,
a elegância que nos sobrava incólume.

Se houver glória em minhas “Cruzadas” infantis, que seja a de buscar naquelas compoteiras o Santo Graal das delícias.
A chave do armário, guardada numa perfumada caixa de pó compacto, fora a primeira honraria conquistada. Ficava na primeira gaveta da cômoda, no quarto matriarcal, entre antigos (e secos) frascos de perfume, num porta-jóias de bronze, tão patinado quanto fedorento.

Com a chave em mãos, aos portões da cidadela!

Honrado cavalheiro em nome do Deus das travessuras e grão-senhor do butim, eu pilhava guloso - e como!
Rodelas púrpuras de banana em calda, groselhas carmins, doces torrões de leite, bolotas de amendoim, jaca dura boiando em calda e, Deus meu, o supremo prazer do araçá batido.

Decido olhar em volta.

É uma cozinha enorme no casarão da Praça “Barão de Santa Rosa”, em Simão Dias. No centro, majestoso, um velho fogão a lenha de ferro inglês com seis bocas, encimado por uma chaminé simãodiense, um arremedo de lareira que não souberam fazer, onde se penduravam as tripas e o toucinho para defumar.
Mas fora ele um nobre e aristocrático fogão, até perder o quarto pé numa faxina desastrada. Manco, sobre plebeus tijolos, ele soube cumprir com dignidade estóica a sua danação republicana.
Don Fogão em sertanejos cuidados: da carne frita aos lombos, dos sarapatéis de carneiro ao miolo de boi e no domingo, sempre, aos camponeses cuidados com o frango de quintal dourando na panela.

Decido acendê-lo, num sábado.

Graveto e querosene, pavio velho, casca de laranja seca e abano. Chegam da feira as partes de alcatra, as mantas de porco, as quartas de carneiro. Mamãe e auxiliares cortam que as cortam em lombos, bifes, carne frita, torresmo. Cuidam de temperá-los que o vinhad’alho era a conserva de tudo, pois não havia – e nem nos faltava – geladeira lá em casa.

Era em torno do velho fogão que se cozinhava aquele amor de família e é a memória dele, movido a achas de lenha, que ainda me cozinha as delicias da alma.

Decido eternizá-lo.

Amaral Cavalcante/maio - 2007

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 2 de março de 2015.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Eita perruche!

Foto reproduzida do Facebook/MTéSERGIPE/Clóvis Franco.

Eita perruche!
Por Amaral Cavalcante.


(Para D. Caçula Valadares)

Bolinhas de um verde encabulado que estalam no céu da boca os trincos do tatu peba
coisa de sertão brabo
alpercata rangendo o couro cru na caatinga.

-Gosto de quê?
- De nada não, não tem parecença.

Não tem cereja que lhe tome a formosura
nem outro doce assim
tão carinhoso que afague com maciez e ternura
boca
paladar
e coração sertanejo.

-Ela nasce como os gravatás no mistério das pedras, ou será como o umbu, mais pertinho do rio?

-Isto eu não lembro. Sei que só dá na trovoada.

Teimosa, só brota quando a chuva é festa na mata
e na aguada o sapinho de rabo anuncia
danado de contente
que lá vem fartura de Deus molhando a plantação.

Enquanto cataplum ratratá o céu relampeia
Ploc, Ploc, o olho verde perruche espia.

Seu Tiburcio grandão como uma rês de cria amanhece no telheiro
ajeita o cinturão no cós da calça
cospe o primeiro catarro no caco da galinha
e palita contente:

- Ê mundão d’água! Este ano dá!
E volta a escarafunchar um restinho de rapé que é pra mostrar
espirrando
que também verte água pelas ventas.

– Ê ba! Thibum!

Lá dentro, Nanã areia uma bacia grande pra colher maracujá perruche.

-O danadinho é sestroso, só sai do galho se for numa bacia d’água e é assim mesmo que vai pra feira, vendido por lata.

- E o doce, como é que faz?

-Despela uma por uma e cozinha em caldo grosso de açúcar,
com cravo e uma ou duas pitadas de canela.

Se comer quente disunera a barriga.

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De Marcelo Déda:

Maravilha das maravilhas. Doce e agreste como o perruche, esse seu texto, Amaral, meu velho! Não lhe direi mais: risco de parecer adulação o que é deleite, prazer estético, alumbramento de memória, enganando os neurônios, fazendo das letrinhas digitadas em trançados remates de emoção e saudade, o fruto falado (o significado incorporando quânticamente o significante) no gosto verde do doce de peluche que adoçou minha infância na casa de Teté Tefinha - cara de índia velhinha de fundos sulcos arados pelo tempo na placidez da face (o sol de dia de trovoada mandando lascas de luz do fundo dos olhos antigos).
Morava na rua do Coité na minha cidade de Simão Dias.

Marcelo Déda.

Postagem originária da página do Facebook/MTéSERGIPE, de 20 de fevereiro de 2014.